sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Monstro Verde do Ciúme

Esteve uma noite fenomenal na Cidade de Deus. Digna de um país tropical, e não houve cão nem gato a ficar em casa. Até parecia uma cidade normal, não fosse a grande quantidade de caras conhecidas a passar em frente aos nossos olhos.
Abancados na esplanada do costume, a ver passar as famílias e os grupinhos de alunos em férias, a rir e a falar alto, como sempre quando se reúnem professores, a discutir o sexo dos anjos e a dizer todo o tipo de baboseiras, a conversa virou de repente para as relações pessoais e esse monstro verde que é o ciúme. Uns diziam que não são ciumentos, e que o ciúme tem fronteiras muito ténues com a desconfiança, que é ofensiva, ou com o sentimento de posse, que é inaceitável. Anuí. Outros diziam serem ciumentos sem serem desconfiados ou possessivos, ciumentos fruto do medo e do amor. Voltei a concordar. Por fim, parecia-me que a pausa na conversa introduzia uma espécie de encorajamento à minha própria opinião. E contei a minha experiência pessoal ao longo da vida, o tipo de convivência que tenho com esse monstro verde.
Comecei por dizer que era ciumenta sem ser doentia. Uma ciumenta envergonhada de um sentimento que achava ser baixo e obsessivo, um sentimento que cresce exponencialmente desde o instante em que surge uma picadinha inocente no nosso íntimo, e nos pomos a conjecturar, e se?... não. Não? Não. Mas... se calhar, talvez... e por aí em diante. Confessei ser a pior das ciumentas. Sou ciumenta porque sou insegura, mas sou também muito racional e se há coisa que não considero justa é atirar para cima dos outros problemas que, no âmago, são nossos. Por isso sou uma ciumenta silenciosa. Calada. Entupida. Sofredora. E o monstro apodera-se de mim com uma força sufocante sem que eu seja capaz de o cuspir. Aguento com ele até poder. E tenho grande capacidade de aguentar a dor, a todos os níveis, sem que este seja uma excepção.
Ai, que horror, eu não, eu parto logo a loiça toda, eu isto, eu aquilo, eu o outro. Pois, acho bem, acho muito melhor do que fazer como eu faço, mas não me consigo controlar, por um lado, nem desabafar, por outro. Sou, de facto, a pior das ciumentas.
Mas a verdade é que as últimas relações que tenho tido devem muito à convencionalidade e há que séculos que não tenho estatuto para ter ciúmes. Ou seja, não tenho alguém com quem me sinta de tal forma una que possa, de facto, abrir o lado lunar de forma irreversível, expor os meus fantasmas e medos sem o receio, esse sim, muito maior, de ouvir, desculpa lá, mas quem é que pensas que és para me estares a cobrar seja o que for? É triste, mas é verdade. Pior que ter ciúmes, é não ter, sequer, direito a tê-los.
Por isso, hoje acabei por, numa noite fantástica, reunida com a seita na esplanada do costume, dizer em alta voz que sou a pior das ciumentas. A que não tem direito de expressão. E que, se o tivesse, provavelmente não o exerceria.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Conversa ao Telefone

Hoje o dia correu sereno, debaixo de um tórrido calor alentejano, alerta amarelo na Cidade de Deus, escola praticamente deserta em rescaldo das reuniões de avaliação. Estes são dias híbridos, que não são carne nem peixe, em que se deixa de ver as mesmas caras, se muda de horários e de equipas de trabalho e, ainda assim, se cai numa monotonia atroz.
Uma escola sem barulho de crianças e adolescentes é um sítio lúgubre. Arrepia, por parecer inverter a ordem natural das coisas. Perde a luz, perde a identidade, torna-se um não-lugar.
Ainda assim, há novidades, há conversas, há colegas a entrar e a sair, a demorar pouco, ou a ficar na morrinha das palavras deitadas ao vento.
