quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Caíu a ficha

Andava quase há um mês com uma sensação de estranheza. Qualquer coisa não batia certo e eu não conseguia perceber o quê. Era, isso eu sabia, um sentimento peculiar e indistinto e prendia-se com a escola, com o ambiente, uma espécie de comichão de fonte indefinida. Hoje caíu a ficha:
Somos poucos. Almoçamos juntos muitíssimas vezes. Saímos frequentemente depois do sol se pôr. Entramos de manhã cedo. Tratamo-nos pelos nomes próprios. A mim, toda a gente me trata pelo diminuitivo, até a Directora. Por tu, todos e sempre. Comunicamos por mail e sms. Falamos aos fins-de-semana. Sabemos moradas e telefones, nomes de maridos, mulheres, namorados, namoradas, filhos, filhas, netos, netas e animais de estimação de toda a gente. Vamos ao supermercado da vila em excursão, porque não há tempo de fazer compras onde residimos. Assaltamos os cacifos uns dos outros, que estão sempre abertos, em busca de pastilhas e chocolates, agrafadores e tubos de cola. Às vezes passamos o tempo a rir. Outras insultamo-nos de tudo. Há alturas em que já nem nos podemos ver. Outras, temos a sensação que dormimos todos juntos.
Caíu a ficha. O que eu estranho é que aquilo tem a dinâmica de uma grande família. Da grande família que eu nunca tive: pessoas que não são escolhidas por nós, mas que temos que gramar. Pessoas que mesmo que nada nos digam, conhecemos, e conhecemos melhor que muita gente com quem convivemos há anos. Pessoas com quem é impossível mantermos grandes ódios, porque vamos levar com elas durante muito, muito tempo, e isso pesa nas nossas atitudes e nas nossas predisposições inconscientes.
É diferente do que se passava no ano passado. No ano passado era possível darmo-nos apenas com meia-dúzia de escolhidos. Era possível fazermos amigos, ter confidentes, arranjar namorados, criar grupos. Aqui, não. Qualquer relação íntima dá ideia de incesto. O grupo é geral, uma cambada de primos e primas e tios e tias, e mães e pais e irmãos e irmãs. Uma amálgama de gente virada para o trabalho e para as boleias, para os horários dos filhos e dos ginásios, a reunir e a comer bolachas, a esvaziar pacotes de sumo e leite com chocolate à medida que se controla a própria agenda e a dos outros, e se diz, não está na hora de ires buscar o teu filho? ou, hoje vou eu buscar a tua filha e depois aproveitas e jantas lá em casa quando saíres da reunião, ou ainda, e no meu caso, a deixa da semana, o xpto do teu médico já te ligou ou temos que fazer uma excursão a Lisboa para lhe partir as trombas? Enquanto não liga, toma lá um chocolate, que és linda...
E isto, para mim, é do reino do incrível. Mas não deixa de ser um grande consolo. E de me dar alguma paz interior. Uma paz que nunca tive, descontextualizada e desenraizada como sempre estive ao longo de tantos anos nesta terra.
Agora, só tenho que ter cuidado e não ir para a escola de pijama e roupão, já que vou, muitas vezes, dar aulas de chávena de café ainda em punho.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

PQP...

... este calor de Verão de dia e frio de rachar à noite, mais as mangas curtas quase em Novembro. Se o tempo, que é o tempo, anda desgovernado e doentio, como é que eu, que sou só e simplesmente eu, hei-de andar melhor?
P*ta-que-pariu!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Metafísica de Domingo

Ele houve tempos em que o maior pesadelo do mundo era chegar a sexta-feira e encarar o fim-de-semana. Literalmente quarenta e oito horas a dar com a cabeça na parede, sem apetecer fazer nadinha, desde ir ao supermercado a limpar o pó à casa, passando pelas obrigações escolares e a dissertação de mestrado.
Ele houve tempos em que passava dois dias deitada, entre a cama e o sofá, tendo como amigos íntimos de cabeceira o comando da TV,e o trio maço de cigarros, isqueiro e cinzeiro.
Ele houve tempos em que passava muitas dessas horas de solidão a chorar, que é o que faz quem não tem força para fazer o que quer que seja, e acredita que, se a tivesse, não haveria sentido para tal.
Esses tempos, felizmente, são parte de um passado que, apesar de recente num percurso de quase trinta e quatro anos, parece estar a milhares de anos-luz de distância.
E, embora me sinta, finalmente, equilibrada racional e emocionalmente, e considere que faço parte agora da grande maioria de gente funcional, é sem dúvida outro grande busílis chegar a domingo à noite desertinha que chegue a próxima sexta-feira à tarde.
Haja normalidade. E alegria no trabalho, onde quer que essa gaja ande.

