quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Adorable

Numa turma de gralhas meias-lecas, passo a vida a gritar que se calem. Hoje, já desesperada, rosno-lhes: "Vocês não têm vergonha de que todos os professores venham dar-vos aulas contrariados e não gostem nada da vossa turma?", ao que uma vozinha me responde, muito triste, "Isso não é verdade! A professora de TIC até nos chama periquitos!"
E eu tive vontade de abraçar aquele periquito indignado.

Pérolas da Jade

Não são só os alunos que são parvos. Hoje, um lia o seu parágrafo sobre a amizade e diz "My friends have to like football and be funny". E eu, logo... Futebol está bem, mas para que tem um amigo teu que gostar de bifanas?
Bonito serviço.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da janela da sala de professores, olho a curva onde estacionaste o carro, com fé de que, por tanto olhar, ele lá se consubstancie, contigo parado à porta, a sorrir.
Ficarias admirado se me viesses ver e me perguntasses há quanto tempo não choro a tua ausência. Não a choro há vinte minutos, e já passaram quase dois anos.

domingo, 18 de novembro de 2012

Decorações de Natal

O Chico descobriu as potencialidades dos rolos de papel higiénico e só posso dizer que parece que nevou de repente na minha sala de estar. De repente, porque se me distraí vinte segundos foi muito, mas o suficiente para o raio do cão se deixar contagiar por um espírito natalício da tanga.

No Bairro dos Avós

Moro num enorme bairro antigo cuja média de idades da população residente deve rondar os 65 anos. Os velhotes têm caraterísticas muito especiais, como toda a gente sabe. São seres de grande experiência, pouco filtro, e um enorme orgulho a roçar a arrogância, com o paternalismo de quem acha qualquer pessoa abaixo dos cinquenta anos um pateta que não sabe nada da vida, e continua a ser alguém que precisa de críticas e conselhos gratuitos e não solicitados.
Neste bairro ninguém me trata pelo nome ou pela profissão, como sempre estive habituda a que fizessem, ora era Bom dia, Jade, ora Bom dia, professora. Aqui, ninguém se dá ao trabalho de saber como me chamo ou o que faço, e todos os dias sou cumprimentada como desconfio que são todos entre os três e os cinquenta anos: Bom dia, menina!
Mas, se por vezes me irrita, por outras dá-me imensa vontade de rir porque, se calha estar com o meu cão, a seguir ao "menina", e às vezes mesmo antes, tão fatal como o destino vem um "Olá Chico, estás bom? És muito lindo...."
O meu cão é o rei da cocada preta.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pérolas da Província

Depois de um aluno ter dito uma palermice monumental, saio-me com o seguinte desabafo, numa turma, "Oh, please, shoot me now!"
No meio de um coro abismado de "é o quêiiiii????", uma das boas alunas, diz, como se os outros fossem todos atrasados mentais: "A professora disse para lhe darem chutos."
É assim, a minha vida: tão emocionante que só ao pontapé. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Escreveste algum post novo?

Sim, há dias em que me apetece fugir para longe mas não tenho com quem, e gostava que me agradecessem só para variar, e queria que me reconhecessem as qualidades e o esforço para além de um "como é que tu consegues ter tudo pronto a horas?", e agradava-me não ter responsabilidades reais a juntar àquelas que não são minhas mas assumo. Sim, há dias em que a vida pesa mais um grama que o suportável, a gota de água entorna o copo e o grito fica preso na garganta, apetece chorar, desistir, espernear e o corpo não obedece, imóvel e mudo. Sim, há dias em que as injustiças de que somos alvo superam as de outras vítimas, em que a falta de tempo para parar, espreguiçar e alongar os músculos e a paciência nos tortura, e a esperança se eclipsa totalmente sem que o espetáculo valha a pena. Sim, há dias em que saio à rua tipo serial killer, imaginando maneiras sádicas e atrozes de matar seres cuja existência no meu mundo não faz o menor sentido, ratos de esgoto e baratas ascorosas. Sim, há dias em que as vozes formam um coro indefinido de exigências e cobranças, e o desagradável se avoluma, e me doem mais as mãos do que o costume, levo tempos infinitos em guerras com atacadores e botoões de jeans exatamente quando estou atrasada e os ponteiros do relógio correm em vez de se arrastar. Sim, há dias em que engulo pior, e parece que todo o meu sistema está contra mim, e me olho ao espelho e o cabelo está de meter medo, não tenho roupa que me fique bem, os meus olhos mal se veem de inchados que estão, quando nem me lembro da última vez que chorei alguma coisa que se visse. Sim, há dias em que a ausência dele dói mais, como se tivesse sido ontem que o vi pela última vez sem saber que seria a última vez, e ainda achava que tinha ganho a sorte grande e tudo iria ficar bem. Sim, há dias em que me apetece desancar quem me admira por coisas parvas sem saber que se me conhecesse, então, me punha num pedestal, me lavava os pés com água de rosas e passava o resto da vida a idolatrar-me e a fazer-me feliz. Sim, há dias em que o sol, os cigarros à noite, o café depois de almoço, as palavras de incentivo, as aulas bem dadas, os abraços dos amigos e o meu cão a dormir com uma pata possessiva sobre o meu joelho não chegam para me aquecer o espírito. Sim, há dias em que trato mal toda a gente só para ter desculpa para me sentir ainda pior comigo própria, para sentir o remorso e a culpa de forma acutilante o suficiente para ter a certeza de que estou viva para além das rotinas funcionais em que teimo embrenhar-me para fugir ao descalabro. Sim, há dias em que gostava mesmo muito de ter uma folga desta estupidez toda que me rodeia, que me penetra, que me contagia, que me impede de ir a Nova Iorque e de regressar a Veneza, que me empurra para a frente apesar de adiante a linha ser sempre curva e o meu percurso um círculo permanente. Sim, há dias desses. E são sempre dias com muito mais horas que os restantes, aqueles em que me arrasto sem questionar nada, e tudo é maquinal e automático e muito mais suportável.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Riam-se!

Ando há uns tempos sem escrever porque estou numa fase de destilar veneno e só me ocorre insultar gente. Ou a vida em geral. Por isso, deambulando pelos blogues de que gosto, encontrei isto, e é o que vou publicar. Antes isto, com esta qualidade, e com esta verdade, que as coisas deprimentes que me apetece gritar, revoltada, ao mundo. E seus arredores.

http://theoatmeal.com/comics/dog_paradox

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Isto promete...

Passamos tanto tempo na escola que já houve quem arranjasse uma cafeteira elétrica, há pessoas que levaram, para um armário, canecas, e há sempre quem leve saquinhos de chá e pacotes de açúcar para abastecer a "dispensa". Maçãs e bolachas vão aparecendo diariamente e, quando há reuniões, alguém desenrasca sempre "umas cenas" para o lanche.
Hoje à tarde, entrei na sala de professores e estava um colega meu de canequinha fumegante na mão. Eu, gulosa, dirijo-me a ele, "então, V. a beber um cházito?" Resposta pronta e imediata: "Não havia whisky!"

sábado, 20 de outubro de 2012

Animador

Ontem, ao jantar, um amigo meu dizia que estou completamente diferente. E que tinha sido exatamente isso que um amigo nosso comum lhe dissera há uns dias atrás. E, pasme-se!, não se referia ao meu corte de cabelo boyish.
Há meses, quase meio ano, que sinto essa diferença, nos acordares mais leves, na aceitação própria mais fácil, e nos desesperos (muito) mais espaçados. No modo como caminho pela rua, olho nos olhos das pessoas e até consigo sorrir sinceramente. Num jeito de ser tão, mas tão, mais meigo do que aquele que me acompanhou durante mais de metade da vida e pareço ter conseguido resgatar da infância e adolescência perdidas.
Todavia, durante esses meses, poucos foram os que comentaram ou se aperceberam. Houve até quem não entendesse por que motivo sórdido deixava eu tanto dinheiro no consultório do meu terapêuta. "Ainda andas nisso?". Nunca desmoralizei. Quanto mais não fosse, chorava naquele gabinete o que não chorava em mais lado nenhum, e dizia lá dentro coisas que evitava, sequer, pensar. Continua a ser uma hora sagrada e, sim, ainda ando nisso, e não, não tenho pressa de alcançar objetivos. Agora acredito na possibilidade do equilíbrio. 
Surpreendo-me a sonhar acordada com pessoas que não conheço e que possam estar a sonhar acordadas comigo. Continuo a achar que perdi alguém estupidamente, mas aceito e acarinho a ideia de que a estupidez, pelo menos nesta situação específica, não foi minha. Acredito que com ele é que era, que com ele é que poderia ter sido. Há momentos em que essa certeza me bate diretamente na alma como um raio, e a corta em dois como a uma árvore morta ainda de pé. Mas aprendi que as raízes debaixo da terra servem para alguma coisa, e essas são demasiado profundas para que seja possível arrancar-me àquilo a que me agarro, desde sempre. Dou comigo, finalmente, a tomar iniciativas, a adormecer quando me apetece sem culpas, a ligar para os meus amigos, a ir a espetáculos, a chatear a molécula aos meus colegas para organizarmos um jantar, a pegar no cão e fazer mais de duzentos quilómetros para ele ir ver a avó, a ler antes de adormecer, a dar aulas plenas de gritos e risos, sermões e regras de gramática, como gosto de fazer.
Dou comigo viva, e isso é animador.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

E ainda digo mais

Eu, que sou mesmo pacífica a sério, começo a achar que em vez de bater tachos e panelas, deviam pegar nelas e fazer pontaria às fuças dos idiotas que estão no poleiro. Se, só uma que fosse, acertasse no alvo, já era lucro. Por isso, nem quero pensar no que passa pela cabeça da malta dada à violência.

IRS

Não digo que vá fazer parte dos novos pobres, decididamente não vou. Muito se fala de pobreza, muito tenho visto na televisão, e dá-me asco saber que há representantes eleitos a dizer "agora querem que eu ande de Clio, não?". Esse devia ter sido imediatamente deitado num contentor de lixo e coberto de estrume à saída do Parlamento, grande imbecil.
Mas custa-me muito estarem a cobrar-me um disparate de impostos para pagar uma dívida que dizem pública, quando continua muita gente a roubar e a dar-se bem. Custa-me muito trabalhar para não me sobrar dinheiro ao fim do mês para absolutamente nada, e muitas vezes ter que ir levantar da poupança para pagar supermercado e contas fixas. Custa-me muito que se discutam aumentos para os parlamentares e se gastem milhares em carros topo de gama. Custa-me muito ser considerada pelos impostos quase rica, quando os meus jeans andam a ficar ruços e rasgados e não posso comprar outros porque foi mês de fazer mudança de óleo ao carro. Custou-me muito ouvir o ministro das finanças dizer que não há margem de manobra possível a não ser lixar, mais uma vez, os mesmos.

Cinco minutos

Hoje devia ter torcido um pé, ou marrado de cabeça contra uma parede, quando entrei na escola. Talvez assim não tivesse ido à Direção ter uma conversa de cinco minutos que deu cabo do meu bom humor para o resto da semana.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ainda por cima...

... só me dá para reler coisas que me entristecem, e os bloggers de que mais gosto parecem meus pares em terapia de grupo para seres deprimidos. Todos por falta de amor, por secura cardíaca, por ceticismo crónico, já. 
E eu continuo na minha... um dia, hei de perceber, quando me der a epifania, por que razão a vida só me apresentou pessoas que não arriscam por amor. Mesmo quando as amarras não metem filhos à mistura, com que possam desculpar a cobardia de forma aceitável. E, principalmente, por que razão estou eu nos antípodas mentais dessas pessoas, e arrisco sempre tudo, para me espetar a grande velocidade num solo de betão armado e passar anos da minha vida em recuperação e gestão de danos.