E, acreditem, estar em casa doente enquanto os outros estão a trabalhar não é o mesmo que estar de férias. Não considerando já o facto do corpo ter mazelas que, na generalidade dos casos, dão dores ou mal-estar, não tem piada nenhuma saber que a "nossa seita" continua envolvida nas teias do costume, a rir-se de graçolas de circunstância, a tentar adivinhar conspirações, a fazer outras, a resmungar ou a ir à esplanada, sem nós.
Por isso, hoje liguei ao veterano. Eu estive em casa três dias e já estava a desesperar por ter faltado a alguns eventos. O desgraçado do nosso veterano já está em casa há duas semanas, e lá na escola perguntam muito por ele, mas ninguém o quer incomodar, "coitado do rapaz", "deixem-no em paz". Deixem-no em paz o caneco, quem é que quer ser deixado em paz e não saber as novidades, quem disse o quê, onde e porquê, e a quem, e olha lá o que aconteceu, achas que foi porquê? Hoje resolvi que ia ser chata. Ia melgar. Ia meter-me onde não sou chamada e levar ao Mundo do veterano um bocadinho da coscuvilhice da Cidade de Deus. Pô-lo a pensar em coisas mais fúteis que um menisco e uma ruptura de ligamentos. Contar as últimas. Dar um bocadinho de hipótese à má-língua. Não há nada que nos faça rir mais facilmente ou sentir mais leves que desancar em quem a gente não gosta.
Espero ter ajudado. Se estivesse no teu lugar gostaria que houvesse alguém a fazer o mesmo por mim, entendes? E a arrancar-me três ou quatro gargalhadas.
Um beijinho, da (agora e por enquanto) leal conselheira.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sangue, Suor e Lágrimas

Quando me lembro de Churchill, do que li nos livros, claro está, vem-me à cabeça a imagem de um estadista gordinho e de charuto, e um conjunto de citações, algumas hilariantes, outras arrepiantes. Adoro citações célebres, adoro a inteligência rara de alguns seres humanos ricos na produção de frases lapidares que ficam para a história, nem que seja para a história da literatura, ou apenas para a minha própria história, ou como diria o outro, para a minha lenda pessoal. Uma aluna minha tem algumas citações de Martin Luther King no hi5. Parti-me a rir quando, ao lê-las, descobri que, a par de Luther King, me citava a mim, nas saídas mais parvas que tenho nas aulas. Grandioso. As minhas citações a par das do autor de Free at Last!
Isto para dizer que, ao fazer a retrospectiva do dia de hoje, me ocorre a expressão sangue, suor e lágrimas. E foi um dia cheio de reuniões, que faria se estivesse no meio de uma Guerra Mundial.
Sangue. Uma colega minha teve um derrame numa perna que rebentou a meio da tarde. Um colega meu anda há que tempos com hemorragias nasais inexplicáveis. Sangue. O meu não me salta pelos póros, felizmente, mas ferve-me nas veias, sobe-me ao rosto com frequência, pulsa-me com força, com uma força tal que muitas vezes - e muitas vezes hoje,- fico sem respiração, com sensação de perda de equilíbrio e controle, sensação de perda de domínio fruto do cansaço e emoções acumuladas em silêncio semanas a fio.
Suor. Está um calor insuportável. A escola parece um forno. O ar começa a ser irrespirável. Suor. Os meus amigos foram fazer uma caminhada lá para as bandas de Marvão ao fim da tarde. Não pude acompanhá-los porque tinha um compromisso. Inadiável. Um compromisso que ganhou hoje nova urgência pelo ponto que se segue. Ouvi dizer que a caminhada foi dura. A minha, embora metafórica, não me tem feito suar menos.