sábado, 24 de outubro de 2009

Alma presa por uma corda a um pé da mesa

Em dias como o de hoje, sinto-me uma autêntica prisioneira. Detesto sentir-me assim, num calabouço de obrigações, de tarefas por cumprir, de coisas para fazer, de deadlines a respeitar. Detesto. Sou, desde sempre, um espírito livre. Gosto de fazer o que bem me apetece. Tenho uma vida muito privilegiada, no que toca a opções, a decisões, a venetas. Tenho até, aquilo a que chamo muitas vezes, a maldição da independência quase total.
Às vezes penso que se tivesse mais âncoras, que não a do trabalho e a preocupação constante com a única pessoa do meu sangue que existe no meu mundo, que é a minha mãe, se tivesse mais âncoras, dizia, talvez me sentisse mais equilibrada, mais normal. Mas a verdade é que não tenho, e já há muito aceitei a minha alienação do mundo adulto convencional.
E em dias como o de hoje, em que esse mundo adulto me cai em cima da cabeça como um piano de cauda, acabo por me sentir completamente sufocada.
Está sol e eu estou cheia de maus sentimentos.
Tenho coisas para fazer durante todo o fim-de-semana, coisas que me tiram tempo para as minhas sestas e os meus livros, e a minha internet e os meus jogos, e a minha preguiça e os meus amigos.
Talvez por isso, hoje tentei ligar a duas ou três das minhas amigas do núcleo duro da escola anterior. E nenhuma me atendeu o telefone. E com isto, pensei que as mudanças, mesmo que para melhor, trazem sempre com elas perdas irrecuperáveis, que em certos momentos, como agora, nos angustiam. Porque tenho que trabalhar e me apetecia queixar-me disso a quem estivesse na mesma situação. Porque me apetecia regressar a um mundo, não físico, mas emocional, em que o meu local de trabalho fosse também o espaço das minhas amizades femininas. E isso, de facto, já não é.
Nesta escola, as mulheres são simpáticas, são divertidas, são boa-onda, são inteligentes e agradáveis, não me posso queixar, não. Simplesmente, não vejo em nenhuma delas sementes de cumplicidade. Não me parece que lá vá encontrar pessoas que me digam tanto como a Mzinha, a MissCovilhã, a PêloRusso, a Li ou a T. A cumplicidade feminina em nada está relacionada com a empatia. É uma fórmula equilibrada de interesses partilhados e formas de estar na vida. É, sobretudo, uma elo inquebrável que nasce de modos de rejeição idênticos. Nada aproxima tanto as mulheres como um objecto que ambas detestam. E nesta escola é tudo muito morno, muito politicamente correcto, muito superficial.
Sinto falta das minhas meninas, da má-língua, do corte e costura, do modo tão catártico que tínhamos de desabafar irritações e venenos, à mesa de uma esplanada, ou numa sala de professores de sofás dispostos em U. Sinto falta de ter com quem partir a loiça toda, e depois rir-me. Sinto mesmo falta de fazer uma chamada para me queixar da merda das planificações e ter alguém que me atenda na hora, por estar em frente a um computador, a fazer a mesmíssima coisa.
Sinto falta, nestes dias em que a minha alma está presa por uma corda a um canto da mesa, de ouvir alguém resmungar, do outro lado do telefone, contra o mesmo tipo de cárcere.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Des.ilusão

Tenho para mim, tipo mantra, que devo manter baixas expectativas em relação a tudo. A tudo o que mexa, por um lado, a tudo o que está por vir, por outro.
Tenho para mim que castelos construídos no ar, à espera de milagres, resultam apenas para aqueles, que os há, que neles, milagres, acreditam.
Tenho para mim que todos os seres humanos são falíveis, por um lado, e não são espelhos que devolvem a nossa imagem, por outro. Não devolvem absolutamente nada, melhor dizendo. Nem o nosso afecto, nem os nossos sonhos, nem as nossas esperanças, nem a nossa boa-vontade. Não devolvem. Podem dar-nos isso tudo, mas sempre independentemente dos nossos quereres. Independentemente de nós.
Por isso, des.iludo-me pouco, e cada vez menos, nesta vida.
Porque tenho para mim que quem muito se desilude, no fundo, tem um problema sério, isso sim, consigo próprio. Quando nos desiludimos, em última instância, somos sempre nós quem não está à altura, não o outro, seja ele de carne e osso, pele e cor, ou uma mera fantasia de um futuro risonho, ancorado na areia movediça da inércia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Eu tentei...

... mas não sou capaz.
Enquanto toda a gente normal está a começar a ver a 5ª temporada da Grey na 2, gente menos normal já a viu na FoxLife. E, depois, há os perfeitos anormais, como eu, graças aos CTT e a uma amiga sempre em cima do acontecimento, que vão acompanhando a 6ª temporada quase em directo, semana a semana, à medida que cada episódio vai saindo nos States.
E o meu amigo Pan, que viu a estreia da 5a temporada na 2, resmunga que aquilo está "fraquinho". E eu, que vi a temporada toda de enfiada num CD recebido na caixa de correio, aconselho-o a não desistir, a morder-me toda de impaciência para não lhe dizer o que se vai passar, do género "Don't be an ass-hole!!!".
Mas confesso que isto de esperar pelo episódio da próxima semana, depois de estar habituada a ver tudo sem respirar, comer e dormir, me está a tirar do sério. É que a nova temporada, por mais que alguns digam que "O House, o House é que está a bombar!...", a mim, está a enervar sobremaneira.
Eu tentei, juro, mas não consegui: My name is Jade and I'm an addict.
Estou doidinha para ver no que isto vai dar. E deserta por vos contar... mas não posso, apre!

