quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Saudades?

Não sei se tenho bem saudades, mas aqui, do fundo do poço, lembro-me da época em que em setembro alguém perguntava, então, como é que vai ser a passagem de ano, olhem que já não temos muito tempo para organizar as cenas... toda a gente se ria e barafustava e gozava com a vítima, e começava a pensar na festarola que durava quatro ou cinco dias num destino longe de Lisboa. Foi assim uns seis anos, e eu não sei se tenho saudades. Acho que gostava de ser parte de um grupo que sem mim não era a mesma coisa. A minha identidade, na altura, passava por ali, e existia, não era um punhado de estilhaços, como agora. Tive um convite para a festa de passagem de ano. Um convite generoso e simpático de uma pessoa vinte estrelas. Veio de um sítio inesperado e comovente e eu, precisamente este ano por todas as razões do mundo, estou-lhe imensamente grata. A Mzinha convidou-me também, ou melhor, eu adesivei-me à passagem de ano dela em maio ou por aí, para desistir em agosto, internada no hospital a ver a vida a andar para trás e a não arriscar cá planos com antecedências superiores a 24h. E posto isto, nada. É um bom barómetro do ano, esta noite sozinha em casa, porque não deixaria a minha mãe, claro, mas por falta de alternativa confortável. Não deixa de ser triste mas ao mesmo tempo muito didáctico. Na verdade, sempre me disseram que eu não me dava o valor necessário e suficiente e que a minha autoestima deixava muito a desejar, mas acho que as pessoas falam demais de cor de coisas que não percebem nada. Sempre achei que era justa comigo mesma. Não gostar de mim é completamente diferente. Isso é o que sinto de há umas semanas para cá e posso garantir que não é bonito, mas é totalmente diferente do que sempre fui eu.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Este é o ano em que, feitas as contas, foi sempre a perder. Perdi saúde, amor, dinheiro, bem estar, sossego, alegria. Perdi, sobretudo, esperança. E perdi-me de vez, nas melhores qualidades que tinha. Perdi a minha generosidade, a minha doçura, alguma ingenuidade saudável, o gosto de fazer certas coisas, estar em certos ambientes, conviver com determinadas pessoas. Acabo o ano egoísta, envenenada, amarga e sobretudo, mais sozinha que nunca, que encontro sempre novos limites desconhecidos e nebulosos para a solidão. Esta é aquela que não se ocupa de nada nem se alegra com ninguém. Tudo em mim são raivas, ódios e maus sentimentos. Foi um ano péssimo. E estou sem vontade nenhuma do próximo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Disponibilidade

Não tenho paciência para coisas forçadas. Detesto sentir-me encaixada num horário apertado como se fosse uma tarefa. Compreendo agendas cheias, mas se não há tempo de qualidade para me dar, então que não haja tempo de todo. Como me disseram há um par de dias "if you try to charm everyone you realy don't care about anyone". Prefiro assim, gostar de poucos que gostem de mim, ter tempo para estar com quem realmente quer estar comigo. Porque o estar com alguém é muito mais que resolver assuntos prementes como troca de prendas e jantares festivos. Estar, às vezes, é passear, ir às compras., deitar conversa fora, combinar um café e ficar para jantar porque a conversa está boa, preguiçar, rir, ir ao cinema. Eu tenho pessoas que gostam de fazer tudo isso comigo. Não tenho disponibildade para as outras. Para andar a toque de caixa basta-me a odiada campainha da escola.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Adoro

... jantares de natal das empresas, repartições, colectividade e afins em que anda meio mundo a ver se engata o outro meio. Haja trabalho, haja saúde e muita paciência. Adoro jantares de natal. Ai, nesse dia não posso, que tenho o décimo quinto jantar de natal e já prometi à Francisquinha que lhe saltava para a espinha. Boas Festas.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Egoísmo

Hoje, por portas travessas, chamaram-me egoísta. Confesso que fiquei satisfeita. E assumi logo, com um meio sorriso. Devem pensar que eu sou a rainha das cabras. Não serei, mas pelos vistos também já não sou a das parvas.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

controlar a mente

mais dois dias no hospital, mais uma viagem de carro para o alentejo e eu só queria controlar a mente, só isso. vim em silêncio, rádio desligado, imersa em análises e memórias e mais análises e conjecturas, constantemente em what if de todos os tipos. só queria controlar o espírito e não passar tanto tempo a mastigar pedras, a arranjar desculpas e a pintar cenários de cores mais alegres. costumo dizer que passo noventa por cento do tempo em junk thoughts, coisas que não servem para muito a não ser para me magoar e arranjar maneira de dar sempre mais uma oportunidade a quem não me dedica um infinitésimo do seu tempo, é verdade, eu sei. passo as conversas todas a limpo, faz-me impressão a minha falta de reacção no momento a coisas que me magoam tão profundamente. fico em silêncio e até sou capaz de anuir. só me apetece gritar. faz-me falta gritar até ficar rouca. dizem-me, não tenho objectivos nem me apetece tê-los, percebes? claro que percebo, ninguém há-de perceber tão bem como eu. dizem-me estás sozinha, sentes-te sozinha porque queres, tão gira e atraente que és, e desde quando a solidão se resolve na cama, será que para alguém isso funciona assim, ou será que não me sei expressar bem e é essa a ideia que dou, que preciso é de um gajo a quem dar umas quecas, porque não, não preciso, para isso há com fartura e eu vou evitando todos com muito cuidado para não ferir susceptibilidades. eu quero é gostar de alguém que goste de mim, isso é que me engana a solidão, mas para isso não é toda a gente que serve, não. o que em tempos pareceu tão fácil é cada dia mais dificil, aquele olhar sem cepticismo e sem desconfiança, aquela pesada herança que fica enterrada no passado. dando espaço e tempo toda a gente desilude, essa é que é essa, e assim sendo está tudo torto à partida e não me apetece estar com ninguém, por mais que estar comigo seja insuportavelmente doloroso.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Ballet

Tropeçaram um no outro, que já nem andavam de tanta pancada lhes caía em cima. Ela reconheceu-o de imediato, ele nem por isso. Seguiram-se meses em que ela dançava graciosamente em pontas, para que ele a visse, para que a deixasse colar-lhe os estilhaços, com toda a paciência do mundo, toda, dançava em pontas para parecer mais alta e esguia, mais bonita, tocava-lhe no ombro, amparava-lhe as quedas, velava-lhe o sono. Nunca a viu. Quando olhou enfim para trás, ela já lá não estava.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Quanto mais conheço os homens....