Lágrimas. Logo de manhã, a correr em catadupa. Uma amiga cansada, nervosa, sensível, extenuada por meses de trabalho e alguma preocupação com a própria saúde. Se há alguém que a entende, sou eu. Uma cara estranha, e uma cascata de lágrimas à simples pergunta, estás bem? Exactamente a fotocópia do que aconteceu, ao contrário, há duas semanas atrás. Nesse dia fui eu que chorei sem me conseguir controlar. Hoje foi ela. Lágrimas. As minhas. Mais discretas, menos desesperadas. Fruto do cansaço de ser uma eterna parva, uma constante idiota, que nunca está à altura das situações quando se trata de dar o troco, e continua, sempre e para sempre, a não conseguir virar costas a quem se está completamente nas tintas para ela e ainda assim precisa de ajuda. Lágrimas de frustração, de revolta e auto-admoestação por não honrar os ensinamentos da família que ama e respeita e a educou para ter amor próprio. E falhou. O meu avô hoje está de sobrolho carregado. E eu peço-lhe desculpa em silêncio, sabendo que a minha estupidez não tem perdão.
Sangue, suor e lágrimas.
À tardinha, uma conversa amena, muitos desabafos, muita compreensão, lágrimas nos olhos, sensibilidade à flor da pele, mágoas engolidas vezes demais, partilha de experiências, construção de alguma cumplicidade. Duas pessoas juntas, por acaso, porque sim. Duas pessoas que, de forma surpreendente, têm muitas opiniões em comum e um feitio que, parecendo tão distinto, acaba por se tocar no essencial. Como em Casablanca, This can be the beginning of a beautiful fiendship.

Jade's Anatomy

Uma das minhas séries de eleição é Grey's Anatomy. Tenho em DVD algumas temporadas e já vi os episódios tantas vezes que quase sei alguns diálogos de cor. Para dizer a verdade, mais do que os diálogos, acho violentamente dilacerantes os monólogos de Grey, que iniciam e terminam cada episódio, como se de um ciclo se tratasse. Estão cheios de frases lapidares, daquelas que puxam ao sentimento primário, sem cair na lamechice ou no lugar-comum. Estão cheios de metáforas simples, muitas vezes de cariz médico, as feridas, o sarar, o tempo, a doença, a cura, o crónico, a dor, a panaceia.
Está a passar na RTP2 a terceira temporada, às terças à noite. Já vi a maior parte desta temporada na FOX, mas hoje apanhei um episódio que ainda não tinha visto. Depois de um dia difícil, de muito stress, muitas reuniões, pouco tempo para comer e relaxar, e trabalho de responsabilidade trazido para casa, este episódio caiu como uma pérola num dia reduzido à parte mais burocrática da profissão docente.
Disse à Mzinha que não havia outra série em que fosse tão (quase) garantido rir e chorar em tão curto espaço de tempo. Rir às gargalhadas e chorar baba e ranho, depreenda-se.
O que é estranho é que me revejo em todas, todas, as personagens femininas. Sou a confusa Grey, a ácida e independente Christine, a dilacerada Izzie (sendo que me identifico com a Izzie apenas desde que Denny morreu, antes disso era-me uma personagem muitíssimo simpática mas pouco empática). Sou a insegura Torres, a solitária Addison, e, claro, a Nazi nos seus dias em que trata toda a gente abaixo de cão. A Nazi sou, sobretudo, com os meus alunos, a desancá-los como se fossem my suck-ups, mas sempre a controlar os seus problemas e metida ao barulho nos seus dramas pessoais.
É a minha hora de ilusão. Quando comprei os DVDs fiquei muitas horas seguidas a vê-los. A rir e a chorar. A suspirar e a sorrir. É tudo muito violento, quando se trata de emoções e afectos, nesta série. Tal como na vida real. Há perdas e danos, separações e reencontros, gritos e abraços, tudo à semelhança, quase um decalque, da minha vida pessoal. Frases que, retiradas do contexto, poderiam sair da minha boca, se não tivesse este horrível problema de expressão que é não articular nada de jeito, quando se trata de falar, para depois chegar a casa e me sair tudo tão coerentemente quando pego numa caneta ou olho para o teclado de um computador.