Um dia, inesperadamente, compensa.

É como aquela ideia brilhante dos pacotes de açúcar de uma marca de cafés conhecida: Um dia...Este é o dia. Ou Hoje é o dia.
Um dia vou sair mesmo feliz de uma aula de Inglês de nono ano. Hoje foi o dia.
Estou a dar uma unidade temática que se prende com Music and Cinema. Só por si, é motivante para eles e para mim. A escola obriga a uma data de projectos ditos transversais e comemorações das festividades mais absurdas. O Halloween não poderia faltar, claro. Então pus-me a pensar num modo de juntar tudo, perder pouco tempo com palhaçadas e não repetir o que aqueles desgraçados adolescentes fazem todos os anos. Nada de concursos de abóboras, nada de trick or treating.
Filmes, música e Halloween? Levaram com o espectacular "Nightmare Before Christmas", do Tim Burton, na versão original e sem legendas em Português. Passei-lhes vezes sem conta a canção inicial. Propus-lhes um duplo trabalho, cada um escolhe uma personagem e faz-lhe a caracterização escrita em Inglês. Para além disso, faz também a sua interpretação artística, como quiser. Surgiram ideias do arco-da-velha. Um vai montar, em cartolina, uma cena do filme em 3D. Outra vai fazer a Sally. Vai fazê-la mesmo, a boneca do vudu, à mão, cosida com a ajuda da avó. Outros vão fazer o boogie-man em plasticina, com direito às minhocas a sair lá de dentro e tudo. Há uma proposta de apresentação do Jack Skellington em tela pintada a óleo. Um grupinho ficou de redigir, em Inglês, o plot do filme, para contextualizar o que será, no caso de haver trabalhos de qualidade, uma exposição na biblioteca.
Os resultados, não sei. Mas não serão decepcionantes, porque já valeu, e de muito, o entusiasmo, os olhos brilhantes, os grandes sorrisos, e as vozes em coro a cantar "This is Halloween, this is Halloween". Surrealista, por tudo. Por serem adolescentes e, ainda assim, cantarem em coro sem vergonha, e sem eu lhes pedir, num Inglês quase perfeito. Por interromperem o filme para perguntar "o que é que ele disse, stôra?", por me responderem em coro, quando eu lhes perguntava, "o que é que ele disse agora, meninos?", por repetirem frases conhecidas, à medida que elas iam surgindo "What is this?", "This seems fun!", "Trick or treat!" Quem diria? Do reino do incrível...
E o meu sorriso aberto? Pespegou-se-me no rosto quando uma das minhas alunas, que não percebe nadinha de Inglês, me diz no fim da aula, ó stôra, afinal percebi o filme, percebi muitas frases... temos que fazer isto mais vezes!
Haja imaginação da minha parte, que a deles está boa e recomenda-se! E hoje fingiram que sabiam muito mais Inglês do que à partida parecia. E fingiram tão bem que eu resolvi, só hoje, só desta vez, acreditar neles.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sobre a Paciência

Há gente muito paciente. Eu sou tolerante o suficiente, o que não é o mesmo que dizer que sou paciente o suficiente. De facto, um dos meus defeitos é a impaciência. Um professor impaciente é, por norma, um professor incompetente. Ainda assim, contradição das contradições, não me considero incompetente. Isto porque sofro de impaciência selectiva: eu sou aquela que explica trezentas mil vezes a mesma regra a um aluno com a sensibilidade linguística de um calhau, mas dá um par de berros a um aluno que, por mais brilhante e dotado que seja, me pergunta pela terceira vez "que lição é hoje?", "é em que página?" ou "isso é para passar?"
Impaciência profissional selectiva.
E no que diz respeito à vida privada?
Aí, sou coerente. Com a selectividade, bem visto. Aturo tudo à família e amigos. Aturo muito a colegas e desconhecidos. Os meus níveis de atenção são elevados quando toca a ouvir histórias, historietas e desabafos, lamúrias, lamentações e conversas parvas, sérias ou desconversas divertidas. HOWEVER... não tenho pachorra nenhuma, repito, nenhuma, para gente má.
Hoje, na minha escola, havia uma acção de formação sobre "Educação Sexual". O tema é importante, não o nego. Até poderia lá ter estado, não fosse um conjunto de circunstâncias que desenhou um contexto específico no qual a minha presença seria um verdadeiro sacrifício. E eu evito, ao máximo, fazer fretes, porque não consigo disfarçar o desagrado, lá está, fico impaciente, sou como as crianças, mexo-me, bocejo, sopro, reviro os olhos. A acção de formação era um convite a todos os professores. Como ninguém se inscreveu, houve uma ameaça velada a que seria o convite transformado em convocatória. Ai, o que eu adoro ameaças, não vem nos livros. Diz-me a minha inteligência mediana que Formação Profissional, por enquanto, cada um ainda escolhe aquela de que mais precisa. Se sou uma expert em Educação Sexual? Claro que não sou. Precisarei de o ser a curto prazo? Não, de todo, não sou DT, não dou Área de Projecto, não estou em nenhuma equipa de Educação para a Saúde. Escolhi declinar o convite, o tal que nunca chegou a convocatória.
E hoje, à hora de almoço, vim-me embora, com colegas a vociferar nas minhas costas, então mas afinal não era obrigatório? E eu, desculpa, vês alguma coisa nas convocatórias? ai, e tal, não, mas disseram-me... Marimbei no que disseram. Parece que as estou a ouvir "A Jade tem a mania que é esperta, que é mais que os outros, ainda se lixa, vai ter falta, vamos lá nós, ovelhinhas, cumprir, mas no entretanto dizemos mal da acção, da formadora, dos que nos obrigam a ir e, claro, da Jade."
A Jade não tem a mania que é esperta, a Jade pensa por si própria e está-se nas tintas para o que pensam dela.
Aqueles idiotas que lá ficaram contra-vontade, em vez de me insultarem com toda a invejazinha que lhes enche as almas pequeninas, seriam mais saudáveis se fossem menos cobardes e dissessem, não vou porque não quero. Não vou porque não me interessa. Não vou porque não sou menos professor ou menos competente por isso. Mas são pessoas cheias de medo, de preconceitos, de chico-espertice, de maquiavelice, de comparação de estatutos, de análise pela rama que validam de absolutos.
E, para gente assim, não tenho mesmo paciência nenhuma.
E se, amanhã, gente assim me tiver valido uma falta, coisa que não me surpreende mesmo nada, pelo menos não me valeu um grande frete, e mais um prego para o caixão, que eu ando doente. E a paciência, que já é pouca, é inversamente proporcional às dores do corpo. Com as outras dores, as de cotovelo dos coleguinhas, posso eu bem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Engole já o que disseste!