Atropelada

Uma das minhas expressões favoritas quando me estão a chatear é "vai marrar com o comboio de Chelas!" Pois o comboio de Chelas decidiu vir marrar comigo. Ou assim parece. Que dia! Safou-se o jantar e o serão, com rojões e vinho tinto, "Herdade da Figueirinha", reserva de 2009. Mas se fosse vinho de mesa para temperar bifes também tinha marchado. Estou exausta.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Acentos gr´´aficos

Duas teclas do meu computador andam a gozar comigo. Carrego-lhes uma vez, e o resulltado ´´e a dobrar, como podem ver:`` ´´ ~~ ^^. Da´´i o t´´itulo est´´upido. Da´´i estas palavras est´´upidas. Ser´´a que andaram nos copos e eu ´´e que vejo a dobrar?
Assim n~~ao d´´a para escrever posts. E eu lamento. Tamb´´em n~~ao d´´a para trabalhar. Mas com isso posso eu bem.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Little big things

Hoje foi um dia bom porque alguém de quem gosto muito me disse que eu era valente. E que tinha perfil para ser diretora. Não tenho. Sei que não tenho e sei também que jamais terei, mas fiquei muito grata pela confiança. E vaidosa, também. Dado que a vaidade em mim é coisa rara, acabei por ter um dia muito sui generis, de uma leveza alegre a que não estou habituada e à qual, ainda assim, seria muito fácil habituar-me.
Ah, e fui jantar fora, comida chinesa. E não paguei o jantar, ofereceram-mo. 
Há dias muito pontuais em que sou alguém mesmo fácil de agradar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Frio

Às vezes, aquilo que nos faz falta, torna-se o nosso Mundo inteiro.
Tenho alguma esperança que, no dia em que tenha que morrer, leve ao pescoço um enorme cachecol entretecido com os fios dos meus consolos. O cheiro da minha mãe, os sorrisos dos meus alunos, os abraços dos meus amigos, os olhos húmidos do meu cão, alguns beijos significativos. E que esse cachecol quentinho e macio me aqueça a alma na transição.
Porque hoje foi o primeiro dia, desde há muito, que tive frio ao sair da cama.
E porque tenho pena, e me faz falta, ter o amor da minha vida ao meu lado, e um filho parecido com ambos a fazer-me perguntas difíceis e birra por não querer comer legumes.
E porque, às vezes, aquilo que nos faz falta, se torna o nosso Mundo inteiro.  

domingo, 16 de setembro de 2012

Sobre a(s) manifestação(ões)

Hoje senti o peso de continuar lisboeta. Já estou no interior do país há mais de dez anos e, aos poucos, tenho-me transformado numa espécie de híbrido, com um alargado poder de encaixe aos costumes enraizados desta terra que me dá emprego.
Há muito que me desmarquei duma pseudoculpa inicial, em que tentava mudar as mentalidades de modo subtil ou tinha o cuidado extremo de não parecer arrogante aos olhos dos locais, na sua maioria, diga-se de passagem, sofredores de um orgulho no seu conservadorismo que tem mais de hipocrisia que de tradição. Deixei-me de andar sempre a pedir desculpa por ser diferente, por pensar de forma distinta, por agir de acordo com outros valores. E encontrei o meu lugar aqui, um pouco nas franjas, mas adaptada ao sítio e às gentes. Passo bem por conterrânea e já não é a primeira vez que surpreendo gente, que não me conhece, com um "sou de Lisboa".
Hoje, no entanto, sem companhia para a manifestação, via as notícias da minha terra pela televisão e resolvi dar um salto à daqui: já estava em pulgas com o meu espírito revolucionário em ebulição, e resolvi que queria que se lixasse a falta de alguém com quem partilhar a emoção dos gritos de protesto. Peguei no carro e em dois minutos estava no centro dos acontecimentos. Eu, e mais uma dúzia de gatos pingados! Ia-me dando uma coisa má. Telefonei a uma amiga, e passei o resto da tarde com ela, a resmungar contra o governo e a apatia desta terra. À noite, numa esplanada, soube que, afinal, a manifestação tinha estado muito composta, com centenas de pessoas na rua. E eu, quê? Então eu estive lá e só vi gente nas esplanadas! E ela, pois, eu estava na esplanada e vi-te, mas quando chegaste já tinha acabado há uns bons vinte minutos...
Ora eu cheguei às seis a uma manifestação que tinha sido agendada para as cinco. Fiquei de boca aberta. E ela então explicou-me que nesta terra "as pessoas são pontuais".
E eu calei-me, mas pensei "Na minha terra, uma manifestação que dure meia hora não é nada!".
Tenho saudades da luta contra a PGA, as propinas e a Avaliação Docente. A malta chegava a casa rouca e de rastos, depois de seis ou sete horas de pé e aos berros. Sou de Lisboa. Excuse Me.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ahn?

É o segundo pedido, em coisa de um mês, para votar no trabalho de alguém para um concurso. Duas pessoas diferentes, dois trabalhos diferentes, dois concursos diferentes. Em comum: duas pessoas que eu ajudei, de quem fui amiga e que, se for preciso e dependendo da companhia com que estão, o mais provável é passarem por mim na rua e fingirem que não me veem. E eu penso... ahn?
Não foram certamente os dois trastes que se lembraram de me contactar a pedir o meu voto, qualquer um deles não tem espinha dorsal para se atrever a fazê-lo. Mas ainda assim, a minha vontade é sempre, mas sempre, votar no seu adversário mais direto.
Em tempos, teria votado na mesma, por achar que têm talento, que os trabalhos até são bons, ou porque gostei dos nossos tempos de convívio e gargalhadas e lhes admirei as qualidades. Houve tempos em que teria votado neles, anonimamente.
Hoje em dia, penso que, nesses tempos, era uma rematada idiota.
Não ajudo ninguém a pensar no que vou obter em troca. Mas aprendi a pagar na mesma moeda, se for possível, a desconsideração de quem me deixa na mão e entregue a mim mesma, quando preciso. É muito frequente isto acontecer, muito mais frequente do que lixarem-me a vida ostensivamente. Mas acho igualmente grave. Porque a atitude de quem olha para o lado quando se precisa de ajuda, no meu caso, vem sempre de alguém que, quando precisou de mim, contou comigo.
Posso afirmar, com toda a calma do Mundo, que não mexo uma palha para ajudar quem não merece. Também não prejudico... mas só porque me controlo, ainda me controlo, com a máxima de "nem esse trabalho mereces!"

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sobre mulheres e palavras

Estou exausta. Parece que me passou um comboio por cima, fez marcha atrás (por acaso acho que os comboios não têm essa possibilidade, mas é para a imagem, permitam-me a liberdade (pouco) poética) e voltou a passar por cima de novo.
Dizem que as mulheres falam muito. Muito mais do que os homens. Algumas falam tanto que até as outras mulheres dizem "fulana não se cala um bocadinho, pá!".
Eu não sou normal. Tenho um colega de escola que diz que não percebe como sou solteira, já que sou uma benção de gaja que fala pouco, tem um timbre aceitável, um volume adequado e de manhã, então, nem abre o bico. É um facto. (Não que sou uma benção, mas que falo pouco, tenho zero de habilidade para conversas de circunstância e ice-breakers, e detesto que me façam perguntas de rajada, umas atrás das outras, que me chateiem logo pela manhã ou que entrem em monólogos intermináveis sobre assuntos que não me interessam nem levemente. O meu colega diz que é uma benção, o resto do mundo chama-lhe mau feitio.)
Como coordeno os diretores de turma da minha escola, e hoje reunimos pela primeira vez, tive que falar durante mais de uma hora. E parece que se me exauriu a paciência, e se me esgotou completamente a energia.
Cheguei a casa e disse à Mzinha "Não me leves a mal se falares comigo e não te responder". É que não me apetece ouvir ninguém, nem consigo concentrar-me num discurso com mais de três palavras. E muito menos falar. Estou com a minha interação verbal e social abaixo de zero. Devia ter nascido gajo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Bom Ano, o camandro!

Hoje foi o dia em que a maior parte do corpo docente se apresentou ao serviço na minha escola. Corpo docente é uma hipérbole descarada. O corpo passou a ser esquelético, como o meu antes das dilatações. É um estafermo de um corpo reduzido a trinta tristes que vão ter que fazer o mesmo trabalho que antigamente era feito por quase cinquenta que, já assim, trabalhavam quase doze horas por dia na escola. E os escravos, ainda por cima, levam com a brilhante sentença "E muita sorte têm vocês por ter emprego", que justificará, em cabeças de inteligência reduzida e chico-espertice dilatada, tudo de mau que por aí venha.
Bom Ano, diziam as pessoas, com um sorriso, como se fosse dia de celebração, renovação de votos e listas de resoluções de ano novo, feitas por ingénuos ou atormentados por sentimentos de culpa de quem vive uma vida em que não se reconhece.
O meu dia de ano novo começou logo com o Chico às dez para as sete da manhã a chatear-me a corneta para, por volta das oito, me destruir em três segundos um par de havaianas que já duravam há uns seis ou sete anos. E como é que isso se faz? Perguntem ao meu cão, que em vez de se entreter a roer-lhes a sola (que a dona é abandalhada e andaria com elas assim mesmo) arrancou a uma delas -para quê ter trabalho? - o disco que suporta em baixo a ceninha de enfiar o dedo. Por falar em enfiar, quem lhe enfiou três ou quatro violentos chapadões no focinho satisfeito fui eu, que de manhã é que se começa o dia.
Furibunda que só visto, cheguei atrasada à boleia que tinha combinado para, fechada a porta do carro, me lembrar que a única coisa que deveria mesmo levar para a escola, a minha pen, ficara em casa. Azarecos. Não arrisquei voltar para trás e levar com uma mijadela ressabiada nas calças de ganga lavadinhas, já agora, para perder mais tempo a mudar de roupa e assassinar o cão.
E eu, que estive todas as santas férias sem dizer palavrões, coisa rara e nunca vista, já tinha dito e repetido toda a lista escabrosa dos que conheço quando cheguei à escola, onde toda a gente me desejou Bom Ano.
Primeiro pensamento instintivo da Jade: "Bom Ano, o caral*inho!"
Primeira reação ponderada pela Jade: Um chapadão nas trombas.
O que realmente aconteceu: Pausa. Sorriso. Pausa. "Bom Ano para ti também", rematando em silêncio "E vai p'ró caral*inho!"