Acreditem que é uma cruz. Acho que a vida me correria muito melhor se toda a gente comunicasse por bilhetinhos. Ainda hoje, e assim, de repente, me surgem duas situações distintas em que não estive à altura das palavras certas, mas certa de que teria estado, se as pudesse ter escrito. É sobretudo quando se trata de ser realmente desagradável e incisiva, quando se trata de impor a minha razão ou a minha vontade, quando se trata de responder à altura ou de dizer umas belas verdades a quem merece, que se me vai o pio. Isto porque, se abrir a bocarra, em vez de sair a ganhar, como a Nazi, perco a razão, como acontece sempre à Christine.
Neste momento, a minha personagem favorita é a Izzie. A Izzie de cara alegre e coração partido, que diz que a dor da perda não é a "porra de uma maré, em que há uma onda mais forte, e uma acalmia, mas uma constante, um sempre, uma inerência de que não quer falar porque se tem um medo enorme de traduzir em palavras o intraduzível e com isso acabar-se tudo, acabar ela, dissolver-se ela mesma na constância da ausência" Mais coisa menos coisa.
Life's no Grey's Anatomy. Mas as semelhanças são tão pungentes, tantas vezes, que hoje o que me ocorre para definir a minha, em duas palavras, é Jade’s Anatomy

terça-feira, 24 de junho de 2008

O Prémio do Euromilhões

Desde o início do ano que ando a vociferar que esta gente pensa pequeno. Desde o início do ano que ando a dizer que não se devia pensar no jantar do euromilhões, mas na viagem do euromilhões. Pensar grande atrai a sorte grande. Mas não. A conversa do grupo do euromilhões era sempre se o acumulado já dava para pagar o jantar. E eu insistia, a viagem, pá, qual jantar, a viagem... Nunca ninguém quis saber. Resultado: hoje os pobres tesos saíram à rua para fazer a festa... e jantar o prémio do euromilhões. Noventa euros... investimos nós noventa euros para isto...
Sôdôna Jade avisou: já que se fazem bailes de gala há dois anos e ninguém a convida; já que houve, inclusivamente, um jantar de gala este ano e ninguém a convidou; já que os últimos acontecimentos da sua vida são dignos da tal celebração de ano novo, vida nova; já que tudo isto e muito mais... Dona Jade marcaria presença vestida de gala. Se bem o disse, melhor o fiz. Ah, pois fui. E sabia que seria a única e iria destoar. Paciência. Fui e diverti-me que nem uma macaquinha numa selva de palmeiras e bananeiras. Só não consegui despir o casaco porque cheguei muito atrasada e toda a gente teve oportunidade de gozar com a produção. Mas também houve quem, em vez de gozar, percebesse perfeitamente o porquê do aparato. E achasse bem. Eu sou das que achou muito bem.
É claro que não sabia que o jantar do euromilhões dava direito ao peddy-paper que não fizémos a dez de Junho. Mas isso ainda teve mais graça. Acho que a chefe lhe chamou a corrida dos cágados. Nem todos os cágados chegaram ao fim. Mas este cágado chegou, no alto das suas tamanquinhas de dez ou mais centímetros. Aos guinhchinhos sempre que enfiava um salto no meio do empedrado duma rua a que alguma alma iluminada teve a ideia peregrina de chamar direita. 'Mas se eu não vou aos célebres bailaricos da minha terra, que raio ando eu a fazer aqui, pá?' E ria-me, no meio dos outros cágados todos.