Passo a vida a azucrinar os meus colegas de informática que, de cada vez que há chatice com algum computador, dizem, com um ar muito entendido, desliga e volta a ligar...
Passo a vida a insultá-los de tudo, a resmungar que ninguém precisa de quatro ou cinco anos numa universidade para aprender duas frases, "desliga e volta a ligar" e "o equipamento tem sempre razão".
Passo a vida a olhar para eles de cima, do alto do meu metro e quase setenta, com um ar arrogante e intelectual, de quem estudou coisas importantes e muito úteis, como Literatura, que toda a gente sabe que é fundamental, dá dinheiro com'ó caraças e desenrasca tudo no dia-a-dia, desde mudar uma lâmpada a alardear soluções práticas para qualquer problema existencial e material.
Passo a vida nisto, nesta atitude simpática e solidária, com aqueles a quem chamo "licenciados de terceira categoria", "engenheiros da tanga" ou "geeks do teclado".
Hoje, um deles acabou por me poupar mais de mil euros num computador novo. Ou, a duas amigas minhas, a chatice de sairem das suas vidinhas para tentar fazer o mesmo.
Por isso, a partir de hoje, quem percebe de informática passou a constar da minha lista de heróis.
E engulo tudo o que disse. A seco. E em silêncio, que é como eu devia estar muito mais vezes, para não dizer asneiras.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Cavalo de Tróia

O meu computador andou a ameaçar algum tempo. A queixar-se. A gemer. A destemperar-se. A perder a pachorra. A fechar a meio de trabalhos. A mandar-me à outra parte. A dizer que estava doente, que tinha vírus, que não podia lavar as mãos e precisava de descanso.
Hoje foi o dia. Finalmente, desisitu. Recusou-se a arrancar.


Eu ando a ameaçar há algum tempo. A queixar-me. A gemer. A destemperar-me. A perder a pachorra. A fechar a meio de raciocínios e frases. A mandar meio mundo à outra parte. A dizer que estou doente, apesar de lavar as mãos 2834 vezes ao dia, e preciso de descanso.
Amanhã será o dia. Considero seriamente desistir e recusar-me a arrancar e ligar para a escola a dizer que estou de cama com um Trojan Horse. E é favor de não fazer piadas porcas.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Acho um bocadinho ridículo...

... chamar "Estadunidenses" aos Americanos. Sim, eu sei que os Canadianos, os Argentinos, os Mexicanos e os Chilenos, mais os Brasileiros e os Cubanos, e os restantes povos todos desse Continente, também são Americanos. Eu sei, e alguém tem dúvidas disso? Mas acho pedante, a do estadunidense. E sintoma de complexo de inferioridade, trauma de infância, dor de cotovelo, ressabiamento, e antiamericanismo (Antiestadunidensismo????), tudo junto, e já démodé, na era Obama. Acho pseudo-intelectual. Acho poucochinho, o preciosismo politicamente correcto. Além de tal ideia ter que vir da cabeça de um tuga, como raio é que isso se diz em Inglês? United Statese? United Statish? E, pela mesma ordem de ideias, não se deveriam rebelar depois os Brasileiros, nacionais de outra confederação de Estados Unidos? Pronto, eu calo-me. Mas não sem antes acrescentar que...
...acho um bocadinho ridículo, vá.

Ok, ok, nem tudo é mau...