Para mulher, e ainda por cima educadíssima, uso o vocabulário de um carroceiro. Não sempre, não na sala de professores, mas em casa com frequência, amiúde entre amigos e sempre, mas sempre, no trânsito, que é coisa que exaspera o pendura, quando o pendura é a minha mãe. Nunca me saíu, nunca, um palavrão numa aula, por mais cansada ou furiosa que esteja. Hoje desanquei um gajo que se atravessou à minha frente numa rotunda: só não lhe chamei pai. Umas escassas centenas de metros à frente, atravessa-me o caminho um gato, com a basófia calma dos felinos, a olhar para mim com aquele ar de enfado imperial do "se tens pressa vai-te andando". E eu, oh minha riqueza, meu maluco, saí daí tontinho... com aquela voz idiota que certas mulheres reservam para os namorados e eu, jamais, tudo tem uma explicação e eu não estou sozinha por acaso.

Moral da história: Trato melhor bichos e alunos que pessoas.
Nota: sim, eu sei que distingui alunos de pessoas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Sobre o que isto tem sido

Há um antes e um depois daquilo a que eu chamo um enorme pesadelo e o resto das pessoas chama férias de Verão de 2015. Toda a gente que tem lido estes posts sabe disso. O que talvez pouca gente saiba, ou queira saber, é que o depois não tem sido muito mais fácil.
Na altura foi a doença, o medo e o abandono. Mas também foi a solidariedade, o apoio e a companhia. Desde aí, foi o vazio e a solidão. Passei cinco fins de semana sozinha em casa e ninguém se lembrou de me telefonar a saber de mim, se respirava, se queria ir beber um café. Se falei com pessoas foi porque existem redes sociais, senão... nada. A ausência, o silêncio, a falta.
Perguntaram-me - é curioso como as mentalidades masculinas se estão tão rapidamente a aproximar das femininas em certos aspectos - que diabo me passou pela cabeça para namorar, (qual namorar, estás parva? tu nem digas uma coisa dessas que é dar demasiada importância a essa besta que arranjaste nem sabes como, mais valia teres torcido um pé nesse dia e passado horas no centro de saúde a ouvir queixas de velhos, qual namorado, isso é lá gajo para ser teu namorado, ensandeceste? - estou precisamente a ouvir a voz da minha amiga mais furiosa com este assunto, que há várias, mas esta juro que qualquer dia me enfia um par de estalos na tromba), pronto, vá, que diabo me passou para gostar (ai, porra, não gostaste nada dele, mas estás tontinha? tiveste uma paragem, foi o que foi... seja), para achar que gostaste dum gajo assim? E por "assim" referem-se às fotografias que eles, outros gajos, viram dele, do tipo de quem eu achei que gostei e me largou praticamente no hospital. É. Os homens agora também avaliam as relações pelas fotografias de ambos e acham que as dele não estão à minha altura. "Se não soubesse o que sei de fonte segura, dizia que o tipo era rico e tu querias era presentes"...
Nunca soube responder à pergunta masculina, curiosa e sádica de "o que é que viste nele?" Até que este fim de semana se fez luz. O que vi nele foi, sobretudo, uma pessoa que me convidava para ir ter com ela, para lhe fazer companhia, que me dizia que tinha saudades minhas, que me desafiava para sair da minha vida e do meu conforto, para passear, para ver outras coisas, para ter longas conversas e apanhar sol. Sim, eu sei que os motivos dele seriam suspeitos e discutíveis, mas bolas, eu era feliz a fazer-lhe esse tipo de vontades porque pelo menos não me sentia sozinha, ignorada e dispensável, como sempre me tenho sentido desde aí. Se trocava, se voltava, se me arrependo? Não, não e não. Mas não me venham com sermões de como é que desceste tão baixo, o que é que viste nele e daí por diante sem calçar os meus sapatos e morrer para o mundo sem que ninguém disso dê conta, cerca de 70 horas a cada 5 dias.

facebookices

Acabei de deixar o seguinte comentário na página do meu orientador de mestrado / guru / ídolo /pai-de-todos-os-deuses: " Tenho saudades de o ouvir dissertar, caríssimo. Se bem que me fica para sempre uma intervenção sua, em que no final, na parte das perguntas, a minha vontade foi perguntar " que diabo é um palimpsesto, e onde é que isso pasta?" ahahahahahahaha. Sempre a mesma ignorante, eu. Um grande beijinho." 
É por estas e por outras que jamais serei levada a sério, mas também não sei se quero.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Pessoas Bem Resolvidas

