Italo Calvino, na sua obra Seis Propostas para o Próximo Milénio apresenta os grandes vectores pelos quais se deve orientar um escritor que se queira interventivo e eficaz. O livro é muito bom, como excelente é o exemplo que Calvino dá, finda a teoria, na sua própria ficção. As suas propostas devem ser lidas atentamente por todos os que queiram sobre elas reflectir um pouco, antes de se auto-definirem como escritores... regressem ao texto Jade, Sweet Jade depois de ler a obra de Calvino e talvez entendam porque é que sempre tive tantas reservas aos elogios à minha escrita: não é falsa modéstia, é muita leitura de escritores dignos desse nome...
Tenho, no entanto, lido tanto disparate, tanta parvoíce, que me proponho aqui a revisitar as seis propostas de Calvino. Chamemos-lhe Seis Propostas para Principiantes. O título, desde logo, está mal escolhido, entra em aliteração e não se querem recursos de estilo em texto científico, mas vá... é para principiantes...
Um - Coerência. Um texto deve ter um objectivo preciso, ser coerente e cumprir esse objectivo. Se se pretende um texto laudatório, quero dizer, um elogio, por exemplo a um grande amigo ou a alguém que já morreu, esse texto perde completamente a força quando intercalado com fel, pus, vómito e matéria verde, os quatro pilares do ciúme gratuito e do consequente ódio patético .Ver neste blogue "Literatura Japonesa" e "Conversas de Sofá".
Dois - Humildade. Qualquer texto passa a ser anedótico quando se usam expressões como "tenho uma vasta cultura..." É que até pode ser verdade, mas cabe sempre aos outros avaliar. E há sempre leitores com culturas e saberes mais vastos que os nossos, que vão rebolar a rir. É imediatamente a desacreditação do autor.
Três - Correcção Linguística. A gralha admite-se, o erro ortográfico e a óbvia falha de concordância, o pronome reflexo repetidamente mal usado, proibitivos. Quem escreve com a convicção de que está a contribuir com algo para quem lê, tem que ter conhecimentos linguísticos que sustentem tal presunção. Se não, o melhor e "acanhar-se", "ter vergonha", ou como diz o meu orientador, "ir estudar".
Quatro - Selecção de Imagem. Qualquer imagem ilustrativa deve ser isso mesmo, ilustrativa. E, de preferência de bom gosto. Este "bom gosto" é discutível, obviamente: porque se gostos não se discutem, discute-se o quê? Se gostos não se discutem, pelo menos, lamentam-se.
Cinco - Estilo. Um texto deve ter classe, acrescentar algo, ser original. Meia-dúzia de chavões e lugares-comuns não distingue um texto de uma lista de compras.
Seis - Tal como na obra de Calvino, este fica em branco. Que o douto leitor pense nisso, e elabore por si a sexta regra, fruto da sua própria originalidade e excelência, para que cada escritor tenha em si mesmo algo de único.
O Governo adverte que o uso de expressões como "Gosto de ti como Quem Gosta de Sábados" e "Engraçadinho", podem ter consequências nefastas na saúde mental de cidadãos mais frágeis, desencadeando reacções alérgicas despropositadas e perigosas, plenas de efeitos secundários auto-destrutivos. Se possível, usá-las com moderação.
6 comentários:
Acrescento uma nota de rodapé ao ponto três, por achar que é muita presunção ir logo escrever o ponto seis. "Português, língua viva", Mendes Silva, 1985, Circulo de Leitores - Jogos de lingua portuguesa para estimular uma expressão escrita e oral mais correcta. I love the smell of nappalm in the morning!
LOL
Opá, é que a malta da caravana às vezes também se irrita com tanto ladrar das matilhas, apre!
Embasbaco perante a face negra do amor, que é o ciúme. Como é possível que este sentimento, que se diz apimentar relações, quando doseado, cegue uma pessoa ao ponto de fazer correr rios de tinta maldosa com a certeza absoluta de que está certíssima? Não me agride tanto o facto do ciúme ser suscitado por um pormenor ficcional, isso é apenas um detalhe hilariante de tão triste; o que me incomoda mesmo é um sentimento tão mesquinho ser tão poderoso no carácter de uma pessoa, afastando-a da realidade e matando todos os caminhos possíveis à indiferença. Assim se alimenta o desprezo, a pena, a decepção, o choque e o não-reconhecimento. E ainda há a incoerência, os telhados de vidro de quem continuamente joga pedras, o profundo pesar que é para mim olhar alguém com genuíno desdém, daquele que desmente o ditado, porque não quer, de facto, comprar.
How is your spleen today?
Which of them??? LOL
O de cima, porque o de baixo já toda a gente sabe que está muito bem obrigada...
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