quinta-feira, 28 de junho de 2012

Revolta

Todo o sentimento de revolta pressupõe uma noção muito forte de injustiça. Quando alguém se revolta contra a vida, tem que acreditar que a existência dá na mesma medida do esforço que se investe nela, no esforço de fazer as coisas corretamente, de ser alguém íntegro, generoso, solidário, tolerante, isto tudo apesar dos interesses, das ambições, dos desejos e dos sonhos.
Eu não faço parte desse grupo, dos que acreditam na justiça divina ou cósmica, que paga em sorte e saúde as boas ações de cada um.
Por isso não compreendo a minha sensação de revolta, a que me acompanha há dias seguidos, me amarga o espírito e me faz estar em constante desespero. Não me percebo, sinceramente.
Ando há dias cheia de dores, é verdade. É também compreensível que uma pessoa, por mais tolerante à dor que seja, esteja exausta e mal-humorada, sem paciência e pouco sorridente, a passar pelo que eu estou a passar, e que não é novidade, sejamos honestos.
O que não é aceitável é que tudo isto me ande a consumir a alma com sentimentos de "não é justo, estou farta disto, não mereço estas coisas", como se o merecimento algo tivesse a ver com os nossos infortúnios. Não há nada, porém, que seja mais verdade, que o facto de esta revolta se estar a avolumar tipo bola de neve a contaminar todos os setores da minha existência.
Estou revoltada contra a saúde, a profissão e o amor, num tudo-em-um que me sufoca com dedos transparentes e implacáveis, permanentemente fechados à volta do pescoço.
Ia eu hoje para uma reunião na escola, mais ou menos bem disposta, apesar de tudo, quando ouço o Pedro Abrunhosa com o seu sotaque do demónio a cantar "não desistas de mim" e, num flash, os últimos dezoito meses desaparecem e levo um murro no estômago que me tira o ar e me traz lágrimas em cascata cara abaixo: a mesma dor, o mesmo desespero, a mesma solidão, a mesma mágoa; tudo igual, durante longos minutos que pareceram a eternidade inteira, e a vontade quase irresistível de atirar o carro contra um sobreiro. E o quase lixa tudo, porque a coragem é nenhuma e parece que continuar a viver é um dado adquirido pelos genes, embora seja uma opção inútil e masoquista.
Ontem dizia ao DOC que ainda vou ser a primeira paciente dele a descobrir em terapia que o melhor é matar-se, embora saiba que tal não vai acontecer. Mas, se calhar, é mesmo inevitável tornar-me uma pessoa revoltada e irascível, verdadeiramente de mal com a vida, como todos acham que eu sou e, na verdade, nunca fui: houve sempre uma enorme parte do meu coração salvaguardada por uma quantidade muito saudável de ternura e sentido de humor, uma parte que de repente desapareceu, não existe mais.
E o facto de me encontrar mais uma vez doente, sem o amor que julgava pertencer-me por direito divino e humano, numa escola em que jamais verei qualquer tipo de mérito reconhecido pelas chefias, e sem hipóteses de mudança em qualquer uma das áreas referidas, faz-me achar, sinceramente, que não há rumo, nem sentido, em nada do que faça.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