Quando estive internada, viciei-me no Facebook. Passava muito tempo sozinha, e foi no que deu. Há muito pouco que eu não consiga descobrir, desde que me proponha a isso, e é com revelação em cima de revelação a desfilar-me à frente dos olhos que tenho tirado para mim grandes lições sobre a sociedade contemporânea. Angustiavam-me muito, certas descobertas. Eram coisas para me deixar doente, para me fazer chorar. Até que, como em tudo, uma certa numbness tomou conta de mim, de há umas seis semanas para cá. A so-called viewer's protective skin. Já não me impressionam as atitudes de acasalamento óbvias e de mau gosto. Já não me surpreendem a total falta de maneiras, a arrogância, as pedras atiradas a outros com telhados de vidro mais resistentes que os próprios, a mania ou a moda, não sei bem, de andar meio mundo a tentar provar ao outro meio que é mais culto, mais inteligente, mais divertido, mais viajado, mais fit. Toda a gente já leu os livros todos, já viu os filmes todos, já ouviu as músicas todas incluindo as que saíram há seis minutos, corre 20 Km e faz mais 3h de ginásio em cima disso todos os dias, e ainda passa a noite a beber e a curtir nas discotecas, para brunchar sushi num rooftop sobre a cidade de onde sai para o aeroporto para ir ver um concerto de uma banda indie à Escandinávia. E estar de volta para o derby, que toda a gente também percebe de futebol. E da NBA. E dos ALL Blacks. E com jeitinho ainda se pronunciar acertadamente sobre os refugiados da Síria e o governo de Portugal. Já não há pessoas, só super-heróis.
Como é claro, pelo menos para mim, este vício não me fez bem absolutamente nenhum. 
Em quatro semanas apaixonaram-se por mim duas pessoas, sem sequer me conhecer. E desapaixonaram-se, claro está, mantendo-se obviamente desconhecidas. A minha vida está tal caos que nem me detenho a pensar neste tipo de coisas seriamente, ou provavelmente há muito que teria voltado pelo próprio pé para o hospital que isto, cá fora, interessa pouco. Mas como tenho problemas reais de que tratar, lá me vou aguentando com as emoções intactas, apesar das declarações de amor e dos mundos de boas probabilidades de futuro que se abrem num dia para se encerrar no outro.
E é óbvio que me comparo às mulheres pelas quais vou sendo preterida, e que escrevem mau português, são muito ordinaronas mesmo sem dizer palavrões, dormem com quem calha e permitem que isso seja visível nas redes sociais. Comparo-me com elas, giras, bem sucedidas, contentes e felizes, bem resolvidas, cada uma com seu séquito de seguidores e fico muito triste. Não consigo, por mais que tente, sentir-me realmente inferior a nenhuma delas. Não consigo, por mais que tente, ter inveja de nenhuma delas, mas ainda assim fico muito triste. Fico triste com a certeza absoluta de que jamais serei bem resolvida enquanto bem resolvida for aquilo que eu testemunho diariamente na rede. Fico triste porque não vejo como não ficar sozinha quando a companhia significa uma paixão assolapada hoje que já não é válida amanhã, um amor para sempre hoje que de aqui a pouco é fel, um amo-te que, uma semana passada, é que s'a foda. True story, by the way, contado ao dia.
É assim que eu vejo a maior parte da minha geração, dos que estão solteiros, divorciados, ou que são simplesmente tristes e banais adúlteros com as desculpas do costume, tão gastas que aborrecem. 
Anda tudo a auto-promover-se e a pregar o desapego e o descaso, a reagir à pedrada a opiniões diferentes e a erigir grande estátuas a si mesmos. Não, não quero ser bem resolvida. Prefiro o epíteto, que foi meu durante muito tempo, de encalhada azeda. Mal por mal, quando me ameaçam, como já aconteceu, de que fazem e acontecem, eu durmo descansada com a minha dignidade intacta e a minha cabeça levantada. Já muita gente bem resolvida que por aí anda não poderá dizer o mesmo.

on the other hand

Sinto muita falta daquela expressão de assombro e prazer que já vi em alguns olhos, daquele vislumbre de infinito mágico que em determinado momento me convenceu que a imortalidade era tão possível como o pequeno-almoço. É. Sou da tribo dos intensos e ando a enlouquecer aos poucos no meio do tépido e do assim-assim. Já nada disto me serve. 

Fim

Hoje fechou-se um ciclo e saldaram-se finalmente contas antigas.Na última semana, achei que jamais iria encerrar este capítulo. Pensei que ainda era mais burra que aquilo que já tinha assumido ser, e que isso era muito. Mas não. Afinal, daqui a uns tempos, pode ser que olhe para trás e me consiga lembrar de coisas boas.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Solidão

Como diz um amigo meu, a gente "afeiçoa-se" às pessoas. E depois elas partem e deixam um vazio enorme, e perguntamo-nos milhares de vezes como poderíamos ter evitado que nos virassem as costas, em que poderíamos ter sido melhores, onde é que teríamos metido a pata na poça, que diabo teria corrido mal quando tínhamos feito tudo, mas tudo mesmo, para demonstrar o nosso afecto. 
E estas perguntas atormentam-nos dia e noite e fazêmo-las às paredes brancas, às portas fechadas, ao nosso cão estupefacto, às palmas da nossas mãos a segurar o rosto em pranto. E isto acontece sempre que estamos sós, escondidos, recolhidos, sem que ninguém saiba, sem que ninguém veja, sem que ninguém suspeite, semanas a fio. Onde antes era a companhia, agora sobram perguntas e auto-recriminações. Relemos mensagens trocadas, obsessivamente buscamos respostas e explicações, achamos que vamos morrer ou, pior, enlouquecer, consideramos hipóteses realistas e outras completamente desesperadas, como largar tudo e desaparecer. 
E ninguém te pode valer, porque quando sais à rua, estás igual, até tens bom aspecto e ninguém sabe o inferno em que vives todos os dias, a cada momento em que sorris ao pedir um café e só te apetece gritar, morrer, acordar noutro planeta, todas as hipóteses ou nenhuma das anteriores. As pessoas partem e não fazem ideia do que deixam para trás.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Too late


Mauvais Sang, 1986

Pois foi

Primeiro o silêncio. Infinito numa fracção de segundo.
E depois a voz dele. Pega em ti e vem para cá. Não penses, vem. Eu sei que sou fraco consolo, mas tendo em conta as opções, o que vier é lucro.
E eu fui.
E foi.

