Senhor Pássaro de Corda, quem te abandonou no fundo do poço? De que me falas, May, sabes bem que foste tu. Mas eu não queria, era outra a minha intenção, não abandonar-te, mas dar-te espaço para que te encontrasses, que vês? Escuridão. A mesma que eu vejo, quando olho as perucas, a mesma que eu sinto, quando olho ao espelho e já não sou May, mas Creta depois da violação; que sentes? Um braço partido e toda a dor do Mundo. Também eu era assim, antes. Será preferível a não sentir absolutamente nada? Sou May, novamente, e de bikini castanho abro uma cerveja e bebo à tua. Que a escuridão se transforme numa paleta de vermelhos e negros, para que pintes um capuchinho escarlate escondido de um enorme lobo que ronda. Onde estás, May? Estou fraco e tenho sede. Bebe Manga, vê quadrados, ganha forças na Cidade de Vidro, procura-me no espaço que fica no segundo exacto em que adormeces, no hiato entre o sonho e a realidade. Só tu para me fazeres sorrir, May. A mim, esse papel está entregue à família-pato, horas a olhá-los e a descobrir novas nuances nas suas penas, nas minhas penas, sorri, Senhor Pássaro de Corda, sorri enquanto a vida passa e não fazes nada dela, obcecado como estás em fazer tudo ao mesmo tempo. Sorri enquanto pedes para voltar a nascer e desta vez de geração espontânea, sem amarras, sem laços, sem pais nem filhos, nem resposabilidades, nem compromissos, sem sítios de onde vir, nem lugares para onde ir. Sozinho em lugar confinado, o homem descobre o mais profundo do seu ser. E as paredes do poço são agora o corpo do qual a alma és tu. Uma alma de artista, pincel em punho, caneta em riste, chuva de estrelas de caricaturas e ilustrações. Queres um chocolate? Talvez um batido de atum? E volta o turbilhão de culpas, em que o riso escarninho apaga a dor que é não se sentir nada. A neve negra bate na janela e ela está em posição de feto, com uma única lágrima a riscar-lhe o rosto, finalmente em paz. A banda sonora é escandinava. E nas paredes do poço, pulsa uma alma, demasiado cansada para emitir um som. E May confia no cansaço e na escuridão. Da crisálida se fez borboleta. Num filme qualquer, três histórias se entrelaçam. Fora da tela uma amizade nasce, surreal, em espaço incerto, em lugar intemporal. Como um cacto, regado muito de vez em quando, subsiste. Obrigada, Senhor Pássaro de Corda, por seres poço, tela, chocolate, história, música, filme.
2 comentários:
Obrigado, May, isto tem mesmo muito de nós.E muito só de mim, também. Um beijo
Pássaro de Corda
Ficou bonito, não ficou? Nem tudo o que é sombrio é forçosamente deprimente: lembra-te disso no teu poço, lembra-me disso quando me encontrares no meu.
May Kasahara
Enviar um comentário