segunda-feira, 31 de março de 2008

Falsas Questões

A Comunicação Social entra-nos, todos os dias, olhos, ouvidos e coração dentro, muitas vezes sem passar pelos parcos neurónios que nós, atletas das "Olimpíadas do dia-a-dia", da equipa do "Vou chegar tarde, vou chegar tarde", temos, à hora do jantar, funcionais.
Por isso, apesar de ter visto o Jornal da Tarde, só à noite, quando vi a repetição da notícia da "Tolerância Zero aos Telemóveis" na ES Carolina Micaelis, desceu a ficha, e pensei, não seria mais lógico adoptar a "Tolerância Zero à Insolência, ao Desrespeito, ao Abuso e à Má-Educação?"
Mais uma vez somos hipnotizados por falsas questões. Transferem-se dois alunos de escola e declara-se guerra aberta aos telemóveis para solucionar o quê? Só se for a celeuma causada por um episódio que alguém teve a triste ideia de colocar no YouTube...
Os meus alunos. hoje, tinham muito a dizer sobre este assunto, e a questão fundamental era... ó professora, malandros não são as que as fazem, mas os que são apanhados a fazê-las...
Eles sabem que, se há coisa que me tira do sério, é a insolência. Todos eles sabem que me esforço e gosto que todos nos demos bem, mas que não hesito em intervir, nem sempre de forma calma e cordata, já que fervo em pouca água, quando há faltas de respeito, quer comigo, quer entre eles. Saio do sério com respostas tortas, bater de portas e recusas a ordens directas.
E, infelizmente, numa escola que não é, pelo que se ouve, das piores a nível de indisciplina, estas situações são muito, muito frequentes.
Irritam-me os telemóveis, sim, mas irrita-me muito mais que me desobedeçam quando peço para os desligarem ou que se recusem a entregar-mos. Que culpa têm os telemóveis das atitudes dos seus donos? Já me aconteceu o mesmo com revistas de motas, agendas, diários, PSPs, carrinhos da matchbox, peluches, enfim, todo um conjunto de objectos do mais absurdo possível, que cumpram o objectivo proposto de levar as mentes adolescentes para bem longe das regras gramaticais do Inglês. Vamos proibi-los todos?
Falsas questões.
Se se proibirem telemóveis, eles passam papelinhos em vez de sms, como nós fazíamos com a idade deles. A diferença é que no nosso tempo não havia YouTube, nem ninguém que se atrevesse facilmente a saltar em cima de um professor, aos gritos, "DÁ CÁ O PAPELINHO!"
Estratégias de escape à monotonia das aulas, meus amigos, sempre houve e haverá. O que é bom que se reinstale, contudo, é a genuína vergonha por parte do aluno que é apanhado, e o automático pedido de desculpas que eu e os meus colegas, no nosso tempo, corados até à raiz dos cabelos, pedíamos de olhos baixos, ao professor furioso que tínhamos à frente.
Nota: não resisto a uma inconfidência, fora do âmbito deste post. É com muito orgulho que já vi partes deste blogue citados noutros sítios. Ainda que o intuito seja dizer mal, bem ou mal, o importante é que se fale, que se lhe dê importância, e sou pouco sensível a controvérsias. Muito menos a maiorias. Dizia Wilde, e eu subscrevo, "Sometimes a majority means that all the fools are on the same side". Só vos peço, encarecidamente, que me citem sem erros ortográficos, quando não são capazes de escrever textos originais sem os cometer. É que todos nós temos as nossas manias...

5 comentários:

Anónimo disse...

Sorry, mas não vou falar da escola. De professores e de alunos, de matérias e competências, de deveres e direitos, do clima e da indisciplina na sala de aula ou muito menos de tlms e de fichas de avaliação do desempenho. Isso é trabalho.
Hoje, (particularmente, hoje), perdoa-me mas o que me apetece é parar, sair de mim e voar entre palavras soltas procurando libertar este fogo que há em mim e que teima em não me deixar.

Assim:

Páro. Rebusco no labirinto das minhas memórias o tempo que fui e não sou mais.
A falsa saudade teima em segredar-me o desencanto vivido no labor precoce da vida.

Páro. Rumo inflexo na vaga dos sentidos e lembro palavras surdas, vazias e cruéis.
Vejo espaços de vontades desavindas, olhares frios, ladrões de sonhos e vendedores de ilusões.

Páro. Sinto a longa ausência da doce ternura, o odor amargo dos desafectos esbatidos,
a insustentável vontade de querer ser, não estando, de querer estar, não sendo.

Páro. Procuro a luz, o caminho, o poder de seguir o desejo inalcançável. Vivo buscando incessantemente o sentido sereno que impulsiona o pulsar da vida, vida que não é a minha mas a de outros homens.

Desculpa Jade.
Era bom que este texto se auto-destruísse após a primeira leitura.
Ai agora ia bem um cigarro!

M C S

Anónimo disse...

Pelos vistos, a tal senhora professora em questão permitiu que os alunos ouvissem musica nos mesmos telemóveis que depois quis confiscar. Pela boca morre o peixe. Assim, segundo Pedro Rolo Duarte no seu blog, Janela Indiscreta, refere é preciso não ceder e estabelecer limites, que todos conheçam dentro da sala.
Ai que saudades de estar na escola.

Jade disse...

MCS, É bem vindo, o desabafo. Nada do que é bonito de deve auto-destruir, e uma primeira leitura nunca chega para apreender todos os sentidos textuais, muito menos os poéticos, como é o caso. Também há-de estar por aí a vir uma das minhas prosas poéticas... ultimamente tenho escrito algumas cartas de amor e saudade, sem destinatário... talvez hoje, talvez.
V., Pedro Rolo Duarte tem razão, mas sabemos que a teoria e a prática, às vezes... olha é o tal tom de cinzento de que gosto tanto para responder ao preto-e-branco....

Anónimo disse...

é uma falsa questão muito bem apanhada. bem escrita, por vezes com demasiados pormenores (mas impecavelmente bem tratados); há aquilo que parece estilo barroco, cheio, e, no entanto, escorreito - o que é raro.
mas a melhor coisa lida ultimamente foi o comentário a outro blog: as dicas certas nos lugares certos - até as que custa mais ouvir (e aquela da auto-punição, muito bem esgalhada). percebes mais de pessoas que shrinks e essa gentalha das psicopatologias. lês por dentro. estranho como nestes últimos tempos te pareces tanto comigo.

switiniz

Jade disse...

Sempre me achei muito parecida contigo, sabes disso. Essas semelhanças, nem sempre nas melhores qualidades, mas frequentemente nos piores defeitos, e que tu tanto estranhas,e que eu diria, que tanto te incomodam, para mim têm, desde sempre, o carimbo do óbvio. E se queres saber, gostes ou não, tenho muito orgulho em ser parecida contigo.I really appeciate your 'professional' opinion. That's the point. Waiting for further evaluation