domingo, 1 de novembro de 2015

E agora

Mas, por outro lado, sinto tanto a tua falta e quero-te tanto aqui comigo, ficou tanto por dizer, e agora os nossos passeios de mãos dadas e as nossas viagens pelo mundo, e as nossas conversas ao telefone, o nosso riso, os jantares, a lista de restaurantes a que queríamos tanto ir juntos, all the special places e os filmes aos domingos à tarde, e agora...? e agora eu aqui sozinha, como sempre, como antes de ti mas em pior, cheia de dores que não são bem dores, cheia de solidão que antes não era assim tão triste, até era amiga, antes, antes de ti. E agora depois de tudo, depois de ti, sento e choro nas margens de um rio qualquer, porque o meu coração estava tão bem encaminhado e foi atirado ao chão, again. E na verdade nunca nada disto mais foi que uma virtualidade, que até a ilusão está fora de moda, agora. Tudo se resumiu a uma virtualidade. E agora, venha a vida real, que nos intervalos só me resta este quarto e todas as lágrimas que ainda não tive tempo nem coragem de chorar.

Cicatriz


Quem me conhece bem sabe que sou pelo consenso, pela paz e pela tranquilidade. Sempre fui, embora durante muitos anos não parecesse. Isto porque nasci com um sentido de justiça que me impediu anos a fio de exercer o meu right to remain silent, e em vez disso arder em defesa de quem se calava por saber viver melhor que eu. Também nunca me consegui calar naquelas alturas em que era mais útil fazer-me de parva. Isto, porque a única coisa em mim da qual nunca duvidei foi da minha inteligência acima da média, e quando uma pessoa, sobretudo uma mulher, acha que não tem mais nada a oferecer ao sexo oposto que interesse intelectual estimulante, não deixa que a façam de parva.
Por esta mesma razão, mais tarde ou mais cedo, sempre acabei por me anular nas relações. Sempre acabei por andar às ordens. Por pedir desculpas para terminar discussões inférteis, assumir responsabilidades de outros, enfim, ir contra a minha natureza e fingir-me de parva. Mais vezes que menos, esforços vãos, dado que novamente, mais vezes que menos, me partiram o coração ao invés do contrário.
Entretanto, doze dias de hospital abanaram-me o sistema violentamente. O regresso, mais vinte e três, traumatizaram-me para o resto da vida, tenho certeza absoluta disso. Tenho a certeza bem tatuada na pele de que nunca mais serei a mesma pessoa . Há, julgo eu, indizíveis relacionados com estes dias. Memórias de mim sem dignidade absolutamente nenhuma e dependente para tudo o que um ser humano saudável nem se atreve a imaginar. E imagens de mim de que muito me orgulho, a arrastar-me cheia de dores para a cama ao lado da minha, para uma das velhotas não morrer sozinha, e estar ali, a segurar-lhe a mão e a fazer-lhe festas no cabelo sem palavras, para ver se ela não se apercebia que era uma estranha e partia amparada pela filha, enfim.
Não sou nenhum génio, nem nenhuma mártir, mas creio ser mais inteligente e mais generosa que o médio ser humano. E conheço muitos, de todas as idades. Durante anos e anos a fio, disfarcei as minhas fragilidades com uma agressividade infinita. Deixei-me disso. Estou numa escola em que todos os colegas sabem que fui destacada por motivos de saúde, a fragilidade é uma fractura exposta, vou proteger-me como? Não dá. Só que agora, e ao contrário de quando tudo em mim era luminoso e loud assustando os mais distraídos destas coisas que são as máscaras e as armaduras, e criando antipatias fáceis e amizades para o resto da vida, agora, dizia eu, sou muito muito quiet. Tão, tão , tão que passo finalmente despercebida. Também é verdade, e já é a segunda vez que me defronto com isso, que há certo e determinado número de inseguranças que já não moram aqui. Sei, por um saber de experiência feito, que não me voltam a apanhar em relações com pessoas que me rebaixem, me minem a autoestima ou me moldem a seu bel-prazer. Não volto a pedir desculpas para não perder uma pessoa de quem goste, mesmo que muito, se não tiver culpa nenhuma. Não volto a admitir que me apouquem para manter razões inexistentes. Não volto a deixar que me façam envergonhar por ser fraca e não reagir a agressões de quiasquer espécie. Estou mais quiet, mas como dizia uma amiga minha, se a autoestima para mim é uma briga diária, o self-respect ficou de cicatriz de um pesadelo que terminou mas jamais será esquecido.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sobre parágrafos