Há que dizer que a volta à Senhora da Asneira tinha como principal objectivo uma Visita de Estudo à Sex Shop que abriu na Cidade de Deus. Objectivo cumprido. Toda a gente diz que não há vez como a primeira, e foi orgulhosamente que um bando de respeitáveis professores, acompanhados das mais altas elites da escola mais in da cidade, que é a nossa, invadiu a dita loja e tomou conta da situação. Memorável. Aprendi imenso nesta visita de estudo, vi uma parafernália de objectos desconhecidos e fiquei estarrecida, com duas cágadas atrás de mim aos risinhos, queres que te faça um desenho, vê lá se queres que te faça um desenho para saberes para o que isso serve. Já não morro estúpida, vos garanto. Selecciono para a minha lista de compras, agora que temos o subsídio de férias fresquinho, a inigualável boneca inflamável (não é gralha, não, leram bem) que lança chamas perante um bom desempenho do par masculino, garantia de 5 anos, preço acessível, leve duas pague uma; e um bâton adequado a salas de professores como a nossa, e reuniões de avaliação muitíssimo sérias e longas. Tudo o que for chato e comprido como a espada do Afonso Henriques ganhará nova vida com o uso apropriado do dito bâton. Paleta de cores restrita, mas não se pode querer tudo. Fiquei muito triste por não haver disponível o varão para a pole-dance, mas o pastorinho que ia connosco parava em todos os sinais de trânsito e dizia-me, e este, não serve?, fazendo um ar muito desiludido quando eu abanava a cabeça em sinal de desaprovação completa.
À saída da sex-shop, Sôdôna Jade comentava, perante uma anedota apropriada à ocasião e que metia um extintor pelo meio, que não foi para isto que sua mãe a andou a criar a pão-de-ló. Antes disso, por volta da meia-noite, o distinto grupo ainda foi cumprir o ritual de ver a própria imagem espelhada numa fonte, para conseguir mais um ano de vida. E esta foi uma imagem digna de ser vista, meia-dúzia de alminhas cultíssimas, inteligentíssimas e chiquíssimas debruçadas sobre uma fonte, arriscando um afocinhamento seguido de afogamento, em prol de um ano de vida. Ele há grandes vidas, cacete! Imagino a equipa do CSI-Cidade-de-Deus a tentar desvendar o que teria levado tantos professores da mesma escola ao suicídio em massa de maneira tão peculiar.
Os cágados que sobraram foram beber copos, fumar cigarros e contar anedotas para um barzinho muito simpático, que esteve por nossa conta. Eu já tinha dito que não me interessava nada onde íamos, dado que os que estavam fariam a festa, desde que sentados, que esta do peddy-paper foi uma cena mesmo à traição...
E mais uma vez, não me enganei. Não dou um segundo por perdido. But my feet are killing me!!!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Data Festiva

Hoje alguém faz uma idade bonita e é a primeira vez em seis anos que não lhe dou os parabéns. Bem vistas as coisas, acho que é a primeira vez em seis anos que não sou a primeira pessoa a dar-lhe os parabéns. Tal não significa, como este texto obviamente demonstra, que não me tenha lembrado da data ou que não me tenha ocorrido mandar a mensagem da praxe, mas desisti rapidamente da ideia. Não faria o mínimo sentido, e é a isto que se chama crescer, é isto que a minha mãe me ensina desde pequena, ama os que te amam, ignora os outros. Ao olhar para o meu percurso, parece que aprendi a lição ao contrário, sempre a insistir e a correr atrás de casos perdidos.
Talvez por andar metida neste turbilhão de entradas e saídas de hospitais e clínicas, talvez por ter apanhado o maior susto da minha vida e estar em ressaca do alívio que se lhe sucedeu, talvez pelos efeitos da anestesia geral, talvez pela lavagem cerebral que me fizeram nas últimas semanas, o dia passou suave. Quase como se fosse um dia entre outros, e não uma efeméride dos últimos anos. De T-shirt, jeans e havaianas, dei as minhas voltinhas costumeiras por Lisboa, fui à clínica, almocei com a minha mãe no shopping onde fui buscar um livro que tinha encomendado, falei com os lojistas do bairro, então, alentejanita, regresso forçado a casa, férias antecipadas, grandes vidas... vegetei em frente ao AXN e ao FOX.