domingo, 2 de setembro de 2012

Arrancar Palavras a Ferros

Esta coisa do escrever tem muito que se lhe diga, e quando alguém, a referir-se às artes, falou em 10% inspiration, 90% perspiration, teria alguma razão. É verdade que alguns de nós nascem com jeitinho para encontrar palavras próximas daquilo que querem exprimir, e durante a sua formação, por interesse ou por destino e às vezes por maldição, aprendem e aperfeiçoam técnicas de escrita, dominam regras e convenções e acabam por conseguir escrever textos que mobilizam os outros e os fazem sentir, reconhecer-se, pensar.
Sou, sem sombra de dúvidas, uma dessas pessoas, e estou grata por isso, mas a verdade é que tenho muita dificuldade em arranjar assunto, dado que eu própria me sinto um pouco cansada de escrever sempre sobre as mesmas coisas, e sempre no mesmo tom, intimista e confessional.
Sou muito exigente comigo própria. Leio mais de meia dúzia de blogues com regularidade, não me canso nada deles e, sejamos honestos, os autores não inovam em assunto por aí além. Uns são sobre moda, outros sobre educação, e um ou dois sobre a vida privada e quotidiana dos seus autores, como o meu.
Acontece que eu estou sempre convencida de que a vida dos outros é mais interessante de ler que a minha, e tenho fases em que se passam semanas que eu considero não serem dignas de posts, mesmo dos fraquinhos.
Ultimamente, durante as férias de Verão, houve várias coisas a acontecer, várias coisas que me marcaram, mas aí, em sobra de motivos importantes sobre os quais dissertar, faltaram as palavras. Mentalmente, e com frequência durante aquele limbo entre o adormecer e o estado de vigília absoluta, tentei construir frases, como se de um puzzle de palavras se tratasse, mas a verdade é que continuo sem o mínimo jeito e paciência para montar algo que faça sentido a partir de milhares de peças com infinitas combinações possíveis e desesperantes por pequenas, por desencontradas. Scattered.
Acontece que a escrita é uma das raras coisas que eu levo realmente muito a sério, que me completam e me satisfazem, me consolam e me seduzem. Por isso, hoje, resolvi que sem assunto nem imaginação, teria que escrever aqui qualquer coisa, para dar uso à técnica, praticar a linguagem e desenferrujar dedos e teclado. Dar descanso ao rato, que uso maquinalmente para me alienar em jogos enquanto viajo por outras paragens longínquas de estados de alma mais ou menos sombrios.
Então lembrei-me de uma conversa recente, em que uma amiga me dizia que quando está no fundo do poço, mesmo no fundo, o que não acontece assim com tanta frequência, apesar da tendência humana para sermos todos um bocadinho drama queens, faz listas de coisas que gostaria muito de fazer e começa a fazê-las. Coisas parvas, coisas úteis e life-changers.
Não vou fazer essa lista agora nem aqui, nem me encontro no fundo de um poço, nem me parece que, de momento, precise de listas de a-fazer, para além das que a partir de amanhã me vão inundar a agenda, o espírito, e as enzimas do stress.
Por isso, vou deixar umas palavras sobre o que seria uma lista de "feitos", se disso se tratasse, mas tirando à palavra a conotação de "grandes e importantes conquistas".
Experiências. Novas, renovadas, recuperadas, felizes, infelizes.
Subi, pela primeira vez, a um farol e não pude deixar de me lembrar d'As Aventuras dos Cinco, que o meu avô me lia baixinho para eu adormecer e tinham o efeito contrário. Comi pela primeira vez "Tripa" na praia da Bairra, e achei, pela primeira vez, que algo era doce demais para mim. Conduzi, pela primeira vez, um SAAB, uma banheira monstruosa de carro sem um risco e um grão de pó, numa aflição do arco da velha, e consegui não bater em nada, apesar de ser na Lisboa em hora de ponta. Vi, pela primeira vez, um bom amigo ir-se numa cama de hospital, com um cancro daqueles que nos habituamos a ver em personagens de filmes e julgamos, ou convencemo-nos, que não passam de ficção. Estive numa sala de quimioterapia e fiquei com a certeza absoluta de que o meu voluntariado de eleição seria junto de crianças a passar por este tratamento infame, mas tão importante. Dediquei muito mais tempo a estar com os meus amigos e família, e descobri uma primita chamada Joana, que bem poderia ser a minha Joana, de tão singular criatura que é. Cortei, pela primeira vez, o cabelo à rapaz por iniciativa própria, e a maturidade trouxe-me alguma satisfação pessoal com a imagem do espelho, que considero isenta de todo e qualquer sex-appeal, e ainda assim, agradável, talvez porque esteja mesmo convencida que os meus dias acompanhada por um homem que me faça sentir algo mais que uma bonita amizade, are over. Deixei-me comover e chorei no meio de um concerto com milhares de pessoas à volta, porque no fundo tenho pena de não ter sido talhada para ser feliz aos amores, e por ter perdido pessoas, física e metaforicamente, que sei que não vou recuperar. Conduzi centenas de quilómetros por achar que era mais útil noutro lugar, ou para acompanhar gente que precisava de mim. Tentei com todas as forças fazer os trabalhos de casa que o DOC me marcou, mas tive pouco sucesso, fruto das circunstâncias e de um feitio doentio que me cobra sempre muito mais do que posso pagar. Mexi-me do meu espaço para estar com pessoas que mereciam o esforço enorme para combater a inércia, e valeu sempre a pena. Vi o meu cão crescer e, embora nada fosse o que eu esperava, nem amor à primeira vista, nem à milésima, e muito menos mútuo, começo a ter uma relação com ele de alguma proximidade. Senti, por diversas vezes, crescer o respeito que tenho por mim própria e pelo que sou capaz de fazer. Senti, também, crescer os níveis de aceitação pelos meus limites, descobrindo que não são mais estreitos que os do resto do mundo, e que tenho mais resistência do que pensava ter, se encarar as vicissitudes da vida sem achar que o universo conspira contra mim.
Bem vistas as coisas, o saldo é positivo, e sempre consegui desencantar um texto de uma página em branco e uma alma cheia de nada.
 

domingo, 12 de agosto de 2012

Fujam do Hospital d'Os Lusíadas

Não há palavras para descrever os últimos dias. Tenho um amigo de longa data a morrer de cancro no Hospital d'Os Lusíadas, onde a família está a pagar pelo menos 250 euros por dia para lhe dar o máximo de conforto e cuidados, e alguma dignidade na hora da partida quando, de facto, está a ser tratado abaixo de cão, não é alimentado convenientemente porque "arranca os tubos", não é higienizado corretamente porque "tem muita força", não é medicado convenientemente porque "outra merda de desculpa qualquer", cai da cama três ou quatro vezes por noite porque "não pode ser amarrado, é muito novo e está muito lúcido" embora não reconheça a filha a maior parte do tempo.
No entanto, foram estes mesmos profissionais de saúde que esconderam à família que, em consultas ambulatórias era nítido que ele constituía um perigo para si mesmo e os outros e o deixaram ir para casa, a conduzir, com a locomoção muitíssimo comprometida, desidratado e cheio de metásteses no fígado. Foram estes profissionais de saúde que tiveram que ser obrigados aos gritos a interná-lo e agora dizem à família "Vá passear que está um lindo dia de sol, descanse, não era isso que queria?".
Podemos todos ser vítimas de azar. Mas estes azares não deviam existir num país democrático em pleno século XXI.

sábado, 21 de julho de 2012

Back to life, back to reality

Passou.
Foi muito triste, é sempre um pouco mais triste, de cada vez que me vejo reduzida a um corpo frágil transferido de uma maca para uma cama de hospital, onde as enfermeiras desfilam para me tirar a tensão, me picar as veias (a minha mãe horrorizada, prestes a bater na que me enfiou o cateter do soro, "eu vou-lhe ao focinho", rosnou quando a gaja virou costas, "tu és tão forte e estás com cara de quem está cheia de dores, eu juro que a esgano"), me perguntar pela enésima vez se estou bem, se tenho dores, se estou tonta.
Desta vez a minha mãe esteve comigo, e foi reconfortante, por um lado, e muito pior, por outro. Sei bem o que digo, quando teimo com toda a gente que quero passar por tudo sozinha, o inferno é a triplicar quando se vê quem nos ama a sofrer.
No ano passado, a coisa correu melhor, sem assistência. A solidão é avassaladora, mas eu sabia que estavam comigo, pelos telefonemas e as mensagens - houve até quem ligasse para o hospital a saber de mim... pessoa essa que, este ano, já não esteve: a minha vida tem destas ironias trágicas.Mas tem também coisas muito boas. Há amigos que, desde que o são, estão sempre.
Há um ser especial que conheci graças a este blogue, que está sempre.
Está.
Sempre.
E ainda assim, escreve,

"Hoje, como muitas vezes – bem sabes, não me fazes falta para estar. Faz-me sim, falta que esta distância toda não a fosse. Faz-me falta estar por perto. Passar no hospital a dar um abraço e desejar boa sorte antes da operação. E passar de novo mais logo a saber como correu, talvez não por ti, mas pelos teus. E deixar-te um ramo de flores, como fazem os melhores dos amigos.
Não estou. Não sei. Nem sei quem sabe. Mas lembrei-me de ti toda a tarde…. E de te ter dito certo dia que ninguém escolhe ser teu amigo. Se fosse escolha, jamais escolheria toda esta preocupação. Mas é algo tão natural… gostar de ti. Que nem a tua doença evita ou afasta. Por isso, hoje, diz ao médico que tenha cuidado contigo, avisa-o que a sorte te deu um corpo demasiado frágil para todos os amigos que carregas dentro dele. E que somos muitos os que ficam do lado de cá à tua espera. Hoje e sempre.
Quando à tua doença, diz-lhe que tirando estes 3 dias por ano nunca lhe vou dar confiança. This isn't everything you are."

A ti, a única coisa que posso responder, gratíssima pela tua amizade é "quem me dera que todos não estivessem como tu não estás."
Receber um ramo de flores em casa, no dia em que saí do hospital, foi de uma ternura que me custa a engolir, por mais dilatações que faça: não passa no nó na garganta. Beijos

terça-feira, 17 de julho de 2012

Vou ali já venho...

...de fim-de-semana prolongado. Num hotel  de cinco estrelas com tudo pago, incluindo anestesia geral.
(suspiro)
É a vida que temos, e temos pena.