Não tenho prazer nenhum na decepção, no abandono, nos dias cinzentos, na falta de vontade de me levantar de manhã, na sensação what's the point aplicada, basicamente, a tudo, incluindo respirar. São tempos difíceis e suados, em que qualquer dose de energia dispendida a lavar um copo parece um esforço hercúleo. Compreendo bem os que escolhem não passar por isso, virar costas e desistir. E durante algum tempo comprei discursos de impossíveis e impossibilidades, de como era fatalmente mentira que o amor acontecesse de repente, fora dos contos de fadas, às pessoas normais a partir de uma certa idade. Que essa fé ficaria para os ingénuos, e que demasiada ingenuidade junta era sinal de falta de inteligência, perspicácia e argúcia. Comprei essa teoria porque precisava dela para dar sentido à minha dor e assim poder tê-la justificada e não fruto dos actos aleatórios de pessoas pouco sérias com os outros, que as há, não nego, tão bem disfarçadas que enganam até os mais cicatrizados nestas coisas, como eu.
Até que me pus a pensar que os discursos apocalípticos do amor me chegam, sobretudo, de pessoas que se prendem demasiado ao passado, aos erros, às mágoas. Gente que jamais faz parágrafo depois de colocar um ponto final. Que continua a voltar atrás em loop, a analisar, a remexer, a dissecar o sapo morto all over again: Gente que não quer abrir mão de ninguém, como se alguém lhe pertencesse ou a quem quer que seja alguma vez na vida. Gente enredada em história complicadas e intrigas palacianas que são sempre culpa de outrém, nunca sua, mas que se repetem ad infinitum na sua envolvência, talvez na esperança de que abra os olhos e veja que, se calhar, alguma responsabilidade tem nesse perpetuar de um luto vão. Sinto que esses discursos vêm de control freaks que na sua assumida teoria científica do amor, "isto está tudo estudado pela neurologia e pela psicologia, sabes?" estão descontrolados na sua tentativa de controle.
É inútil tentar construir seja o que for em cima de terreno pantanoso. Na lama podem nascer flores, mas não casas. O amor pode acontecer de repente, por magia, seja a que idade for, sem que seja uma mentira contada com um qualquer fim obscuro. Não pode é o seu contrário ser justificado com grandes argumentações lógicas porque, infelizmente, se há coisa que a realidade é, cientifica ou artisticamente falando, é aleatória e profundamente misteriosa. Com uns, mais que com outros, altamente puta. Agora, se há coisa em que eu acredito, mesmo depois de quarenta anos a levar no focinho, é que podemos fazer sempre qualquer coisa para facilitar a vida a que coisas boas aconteçam. E um dos maiores facilitadores, aprendi eu, é o letting go
Também eu, durante muito tempo, me concentrei naquele momento e naquela pessoa que virou costas e com ela levou a minha parte mais luminosa. Também eu obcequei com "the One that got away". Também eu lhe acompanhei passos, derrotas, vitórias e sorrisos, e palavras e silêncios. Até que percebi que estava parada no tempo a olhar para uma figura de costas para mim, por trás de uma porta transparente mas fechada. Enquanto aí me detive, passaram-se anos da minha vida a preto e branco. Quando fiz parágrafo, as coisas avançaram de um estado fotográfico para um estado cinematográfico gradual e solidamente.
Ao conhecer outras pessoas, consigo finalmente dar-lhes uma nova hipótese de me fazerem feliz. Mesmo que elas a aproveitem para me fazer chorar, cientificamente, para quem gosta tanto do pensamento matemático emotionless, é mais provável que zero, assim, que um dia me aconteça algo de bom. Sendo zero a probabilidade que tal aconteça enquanto olhamos as costas voltadas de alguém que partiu sem olhar para trás ou, pior, continuamente a fingir que sim, que continua a olhar-nos nos olhos, como sempre, como antes, quando segue toda contente com a sua vidinha self-centered pouco se importando com o estrago que faz à dos outros.

acrescentado um pouco mais tarde, como banda sonora perfeita



sábado, 17 de outubro de 2015

reciprocidade

sobre reciprocidade, escreveu um amigo meu que é factor de ressentimento e eu não concordei. sempre dei o que quis sem pedir ou esperar em troca. sempre não, sempre até há pouco tempo atrás. porque há limites para tudo, incluindo para a minha generosidade. papéis assumidos são difíceis de mudar e eu costumo assumir o de giver. até me fazerem perceber que quem só dá, fica vazio. e o vazio é o local privilegiado do ressentimento. por isso, detendo-me sobre uma ideia que à partida me era estrangeira e desconfortável, acabo por me identificar com ela em absoluto. há que nos determos a pensar nas coisas, antes de as afastarmos liminarmente.

redes sociais

sobre as coincidências que nos agridem como bofetadas dadas à traição, sobre tropeçar em sítios insuspeitos pela mão de amigos novos e pelo historial saber o que determinada pessoa publicava em datas específicas, sobre nunca conhecer ninguém, sobre dormir com o inimigo e ser feita de tansa quando se é tão inteligente, sobre repetir os mesmos erros vezes sem conta, sobre a loucura de apostar nos mesmos gestos à espera de resultados diferentes porque as pessoas são diferentes e afinal verificar que não são, não. São monotona e decepcionantemente iguais umas às outras e a si próprias, e isso ainda me choca violentamente e me traz lágrimas aos olhos que deles não passam que a raiva não deixa.

rascunhado

E era como viver com ele confortavelmente instalado no peito, com a intensidade cardíaca em constante after sprint. Flutuar no mundo real sem lhe sentir as misérias. Era o completo e absoluto oposto da vulgaridade que nos arrasta tantas vezes apáticos e entediados. Um permanente estado de sobrepercepção afectiva. E um brilho sorridente que agride as vidas presas na realidade como uma cabeçada inesperada.

Não, a grande maioria das pessoas não lhe percebia a luz, nem lhe podia achar menos graça, que a inveja é o metabolismo dos tristes e dos pequenos.

domingo, 11 de outubro de 2015

Vou apostar na escrita

Na conversa com uma amiga minha, epifanei: vou escrever uma trilogia, cujo título está escolhido à partida e é inspirado no filme O Bom, o Mau e o Vilão. Vai chamar-se o Mau, o Traste e o Cabrão. As personagens serão ficcionais mas qualquer semelhança com a realidade poderá não ser pura coincidência. 