Enquanto espero pelos meus adultos, e vou escrevendo uns posts e soltando um veneno, resolvo fumar um cigarro ao portão da escola semi-assombrada, que não está cá ninguém.
Passa por mim, durante a meia-dúzia de minutos que a cena leva, meia-dúzia de pessoas que não conheço de lado nenhum. Todas me dizem, boa tarde, professora.
E eu acho isto simpático. Embora um pouco constrangedor.

E um beijo na boca, não?

Estive três horas numa reunião de Conselho de Turma. Às tantas, passei-me e disse que me ia embora, que estava mais que farta daquilo. Que estava na escola desde as oito e meia da manhã. Responderam-me "Jade, estamos todos na mesma situação". Pedi o direito a três interpelações à geral. "Levante o braço quem ontem esteve mais de dez horas na escola". Nada. "Levante o braço quem esteve, entre ontem e hoje, menos de doze horas em casa" Nada. "Levante o braço quem vai estar, hoje, treze horas na escola" Nada. "I rest my case. Todos na mesma situação? Não me parece". E a reunião acabou ali.
Não acrescentei que no bloco de noventa minutos das dez e meia da manhã, que era suposto estar em co-docência à conta de um projecto "mais sucesso", a minha coleguinha se pirou num "vou ali já venho" muito astuto, e me deixou a hora e meia pendurada sozinha com a turma. Uma atitude muito simpática e muito profissional, como é óbvio.
Só não tive direito ao beijo na boca. É que quando me f*dem, gosto que me beijem na boca.

Pois, não sei.

Não faço a mais pequena ideia do que me faz mais comichão: se a Maitê Proença armada em parva num vídeo que anda no youtube e nas caixas de e-mail de todo o país, a dizer mal de Portugal e dos Portugueses; se os comentários xenófobos de muitos Portugueses ao dito, numa alarmante onda anti-Maitê alargada e confundida com uma onda anti-Brasil/eiros; se uma alergia que tenho no pulso por causa sabe-se lá bem do quê.
As três hipóteses são fenómenos aos quais, julgo eu, o melhor é dar pouca importância. Coisas pequeninas e desinteressantes facilmente se tornam graves quando se lhes dá confiança. Faz comichão, faz... mas não coce, ou faz ferida.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Seja lá isso onde for...

Hoje, como já deu para notar, estou piursa.
Por isso, e depois de dez horas na escola, non-stop, mais as treze que me esperam amanhã, mais o trabalho que ainda trouxe para acabar ao serão, que é como quem diz, boa piada, chamar serão ao tempo entre as dez e as onze e meia, sem sequer jantar decentemente, depois de tudo isto, tenho duas coisas a dizer, ou melhor, a BERRAR...
1- Vou-me deitar, e como dizia agora numa sms à Shadow, fazer força para sonhar que sou a Rainha do Sába (ou Sábá? epá, não sei, não sei quem é o gajo ou, se é lugar, onde é que essa trampa fica, só sei que a essa rainha toda a malta é obrigada a prestar vassalagem, que a fulana não faz um chavelho...) e que tenho trezentos gajos bons a abanar-me com plumas, a meter-me uvas na boca e a mudar-me os canais da TV Cabo, enquanto são insultados por não ser suficientemente competentes... ai que está aqui demasiado vento, ai que as uvas são amargas, ai que não me apetece o CSI Miami mais o cenoura de cara à banda, SEUS IMBECIS!...
2- O PRIMEIRO CRETINO QUE SE ATREVER A DIZER-ME QUE SE GANHAR O EUROMILHÕES CONTINUA A TRABALHAR, MORRERÁ ÀS MINHAS MÃOS DE MORTE MATADA LENTA E DOLOROSA. Muahahahah!!!...
Pronto, já disse.

Quem foi?

Quem foi a rematada estúpida, para não lhe chamar muitíssimo pior, que armada em madre teresa, na semana passada, se pôs a fazer permutas porque tinha uma consulta médica na segunda-feira, e não se apercebeu que estava a permutar tudo para o mesmo dia?
Adivinharam... é a rematada estúpida que amanhã vai estar na escola das oito e meia da manhã às nove e meia da noite, non-stop.


Esta é uma a acrescentar, e logo no ponto um, à lista de situações em que apetece largar um grand'a "f*da-se!!!". Daqueles do tamanho de um camião. "Atrabexado".

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ah, então é isso...

Ando a ler um livro interessantíssimo de um filósofo francês, Bernard-Henri Lévi, chamado Vertigem Americana. É a visão francesa sobre a América Contemporânea, ou melhor, sobre os EUA da actualidade. Estou a adorar, claro.

Há uma frase deste livro que me anda a ecoar nas orelhas desde que a li: "A ditadura desse novo senhor, não menos feroz que o outro, que é "a maioria" ou a "opinião"... a "pressão" do espírito de todos sobre a inteligência de cada um".

Tenho sentido isto de forma avassaladora, em muitos domínios da minha vida, na idade adulta. Foram muitos os que me tentaram tutelar as atitudes e, pior que isso, os valores, as vontades, o percurso de vida.