sábado, 14 de julho de 2012

Sem Título

Hoje foi um dia mau.
Um dia mau com um bom momento, aquele em que soube que uma amiga minha me mandou os Magic Beans do Harry Potter, trazidos diretamente de Orlando e partilhados desinteressada e generosamente comigo. Sem ainda os ter provado, psicologicamente comi dois ou três de vómito e de cera das orelhas.
Vim de Lisboa muito cedo, para uma reunião de Departamento. Não vinha muito sossegada nem muito feliz, que as novidades do médico não foram animadoras, embora, diga-se a bem da verdade que, a partir do momento em que ponho um ponto final no meu mal-estar e resolvo agir e passar pelo pesadelo todo de novo, a indiferença abate-se sobre mim como uma couraça, e nenhuma novidade é levada com a marretada emocional que se esperaria.
Ontem chorei no médico, mais por cansaço que por desespero, e ele aconselhou-me a procurar um psiquiatra: o DOC vai rir-se com esta. Mas quando soube que eu ando em terapia há ano e meio, o meu médico de sempre não se riu. Fez um ar muito preocupado, e quase blasfemou contra a direção da minha escola e a minha falta de assertividade. "Mas porque te metes tu em tantos cargos?" Todos os médicos que me acompanham me tratam por tu, este, porque me conhece doente há mais anos dos que os que tinha quando o procurei pela primeira vez.
É difícil alguém que está fora do ensino, como ele está agora, entender. Lá lhe expliquei que não só não me metia como não os podia recusar. Disse-me que não sou deficiente mas também não sou normal, e que a minha doença exige tempo para descanso. Só me deu vontade de rir, entre lágrimas e no meio do pânico que é o atual sistema não deixar ninguém descansar, quanto mais eu, numa escola pequena, com uma direção que não me grama mesmo nada.
Ainda assim, lá vim eu, picar o ponto, passar a manhã na reunião de departamento e a tarde a organizar o que falta para a reunião de EFAs.
Na reunião de departamento, assisti a mais uma cena triste daquelas em que quando a bronca estoira, a culpa é deitada para cima do mexilhão. Fiquei pôdre. Mas será que é assim tão dificil assumir culpas, erros, dizer "epá, bolas, não sou perfeita e meti o pé na poça, sei que agora não há remédio, mas desculpem lá, sou humana". Perco o respeito todo pelos meus congéneres humanos, os cobardes, que atiram para cima dos do lado responsabilidades que lhe cabem, só porque sim, porque podem e porque o dizem com convicção suficiente para não serem contestados.
E depois veio a auto-avaliação do departamento e a coordenadora não quis que ninguém se pronunciasse sobre o que está mal, "não acredito em exorcismos", disse, numa ironia clara à diretora que pediu noutra reunião que exorcisássemos tudo o que correu mal num dado projeto de escola.
E eu, que raramente estou de acordo com a direção, desta vez tive pena. Porque para evitar discussões e palavras mais agrestes, recorreu à hipocrisisa de quem acha que, se os alunos avaliaram os professores do departamento com notas altas, é porque somos perfeitos. Não somos, não sou, e há tanto para dizer sobre o que poderíamos fazer melhor se não fôssemos uma cambada de hipócritas que só estão bem a roer os tornozelos uns dos outros, quando os apanham de costas...
E depois fui falar com a minha diretora, por causa do que o médico disse, e ela foi impecável. Disse-me taxativamente o que me esperava para o ano, e acrescentou que me gostava de ter na escola mas que se quisesse concorrer, a saúde vinha primeiro. Decidi quase imediatamente ficar.
Para acabar o dia em grande, um dos meus melhores amigos foi mandado a mobilidade por valores mais altos se levantarem. Não tenho muitos amigos e homens ainda menos. Depois de falar com ele ao telefone, fiquei a saber mais, e menos irritada mas, ainda assim, vai fazer-me uma falta imensa. Pelo menos sei que, a mudar, será sempre para melhor.
Fui à minha escola antiga procurar consolo e não o encontrei. Tudo tinha planos para hoje à noite e, aqui sozinha com o Chico, resolvi que, não duvidando da amizade de ninguém, o meu lugar é, sem dúvida, onde estou.
Feitas as contas, no dia de hoje, vi bem quem se preocupa, quem está, quem quer saber, quem tem tempo para uma palavra, um carinho e um conforto: venha ele de um telefonema de Aveiro, de uns doces que ainda não chegaram de Vila Real ou de uma mensagem privada no facebook à qual não respondi por nem saber o que dizer.
Ah, e hoje (ou terá sido ontem? já nem sei), escreveram-me uma frase que ficou tatuada no meu ventrículo esquerdo "tem cuidado contigo que a sorte deu-te um corpo demasiado frágil para todos os amigos que carregas dentro dele". Não são muitos, mas são irrepreensíveis. E, à medida que o ciclo se repete, poucos são os que se mantêm, uns deixam de estar e outros passam a estar, sendo o saldo sempre, mas sempre, positivo, porque só faz falta quem... isso.

sábado, 7 de julho de 2012

Therapy and Love

Numa troca de mensagens privadas no facebook, às tantas uma amiga pergunta-me como estou em relação a determinada pessoa do meu passado, visto andar em terapia há um tempo já razoável. Respondi: "continuo a gostar dele e a achar que era the one. sinto-lhe a falta todos os dias. a terapia só ajuda a cabeça, não faz muito pelo coração. aprendi a viver com isso. e a achar que a minha vida sentimental encerrou (...) e ainda assim achar que mesmo assim, a vida continua, com o resto das coisas boas que pode ter. anyway, ainda há muito mundo para ver, muitos amigos para beber café, muitas séries de culto para nos apaixonar, muitos livros por ler".
Há dias em que acredito mesmo nisto, há outros em que nem tanto. Mas o equilíbrio é saudável, e embora o DOC ache que este ceticismo só faz sentido numa suicidária, eu acho que, se a vida se resumisse a um grande amor, o problema da sobrepopulação mundial estaria resolvido e não haveria já muitas árvores sem pessoas penduradas pelo pescoço.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Para o Doc

Informação inter-sessões: já falei com o médico. Já fumei o meu último cigarro. Tenho um futuro próximo de exames muito desagradáveis para fazer. Vale a pena cuidar de mim? Ou seria melhor ficar passivamente à espera que alguém cuidasse e definhar assim? Fique sabendo que preferia esperar a estar na angústia que estou agora. E que detesto tomar sempre as decisões acertadas, ainda que tarde e a más horas. Detesto.

Por causa do comentário da Shadow

Acrescento que, à medida que no Facebook os meus amigos vão colocando fotos novas, me apercebo que ninguém me fotografa, nem eu me deixo fotografar, há muitos meses. Porque não tenho vida social ou momentos inesquecíveis. (os que tive também não foram fotografados, e lamento isso todos os dias). E porque, como dizia alguém que ficou enterrado num passado bem distante, não há fotografias que nos favoreçam mais que aquelas que são tiradas por quem nos ama.

Sejamos explícitos

Não ando desesperada atrás de um homem, nem nada que se pareça.
É só que, se alguém se interessar por mim agora, fisicamente o mais débil que acho que já alguma vez estive, sem curvas, sem forças e sem sorriso, sem sentido de humor e sem paciência, sem brilho nos olhos e cor na alma, convenhamos... é porque é um amor verdadeiro.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Revolta

Todo o sentimento de revolta pressupõe uma noção muito forte de injustiça. Quando alguém se revolta contra a vida, tem que acreditar que a existência dá na mesma medida do esforço que se investe nela, no esforço de fazer as coisas corretamente, de ser alguém íntegro, generoso, solidário, tolerante, isto tudo apesar dos interesses, das ambições, dos desejos e dos sonhos.
Eu não faço parte desse grupo, dos que acreditam na justiça divina ou cósmica, que paga em sorte e saúde as boas ações de cada um.
Por isso não compreendo a minha sensação de revolta, a que me acompanha há dias seguidos, me amarga o espírito e me faz estar em constante desespero. Não me percebo, sinceramente.
Ando há dias cheia de dores, é verdade. É também compreensível que uma pessoa, por mais tolerante à dor que seja, esteja exausta e mal-humorada, sem paciência e pouco sorridente, a passar pelo que eu estou a passar, e que não é novidade, sejamos honestos.
O que não é aceitável é que tudo isto me ande a consumir a alma com sentimentos de "não é justo, estou farta disto, não mereço estas coisas", como se o merecimento algo tivesse a ver com os nossos infortúnios. Não há nada, porém, que seja mais verdade, que o facto de esta revolta se estar a avolumar tipo bola de neve a contaminar todos os setores da minha existência.
Estou revoltada contra a saúde, a profissão e o amor, num tudo-em-um que me sufoca com dedos transparentes e implacáveis, permanentemente fechados à volta do pescoço.
Ia eu hoje para uma reunião na escola, mais ou menos bem disposta, apesar de tudo, quando ouço o Pedro Abrunhosa com o seu sotaque do demónio a cantar "não desistas de mim" e, num flash, os últimos dezoito meses desaparecem e levo um murro no estômago que me tira o ar e me traz lágrimas em cascata cara abaixo: a mesma dor, o mesmo desespero, a mesma solidão, a mesma mágoa; tudo igual, durante longos minutos que pareceram a eternidade inteira, e a vontade quase irresistível de atirar o carro contra um sobreiro. E o quase lixa tudo, porque a coragem é nenhuma e parece que continuar a viver é um dado adquirido pelos genes, embora seja uma opção inútil e masoquista.
Ontem dizia ao DOC que ainda vou ser a primeira paciente dele a descobrir em terapia que o melhor é matar-se, embora saiba que tal não vai acontecer. Mas, se calhar, é mesmo inevitável tornar-me uma pessoa revoltada e irascível, verdadeiramente de mal com a vida, como todos acham que eu sou e, na verdade, nunca fui: houve sempre uma enorme parte do meu coração salvaguardada por uma quantidade muito saudável de ternura e sentido de humor, uma parte que de repente desapareceu, não existe mais.
E o facto de me encontrar mais uma vez doente, sem o amor que julgava pertencer-me por direito divino e humano, numa escola em que jamais verei qualquer tipo de mérito reconhecido pelas chefias, e sem hipóteses de mudança em qualquer uma das áreas referidas, faz-me achar, sinceramente, que não há rumo, nem sentido, em nada do que faça.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Labels

Detesto rótulos aplicados a pessoas. Ainda hoje uma encarregada de educação me falava disso em relação à filha, na mesma turma desde a pré-primária: professora, uma criança leva com um carimbo na pré e mantém-no até ao nono ano. Por mais que evolua, por mais que mude ou por mais que essa marca sempre tenha sido, desde o início, injusta.
Detesto preto e branco, detesto generalizações, detesto pressupostos, detesto preconceitos.
Detesto o rótulo que tenho, detesto que as pessoas me definam com uma ou duas palavras quando, eu própria, uso tantas e não me consigo definir devidamente.
Não nego, contudo, que palavras com fronteiras bem definidas dão uma sensação morna de segurança e que sou eu mesma,  na cadeira do terapêuta, que o bombardeio com perguntas que pedem escolhas entre opostos: peço-lhe que me diga, por favor, sou depressiva, estou deprimida ou sou simplesmente preguiçosa? Sou boa pessoa ou sou idiota? Tenho uma autoestima fraca ou sou arrogante? Sou inteligente ou tão burra que nem sequer sei viver? E ele pergunta-me, sempre, se são apenas estas as opções ou se pode escolher outras. E recusa-se a responder. E eu resmungo contra os psiquiatras. E acabamos os dois a rir.
Ontem o DOC abordou comigo um assunto particularmente difícil e doloroso. Às tantas, numa tentativa de simplificação, usou uma metáfora bem ilustrativa: há dois tipos de atitude, quando alguém está atrás de um volante de um carro descontrolado em direção a uma árvore... ou se resigna, encolhe os ombros e se deixa ir de encontro ao obstáculo, ou guina o volante, trava, volta a guinar, capota o carro e pode ir ou não de encontro à árvore, pode até morrer na mesma... ou não. Eu disse-lhe que achava que fazia parte do segundo grupo. E aí, ele surpreendeu-me. Disse-me que sim, que eu era dos que lutavam. Mas que era dos que lutavam na certeza, porém, de que essa luta não iria valer de nada e que iria, fatalmente, acabar estatelada na árvore. E que isso não era pessimismo intrínseco, era uma convicção absoluta, fruto de más experiências diversas e repetidas ao longo de uma vida inteira.
O meu problema, diz ele, não é falta de resistência, mas falta de fé. Diz que eu sou muito corajosa, porque luto em todas as frentes, apesar de estar convencidíssima de que tudo o que faça, por mais que tente, não vai adiantar nada nem mudar o que quer que seja na minha vida. E que essa é uma coragem que não faz sentido nenhum. Acreditando no que acredito, com a força com que acredito, seria muito mais natural que fosse suicidária. E não sou.
Será talvez mais difícil mudar de crenças que de atitude. E, ao que parece, não há nada de errado com as minhas atitudes. E isso, para mim, é a epifania de uma vida. E um medo novo, que agora ganha uma forma de contornos bem definidos, como um rótulo.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ainda assim...

Amanhã tenho reunião de equipa de exames à hora que deveria ter terapia, por isso fui hoje, à hora de almoço. Claro que cheguei à escola com a cara costumeira pós-DOC, de olhos esbugalhados de boga congelada há mês e meio. E embora já ninguém possa aturar ninguém, houve um colega que me trouxe um gelado, porque eu estava com "cara de quem precisava"; e houve outra que me disse, "temos que cuidar mais de nós proprios e uns dos outros. Temo-nos esquecido disso. Que é que eu posso fazer por ti?". E isso compensa o facto de vir para casa ver o jogo sozinha, com uma telha descomunal.