Ou pudéssemos nós fazer dela tudo o que desejamos. Temos apenas a ilusão de a controlar, quando tudo o que é importante é aleatório.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Sobre o Ciúme

No rescaldo de mais uma relação falhada, esta do reino dos infernos, tenho a dizer sobre o Anselmo Ralph, cuja música detesto, que passei a respeitá-lo muitíssimo como pessoa mas, sobretudo, como homem quando, numa entrevista, à pergunta "Como é que a sua mulher lida com o assédio das fans?", ele responde qualquer coisa como "A minha mulher não lida com isso. Quem tem que lidar com isso sou eu. E apaziguá-la, sempre. Dar-lhe toda a segurança do mundo, sempre". Achei lindo e apeteceu-me aplaudir de pé. Depois de levar com um gajo que se punha a babar e fazia comentários às fotos do amiguedo todo do facebook quando, se fosse preciso, a mim nem a mensagens privadas respondia, acho que, de facto, tenho o toque de Merdas quando se trata de escolher homens. Não, não me enganei. O Midas está muito longe destas histórias. Quase um mês passado sobre a ruptura,  e olhando para as fotos do amiguedo mais próximo, começo finalmente a ver o que é que eu não tenho que elas têm. E, em vez de doer ou nausear, já dou por mim com um leve sorriso trocista, o que é um consolo. (não deixando, claro, de ser daquelas vergonhas que só apetece fugir).

domingo, 4 de outubro de 2015

Sem Palavras

Passou-me um camião TIR por cima. Acabadinha de chegar da praia, cheia de planos para o resto das férias e em franca recuperação, eis que levo com mais vinte e três dias de hospital. Desta vez nem eu quis ver ninguém, nem muita gente me quis ver a mim. Não tem explicação, o que uma pessoa sente, o desânimo, a tristeza de ver os dias com sol a acontecer lá fora, sem nós.
Junto de mim só os meus. A minha mãe, as minhas primas, um dos mosqueteiros, um casal muito próximo e um amigo novo, daqueles que começa tão bem que só pode ser para o resto da vida. Já que a vida também dá mostras de não querer durar assim tanto como isso.
Pelo caminho ficou uma relação que eu percebi que não tinha pernas para andar, quando falharam as minhas, que andavam sozinhas sem dar conta. Ou a fingir não dar conta. É impressionante como as pessoas conseguem virar costas a outras que lhes são íntimas e gostam delas, precisamente quando é mais necessário que fiquem. Nunca consegui perceber muito bem esse mistério que continua a ser, para mim, a crueldade humana para os que estão mais próximo. E continuo a perceber muito menos onde anda a minha tão apregoada inteligência quando se trata de afectos, dado que escolho sempre os piores trastes, aqueles que são tão maus que são, anos a fio, sempre dados como exemplos do pior que a espécie humana é capaz em relações emocionais, do género, "estás a queixar-te? isso não é nada, há um namorado que a Jade teve que..." É. Os namorados que a Jade teve engrossam as fileiras da escumalha de todas as relações conhecidas e próximas. Tenho uma amiga que passa frequentemente por um, de carro, e diz que qualquer dia é dia, perde a cabeça e passa-lhe por cima. Tenho amigas que, literalmente, têm pesadelos com ex-namorados meus. Juro que é verdade, e isso envergonha-me muito. Tal como me envergonha ser exemplo de mulher que não acerta uma. Outra amiga diz-me milhares de vezes "não te apaixones, a vida corre-te sempre muito mal, quando te apaixonas". É. Sinto uma enorme náusea quando penso que ela tem razão. Dar-lhe razão põe-me muito, muito, triste.
O que me aconteceu há um mês com esta pessoa foi um pesadelo. Porque eu estava doente, porque só via o dia em que nos íamos reencontrar, porque estava mesmo a precisar de consolo, daquele consolo a que os amigos, por melhores que sejam, e eu tenho os melhores do mundo, não conseguem chegar. Foi tudo muito feio. Eu fui internada num dia em que todos os meus sabiam que era a hipótese mais provável. Fui internada de manhã. Ele ligou-me às seis da tarde, depois de muito tempo perdido antes disso nas redes sociais. Os meus estrebucharam em coro. Eu, parva, deixei andar. Não tinha cabeça para mais perdas. Acabei por não ter outro remédio, depois de mais umas semanas de situações tristes de que me envergonho. Apesar de todos me dizerem que a vergonha está toda do outro lado, a gente fica sempre muito triste quando faz figura de estúpida. Quase com quarenta anos. É verdade. Eu fiquei. Estou, ainda. Sem saber muito bem como lidar com as coisas a correr muito depressa à minha volta, sem me deixar enrolar a um canto e lamber feridas.
Pareço o coelho da Alice, a correr a correr, a evitar contactos, a não querer falar muito sobre as férias com ninguém. I'm always on my way, porque se me obrigam a parar, juro, juro, que parto tudo e a seguir me desintegro. 
Ultimamente tenho falado pouco. Ouço, sobretudo, quem me obriga a ouvir, a minha mãe e o lufa-lufa do quotidiano, os meus colegas de escola e o trabalho que ficou atrasado, os poucos amigos que não se importam de me ligar para falar quase sozinhos quando lhes ofereço tudo o que posso, um silêncio denso e magoado. Desses, às vezes ouço palavras brandas de censura molhada em mel, que ninguém tem coragem de chutar um cachorro abandonado. As palavras que me oferecem são abraçadas pela razão, sempre. Concordo com todas, com tudo. Que há o chamado pensamento mágico e que as pessoas acreditam nas maiores mentiras, se lhes parecerem exatamente aquilo que procuram. Que não existem coup de foudres de espécie nenhuma. Que até, se calhar, bem esprimidinho, bem esprimidinho, talvez nem sequer o amor exista. Ou seja como os milagres, só existe para quem acredita nele. Eu percebo isso tudo muito bem. Só agradecia que, já que essas coisas não existem, não me fodessem a vida tantas vezes, em loop, sempre que podem.


domingo, 12 de julho de 2015

Contabilidade

No final de contas, não é importante quantos são, mas com quantos podes contar. E estou a falar de amigos. De "A"migos.
Hoje foi assim,
eu: então, e a feira, foi boa?
eles: não, faltaste lá tu.
É assim. A diferença entre o "não sabes o que perdeste", que seria a verdade, e o"faltaste lá tu", que eu sei perfeitamente que não influenciou em nada a boa disposição alheia, mas cuja enunciação aldrabona influenciou a minha. Porque há mentiras que aquecem o coração e são provas de amor.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Regresso

