sábado, 31 de julho de 2010

Demasiada Tolerância

Uma amiga minha, também muito amiga do salero, da noite, das saídas, dos cinemas e das exposições, daquelas pessoas tão activas que até fazem impressão com tanta energia, costumava meter-se comigo, quando eu dizia que vinha para Lisboa. Vais para lá fazer o quê, dizia, sarcástica, meter-te em casa e ver televisão por cabo? Para isso ficas cá e vens sair comigo! É um ponto de vista e, concordo, o ponto de vista socialmente aceite, nesta era de velocidade e de hiperinformação. O que está a dar é, como diria o querido António Feio, aproveitar. Como ele fez, espremer ao máximo do que a vida tem para dar.
O bem sucedido é, assim, o que trabalha muito, produz muito, se cultiva muito, sai muito, não pára. Diz o povo que parar é morrer.
Alguém que, como eu, se mete em casa e dorme muitas horas, se levanta da cama e vai para o sofá, do sofá para o frigorífico e do frigorífico para a cama, só pode estar deprimido. E a depressão, mais do que uma doença mental é uma fraqueza, uma vergonha. Pois.
Só que eu acho que quem está doido é este mundo metido num fastforward ridículo, toda a gente a querer provar que tem mais energia e faz mais e melhor com o seu tempo que o seu semelhante. Essa necessidade de constante auto-afirmação, esse orgulho em dizer "estive até às cinco da manhã a trabalhar, sou mesmo excelente".
Não há paciência, não tenho mais pachorra para esse tipo de competição idiota. Há uns dias, a aboborar em frente à SicMulher, vi uma entrevista com a Joana qualquer-coisa, aquela deputada que esteve envolvida numa escandaleira qualquer entre partidos. E tenho a dizer que lhe achei muita graça. A tipa é tesa. Dizia, a dada altura que o tuga é muito tolerante, e a sua maior qualidade é também o seu maior defeito, visto que é demasiado tolerante com más políticas, maus governos, más pessoas. Assino por baixo.
Somos demasiado tolerantes todos os dias, com injustiças cometidas ao nosso lado que não denunciamos, em prol da nossa vidinha, de não querermos arranjar chatices, do deixa andar.
Aqueles que são tão enérgicos para trabalhar, para ver todos os filmes que passam no cinema e ler todos os livros que estão na berra são, afinal, os mesmos que se calam quando têm que falar ou se aproveitam de lugares e pessoas em benefício próprio. São os que aceitam elogios imerecidos e cargos que não são seus por direito. Os mesmos que se acham o máximo mas não vão a jogo, com medo de falhar, e preferem arranjar esquemas de conforto a competir com os seus pares de forma leal.
A Joana tem razão. Enquanto isto for um país de demasiada tolerância, de interesses mesquinhos e cobardia medíocre, há demasiado espaço para um oportunismo de que depois não somos senhores para nos queixar.
Prefiro parar e sossegar, deprimida ou não, a entrar neste tornado de podridão desenfreada.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Gimme a break

Atão, pá, nunca mais escreveste, o teu blog tem teias de aranha (desculpa lá, Teia, refiro-me ao pó e à penumbra das casas fechadas e não ao brilhantismo do teu estaminé...), já lá nem vou, que se passa contigo, tens que actualizar a cena, escrevias tanto e tão bem...
Gimme a break.
Passei muitas horas, muitos dias, muitas semanas... de empreitada ao computador, a teclar palavras, a imaginar sinónimos, a refazer discursos, a preparar powerpoints e sumários, a copiar citações. Esgotei-me. Resolvi mergulhar, a seguir, nas palavras dos outros.
Ando por aí, nos vossos blogues. Ando por aí, de volta de alguns livros, muitos ao mesmo tempo, para não dar verdadeira confiança a nenhum, não me vá dar vontade de voltar a estudar este ou aquele autor. Ando por aí, a auto-hipnotizar-me na minha vila do Oeste Americano do Facebook, em que afugento ursos e dou cabo de cobras, o que na vida real me é bem mais difícil. Ando por aí, a sorrir convosco ou a abanar a cabeça. De vez em quando, reconheço, tenho ataques de arrogância, leio posts ou vejo fotos, ou dou com determinados comentários ou citações e penso "mais um que descambou em cretino, tão espertinho que parecia e é mais um possidónio...". Ando por aí, a ver filmes que tenho guardados há meses, para "quando tiver tempo". E agora tenho. Tenho tempo para estar na esplanada, para ir a casa dos amigos, para mimar os sobrinhos, para ler, ver televisão, ouvir música, fazer compras de supermercado, ir ao banco, ir ao ginásio, ir a Lisboa. Tenho tempo para isso tudo e ainda nem de férias estou realmente. Alguma coisa teria obrigatoriamente que falhar. É o blogue, é a escrita, a imaginação, a opinião, a piadinha.
Prometo voltar. Nem que seja com uma ou outra crítica enfadonha a um livro ou um filme. Recuso-me é a vir para aqui estragar dois anos de blogue sincero e transparente por obrigação, só porque sim, só porque enfim. Mais depressa encerro este e começo um novo.