Familiares tentaram fazê-lo no sentido das convenções, de um casamento que me proporcionasse o estilo de vida de classe média-alta a que sempre estive habituada. E foi por um triz. Nessa altura, a hipnose era de tal ordem que, se não fosse a providência divina de uma grande paixão politicamente incorrectíssima, poderia estar hoje casada e cheia de filhos. Mas profundamente infeliz, de certezinha. Depois, foram as amiguinhas a querer mandar na minha vida, a troco de favores antigos. Não durou muito, a cegueira. Em três tempos, mandei tudo ao ar e comecei novamente. Com menos amigos e menos família. Com menos maiorias de tolos a ditar as leis dentro da minha cabeça. Com menos fazedores de opinião a impor-me leis alheias de conduta.

Isto passou-se já lá vão mais de três anos. E foi uma fase traumatizante, como, dizem os neurologistas e os pedo-psiquiatras, traumatizante é nascer.

Desde aí, o que me entristece, confesso, é ver adultos ditos equilibrados agarrados às ideias dominantes, e incapazes de as questionar. Colegas de trabalho inteligentes que não usufruem do seu raciocínio, paralisados pela ideia "quem manda, manda assim, a gente desenrasca, a gente cumpre, a gente obedece". Às vezes, palavra de honra, pergunto-me se quem manda já se apercebeu disto. Porque eu acho que sim, e que tomam o pulso do absurdo a que a multidão de parvos chegará, até onde irá, até onde cumprirá. Porque há coisas mesmo idiotas a ser feitas nas escolas, e toda a gente parece estar de acordo com elas. E eu recuso-me a, por estar contra, ser etiquetada de imbecil. Recuso-me a que me chamem idiota por achar que não tenho bases para dar Contabilidade e Informática, quando sou Licenciada em Línguas e Literaturas. Sou eu que sou estúpida, ou são estúpidos os que me obrigam a formar pessoas sem ter eu formação para isso?

Recuso-me a que me chamem cretina, por exemplo, por achar que não devo votar num partido que me fez a vida negra quatro anos, enquanto representante de uma classe profissional que foi desacreditada, ignorada e enxovalhada. Um amigo meu disse-me "tu não podes falar porque não tens consciência política". E eu admito, não tenho. Ai, e tal, porque "ao meu partido deves a democracia". Será verdade. Mas até quando vai esta classe política viver à sombra de quem fez a revolução? Até onde irão, pondo e dispondo da vida e das carreiras das pessoas "sem consciência política", é certo, mas com um mínimo de perspicácia, a suficiente para verem os anos que empenharam numa Universidade a ir água abaixo, e a ser caladas com arrogância e manipuladas como robots?

De facto, não tenho consciência política. Sou ignorante. Sou apartidária. Mas ignorância não é burrice, e recuso palas nos olhos e cabresto nos dentes. Não me venha uma maioria qualquer dizer o que pensar. Não me venha uma maioria absoluta dizer que sou eu que estou mal, por achar que são todos uns imbecis, esses senhores dos gabinetes que acham que uma professora de Línguas deve ensinar adultos a preencher formulários do IRS, dar-lhes noções de gestão e linguagens informáticas e ainda se sentir muito satisfeita com o sistema, e consigo própria.

Ironicamente, o partido do meu amigo cheio de sabedoria e consciência política, e arrogância suficiente para achar que nós, os outros, "não podemos falar", perdeu as eleições. É que a malta não pode falar mas, por enquanto, ainda pode votar.

I'm a free thinker. Arrest me.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Twilight Zone

Hoje estou virada para posts com nomes de programas de televisão do tempo da Maria Cachucha. Este foi traduzido por "A Quinta Dimensão" e é um antepassado do X-Files, "Ficheiros Secretos". Basicamente, era uma série de episódios sobre fenómenos paranormais.
Paranormal é o cenário que se instala de cada vez que olho para o dossier dos temas que é suposto abordar nos Cursos EFA.
Eu bem tento explicar ao meu grupo de auto-ajuda (a equipa de formadores EFA e sua mediadora) que sou professora de Inglês e dou uns toques no Português. Que percebo razoavelmente de Literatura e de Língua. Que há 90 e tal por cento de probabilidades de saber a resposta a uma pergunta de Gramática. Que nos restantes dez por cento, há cem por cento de hipóteses de saber onde ir procurar a informação pretendida e ignorada. Que arranho Prosa, Poesia e Teatro. Que até me desenrasco no que toca a Cultura Cinematográfica. Que sei a quem recorrer se precisar de dissertar sobre música pop, rock, folk, country e até clássica. Isto é o que eu domino ou posso dominar, com alguma pachorra e empenho, porque não me falta motivação para aprender mais, e as bases estão lá.
Não, senhora. Querem que eu fale de Gestão e Economia, Orçamentos e Impostos, Organogramas Empresarias. E eu, suspiro, e depois, encolho os ombros. E, no fim, rio-me. A seguir, querem que fale de Micro e Macro Electrónica, Linguagem binária, Visual Basic e ASCII. E eu penso, ASCII? ACHI, PATRÃO! Que raio de merda é essa? Finanças e Computadores, não deve haver muito mais neste mundo que me diga tão pouco e áreas nas quais seja mais ignorante! Só uma: arquitectura, urbanismo e sustentabilidade. Adivinhem qual é o terceiro módulo que vou ter que dar, e no qual vou participar num projecto nacional? Pois...
E dizem-me, tem que ser, desenrasca-te, não és uma pessoa com falta de capacidades para aprender, pois não? E eu entro em pânico, depois irrito-me e barufusto, a seguir enfureço-me e argumento, e para quê? Para voltar a suspirar, a encolher os ombros e, no fim, acabar a rir-me. Era esta a desculpa que me faltava para, mais uma vez, não almejar a menção de "Muito Bom" ou "Excelente" na minha brilhante carreira docente. É irem assistir às minhas aulas de EFA para me correrem logo a Não Satisfaz, pois se não faço puto de ideia do que é suposto ensinar! Nunca, em dez anos de ensino, tal me aconteceu...
...Twilight Zone.