3 escolas, 3 atitudes

Na minha escola antiga, à altura do Portugal-Dinamarca, está tudo em reuniões de avaliação.
Na escola da Mzinha, à altura do Portugal-Dinamarca, os professores estão todos na escola a ver o jogo.
Na minha escola atual, à altura do Portugal-Dinamarca, está tudo em suas casas, a ver o jogo.
Numa trabalha-se, noutra convive-se, na minha está tudo farto de trabalhar, tudo farto da escola e tudo farto uns dos outros. Depois de uma semana como esta, em que andou toda a gente a trabalhar de doze a catorze horas por dia com as mesmas pessoas, a sensação que eu tenho quando lá chego às oito da matina, é que dormi com eles. Logo, não me admiro mesmo nada que mal sejam horas, debande o professoredo todo em rebanho. Eu, inclusivamente, a balir satisfeita.

terça-feira, 12 de junho de 2012

LOL



Truly true for me.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

E quando passa?



Ao contrário do que me costumam dizer, esta não é uma música de dor de corno, não. É muito mais triste que isso. É a melodia da ausência, quando tudo passa, até a mágoa. E sobra o vazio:

"Mas a mágoa não mora mais em mim,
já passou,
desgastei,
para lá do fim.
É preciso partir,
é o preço do amor
para voltar a viver"

terça-feira, 29 de maio de 2012

Men

Quanto mais olho para o meu passado, mais o vejo desolador: mas que raio andei eu a fazer da minha vida amorosa tantos anos? Estou a rever as primeiras temporadas da Ally McBeal e identifico-me tanto com ela que ate dói. Hoje comentava isso na sala de profes e o rosto de uma colega minha iluminou-se: "É isso... eu sabia que me fazias lembrar alguém! Era viciada nessa série e, de facto, és tu!". E sou, tal e qual. Adorável, mas de poucos sorrisos. Super instável, mas fiel a si mesma. Magra demais. Em terapia. Super frágil, mas temida, e de resposta agressiva sempre pronta a saltar. E a vida amorosa dela... enfim. É pena é eu ser uma Ally McBeal uma década mais velha. Tivesse eu menos dez anos e, pelo menos, meia dúzia de erros colossais teriam sido evitados. Especialmente os últimos. às vezes, mais vale arrependermo-nos do que NÃO fizémos do que abrir certas portas que são verdadeiras caixas de Pandora. Por isso, só muito raras vezes uso a minha, e só quando me quero autoflagelar. Aprendi, pelo menos, a enterrar o passado e a não dar segundas hipóteses. São sempre erros a duplicar: esperar resultados diferentes com as mesmas premissas é sinal de debilidade mental e, se as minhas emoções continuam McBealianas, a minha mente anda clara como a água, desde que se trate de analisar erros e seguir em frente. Para corrigir testes e dar aulas já não posso dizer o mesmo.

sábado, 26 de maio de 2012

Eu e a terapia

Hoje sonhei que à última hora tinha que fazer de sereia numa ópera e na altura de me vestir e maquilhar ainda nem o guião tinha lido. E só pensava: com a memória com que eu ando, isto vai ser bonito, vai...
Como ando em terapia, interpretei o sonho de várias formas: ando em pânico com a minha falta de memória, stressada por nunca ter nada pronto a tempo e passo a vida a representar um papel que nada tem a ver comigo.
Concluindo, não faço a mínima ideia do que ando a fazer.

Como é que é?

Ontem dei comigo a dar tempo ao tempo num hipermercado desta zona. Percorri tudo com calma, estava praticamente vazio, e passei muito tempo na parte dos livros. Abri vários, e numa crónica do Eduardo Sá, numa obra nova sobre o amor, li o título "Todos nós somos infelizes". E eu, que ando de rastos, pergunto: ahn? Não era suposto um terapêuta tratar? Fazer com que cada um se relacione consigo e com os outros da forma mais saudável que o seu individualismo permite? Encontrar em si modos de satisfação, autoestima e realização pessoal? Não procuro um caminho para a tolerância das minhas misérias, procuro outro que as ultrapasse, quando são reais, e siga para um razoável bem estar. Todos nós somos infelizes? Shame on you Mr. Sá!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sinais dos Tempos

Sei que estou cota e vivo num país em crise quando os meus alunos adolescentes, em vez de se rirem de uma piada qualquer, dizem "LOL".
E finalmente percebo o que sentem aqueles que se estão perfeitamente nas tintas para o que lhes quero ensinar: é que quando eles, cheios de paciência, me tentam explicar o sentido de dizerem uma sigla estúpida em vez de darem uma gargalhada decente, eu imediatamente desligo... não percebo, nunca perceberei e nem quero perceber! How cool is that?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Status do Gmail

"Feeling So Stupid"
In fact.
Ando numa daquelas semanas em que só sinto coisas parvas, só digo coisas parvas e só penso em parvoeiras.
E ando numa daquelas semanas em que toda a gente me cobra os atrasos no trabalho que não consigo ter pronto a tempo, porque não me consigo concentrar nem produzir durante um período de tempo razoável, que dirá suficiente.
E ando numa daquelas semanas em que me sinto um vulcão a entrar em erupção, e a minha consciênciia despeja baldes de água infinitos sobre os demónios das brasas e das chamas.
E ando numa daquelas semanas em que a minha cara é de fugir, mas só sou verdadeiramente insuportável comigo mesma.
Estou tão farta de cometer sempre os mesmos erros, por mais que tente cometer uns diferentes. Estou tão farta de ter que ir para a escola quando tudo o que me apetece é enfiar-me num buraco escuro e dormir, descansar, esperar que passe.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Também os há assim

Dias em que te levantas inexplicavelmente bem disposta.
Toda a gente se queixou que os putos hoje estiveram impossíveis mas eu, caladinha, que não o confessei a ninguém, senti na pele que, vá lá saber-se porquê, também me andou, todo o santo dia, a fugir o espírito para a asneira. Tivesse eu tido uma tentação do demónio e tinha sido menina para passar a tarde em dolce fare niente, numa esplanada a beber uns belos copázios de algo fresco e, de preferência, alcoólico: é que me estava mesmo, mesmo, a apetecer uma companhia divertida e uns momentos de relax e disparate.
Como Deus protege os audazes, não houve tentação, e em vez disso tive uma reunião de Pedagógico e vim direta para casa, onde considero seriamente ir dormir uma sestinha antes de me agarrar à correção de testes. Antes assim, que hoje estou em modo de pura da loucura, o que costuma ter resultados tão agradáveis quanto catastróficos...

domingo, 13 de maio de 2012

Where the stories come from

Infelizmente para o meu cão e todos os serial killers desta cidade, não sou bicho de rotinas. Sou bicho de impulsos. Gosto de rotinas, é verdade, mas não consigo manter nenhuma, com grande pena minha: não como a horas, não me levanto nem deito a horas, não trabalho a horas, enfim, sou uma grande desorganizada e, ainda assim, o meu DOC diz que me organizo muito bem, dado o meu feitio e as minhas circunstâncias. No entanto, continuo a achar que sou um caos, especialmente quando se trata de combinar coisas, nem que seja para essa mesma tarde, desse mesmo dia. Nunca sei qual a veneta que me vai dar, ou o fogo que terei que apagar.
Hoje tinha planeado ir ao supermercado pela fresca da manhã, e já só fui pela fresca da tarde. Gosto de ir ao supermercado quando está quase vazio, porque há lá perto um café onde aprecio sentar-me sozinha a beber a minha meia de leite, rodeada de velhas cuscas por todos os lados. As tipas, que me olharam desconfiadas das primeiras vezes que lá me viram entrar, já se habituaram à minha presença domingueira. Devem lá passar o dia, que as vejo lá sempre, seja a que horas me dê na cartola dar às caras.
A Alice Vieira disse, há pouco tempo, no Câmara Clara, que quando escrevia crónicas semanais e lhe dava uma branca, ia ao café e dizia "vou à rua buscar uma história". Posso enganar todos os serial killers desta cidade, mas jamais trocarei as voltas às velhas cuscas. E trago sempre histórias. Da vida dos outros, claro está. E de adultério, de preferência. Hoje soube de uma determinada senhora a quem pagam a renda e dão vinte euros ao dia. Isto apesar da dita ter um emprego, e de quem paga as contas ter uma mulher. Por enquanto. Ao que parece a legítima descobriu, está armada a escandaleira, o tipo foi corrido de casa com uma mão à frente e outra atrás e... a outra, agora, sem renda e sem vinte euros, ainda tem que o gramar lá em casa. Isto há coisas mesmo injustas!

Apontamento

Não sei o que se passou, e ao que parece ninguém sabe. A notícia já me chegou tarde, via blogger amiga, e recebi-a com incredulidade: tive, mesmo, que ir ler notícias de há uns dias atrás para que me descesse a crueza da realidade. Soube ontem, e fiquei com uma sensação desconfortável, de perda triste. Não como se o conhecesse, mas como se lhe devesse alguma coisa que nunca poderia retribuir, mesmo que ele vivesse ainda, e por muito tempo. Obrigada, Sassetti, por teres sido dos poucos artistas que me fizeram sair de casa para um espetáculo, quando tudo eram sombras na minha vida, e ficar feliz por tê-lo feito, em vez de me arrepender, como tantas outras vezes aconteceu.

Sunday sem Sundaes

Como sou muito procrastinadora, vai para anos que os domingos são, para mim, dias de trabalho. De há umas semanas para cá são dias de trabalho muito rentável, que a criança acorda-me às seis e meia da manhã e só sossega quando me passa o sono de vez, por volta das onze. Por esta hora, hoje, já tenho uma turma de testes vista, roupa a secar e loiça lavadinha, para além de dois passeios e muita brincadeira no lombo.
Apesar de me custar muito, os passeios antes das sete da manhã são os meus favoritos. Disfruto do fresco e do silêncio. O último passeio da noite, por vezes, deprime-me: vocês não fazem ideia do que é passear num bairro vazio e ouvir gente a discutir dentro de casa, crianças a chorar, adultos a resmungar. Parece que a noite acorda todos os fantasmas e desperta todas as tensões. Pergunto-me se este país não estará, mesmo, à beira de um ataque de nervos.
Esperei muito pelo homem que julgava ser para mim. Muito mais do que era suposto, esperei muito tempo após ele se ter ido de vez, e muito tempo depois de me convencer disso, o que só por si não foi de um dia para o outro. Depois, esperei mais tempo por um homem indefinido, sem face. Não por um qualquer, mas por um que me fosse suficiente. O suficiente não é, nunca, o bastante.
Agora, ao deambular pelas ruas à luz da lua, ouvindo sem querer as vozes exaltadas dentro de tantas casas, o bastante existe para mim. Sempre disse que quero é paz e sossego e, finalmente, acredito nas minhas próprias palavras. Há muito tempo que não me sinto só. E isso, para mim, é muito mais que suficiente, por isso, basta-me.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Trouble Maker, Trouble Solver

