sábado, 15 de março de 2008

I have a Special Gift for Impossible Relationships

O título faz parte do filme "Pretty Woman" e a deixa é de Richard Gere.
A questão dos dons é sensível. Em míuda, nunca recebi grandes elogios. Era uma aluna exemplar, mas a minha família achava que, dada a minha inteligência, e o facto de nada nunca me ter faltado nada em casa, não fazia mais do que a minha obrigação. Lembro-me de estar histérica de contentamento por ter entrado para a Faculdade e o meu avô me dizer "Que palermice é essa? Bonito seria se não tivesses entrado... começa a pensar é em sair de lá como uma vencedora.". E saí.
Nunca fui especialmente bonita ou atraente, um bocado invisível para o sexo oposto ou, pelo menos, para os exemplares que me interessavam. Também aí, os elogios eram muito raros, e pouco credíveis.
Pensei, muito tempo, que tinha um dom especial para ensinar, para escrever, para aprender coisas novas com facilidade. Mas encontrei na vida professores muito melhores que eu, escritores muito mais eficazes, pessoas muito mais cultas. O Curso de Mestrado ensinou-me que a minha inteligência não sai dos parâmetros -elevados, até pode ser- da normalidade, e a minha cultura está muito abaixo das grandes cabeças da classe intelectual do nosso país.
Sou apartidária, não ligo grande coisa a clubes de futebol, embora sempre tenha sido do Sporting, porque o meu avô controlava tudo em mim, e era do Benfica. Foi um fraco grito de revolta que ninguém, nem mesmo eu, nunca levou muito a sério, mas colou até hoje. No fundo, gosto pouco de discutir seja o que for, política, desporto, religião, todas as grandes convicções me soam sempre a gente fundamentalista. Não me agradam dogmas e parece-me absurdo que todas as decisões de um partido sejam aceites e cumpridas, porque é o nosso partido, todas as restrições religiosas sejam obedecidas, porque é a nossa religião, e todas as decisões do árbitro sejam contestadas, por serem contra o nosso clube. Desagradam-me os rebanhos e não consigo abraçar cegamente uma causa. Também para isso não sou dotada, não tenho um dom especial.
Talvez o meu dom especial seja o da personagem interpretada por Gere. Se há coisa que faço com mestria é escolher sempre a pessoa errada, e os resultados estão à vista. Com o tempo já nem dói, entrei na tal profunda auto-ironia pós-modernista; no outro dia, à conversa com uma pessoa que me tentava abrir os olhos, usei para me definir o adjectivo "desprendida". Se o meu eu de quinze anos estivesse então na mesma sala, ter-me-ia esbofeteado. O meu eu de quinze anos era um poço de amor. Prendia-se às pessoas e amava-as como se não houvesse amanhã. Depois começou a perdê-las, umas atrás dasoutras, e quinze anos depois, mais de quinze, há uns escassos meses atrás, desistiu de vez. E perdeu, talvez, o seu último dom especial.
O único consolo que resta é a resposta de Julia Roberts, já com Gere fora de cena, "I think you have a lot of special gifts".

1 comentário:

Unknown disse...

A criança de 15 anos que um dia habitou em mim ja me esbofeteou vezes sem conta nestes ultimos anos mas sinto alguma saudade dela. Não de acreditar em Homens encantados, apenas o facto de dizermos frontalmente nao gosto ou gosto de ti.torna tudo bem mais simples.Estou farta de falsos cultos, falsas promessas e falsos adeptos de amor universal.Sim... tambem tenho alguns gifts, todos apoiados em prateleiras do mais fino cristal que a qualquer momento ameaça partir.Desapego? é o sonho de qualquer ser humano, mas... e depois?