Agora, escolha!

Não, não é um revivalismo ao programa da Vera Roquette, que faz parte da minha infância, como o Verão Azul e os Três Duques. Isto porque não estou para ouvir a Shadow, depois, em plena dissertação dos ideais do generation gap.
O título é mesmo para mim.
Ontem um colega meu chamou-me mal-educada. Diz que passo por ele montes de vezes na rua sem o cumprimentar, com aquele ar arrogante que diz "conheço-te de algum lado, ó exemplar triste?"
Apanhou-me desprevenida e corei até à raiz dos cabelos.
Agora escolha, sôdôna Jade: admite que é uma grande mal-educadona, ou explica que é míope e despassarada, anda sempre no mundo da lua e de olhos no traseiro do infinito, não vê um boi a não ser que ele lhe caia em cima, e está farta de fazer figuras tristes a falar a pessoas que confunde com gente que conhece, mas que nunca viu mais gordas? Entre as duas opções, não sei em qual fico menos mal na fotografia.

Algo está pôdre...

... no reino da escolas portuguesas.
Uma colega minha, que eu conheço há vários anos, aceitou um horário de quatro horas na minha escola. Ontem, desistiu. Hoje encontrei-a no supermercado:
Jade, não dava, pá. Quatro horas de aulas não compensavam 29475638 papéis que tinha de fazer e entregar para ontem, nem 27464 horas de reuniões semanais. Com tanta burocracia, as quatro horas de aulas, irrisórias, nem sequer eram preparadas como deve ser.
E fiquei eu efectiva num Vaticano mais papista que o Papa. Cada um tem o que merece. Ou não.

Como disse?

Ontem falava-se de idades, e cheguei à conclusão que até a idade é muito subjectiva. Como é que alguma coisa que é traduzida em números pode ser subjectiva?
Aluno Gonçalo (que saudades) para mim, no ano passado: Ó professora, quando era nova...
WHAT????
Aluno XPTO para uma colega minha, ontem: A professora já é muito cota, tem para aí uns... quê? 25 anos?
Excuse me, are you crazy? Or just an idiot?
Não posso deixar de acrescentar a melhor de todas...
Colega "recém-colocada" para um amigo meu, "recém-quarentão" e muito bem conservado: tratá-lo por tu? não posso, não sou capaz, é que o professor é muuuuito mais velho que eu!...
Eu cá, batia-lhe. Juro.

Miau...

Notícias Sapo: "David Fonseca adora gatos".

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ironias

A tempestade tropical ao largo dos Açores, que nos tem dado tão bom tempo, chama-se Grace.
Agora digam lá... que Grace é que ela tem?

Será da água?

Hoje, entre o estupefacta e o morta de riso, vi a Mzinha sair da estação de serviço onde tinha ido pagar o gasóleo, de olhos postos na factura, e dirigir-se ao carro do lado onde, no lugar do pendura, um gajo, atónito, a observava em pleno acto de tentar entrar no carro. Quando ela deu pelo engano, já eu não aguentava de dores de estômago e maxilares.
Ela entra no carro - no certo, desta vez, bem visto - e diz: não te rias!, o que foi uma coisa muito útil de se dizer à alarve, que sou eu, que foi num berreiro incontrolável até ao supermercado.
Quando me recompus, consolei-a "deixa lá, isto deve ser da água".
Ao jantar, lá tivémos uma discussão filosófica, de que será, será da água? do vinho? ou do ar? É que isto não é normal!...
Na semana passada, muito compenetrada, eu tentava pôr o carregador da bateria do Nokia a carregar o computador; numa manhã destas, entre mim e a Mzinha, a mesma pastilha de Nespresso deve ter ido parar cinco vezes ao chão; já numa noite da semana passada, a Mzinha entra na sala a rir-se por ter arregaçado as mangas antes de lavar a loiça. Não tem assunto? Tem, tem, porque ela estava de t-shirt de manga curta; hoje ela tentou raptar um gajo num carro, por car-jacking, e, ao jantar, eu ainda a gozava por pôr três ou quatro medalhas de gordura na toalha de mesa quando, eu própria, lhe espetei mais três.
Pelo sim, pelo não, só bebo água do Luso e vou deixar de beber vinho desta região. Quanto ao ar... hei-de pensar numa solução, quando me passar a taulada do tinto que bebi ao jantar.