Sou um prodígio a meter-me em encrencas, nas chamadas fases Murphy. Fases em que tudo o que há para correr mal, corre mesmo. Sempre coisas sem gravidade, mas encadeadas umas nas outras, como as cerejas, e que, ao fim de um dia de trabalho, levam uma pessoa como eu ao desespero.
Hoje comemorava mentalmente o facto do meu horário marcado ter sido cumprido, e conseguir estar em casa a horas normais. Ainda bem que não gastei dinheiro em foguetes: depois de passear com o Chico, ia sentar-me ao computador e... tinha deixado o cabo do dito na escola. Ora a bateria já morreu vai para dois anos. Para ajudar à festa, o meu telemóvel está sem saldo, logo não havia hipotese de pedir a alguém que ainda lá estivesse para mo trazer.
Conformada com o facto de ter que fazer mais 40Km estupidamente, mal fecho a porta de casa, dou pela falta da chave da mesma. Tal não seria grave se a Mzinha não desse aulas hoje à noite. Bendito Facebook. Lá a consegui contactar de um dos computadores da escola e, felizmente, uma das colegas dela que mora na mesma cidade que nós ainda lá estava e trouxe-ma. Nisto se foi uma hora e meia da minha vida e toda a restante paciência que ainda sobrava. Isto porque, apesar de até nem ter corrido mal, e para ajudar à festa que já era de arromba, nos entretantos ainda levei com uma daquelas pessoas que não se tocam (toda a gente conhece alguém assim, e eu conheço várias, e normalmente aturo-as com delicadeza e paciência de Job), e aproveitam qualquer coisa que alguém diga para estarem tempos infinitos em monólogos infindáveis sobre a sua própria vida e as suas próprias experiências, que são sempre piores ou mais interessantes que as do resto do mundo. Se não fosse uma alma caridosa oferecer-me um cigarro, acho que desta vez teria sido mesmo desagradável. Com o cigarro, em vez de me dar a travadinha, entrei em modo passivo-agressivo e desliguei.  Quando houve uma pausa no discurso, pirei-me da escola, recuperei a chave e agora, já em casa, considero a hipótese de ir respirar para dentro de um saco de papel.
Não há dúvida, contudo, que "practice makes perfect", e estou cada vez melhor e mais prática na resolução de problemas. Embora depois continue a precisar de me lamentar e de resmungar. Mesmo que seja por este meio e, cada vez menos, ao vivo e a cores.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Dois curtos apontamentos

... sobre o dia de hoje.
1 - À escala a que o Chico está a desenvolver um ódio visceral por todos os seres alados, no dia em que o meu Anjo da Guarda resolver, finalmente, aparecer para trabalhar, vai apanhar o cagaço de uma vida.

2- Depois da semana infernal que foi a última, hoje passei uma tarde que seria "livre" na escola, a trabalhar. Percebo agora o ar desanimado dos alunos quando eu insisto em escolher os membros dos grupos de trabalho, a fim de os equilibrar: é muito, mas muito, melhor trabalhar com pessoas de quem se gosta. A tarde passou-se razoavelmente bem graças aos meus dois companheiros de equipas que, convenhamos, o trabalho em si era daqueles tão aborrecidos quanto inúteis.

Adenda: O Chico ficou dez horas sozinho. Ainda está a recuperar do choque que foi ver-me entrar em casa. Não sei se de alegria ou de profunda revolta desapontada, esteve uns dez minutos a saltar-me ao pescoço (mmmm... à jugular?). Fomos à rua tomar duche, depois sequei-nos a secador e à vez, e agora, enquanto bebo um galãozinho quente, ele está aqui aos meus pés, a fingir-se de morto. (sim, que eu vejo-lhe o esterno peludo a mexer: pensam que não fui verificar?)

sábado, 5 de maio de 2012

A frio

Agora, quase uma semana passada sobre o assunto, vou finalmente pronunciar-me sobre ele, não porque lhe tenha dado mais importância do que merece, mas porque gerou certas considerações filosóficas da minha parte, umas sobre mim, outras sobre a condição humana.
Determinado "senhor", por motivos que são alheios ao caso, insultou-me e conseguiu mesmo ofender-me, quer oral e pessoalmente, quer por escrito. É pessoa que está excluidíssima do meu mundo, se excetuarmos a vertente profissional havendo, também aí, várias opções de diálogo.
Entre outros mimos, disse-me duas coisas que eu acho serem espelho de uma idiotia que anteriormente não lhe atribuía. E têm ambas a ver com a minha forma de estar e a minha forma de comunicar, a nível formal e informal.
Formalmente, em contexto profissional, diz que eu sou "uma boca aberta", que digo tudo o que me vem à cabeça, que isso só me prejudica, que ainda "não aprendi a calar-me". Diz isto porque é um cobarde e acha que dizer o que se pensa e ser contra as chefias, mesmo quando as chefias estão erradas e os nossos argumentos são válidós é "não saber estar calada". Temos pena, mas temos o complexo de Joana D'Arc. Lá na escola, toda a gente sabe que este senhor deixa os tintins à porta da escola e à porta de casa. Toda a gente sabe, e toda a gente comenta. Nas costas dele, bem visto. Quem nasceu para ser capacho acha que a honestidade é falha de caráter e de boas maneiras. Nasceu para ser subserviente. Tenho imenso respeito pelas hierarquias e enorme lealdade às chefias, o meu próprio terapêuta acha que são caraterísticas quase excessivas da minha personalidade. Mas tenho muito mais respeito e lealdade aos meus princípios e, no caso de ter opiniões formadas sobre determinado assunto, exponho-as, doa a quem doer. E quando dói, é comum que o povo ache que são fruto de impulsividade, simplesmente porque ninguém no seu juízo perfeito discorda abertamente de ditadores vingativos. Posso não estar no meu juízo perfeito, mas considero que não tenho nada que aprender, neste domínio. Os outros é que têm que deixar de ser hipócritas e fazer crescer uma espinha dorsal.
Informalmente, em contexto familiar, disse-me que o meu vocabulário não é "próprio de uma senhora". De facto, não é. Felizmente, há características bem mais importantes que definem uma senhora do que o seu vocabulário. Esse senhor, por exemplo, resolveu dissertar sobre a relação que ele julga existir entre o meu mau feitio e o facto de eu não ter companheiro. Isso parece-me de mau gosto e fraca educação, mais a mais quando os seus telhados não são de vidro, mas de cristal. Porque, assim de repente, prefiro ter mau feitio a um companheiro invertebrado, ou a um que me torne a mim sua criada. Logo aí, estou em clara vantagem.
E, finalmente, há uma coisa que, quem tem pedigree, educação, valores e atitude sabe fazer: assumir culpas. Um cobarde, para mim, digo sempre isto, é o pior dos escroques: passa por inocente, morde pela calada e atira as suas culpas para quem tem mais perto. Sai sempre bem visto, mas não tem qualquer valor. Por isso, é de consciência limpa, e toda a minha educação de princesa, que digo aqui, abertamente, e a frio, depois de pensar, ponderar e analisar, que quero que ele se vá foder.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Mudanças no ritmo

Fez ontem uma semana que trouxe o Chico cá para casa e pareço um zombie. Começo a compreender aqueles pais que desabafam com os diretores de turma "eu já não sei que lhe hei-de fazer", a referir-se aos filhos. Condescendentemente, os professores dão-lhes avisados conselhos e, depois, nas reuniões, julgam-nos e condenam-nos: "não os sabem educar e depois a gente que os ature". Pois. Mas se tiverem filhos tão teimosos e intratáveis como o Chico, que só se porta bem quando quer alguma coisa ou está podre de sono, e no restante tempo é teimoso que nem uma mula e só faz o que lhe dá na veneta, quer a gente se zangue, tenha pachorra para teimar com ele ou lhe dê umas valentes palmadas... que lhes resta? A mim não me restam muitas opções, a não ser esganá-lo, pegar-lhe fogo ou lhe dar uns valentes pontapés na cabeça até ele cair desmaiado com um fio de sangue a escorrer-lhe pelo focinho desafiador.
Hoje, depois de uma semana de gritos e puxões na coleira, e chapadas no lombo e no focinho, e esfregonas e castigos... a minha paciência está de tal modo por um fio que, depois de  perguntar a um aluno o que significava determinada sigla que estava explícita no parágrafo anterior do texto que estávamos a analisar, à resposta dele de "não sei", lhe respondi, de imediato, num tom de voz imperturbável: "Olha, D., espero sinceramente que limpes o rabo melhor do que lês textos".
A turma toda, incluindo o D., que é adorável, desatou a rir incontrolavelmente, enquanto eu pensava que, felizmente, era a última aula da semana, que a coisa estava mesmo a descambar para o lado da minha sanidade mental, e que a minha sorte era dar aulas a um grupo de miúdos impecáveis que me conhece bem o suficiente para saber que nada do que eu digo é com intenção verdadeiramente insultuosa.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ainda não parei de me rir

Acho imensa piada àquelas pessoas que me criticam porque eu sou independente e porque pedir ajuda é o meu último recurso, para depois NUNCA estarem disponíveis quando se precisa delas. Normalmente, são as mesmas que se disponibilizam logo para ajudar, quando já alguém o fez, ou sabem que não são necessárias. À mera sugestão de que talvez se precise delas, surgem logo os contratempos, as dificuldades, o "deixa ver como está a minha agenda". Acho mesmo imensa piada.

sábado, 21 de abril de 2012

Rendida

Na última sessão, o meu DOC perguntou-me se eu também "era daquelas" que escreviam listas de qualidades que um homem precisa de ter para estar ao seu lado. Instintivamente respondi que não, e um nanosegundo depois, disse-lhe que sim, que claro que sim. Não me ocorreu, na altura, no entanto, dizer-lhe que a cantiga do bandido que me levaria a tratar um homem como se fosse um Deus já existe. Parece escrita de propósito para mim (não conheço ninguém que queira tanto conhecer a "América" como eu, por exemplo), e seríamos felizes para sempre. (Right, Doc?... até parece que o estou a ver a abanar a cabeça e a rir-se, pensando na trabalheira que ainda tem pela frente antes que me passem todos os resquícios de doideira).


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dois Dias

E lá se passaram dois dias em Lisboa com trinta e seis alunos, metade dos quais portugueses, e a outra metade espanhóis.
Só posso dizer que, entre um programa que foi cumprido à risca, - e se ele era ambicioso!- muitos quilómetros percorridos de autocarro e a pé, cafés que lhes perdi a conta, poucas horas de sono e muito - céus, tanto! - chinfrim... continuo adepta de visitas de estudo.
Adoro estar em ambiente informal com os alunos, divirto-me sempre que nem uma macaquinha, apesar da estafa, do stress, das correrias e das preocupações. Não me lembro da última vez em que me ri tanto num tão curto espaço de tempo. No meio dos pastéis de Belém, dos muffins de chocolate branco e morango do Starbucks, dos cupcakes da Merry Cupcake e dos bifes da Portugália, da exposição Berardo - não, não é Bernardo, troll! - com peças originais do Dali e do Picasso, dum fabuloso ensaio da orquestra filarmónica no divino S. Carlos, duma visita à RTP com a Ana Galvão a fazer programa na Antena 3, e com direito a ver nas ruas de Lisboa o Chefe de Estado Polaco e a sua comitiva, atores dos Morangos com Açúcar, o Pedro Granger e o Zé Carlos Pereira... há uma cambada de alunos das berças muito mais cosmopolitas, muito mais abertos e tolerantes a raças e credos, e a falar muy bien espanhol.
"Eeeech, ó professora, a sua mãe mora ali? Foi naquele colégio que estudou? Eeeech, ó professora... e agora dá-nos aulas a nós?"
Very impressive, indeed. Embora eles devam achar isso o cúmulo da decadência, e olhem para mim como se eu fosse um bicho raro, por trocar um sítio por outro.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Vinte e Quatro