Nada acontece por acaso é um daqueles clichés que me tira do sério: sou adepta do contrário, tudo acontece por acaso e, tal como há coincidências felizes, há outras que são uma trampa. Acontecem coisas más a pessoas boas, sem razão nenhuma. Nenhuma. Se depois disso, as pessoas têm vida para retirar daí lições, melhor para elas, mas há lições que não há necessidade nenhuma de aprender e as boas pessoas não precisam para nada de saber o que dói uma quimioterapia, a angústia de ficar sem cabelo, viver sem poder comer as coisas de que mais gosta ou não poder acompanhar os amigos no que lhe apetece. Reservavam-se essas lições para os filhos da puta, não era?... e talvez assim eu dissesse que nada acontece por acaso e que sim, afinal sempre existe um deus.
Isto porque estive dez dias internada no hospital e é óbvio que aprendi muito com isso. Aprendi, por exemplo, que, ao contrário da última década, em que entrei e saí de hospitais sempre sozinha, ter companhia é bom. E por companhia incluem-se as visitas, sim, que aprendi a tolerar, mas que detesto, detesto, porque me dão uma sensação horrível de descompostura e vulnerabilidade que eu odeio, numa obsessão felina que me faz engolir tantas vezes a dor e mascará-la de mau feitio, ninguém tem nada que me ver chorar, suar, gemer, gritar, ninguém e muito menos os meus, as visitas, dizia eu, mas sobretudo a presença espiritual e emocional de tanta gente que ligou, mandou mensagens, deixou recados, apareceu, deu presentes, abraçou, beijou, esteve. Aprendi a gostar de surpresas porque de facto, nestes dias, as surpresas foram boas, e foram muitas. Quem não esteve, não surpreendeu, não tive uma única decepção, não. Quem não esteve, não fez falta nenhuma. No início contabilizei as falhas, mas com a catadupa das presenças, algumas tão improváveis, percebi, finalmente, outro adágio que tanto me irritava mas ao qual tive que me render: só faz mesmo falta quem está.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Já me aconteceu, e costumava doer



Mas encontrei a melhor perspectiva sobre este assunto.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Saída Airosa

Hoje, resmungava eu a um aluno, no meio de um teste, que raio de pergunta é essa, M? Com esse jeitinho para o Inglês, nem parece que nasceste no mesmo dia que eu, pah! E ele, que faz, de facto, anos no mesmo dia que eu, responde muito depressa, oh professora, no mesmo dia não, senão eu teria uns...
Faz uma pausa e olha para a minha cara número trinta e três. Levanto-lhe uma sobrancelha, a sublinhar o perigo.
... vinte e dois aninhos muito bem conservados?
Estão bem amestrados, os meus putos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Saber de Experiência Feito

Somos tão melhores pessoas quando estamos felizes.

Treinar

o desapego, habituar-me ao peso do silêncio e evitar abrir mail e olhar para o telemóvel obsessivamente. The force só funciona nas Star Wars.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Foram dezasseis dias

Dezasseis.
Luta inglória, quando se trata de ir ao tapete. Tivesse ganho e teria, pelo menos, valido a pena.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Estou mesmo pelos cabelos

Gostava de saber onde é que está escrito que uma pessoa tem que aturar bocas foleiras, senão tem mau feitio, e piadas parvas, ou lhe falta o sentido de humor.
Eu sou uma pessoa que tem pouca paciência para conversa fiada. Sou de poucas palavras e cada vez menos sorrisos. É verdade. Mas a próxima pessoa que me vier com a conversa do mau feitio, vai ser mandada para a p*ta que a pariu. Estou farta de levar com a fama sem ter proveito nenhum. Sou a maior banana da escola, sempre a desenrascar toda a gente, sempre a defender meio mundo: quando precisei, deixaram-me arder indecentemente. Quem? As porreiras lá da escola. As que se riem, e sorriem muito e são tão bem dispostas. A pensar só em si próprias. Assim, também eu tinha bom feitio. Não aturo mais insultos mascarados de brincadeirinha, acabou-se.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Figurinhas

Hoje à vinda da escola pus-me a pensar que, para quem não gosta de conduzir, o meu carro é palco de muitas das cenas deste teatrinho amador que é a minha vida. Ainda hoje, e apenas no trajeto diário, viu-me maquilhar, pôr brincos, borrifar perfume, cantar, dançar, dizer palavrões e ladrar ao desafio com o Chico que, ameaçado pelo labrastalker cá do bairro, agora tem honras de motorista privado nos passeios dele.
O pior é que o teatrinho, às vezes, não progride em plateia vazia. Volta e meia, esqueço-me que a máquina infernal não tem vidros opacos e desperto para essa realidade com a cara embasbacada das pessoas com quem me cruzo enquanto guincho, toda contente, uptown funk it up, uptown funk it up...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Precipitou-se...

Hoje, lamentava-me com a habitual ladainha, eu aqui tão gira, largada aos cães, que desperdício, bla bla bla whiskas saquetas, e um dos charmosos que são os meus colegas de escola, diz, eu também acho. Já não sei como a conversa continuou que, às tantas, o pobre diz, em tom de autodefesa, mas eu já era casado quando a conheci! (a mim, bem visto) E eu, a rir-me, "Precipitaste-te!"
Hold that thought.
Há uns dias, perguntaram-me, sabes quem se divorciou? e eu, quem? resposta, o fulano-de-tal. E eu, ah. (não vou dizer o que pensei, mas não foi um pensamento feliz, ou de que me orgulhe).
Hold this thought, too.


O RAP continua casado e bem, ao que consta. Tenho para mim, ainda assim, que também ele se precipitou, mas ficará na ignorância, ao contrário dos meus charmosos colegas de escola.