Não é Sádico?

A minha Directora está de... férias.
Epá, também é filha de Deus, e se as tirou é porque tem direito a elas. Pronto, direitos são direitos e são inalienáveis.
Só que eu, que ando a pedir batatinhas para permutas na segunda-feira, (epá, não me dá jeitinho nenhum, Jade, é que vou de fim-de-semana, e vou comemorar a vitória nas eleições, e o cacete), que tenho uma consulta médica e perco aulas com turmas que só tenho uma vez por semana, fico um bocado irritada com isto.
Qualquer professorzeco-sem-padrinho tem que pôr um requerimento à ministra (qual ministra, ao papa!) para faltar um dia, e a directora, no início do ano escolar, com a malta toda a ponderar cortar os pulsos... vai de férias.
E isto a mim, faz-me espécie.
Deve ser da inveja.

Quem é que me explica...

... as minhas próprias contradições?
Se virem à venda o livro "Jade para tótós", comprem e mandem-mo, que eu pago.
Só alguém profundamente perturbado diz que adora a chuva e detesta molhar-se. Tal não seria totalmente despropositado se um dos objectos a que eu tenho mais aversão não fosse, precisamente, o guarda-chuva.
Só alguém profundamente perturbado resmunga com falta de tempo para trabalhar e quando chega a casa vai direitinha ao sofá.
Só alguém profundamente perturbado tem um sentido de humor aceitável mas passa a vida com cara de má.
Só alguém profundamente perturbado não tem filhos aos trinta e três anos, entre outros motivos, por falta de paciência para os aturar, e escolhe aos seis anos passar a vida a aturar os filhos dos outros, aos vinte de cada vez.
Só alguém profundamente perturbado chega à idade adulta a gostar da Hello Kitty, de bolas de sabão, de andar de baloiço, da secção de brinquedos do supermercado e de gelados como o perna-de-pau e o epá (especialmente da pastilha, que é horrorosa mas sabe a prémio). Toda a gente sabe que os adultos só gostam de magnum e cornetto. Se forem radicais, um calippo, de vez em quando.
Só alguém profundamente perturbado, depois do parágrafo anterior, se vira para os alunos de sétimo ano e lhes chama "infantis".
Preciso de um livro de instruções de mim mesma, máquina diabólica. Os meus botões estão todos em chinês.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Jararaca está fumando...

Esta é uma das minhas expressões favoritas do Sai de Baixo, uma das poucas séries cómicas que me fez, ao longo da vida, ir às lágrimas e ficar com falta de ar com ataques de riso. Significa que uma das personagens mais mal-humoradas da série está a micro-segundos de ter um ataque de fúria.
Assim estou eu. Que sou jararaca, no feitiozinho ruim, e estou fumando, sem tabaco. Deito fumo pelas orelhas e tento acalmar-me mentalmente, mas não está a resultar.
Era suposto... era suposto muita coisa. Por exemplo, ter ficado na Cidade de Deus, a pôr a minha vida em ordem. Mas valores mais altos se levantaram, a minha mãe precisou de mim, e lá fui para Lisboa, adiando as 1001 coisas que tinha para fazer por aqui. (que se lixe, há que cuidar de quem cuida de nós, como diz uma amiga minha, e as minhas prioridades nunca foram outras). Depois era suposto regressar ontem, mas mais uma vez não fui capaz, não tive coragem. Lá fiquei, a fazer companhia a uma progenitora exausta e aborrecida com o que lhe calhou em sorte. A sorte é daquelas coisas que passa muitas vezes ao largo da porta lá de casa, e a malta com o meu sobrenome e sangue já a isso se habituou, tentando fazer o melhor com aquela que se vai tendo, e gerindo a coisa como se de tostões se tratasse.
Resultado, só vim hoje.
E, sendo dia do Professor, lá me pus a trabalhar. Calmamente, organizadamente, sem stress, que a ansiedade é inimiga de um trabalho bem feito.
É a ansiedade e o Microsoft Office, que resolveu "encontrar um problema" e fechar-se deitando para as cucuias três meses de planificações. Filho-da-p*ta!
A impressora, por seu lado, está a levar a Mzinha aos limites da loucura: até já lhe ouvi ameaças verbais explícitas "queres ir janela fora já?". Quando olhei para ela, não fosse a ameaça ser comigo por estar com um mau humor infernal, vejo-a, muito séria, a falar com a dita HP.
Dia do Professor? O cacete!
Parece que tudo que faço pelos outros corre bem. O pior é quando trato de fazer alguma coisa por mim, tipo pôr duas semanas de trabalho em ordem, visto que as passei a dar aulas nos intervalos de reuniões do reino do inconcebível.
Já percebi que não vou ter nada pronto a tempo dos prazos exigidos, mas se querem saber... marimbei. Vou jogar mahjong, jantar e esquecer que é suposto ter TPCs para fazer. Vou fingir que sou a professora que o meu governo proclama aos sete ventos que somos todos e... não vou mexer mais uma palha. Pelo menos, até amanhã. Ainda assim...
... a Jararaca está fumando.