Se ontem o meu dia tivesse sido uma temporada do vinte e quatro misturada com a Ally McBeal, o vocabulário seria inapropriado para pessoas sensíveis e toda a gente teria pena da triste protagonista. Foi daqueles dias para esquecer, cheio de imprevistos desagradáveis e trabalho inesperado. Daqueles dias de chatices pequeninas a fazer efeito de bola de neve. Daqueles dias em que apetece mesmo deitar tudo para o espaço.
Hoje foi o contrário, tudo fluiu facilmente. É bom ter uma bolha de oxigénio, já que amanhã vai ser uma correria doida, e quinta e sexta vou com os meus meninos da direção de turma, mais outros tantos espanhóis, para Lisboa, no âmbito de um intercâmbio cultural. Haja energia e paciência. E haja, sobretudo, juízo, que é coisa que eu não tenho, para estar metida em tudo o que é treta na escola.
Na minha antiga escola, a Diretora gostava que eu regressasse. Eu acho que só se muda para melhor, e disse-lhe que a única coisa que ela tem para me aliciar é um horário que não meta noite. Ela diz para eu pensar nisso, que há lugar para mim. E eu tenho pensado. Em dias como o de ontem, iria a concurso sem pensar duas vezes: fizeram-me falta amigos, sobretudo gajas para destilar má-língua. Nesta escola, uma das grandes vantagens foi ontem um enorme problema: não há conversa venenosa em que não esteja presente alguém sensato a meter água na fervura. Ontem, eu queria SANGUE. Queria dizer mata e ter mais três ou quatro muchachas a dizer esfola. Senti muita falta do grupinho de Divas: da Pêlo Russo, da T., Da Mzinha, da Li e da Miss Covilhã. Dos bolos de chocolate que me traziam a casa quando eu estava triste e das tostas de frango que comíamos na esplanada ao entardecer, a dizer mal, sem maldade, de tudo o que mexia.
Hoje, já foi diferente. Há dias bons em que sinto que tenho a camisola da minha escola vestida, e que ela me parece feita à minha medida numa lã angorá muito confortável. Nestes dias, sinto que estou no sítio certo, que os meus alunos são impecáveis, que os meus colegas são família e que é sempre melhor um sítio em que conhecemos toda a gente e sabemos o que podemos esperar de cada um, do que outro em que só falamos com meia-dúzia de pessoas e em que as restantes se dão ao luxo de falar de ti e da tua vida privada como se vivessem na tua casa e soubessem tudo a teu respeito.
Prefiro um sítio em que não me inventem namorados a cada quinze dias, e em que os fatores que me fazem não me apetecer levantar de manhã sejam profissionais e não emocionais. Prefiro um sítio em que o stress advenha de listas de a-fazer, e não de conflitos com este ou aquele.
Por outro lado, esta escola, a minha, deixa-me pouco tempo para viver, para ver pessoas, e pouco espaço mental para que isso me apeteça. Resta saber se, quando vierem os concursos, vou preferir ter uma vida ou ter paz de espírito. A opção não é fácil.

domingo, 8 de abril de 2012

Manifestações do Divino

Não sou religiosa, nem sequer dada a grandes espiritualidades: já passei por ambas as fases e ultrapassei-as, em seu tempo. É bastante difícil, mesmo para quem segue o blogue, fazer uma pequena ideia do que é lidar comigo, se não me conhecer pessoalmente: como toda a gente, sou cheia de idiossincrasias, e como muito pouca gente que eu conheça, de contradições. Uma das mais óbvias, é falar como um carroceiro tendo a educação de uma princesa arrogante.
Digo palavrões cabeludos, do piorio. Mas tenho aversão a pessoas que dão calinadas e pontapés na gramática, ou que não têm maneiras à mesa, ou que são indelicadas com velhotes ou não dão o seu lugar a grávidas, mesmo que não estejam sentadas em bancos especiais, ou à espera em filas próprias nos supermercados. Sou assim, muito incoerente, e já estou habituada a que me julguem por isso.
Isto para chegar onde? Hoje fui jantar com um amigo meu, crente e religioso, porque ele fez anos esta semana e queria pagar-lhe um jantar. Acabámos pr ir beber um copo com um casal amigo nosso, e um dos temas de conversa foi o jejum e abstinência quaresmal. Ora eu, que sou completamente contra fantochadas, disse logo que havia de ser bonito um Deus andar preocupado com o que as pessoas comem a determinados dias da semana, mas não quis ser demasiado indelicada, dado que já há muito deixei de tentar entender a cegueira a que levam política, clubes e religião. Não vale a pena discutir certos assuntos, muito menos quando são levados com uma seriedade que nos faz espécie.
Engraçado ter sido logo a mim que as coisas aconteceram, nem uma hora depois. Saímos do bar e pedi ao meu amigo que parasse numa bomba para ir comprar tabaco. A mais próxima estava fechada, e fomos àquela a que, antes de mudar de casa, eu ia muitas vezes, e já conheço o empregado, em senhor de idade que sofre de gota e é simpático até certo ponto, só até certo ponto, com caras conhecidas, como a minha. Ora chegamos à tal bomba e o meu amigo oferece-se para sair ele do carro e ir buscar-me o maço, ao que eu digo que não, que vou eu. Ele insiste, talvez por causa das horas, talvez por eu estar com um vestidinho curto; mas eu tenho os meus brios, e saio do carro. Ao pé do guichet, um senhor dos seus cinquenta anos, com peso a mais, óculos, e bem bebido. Digo um sonoro boa noite com um sorriso (como, aliás, sempre faço nas lojas: lá está, um fenómeno ilustrativo da tal boa educação que me corre no sangue azul), e peço o tabaco. O outro homem começa, de imediato, com um relambório do arco-da-velha: que eu era muito alegre, que "contaminava" toda a gente com a minha simpatia, que era bem "apalavrada", que como as coisas estavam, a pagar "oitocentos paus" por um maço de tabaco, era preciso pessoas como eu para alegrar as outras, enfim, um sem fim de elogios a que eu ia agradecendo como podia. Despedi-me e entrei no carro em que o meu amigo esperava, em pulgas para saber que raio o outro me tinha dito.
Não foi preciso contar-lhe: em menos de um nada, o homem estava da parte de fora da minha janela. Baixei o vidro e, sem mais nem o quê, ele começou com um discurso de que "estava bêbedo" mas não era "nenhum parvo" e que tinha que dizer ao meu amigo "não sei se o senhor é marido ou amante" (eu fiquei logo perdida de riso) "mas esta senhora, o boa noite desta senhora, é muito especial. Eu nasci no dia de Nossa Senhora de Fátima e sou abençoado por ela, que todo o meu corpo tem placas de metal mas ainda não morri." Antes que eu pudesse abrir o bico, o homem não é de modas: faz-me o sinal da cruz na testa enquanto diz umas palavras que metiam a Virgem ao barulho, e diz que, se eu for a Fátima e comprar uma imagem, serei abençoada para o resto da vida. E que se o vir, de hoje em diante, para fingir que não o conheço.
E eu só pensava, pronto, bonito serviço, vou ser agora gozada até ser velhinha, com este emplastro aqui ao lado a gozar o pratinho.
Pior: o meu amigo ficou impressionado com aquilo, diz que eu tive uma "manifestação do divino". Claro que, comigo, a manifestação do divino tinha que vir de um anjo pinguço. E agora tenho um caramelo a chatear-me que tenho que ir a Fátima comprar uma imagem.
Tendo em conta que amanhã vou almoçar a casa de uns amigos, e que toda a minha família na Páscoa está em parte incerta, pouco se lixando se eu estou viva ou morta no Domingo da Ressurreição, era mesmo só o que me faltava agora, baixar em mim o milagre da Virgem. Isto só a mim, na Cidade de Deus.

terça-feira, 13 de março de 2012

Taxonomia do Amor, by Jade

Começo por sublinhar que qualquer taxonomia é redutora, dado que, no meu entender, se trata de uma forma pseudo-científica de rotular estágios de comportamento, e de fazer generalizações que se impingem como absolutas verdades, quais pedra filosofal ou ovo de Colombo. Todos os rótulos são comuns a uma imensidão de sujeitos e marginalizam outros, que têm a sua importância fundamental enquanto indivíduos, e todas as generalizações, assim, coxeiam. Será uma forma simplista de abordagem, mas dado que resultam para um conjunto razoável de exemplos, para esses são eficazes.
A minha taxonomia do amor compreende quatro estágios fundamentais. Nenhum totalmente isento de racionalidade, o que afasta de imediato o conjunto de seres impulsivos que raramente a usam, quando se trata de sentimentos. Eu não me incluo nesse grupo: amo com a cabeça e penso com o coração.
O primeiro estágio é a atração. Não confundir com atração física, porque cada um é como cada qual, e um homem bonito, para mim, não é necessariamente atraente, embora ajude. A atração é algo independente, e considero-a apenas parte da taxonomia porque é aí que tudo começa. Contudo, a maior parte das pessoas passa a sua vida a sentir-se atraída por outras pelas quais não desenvolve qualquer tipo de relação emocional. Sentimo-nos atraídos por pessoas sejamos solteiros, casados, amancebados, céticos, distantes, mal-amados, felizes, infelizes, enfim. A atração é algo que aprendemos a aceitar como natural, e isenta de culpas. Assumimos todos sem pruridos a nossa atração por modelos fotográficos, atores, cantores, escritores, artistas. Com mais pruridos e alguma vergonha quando os mitos são de carne e osso e são nossos vizinhos, colegas de trabalho, professores ou empregados no café que frequentamos. É a hipocrisia vigente, e não me choca que assim seja.
Depois da atração, vem o desejo. O desejo não é tão inocente, já que mexe com a imaginação e rapidamente se transforma em flirt. Por seu lado, o flirt é, na grande maioria dos casos, arriscaria, inócuo. Um jogo um tanto animalesco de conquista, sobretudo, de auto-estima, e algo que se fica pela brincadeira. Um estágio que é satisfatório para ambos os lados e poderá não passar nunca disso, quando as pessoas não pensam sequer no assunto ou, quando pensam nas coisas, como eu, e as relativizam. Eu faço-o de forma castradora, 9 em cada 10 vezes, com belas frases de tipo "Estás parva?", "Não sejas ridícula!", "Pára de pensar em parvoíces e corrige mas é os testes...". A fantasia é uma cena tramada, mas eu, que tenho alma de contadora de histórias, gosto muito de as inventar, neste estágio, o do desejo, mantendo sempre a noção de que ficção é ficção e não passa disso.
As coisas complicam-se no terceiro estágio, a paixão. É o estágio mais perigoso, aquuele em que a razão quase se cala. É nesta fase que a tendência para o impulso e a asneira é latente, e o sujeito se encontra no limbo entre o "que se lixe" e o "que se dane". Ui, as paixões... ou são não-correspondidas e o triste ser sofre em silêncio e bate com a cabeça com força nas paredes, que mais vale uma enxaqueca que uma dor de alma, ou são correspondidas, e é tudo borboletas e passarinhos, arco-íris e bolas de sabão... a não ser que haja terceiros. Aí começa a gestão de danos, os colaterais, e entra, ou não, em ação o raciocínio. Costumo dizer, a meu respeito, que os homens nunca deixam as mulheres (as legítimas, bem entendido, sejam elas esposas, namoradas, uniões de facto ou afins) por outras, a não ser que as legítimas sejamos nós. Eu já fui largada por outras mulheres duas vezes, e jamais um homem deixou a sua relação estável por mim. C'est l(m)a vie. Por outro lado, eu, ser pensante e estupidamente racional, em alturas de grande paixão por homens com algum tipo de compromisso, sou aquela que não consegue dizer "larga-a". Freud explica, e eu acho que isso é a minha profunda convicção de que, se o fizesse, mais cedo ou mais tarde viria o arrependimento, e eu gosto pouco de cobranças e de levar na marmita. Por outro lado, a única vez que deixei um namorado por uma grande paixão, não me arrependi minimamente. Mas tive a sorte de essa grande paixão se transformar num grande amor, coisa que compensa sempre. Foi um ciclo que se fechou, que eu cá não acredito em eternidades a não ser que, como diz Vinicius, a eternidade seja o tempo que dura. Dizem os cientistas que uma grande paixão dura no máximo um ano e meio, o que é triste, porque todas as minhas dores de corno duraram mais do que isso. Se estivermos preparados para essa inevitabilidade, e acharmos que compensa o mal que faz pelo bem que sabe, estamos fadados a ser deuses num curto espaço de tempo, e indigentes o resto da vida. Cada qual fará a sua opção.
Do amor, tenho pouca experiência. Digo que não é eterno nem incondicional. Não sou mãe, mas sou filha, e alguém sábio já me disse algumas vezes que há pessoas que, por mais que queiramos, não se deixam amar, que é impossível amar. Porque não há cá essa coisa de amores não correspondidos. O amor, quando é amor, é uma troca natural sem listas de deve-e-haver. Não há dívida, nem cobrança. É uma relação leve e suave, instintiva e fácil, baseada na confiança e no respeito, no sentimento quentinho de pertença, sem o veneno da posse. Amar é oferecermo-nos de bandeja a alguém que já é nosso. É escolhermos alguém para fazer parte da família que nos é imposta à nascença, e cristalizar esse ser numa teia de relações que não escolhemos como se ele sempre tivesse feito parte dela. Na maioria dos casos, e comigo foi assim, amar significa aceitar o outro como aceitamos pais e filhos: com uma grande dose de compreensão e tolerância, e a certeza de que os seus defeitos, fragilidades e sombras não põem em causa os laços. A mesma certeza, contudo, de que o imperdoável pode, a qualquer momento acontecer, e de que a vida não faz sentido quando é partilhada com alguém que já não nos aquece o espírito nem completa a peça desgarrada do puzzle que somos todos nós. Aí, voltamos ao início. Quero dizer, eu volto. Muitos há que se sentam no sofá da grande sala vazia que são as suas emoções, e se deixam ficar hipnotizados a fazer zapping em frente a um triste qualquer modelo de plasma de última geração.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Inchadíssima