O Final de um Ciclo

Vou largar a terapia. Quatro anos depois.
Como disse uma amiga minha a propósito de uma outra perda recente, a vida é um permanente deixar partir. Adorei esta frase. Mas vê-la assim, escrita, por mais bela que seja, faz-me arder muito os olhos e provoca-me um reflexo condicionado, engolir em seco, como se de repente alguém me jogasse as mãos ao pescoço e me apertasse só um bocadinho mais que o confortável. Um permanente deixar partir, e as letras, que não passam também elas de desenhos, desenham rostos, sorrisos, olhares, vozes, mãos, abraços, gargalhadas, muitas lágrimas. Deixei partir muita gente, este ano. Agora tenho que gerir essas perdas sem torrar a paciência ao DOC. Mas como não tenho coragem de torrar a paciência a mais ninguém, ou pelo menos não da forma violenta e obsessiva como fazia em sessão, parece que vou ter que crescer e fazer como as pessoas. Seja lá o que isso for.

Milionária

Com a sorte que eu tenho ao amor, andava a investir pouco no jogo. Este ano resolvi deixar-me de merdas e entrar para o clube dos excêntricos. Se me querem engraxar, é agora, não é depois. Just saying.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ele há dias...

... de merda e eu não tinha um assim há anos.
(foi ontem, que o hoje já leva vinte e cinco minutos e não se vislumbram melhoras, mas espera-se por elas na mesma)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Persistir, Viciar; Repetir

Li livros fabulosos estas férias.
Adorei o livro do Mário de Carvalho sobre escrita criativa, ou melhor, sobre escrita de ficcão, que isto da escrita dita "criativa" agora aplica-se a um leque tão vasto de rabiscos, - da publicidade às composições das criancinhas, - que é bom que se saiba do que se está a falar, para evitar agruras em territórios esconsos. 
Uma das ideias que este autor defende é que um escritor de ficção deve escrever muito. Em quantidade, muita parvoíce, muito lixo, todos os dias, diferentes tipos de registos, ideias, citações, títulos, sinopses, diálogos, descrições, piadas, dilemas, questões, listas. Mas escrever, insistir, praticar, repetir, viciar-se maquinalmente no gesto escrita.
Esta sou eu a seguir bons conselhos. 
Sempre defendi a tese de que se não há nada de interessante a dizer, o melhor é estar caladinha, mas a verdade é que o crivo do interesse sou eu que estabeleço, e sou tendencialmente pró-silêncio. Acredito, por formação, por leituras que faço do que considero serem os melhores autores, por feitio, por educação e por fatalidade, que nunca tenho nada de jeito para dizer, nenhum tema interessante para tratar, nada de original a acrescentar à forma escrita. Por isso, passo imenso tempo calada e eras sem escrever coisa alguma. Continuo a acreditar que é assim, mas também aceito os conselhos dos mestres, e o Mário de Carvalho confirmou o profundo respeito que já lhe tinha, enquanto escritor, e duplicou a minha admiração enquanto teórico da cousa literaria. Assim, enchi-me de coragem, lápis, canetas e bloquinhos, caderninhos, agendas e moleskines, e anoto tudo. Resolvi vir aqui mais vezes só fazer isto, deitar conversa ao lixo, dizer de minha justiça, soletrar uma quantas parvoíces, cantar umas baboseiras, passar os dedos pelo teclado. Mal não faz. Quero dizer, se não contarmos com a inevitável contribuição para o engrossar da banalidade que grassa na maioria bruta de textos que se apanham nas redes sociais e nos blogues da moda.
Não me comprometo a fazer melhor. Mas podem esperar de mim humildade suficiente para conhecer os meus limites e não me arrogar a grandes feitos. 
Uma coisa que me faz muita impressão no panorama que vou observando é a falta de poder de encaixe a opiniões diferentes, ou a observações menos positivas, ainda que justas, sobre o que se vai escrevendo e dizendo por aí: anda tudo de monarca na pança, toda a gente é bestial, faz tudo certo, sabe imenso, e com frequência produz mais e desempenha melhor que o resto dos comuns mortais. Ó-da-guarda se alguém diz "não gosto", ou "vai lá informar-te melhor sobre esse assunto, que não sabes muito bem do que estás a falar".
Quando eu andava em estágio e tinha aulas assistidas, pegava num lápis e anotava tudo o que as minhas orientadoras consideravam errado na minha prestação, quer concordasse, quer não. Aqueles "ditos" erros, eu não cometia de novo. Obviamente, não me faltava sentido crítico para achar que havia coisas ali que eu poderia contestar, mas dava sempre o benefício da dúvida ao contraditório. As minhas colegas não apontavam nada e rebatiam cada uma das observações, defendendo tudo o que haviam feito como se estivessem num tribunal. Eu aprendi imenso nesse ano. Elas, duvido muito. Claro que isto é um caso muito específico, dado que eu estava a ser avaliada, e estava numa condição de aprendente, logo quem me observava sabia, à partida, mais que eu, para além de ser do meu interesse fazer os possíveis por ir ao encontro do que me era solicitado. Ainda assim, mesmo no contexto quotidiano do real, gosto sempre de pensar que não tenho a razão toda e que toda a gente me pode ensinar alguma coisa, nem que seja a pensar de forma diferente da minha, ou a apresentar-me ideias diferentes, quer as adote, quer as rejeite. E por gostar tanto de ser assim, e por tirar tanta vantagem dessa qualidade tão positiva que é a minha genuína humildade, lamento mais do que abomino as pessoas que estão sempre tão contentes consigo mesmas por serem tão insufladamente geniais. Até porque nove em cada dez não andam, sequer, lá perto. À que sobra, tolera-se a arrogância. E a condescendência não é muito elogiosa, digo eu.