Tenho para mim que a inveja é sempre, mas sempre, produto da ignorância.
O tuga inveja, sobretudo, o sucesso e os bens materiais do próximo. É um povo que eu considero muito invejoso, embora não tenha termo de comparação porque não conheço a fundo outro povo de outra nacionalidade. Estou muito próxima dos ingleses e dos americanos, dos japoneses e dos brasileiros, mas toda a gente sabe que o que se lê nos livros, se vê nos filmes e se filtra em música, noticiários e arte não dá a dimensão correta das coisas. É preciso conviver, conhecer, trabalhar com as pessoas para se deliberar do seu grau de humanidade, no bom e no mau.
A inveja advém da ignorância. Pode ser inocente e incólume. Eu sou uma invejosa ingénua e não faço mal a uma mosca. Invejo a vida amorosa de algumas pessoas que conheço, e todas são minhas grandes amigas e exemplos a seguir. Não é por invejá-las que alguma vez tentaria estragar a sua felicidade, envenenando as suas relações: invejo-as, gostaria de ter um pouco da sua felicidade pacífica, mas fico feliz por elas.
Invejo a cultura de uns, a força de vontade de outros, a energia de muitos, o bom humor que conheço em pessoas que parecem nunca estar zangadas ou tristes. Tudo isto eu gostaria de ter em doses industriais, e não tenho. Não é por isso, contudo, que me esforço por acabar ou prejudicar o que de bom vejo nos outros, por achar injusto que não o tenha eu, também, na mesma proporção. Isso já vai para além da inveja. Isso, digo eu, é maldade, e eu detesto gente má, mesquinha. E ignorante, sublinhe-se.
Quando me ponho a pensar, é com um suspiro e sem qualquer modéstia que concluo que sou, e sempre fui, uma pessoa muito invejada. Atrás do suspiro vem, sempre, uma gargalhada ou uma profunda raiva. Gentinha estúpida e ignorante. Invejam-me a vida independente que tenho, a falta de responsabilidades familiares, o dinheiro que gasto no que me apetece, o facto de me relacionar bem com o sexo masculino. Tudo ignorância e estupidez. Não vou aqui dissertar na forma como, cada uma destas verdades, é uma cruz que tenho que carregar. Está bem, são verdades, invejem-me por isso, no worries.
Invejam-me também a magreza, o que é ridículo e muito mais grave, porque muita dessa gente que suspira por um corpo igual ao meu sabe perfeitamente que luto, diariamente e sem sucesso, contra uma doença autoimune que me faz ter peso de bailarina, sim, mas também me faz conviver com dores crónicas, feridas que não saram, intervenções cirúrgicas anuais e risco eminente de colapsos em órgãos como o coração e os pulmões. Sejam bem vindos à minha agradável e invejável vida, se quiserem trocar, aceito um corpinho com barriguinha e celulite, anytime.
E depois invejam-me as capacidades e a inteligência: muito obrigada, fico muitíssimo envaidecida. O pior é que esta gente, de todos os que me invejam, são os mais perigosos. Porque estes, sim, fazem muitas vezes parte daquele grupo que não se limita a invejar, age para prejudicar. Desde miúda que lido com esta gentalha de perto: os que garantem que as minhas classificações escolares são fruto de graxa; os que comentam que eu tenho a mania que sou boa, uma arrogante; os que adoram atirar-me à cara com os meus falhanços, esqucendo que todos os temos; os que dizem e repetem que eu "tenho a sorte" de os alunos irem com a minha cara e gostarem de mim. Isso é ignorância e é maldade. É ignorância, porque só gente estúpida acha, por exemplo, que o facto de eu me dar bem com os alunos "é sorte". Será sorte a mais, então, já que não há, em doze (serão mais?) anos de ensino, exemplo de um aluno com quem me tenha incompatibilizado. (O que não quer dizer que não venha a acontecer: será então "azar" ou dirão logo que a culpa é minha?) Temos pena, mas não é sorte: eu não tenho a sorte de eles tenderem a dar-se bem comigo, tenho qualidades humanas, muito específicas e muito raras, que abrem caminho a isso. Eu tenho sentido de humor, e sou destemida o suficiente para o usar nas minhas aulas. Sou generosa e preocupada, e tenho abertura suficiente para oferecer tudo de mim aos meus alunos. Tenho duas orelhas que não servem para enfeitar, e estão sempre ao serviço de todos. E sofri horrores na adolescência, não me vou esquecer disso nunca, e ponho a minha experiência à disposição dos que agora estão a passar por ela. Tenho imensa ternura para dar, e eles são um objeto privilegiado de escoamento. Sou um exemplo profissional e alguém que acredita no poder da formação, dos livros e do intelecto para a construção de uma vida melhor, e estou sempre a incentivá-los a prosseguir estudos e a lutar pelos seus sonhos. Lamento, mas isso não é sorte. Se eu fosse uma pessoa de sorte, já tinha ganho o euromilhões.
Ignorância. Disso é feita a inveja. Quando eu digo, a alguém, que digo muitas vezes, porque sou uma pessoa transparente: invejo-te tanto por xpto, a maior parte das vezes a resposta é: se soubesses da missa a metade... as minhas invejas não são diferentes das dos outros, também assentam no que vejo e nem sempre o que vejo existe tal qual o interpreto. Mas, pelo menos, são invejas que jamais prejudicarão seja quem for. Porque sou invejosa, mas nunca fui mesquinha e, com esta idade, suponho que já seja tarde para me dar para isso.