Hoje foi um dia bom.
Hoje foi um dia muito bom.
Às quatro e meia da tarde, em pleno pátio, ouço assim: Boa tarde, Senhora Professora! Quando olho, e retribuo o cumprimento a um aluno meu do nono ano, este diz, aos coleguinhas do grupo, e à frente dos funcionários presentes: Aqui vai a professora MAIS BONITA da escola!

E pronto, fez-se o meu dia.
E sim, eu sei que nas últimas semanas de aulas os alunos desenvolvem o seu espírito mais graxista.
E sim, eu tenho noção de que só a minha vida decadente explique que, horas depois do piropo, eu ainda esteja inchada como uma pavoa. Ou pavã. Ou pavona.
(se bem que o inchaço também possa ser fruto da neura, por estar a trabalhar exatamente há doze horas, com mais duas pela frente... mas isso também confirma a teoria da vida decadente, pois.)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Karma

Depois de uma semana de doidos, em vez de atropelar a tal cabra, sinto-me atropelada por dois ou três rebanhos delas.
O Karma é tramado, apre!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Insólitos Jade

Poderia ser uma campanha publicitária a uma nove rede móvel, mas é a minha vida.
Como se já não bastasse que, por falta de tempo, a minha banda sonora enquanto trabalho sejam os episódios d'O Mentalista, (facto que já é suficientemente estranho se considerarmos que as pessoas normais ouvem música, veem séries e corrigem testes em três tempos distintos e eu faço tudo em simultâneo) hoje, à vinda para casa, com o JadeMobile em piloto automático e o cérebro em stand-by, vejo um velhote de boina e vestido normalmente a correr, e penso, (sublinho que o cérebro estava em stand-by), bolas, pá, até a terceira idade já faz desporto e tu, minha bimba, não mexes o traseiro para nada!... Depois, reparo que o homem leva um pau na mão, e o pensamento seguinte é (volto a sublinhar que o cérebro estava em stand-by), fónix, tu queres ver que assaltaram o velhote? E com esta epifania brilhante, ponho a pata ao travão, que eu sou uma pessoa solidária e generosa, já preparada para parar e perguntar ao senhor se ele precisava de alguma coisa. Isto, reconheço, também é fruto de passar o fim de semana a ouvir séries de crimes e detetives, está visto.
Pois. Valeram-me os meus bons valores e os bons travões da minha máquina infernal, ou teria ficado, literalmente, com uma cabra (de quatro patas, entenda-se) ao colo... o homem era pastor e dois ou três bichos preparavam-se para atravessar a estrada, como se nada fosse!
Isto só a mim, e só às portas desta Cidade de Deus. É bem feita, para olhar para a estrada, em vez de andar a cuscar no que as pessoas fazem nas bermas, armada em boa samaritana, e com a cabeça cheia de séries da tanga: qualquer dia dou uma boleia involuntária a um ser peludo e improvável, e ainda apanho um cagaço de morte, para ver se abro a pestana e me concentro num mundo real, que mais parece a quinta dimensão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ai, a-normalidade!

Assim que acordei hoje, percebi que o Carnaval tinha passado e, com ele, a minha máscara de normalidade. Basta um bocadinho de stress, que no meu caso se resume a ter que acordar cedo e andar a contra-relógio até entrar na sala de aula, para fazer tudo aquilo que não é suposto alguém normal fazer.
Já no princípio da noite, telefonei a uma amiga lá da escola para lhe dar uma informação da coordenação e, depois de meter os pés pelas mãos e lhe pregar um cagaço do camandro,  a conversa evoluíu e ela disse-me que quase não me tem visto, e que ando na escola a tentar passar pelos pingos de chuva. Lá lhe expliquei que a minha vida anda tão, mas tão, complicada, que me ponho a andar da escola sempre que posso para prevenir acidentes. E por acidentes leia-se "respostas tortas", "gritaria", mandar calar toda a gente, mandar alguém pastar e, tudo isto, sem razão aparente ou qualquer culpa dos envolvidos.
Ando com vários assuntos a fervilhar na cabeça em simultâneo: avaliações, problemas familiares, mudança de casa e trabalho burocrático amontoado e urgente, só para falar dos mais complicados. Estou habituada a obcecar com um problema de cada vez e estou a sentir-me completamente afogada num turbilhão de ideias sucessivas, de alertas vermelhos e luzes a piscar dentro da minha cabeça, o tempo todo.
O resultado foi que perdi completamente a máscara da normalidade: esqueci-me de ir pôr o meu carro ao mecânico quando tinha marcado hora há dois dias, não dei uma para a caixa nas aulas, troquei o nome dos alunos todos, só fiz cagada todo o santo dia. Vá lá, que a reunião que tinha convocada com os pais correu sem incidentes e consegui chegar a casa sem me espetar contra um chaparro, apesar das três horas mal dormidas, mas estou com uma crise de ansiedade daquelas bem grandes.
O Carnaval são três dias e estou de volta à costumeira (a)normalidade.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Para a posteridade

Para além dos meus amigos, não faço ideia de quem são os meus leitores. Alguns leitores tornaram-se amigos, e são lucros inestimáveis deste blogue que, de início, era para ser uma catarse e um desabafo. A vaidade é uma daquelas tendências que tenho muito raramente, mas gosto sinceramente de algumas coisas que escrevo e fui divulgando o estaminé. A verdade é que, passados uns anos disto, já não é a veia poético-literária e confessional que perdura. A maior parte dos meus textos, agora, são banais, mas a vertente catártica deste espaço continua a satisfazer-me. E sei que o meu estilo de vida angustiado acaba por encontrar espelho em alguns leitores. A minha esperança é que os ajude, pelo menos a perceber que, como diz uma amiga minha, há muita gente sozinha em barcos semelhantes. (adorei esta variante sobre o cliché: há muita gente no mesmo barco. A variante faz toda a diferença, aqui).
Isto porque quero deixar aqui escrito, para a posteridade, uma experiência que tive hoje e que foi da maior importância para mim. E que poderá ajudar pessoas com abertura mental suficiente a dar passos importantes nas suas vidas.
Quem me segue, ainda que só por aqui e anonimamente, sabe que um problema pessoal atirou comigo para o divã de um psiquiatra. Isto, assim dito, faz de mim alguém digno de pena, ou de medo: dos maluquinhos quer-se distância, porque nos mostram a decadência das nossas capacidades mentais, e a impotência que todos temos para evitar sermos a próxima vítima. O preconceito é tramado, mas ainda assim optei conscientemente por não fazer segredo disso, e descobri que, para muita gente, a depressão não carrega o estigma de uma bipolaridade ou de uma esquizofrenia, chegando até a ser fashion, pasme-se.
Para mim, todavia, não é motivo de orgulho nem vergonha, é mais uma das minhas doenças, outra que não sei se terá cura mas tem tratamento, outra que me provoca dores e mal-estar e que preciso de fármacos para tratar. Estou habituada a médicos desde os dezoito anos e para aí desde os vinte e quatro aceitei ser uma doente crónica, portanto não é novidade. É só mais uma doença tratável e controlável, se for permanente, temos pena, mas o que não mata, engorda, e eu bem preciso de uns quilinhos extra.
Começava a incomodar-me haver certas coisas que, após um ano de terapia em que jamais duvidei das competências do terapêuta, por um lado, e do bem que aquilo me fazia, por outro, haver certas coisas importantes na minha vida, dizia, de que ainda não conseguia falar. Havia uma parte escura e densa que não conseguia vomitar naquele gabinete, sem que tal tivesse a ver com falta de confiança ou mentira deliberada. Uma daquelas omissões talvez porque, no meio de tantas perguntas que o Doc me faz semanalmente, nunca tenha feito aquela que me poria contra a parede e me obrigaria a mentir conscientemente ou a deitar tudo cá para fora.
Hoje abri essa porta, embora não tenha sido necessário pergunta alguma. Resolvi que, para evoluir no tratamento, teria que fazer sacrifícios e cedências: por muito que me custasse, estava num processo irreversível e havia sintomas que, por mais embaraçosos que fossem, teria que expor, porque sabia perfeitamente que influenciariam diagnóstico e tratamento.
Correu lindamente, tenho a dizer a quem me lê. Quem como eu, um dia pensou que psicólogos, psiquiatras e astrólogos estavam todos no mesmo saco duvidoso, dentro de um profundo ceticismo, desengane-se: se alguma vez experimentei algo parecido com a verdadeira fé, que é acreditar em algo que não se percebe ou não se vê, foi hoje. Não sei em que é que é diferente dos desabafos que fazemos na intimidade às pessoas em quem mais confiamos, mas está a milhões de anos-luz. Depois de um ano disto, hoje senti um patamar muito importante ser ultrapassado. Aconselho todos os desesperados a procurar ajuda, e a insistir, se não encontrarem à primeira um médico que sintam ser apropriado. É que quando for a pessoa certa (um pouco como as pessoas que encontraram um grande amor costumam dizer), o doente sabe. Eu soube. Senti que aquela pessoa que tinha à frente era de confiança e me podia indicar caminhos importantes. Eu, que sou hipercrítica, hipercética e hiperinerte, não falho uma sessão e acredito piamente, sem conseguir explicar os comos e os porquês, que este tratamento me está a fazer um bem enorme.
Mas desde já aviso: terapia não é para meninos, nem para mariquinhas. Há que ter algum estofo para aquilo, mesmo que esse estofo seja muito irónico, já que parece sempre, mas sempre, que somos uns pieguinhas dependentes de Kleenexes e, falo por mim, completamente incapazes de sair de uma hora de conversa sem parecer um pargo congelado há três meses, tão inchados e esbugalhados estão os nossos olhos.