Nada acontece por Acaso ou, pelo contrário, será o Acaso aquilo a que chamamos Destino?
Entraste na minha vida de mansinho, quase em segredo, quase a pedir licença. Nessa altura, o Mundo tinha-me caído em cima, uma queda - tão metafórica quanto literal, escadas abaixo, que arrastou muito da minha vida com ela. Lembro-me que usava um perfume que te fazia alergia, e um blusão de cow-girl com franjas de que te rias. Chamavas-me rebelde; seria?
Eras uma outsider, vivias em constante estado nómada de uns grupos para outros... já saberias, tão jovem?, que os grupos são agregados perigosos fomentadores de fundamentalismos e opressores do livre-arbítrio? Manadas, rebanhos, nunca foste disso, mesmo quando eu encontrava neles alguma segurança para a minha identidade, e me regia pelas suas leis absurdas.
Sempre estiveste lá, muitas vezes tipo espectro, silencioso e vigilante, consubstancializado em sms quando parti da nossa terra, para outra mais agreste. Outras, verdadeira presença, a acalmar a minha tristeza pelo fim da bela história que vivi num lugar distante, foste panaceia de culpas ditadas por convenções que enfim... onde estão elas agora?
Depois, houve a decepção, o semi-afastamento que causei, quando achei que tudo estava perdido, e mais valia "asno que me carregue que cavalo que me derrube"... os teus olhos demonstraram aí o que sempre foste sensível o suficiente para não dizer. Vinda a epifania, deste das ideias mais fantásticas que ainda hoje recordo às gargalhadas, "e que tal partir uns copinhos de cristal na banheira, tens a chave, não tens?"
Depois, fomos crescendo. Tu com as tuas responsabilidades do Mundo Adulto, eu, a fazer asneira sobre asneira até à actualidade. O acaso, a existir, terá gizado o ponto de viragem que se deu sob a forma de três "virar de costas amigas". Os mesmos valores que sempre te pautaram, obrigaram-te a procurar na distância as explicações que não obtinhas perto. E acho que foi aí, que a palavra que aprendi a usar muito de vez em quando, e muito à cautela, ganhou substância, solidificou.
Neste momento acompanhas-me, qual anjo protector, mas sem as parolices que algumas imagens de anjos apregoam, descansa.
Contigo, sinto que posso dizer tudo, posso abrir a alma, mesmo na sua parte mais sórdida e lunar. Pareces-me uma daquelas pessoas raras a quem nunca falta uma opinião, sem que essa se transforme num julgamento. Não fazes juízos de valor, não condenas, não queimas livros, não caças bruxas, por isso, vejo agora, tens essa placidez de quem não se culpa, por nunca culpar os outros. És incrivelmente inteligente, olhas o Mundo através duma sensibilidade inata e de uma cultura adquirida, sempre em work-in-progress. Pasmo com o que já leste, com o que reténs do que leste, com a forma como transformas a literatura em conselhos práticos, numa forma de vida.
És um ser singular. Consegues ter um humor hilariante de tão mordaz e acutilante, sem que possa nunca defini-lo de maldoso. A melhor lição que me ensinaste, até hoje, foi a não me envergonhar de quem sou, embora eu saiba que vão vir outras, igualmente preciosas. Retribuo-te com a minha presença firme, ao teu lado. Sei que durante muito tempo te magoou seres sempre tu a procurar os outros, nunca a ser procurada; isso terminou. A tua tristeza, leve, como tu, surgida da sensação de ninguém precisar da tua presença, ninguém se lembrar de ti, pode, enfim, passar. Porque eu lembro, eu preciso, e a inércia que há em mim pode fazer-me falhar, vai, certamente, fazer-me falhar, mas não a minha presença constante, essa veio para ficar, enquanto a quiseres, e se o rumo que levamos não mudar, sei lá, desaponto tanta gente...
Esta é uma fase algo sombria na minha vida. Mas não finjo mais ser solar, não preciso de fingir que estou muito divertida ou muito feliz por me envergonhar de não o estar, isso ensinaste-me tu.
Ensinaste-me que há razões, nesta vida, para escondermos o que sentimos e o que passamos de gente que nos quer mal; mas também que há momentos em que essa gente que nos quer mal deixa de nos incomodar. Aí somos genuínos, admitimos que sofremos, que nos tocamos, que nos sentimos, que nos magoamos, irritamos, enlutamos e vivemos as nossas decepções e as nossas mágoas, para um dia, sem pressas, sem ser já num próximo fim-de-semana numa qualquer farra arranjada à pressão, um dia, finalmente, vermos a verdadeira luz ao fundo do túnel.
Enquanto ela não aparece, é em ti que eu penso, com uma vela na mão, a alumiar-me o caminho.
Jamais estarei só. Jamais te sentirás inútil e abandonada por mim outra vez. Faço questão de cuidar bem do carinho que ofereces a tanta gente e tanta gente ignora. A minha quota parte está bem guardada no meu bolso do peito.
Sempre aqui, e sempre grata,
Xana. (Gosto muito, muito da Jade, mas quem te fala sou eu)
2 comentários:
Quando não havia muito para gastar investi no saber, em tardes de cinema, em livros envelhecidos dados por quem não tinha mais espaço, em revistas que todos os turistas tinham lido. Uma vez por outra, uma ida ao ballet em Lisboa - num prolongamento de breves semanais contactos com a musica e a dança. Como não era muito popular, aprendi depressa a desenvolver e aprofundar o interior. Ainda perservo um apetite voraz pelo conhecimento e pelo saber. Quero ler, ver, mexer, provar, ir, sentir... Mas sem arrogâncias de quem apenas bateu as asas sem saltar. Prefiro o silêncio. Enão me importo quando dizem que sou assim um bicho estranho, como dizem por aqui.
(Afinal reli Orlando nas breves idas à casa de banho, enquanto o meu pequeno barulhento rebento dormia entre uma choradeira e outra.)
Aos amigos que preservo há mais tempo deixo o beneficio da dúvida quando escolhem os caminhos que não considero certos. Mas quem sou eu para me pôr à sua frente ou querer abrir-lhes a cabeça, tal como se abre um computador e se insere um cartão de memória? Têm sempre espaço para um regresso em que contam onde, porquê e como, ou não contam e voltam. Alguns já espero há mais de quinze anos, outros vêm e voltam. Também há os que estragaram tudo. E a esses... Bem, se calhar não consigo ser tão tolerante.
Os meus caminhos podem não ter deixado todos contentes, mas são meus. E disso também não prescindo.
Como podemos criticar e julgar quando passamos o tempo a dizer que não ligamos ao que os outros dizem! E que preferiamos que não se metessem na nossa vida? É um desafio. Mas já sei, que assim que levanto o dedo para fazer uma crítica, lá vem qq coisa parecida para me acontecer e dizer: Então? E agora? Vá, diz lá que és melhor que eles! Não sou! Erro a cada passo, como toda a gente. E as pedras destinadas à Madalena, já as deitei fora há muito. Gosto de pensar que se tivesse religião, seria budista, mas quando penso que comem tudo o que mexe e se move de dorso virado para o céu... não é bem o que o médico receitou.
Cá estarei! (Peço desculpa pela arrogância de pensar que era para mim;))
De facto, continuas a surpreender-me. É mesmo isso. És mesmo isso.
Enviar um comentário