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Detesto rótulos aplicados a pessoas. Ainda hoje uma encarregada de educação me falava disso em relação à filha, na mesma turma desde a pré-primária: professora, uma criança leva com um carimbo na pré e mantém-no até ao nono ano. Por mais que evolua, por mais que mude ou por mais que essa marca sempre tenha sido, desde o início, injusta.
Detesto preto e branco, detesto generalizações, detesto pressupostos, detesto preconceitos.
Detesto o rótulo que tenho, detesto que as pessoas me definam com uma ou duas palavras quando, eu própria, uso tantas e não me consigo definir devidamente.
Não nego, contudo, que palavras com fronteiras bem definidas dão uma sensação morna de segurança e que sou eu mesma,  na cadeira do terapêuta, que o bombardeio com perguntas que pedem escolhas entre opostos: peço-lhe que me diga, por favor, sou depressiva, estou deprimida ou sou simplesmente preguiçosa? Sou boa pessoa ou sou idiota? Tenho uma autoestima fraca ou sou arrogante? Sou inteligente ou tão burra que nem sequer sei viver? E ele pergunta-me, sempre, se são apenas estas as opções ou se pode escolher outras. E recusa-se a responder. E eu resmungo contra os psiquiatras. E acabamos os dois a rir.
Ontem o DOC abordou comigo um assunto particularmente difícil e doloroso. Às tantas, numa tentativa de simplificação, usou uma metáfora bem ilustrativa: há dois tipos de atitude, quando alguém está atrás de um volante de um carro descontrolado em direção a uma árvore... ou se resigna, encolhe os ombros e se deixa ir de encontro ao obstáculo, ou guina o volante, trava, volta a guinar, capota o carro e pode ir ou não de encontro à árvore, pode até morrer na mesma... ou não. Eu disse-lhe que achava que fazia parte do segundo grupo. E aí, ele surpreendeu-me. Disse-me que sim, que eu era dos que lutavam. Mas que era dos que lutavam na certeza, porém, de que essa luta não iria valer de nada e que iria, fatalmente, acabar estatelada na árvore. E que isso não era pessimismo intrínseco, era uma convicção absoluta, fruto de más experiências diversas e repetidas ao longo de uma vida inteira.
O meu problema, diz ele, não é falta de resistência, mas falta de fé. Diz que eu sou muito corajosa, porque luto em todas as frentes, apesar de estar convencidíssima de que tudo o que faça, por mais que tente, não vai adiantar nada nem mudar o que quer que seja na minha vida. E que essa é uma coragem que não faz sentido nenhum. Acreditando no que acredito, com a força com que acredito, seria muito mais natural que fosse suicidária. E não sou.
Será talvez mais difícil mudar de crenças que de atitude. E, ao que parece, não há nada de errado com as minhas atitudes. E isso, para mim, é a epifania de uma vida. E um medo novo, que agora ganha uma forma de contornos bem definidos, como um rótulo.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ainda assim...

Amanhã tenho reunião de equipa de exames à hora que deveria ter terapia, por isso fui hoje, à hora de almoço. Claro que cheguei à escola com a cara costumeira pós-DOC, de olhos esbugalhados de boga congelada há mês e meio. E embora já ninguém possa aturar ninguém, houve um colega que me trouxe um gelado, porque eu estava com "cara de quem precisava"; e houve outra que me disse, "temos que cuidar mais de nós proprios e uns dos outros. Temo-nos esquecido disso. Que é que eu posso fazer por ti?". E isso compensa o facto de vir para casa ver o jogo sozinha, com uma telha descomunal.

3 escolas, 3 atitudes

Na minha escola antiga, à altura do Portugal-Dinamarca, está tudo em reuniões de avaliação.
Na escola da Mzinha, à altura do Portugal-Dinamarca, os professores estão todos na escola a ver o jogo.
Na minha escola atual, à altura do Portugal-Dinamarca, está tudo em suas casas, a ver o jogo.
Numa trabalha-se, noutra convive-se, na minha está tudo farto de trabalhar, tudo farto da escola e tudo farto uns dos outros. Depois de uma semana como esta, em que andou toda a gente a trabalhar de doze a catorze horas por dia com as mesmas pessoas, a sensação que eu tenho quando lá chego às oito da matina, é que dormi com eles. Logo, não me admiro mesmo nada que mal sejam horas, debande o professoredo todo em rebanho. Eu, inclusivamente, a balir satisfeita.

terça-feira, 12 de junho de 2012

LOL



Truly true for me.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

E quando passa?



Ao contrário do que me costumam dizer, esta não é uma música de dor de corno, não. É muito mais triste que isso. É a melodia da ausência, quando tudo passa, até a mágoa. E sobra o vazio:

"Mas a mágoa não mora mais em mim,
já passou,
desgastei,
para lá do fim.
É preciso partir,
é o preço do amor
para voltar a viver"