Não sei ainda o que vou escrever, não tenho sono, mas estou exausta, não me apetece ser produtiva e, por exemplo, dar um jeito à feira em que se transforma o meu quarto depois de uma semana de correria, abrir a pasta electrónica que diz "dissertação de mestrado", folhear um simples livro, não me apetece.
No ano passado, a M., quando se despediu de mim, com um grande abraço e de lágrimas nos olhos, disse-me, que o teu futuro seja muito melhor que este ano... porque este ano foi penoso. Mal sabia ela... ou tão pouco eu, que este ia ser bem pior, sem a meia-leca a resmungar no nosso sofá, ou a bater com o nariz nas montras, ou a comer donuts uns atrás dos outros, ou a tirar e pôr vernizes inacreditáveis nas unhas.
Não sei se todos os professores são assim, mas os meus anos são contados de Setembro a Julho, e não de Janeiro a Dezembro. Este, foi de fugir.
Apesar de não haver uma guerra aberta, como no ano transacto, entrou-se em fase de guerra fria. E o frio é-me desaconselhado vivamente pelos médicos. Houve menos calor humano, menos emoções, menos convívos, muitas chatices, muitos problemas, muita gente a oscilar nos dias em que fala e não fala, nos saúda e nos ignora, nos adora e nos odeia. Não tenho paciência, nem estrutura emocional, para maltinha incoerente, para pessoas de duas caras, para gente de lealdades dúbias.
Vim muitas vezes para casa decepcionada. Este foi o ano das grandes desilusões, das grandes revelações, das grandes epifanias: mas afinal este povo é parvo ou faz-se?
Perdi definitivamente o grande amor da minha vida. Mudei de casa duas vezes. Tive acidentes de percurso normais no contexto da saúde. Conheci o pior espécime da natureza humana com que lidei até à data. Pasmei com o que há de sombras num dia aparentemente soalheiro. Cresci. Crescer dói.
Houve momentos, há momentos, em que peço ao mundo que páre, para eu me poder apear. Houve momentos, há momentos, em que, com uma cara impassível, no meio de uma sala de professores cheia de gente, me apetece chorar em silêncio, e o fogo da alma me queima as lágrimas antes que brotem. Houve momentos, há momentos, em que não sou mais que um poço vazio, todavia cheio até ao topo de solidão e tormenta, por trás de um sorriso que alguns dizem ser agradável. Houve momentos, há momentos, em que surpreendo alguém a olhar-me nos olhos e baixo os meus, para que ninguém me leia o que vai na alma triste, e ache que eu sou, apenas, uma fulaninha ríspida e arrogante, em vez de frágil e completamente à deriva.
Alguns comentários a este blogue dão a entender que sou uma pessoa corajosa. Serei. A coragem não é a ausência do medo, mas a capacidade de o enfrentar. E eu, usando a metáfora de um dos leitores, trago sempre comigo na mochila o medo. O medo de perder, o medo de falhar, o medo de desistir, o medo de desiludir, o medo de ficar doente, o medo de ceder, o medo de ser usada e manipulada com fins obscuros, o medo de não estar à altura de todas as minhas responsabilidades, profissionais e morais, o medo de ser mal-interpretada, o medo do próprio medo, que paralisa, condiciona, subjuga, sufoca.
Quando era miúda, era uma miúda cinco estrelas. Tinha garra, tinha sensibilidade e ternura, tinha objectivos claros, o céu era o limite. Desses tempos, resta-me o sentido de humor e a gargalhada fácil e escarninha. Resta-me todo o amor do mundo, sem destinatário digno disso. Resta-me uma ternura que dispenso apenas a menores de dezoito anos. Resta-me um sentido de amizade profundo e sério, que me leva fazer uma viagem de ida e volta a Lisboa porque tenho uma amiga que precisa de mim, e tem que ser hoje. Desses tempos, tudo o que resta, agora, é afunilado, guardado e oferecido a muito pouca gente.
Talvez a maior dor de crescer seja descobrir que a nossa história de encantar tem sete bruxas más por cada anão amigo.
Despeço-me com (mais) um diálogo do Pretty Woman... diz Gere "Few people surprise me" e responde Julia "You're lucky. Most of them shock the hell out of me". E quem desabafa assim, não é gago.