Tenho lido, com atenção e interesse, alguns blogues de antigos colegas meus, gente que partilhou comigo um mundo muito próprio e protegido a que chamávamos "O Colégio" mas que era, para muitos, pouco menos que o mundo inteiro.
É engraçado vê-los escrever, agora. Falam sobre interesses, sobre a vida, sobre si próprios, sobre o Mundo. Há um, que pasmo de cada vez que leio, que fala sobre política, economia, música e desporto, com a mesma facilidade, o mesmo à-vontade, as mesmas opiniões sólidas e consolidadas, um espírito crítico inteligente, mordaz, até abrasivo, às vezes, e um sentido de humor pouco evidente, que desperta sorrisos irónicos em vez de bruta hilariedade. Pasmo porque não me lembro dele assim. Mesmo nada.
F., chamemos-lhe assim, nunca o tratei pelo nome próprio, não tinha qualquer tipo de familiaridade com ele para isso, nunca calhou, era, terá ele essa noção?, um dos meninos bonitos do colégio. O meu eu dos dez aos dezasseis anos nunca percebeu porquê, mas esse era um eu muito parvo e alienado, perdido de amores sempre pelo mesmo outro menino bonito que nunca lhe ligou nenhuma... karmas. O meu eu adolescente corava até à raiz dos cabelos sempre que era interpelado por um dos "populares" meninos das motas, das namoradas bonitas e das roupas de marca. Lembro-me de F. como uma excepção à regra desse meio. Cumprimentava-me com um sorriso, aberto; parecia ver-me, e era sempre simpático, sem arrogâncias e trejeitos no cabelo, sem aquelas pretensões idiotas que todos tinham. Lamento agora não ter tido algumas conversas com ele, ninguém fica tão interessante e culto de um dia para o outro, e já devia haver sementes de brilhantismo nessa altura.
F., no blogue, diz numa resposta a um comentário meu "Como esquecer a aluna exemplar?". Sorri. De facto, é uma maneira simpática de definir tudo aquilo que a maioria pensava a meu respeito: uma tontinha que passava a vida a estudar. Alguns achavam que tinha como passatempo engraxar professores; poucos viram para além disso.
Na altura, eu era muito mais que isso, e muito mais do que sou hoje. Era uma alminha decidida a vingar pelos únicos meios que tinha. Era um vagabundo na alta-roda. Talvez muitos dos meus amigos não se apercebessem, na altura, do enorme abismo social que nos separava. A minha mãe pagava-me as mensalidades com esforço, empenhada que a filha "não se perdesse" em drogas, faltas, bebedeiras e outros perigos inerentes ao ensino oficial. A coisa não seria bem assim, mas a verdade é que nunca no Académico cheguei sequer perto de tais coisas. O meu avô ia ajudando, tive oportunidade de comparecer às viagens de finalistas, de estar presente em tudo o que foi importante, mas não tinha dinheiro, por exemplo, para vestir roupa de marca. Nem um vídeo e um leitor de Cds, que vieram já muito mais tarde no meu percurso. Nem lá em casa se dava muita atenção à forma como eu andava, ou não, na moda em acessórios e gadgets. O dinheiro era uma preocupação constante, e eu estudava para que a minha mãe pudesse orgulhar-se de mim, e calar a boca a quem dizia que eu era uma coitadinha com o destino traçado pela falta de pai.
Em casa sempre me ensinaram a respeitar os mais velhos, e os elogios que os professores me davam eram os únicos que eu recebia. Por isso, esforçava-me para que fossem frequentes e merecidos, sem a menor intenção de engraxar e ganhar fosse o que fosse com isso.
Por isso, o Meu Académico inclui muitos professores amigos. Daqueles que me serviram de exemplo e modelo a seguir, quer nas práticas, quer na humanidade. Se calhar menos colegas amigos do que seria normal, porque de facto sempre fui uma outsider, de vivências e objectivos diferentes. E muitos momentos inesquecíveis. O Meu Académico não se reúne em almoços de bons velhos tempos, seria impossível. A minha estranheza em rever tudo aquilo seria insuportável. Verificar que todos estão "na mesma" seria uma ironia trágica. Mas descobrir, no mundo virtual da blogosfera, que há alguns que me são perfeitamente estranhos, que se lembram de mim apenas porque era boa aluna, mas que entretanto ganharam tanto em maturidade e em poder de expressão e intervenção, é um surpreendente momento mágico de esperança. Nem todos estão "na mesma". Ainda bem, F. Parabéns.
2 comentários:
"Aluna exemplar" devia estar entre aspas porque é uma expressão que roubei de um dos teus posts. Não tem nada de pejorativo. O "meu" meio nunca foi esse que descreves e se o conhecesses melhor encontrarias muitas parecenças com o teu. Excepto no número de cincos na pauta, mas para isso temos de trabalhar. Eu, infelizmente, comecei mais tarde.
Beijinhos.
Eu percebi, à primeira, que não era pejorativo.
Simplesmente tenho é noção que nesses anos fui reduzida a um rótulo. E, claro, o contrário também aconteceu, também rotulei muita gente, é da idade, é da insegurança, é do sentimento de unfit. Não tenho saudades nenhumas daqueles tempos, por essas e por outras, mas não te levei nada a mal "a aluna exemplar": era, fui. Não só, mas (indiscutivelmente) também.
Beijinhos
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