Falei com a Li e com o Bob ao telefone, agora que já recuperei o pio. Contaram-me as novidades, riram-se quando lhes contei que uma família de úlceras elegeu o meu esófago como o T3 do ano em condomínio de luxo. Faço bem ao estado de espírito destas pessoas. E só Deus sabe como estas pessoas fazem bem ao meu. À despedida, o Bob tinha perdido muita da tristeza na voz, e dizia, feito pavão, 'não me querem deixar ir embora porque dizem que sou o homem mais charmoso internado neste hospital'; e a Li, 'tu e ele (O BoB) não se podem queixar de falta de gente preocupada convosco, tem sido um corropio de perguntas'.
É bom saber disso. Houve colegas a pedir o meu número de telemóvel de propósito para me mandarem mensagens de rápida recuperação, boa sorte e, as minhas favoritas, volta depressa que fazes cá falta. Há muito tempo que eu não sabia o que era fazer falta a alguém. Pelo contrário. Andei os últimos meses a sentir-me completamente ignorada, aliás, mais do que isso, muito mal-tratada, gozada, até. Completamente posta de lado, à bruta, a ter conhecimento de muitas coisas ditas e feitas na minha ausência, por intermédio de terceiros. Coisas inacreditáveis, de uma incoerência digna dum quadro surrealista. Durante algum tempo, não quis acreditar no que me chegava aos ouvidos. Depois, deixei de acreditar no que queria acreditar, e rendi-me às evidências.
Por essas e por outras, não é que não me tenha lembrado que hoje é um dia especial. Simplesmente deixou de ser especial para mim. Tal como especial deixou de ser esta pessoa e outras, poucas, que assinaram o livro da decepção. Como especiais passaram a ser o dezoito e o dezanove de Junho em que muita gente, alguma surpreendente, me disse, volta depressa que fazes cá falta, ou, por aqui tudo na mesma, mas mais tristes, claro, porque tu não estás cá.
São estas, e apenas estas, as coisas na vida que merecem comemoração, brindemos à magia dos afectos.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Um ano depois

No ano passado, por esta altura, estava a viver uma fase mágica na minha vida. Estava muito feliz, sentia-me completa, plena, cheia de energia e vigor, com montes de planos que incluíam terminar uma dissertação sobre Paul Auster, viajar depois para Nova Iorque, voltar e continuar a sorrir. Estava apaixonada, uma paixão que se colava a mim mesma e à vida em geral.
Um ano depois, olho para trás e fui trocada por um exemplar mais bonito, que fica bem na fotografia e não causa embaraço no boato. Não estou apaixonada, não me sinto completa, tenho pouca energia e não faço planos. Olho a vida com um ponto de interrogação do tamanho do Universo, e as pessoas com uma desconfiança atroz. Principalmente aquelas que me sorriem de quando em vez, e acham que com isso têm lugar no meu caminho, como se eu fosse Hensel ou Gretel, à procura de migalhas no regresso a casa.
Mas no ano passado, por esta altura, tinha menos amigos. O meu Mundo era restrito. Na escola, então, contavam-se pelos dedos de uma só mão. Neste momento, se for a ver, não chegam as duas. E são todos bons, especiais, dedicados, meigos e solidários. Não julgava ser possível fazer tantos amigos em tão pouco tempo, já depois dos trinta. Mas também não contava com certas armadilhas do destino, que me colocaram numa posição vulnerável e permitiram abrir o meu Mundo, muito a medo, mas ainda assim, a várias pessoas de uma só vez.
Só queria dizer que, feitas as contas a este ano, se calhar sou mais feliz agora, embora não viva a felicidade de uma forma tão intensa. Não a vivo porém, iludida. Sou mais feliz porque sei que não me vão virar costas, fingir que não me vêem, passar por mim sem me falar ou trocar-me por um modelo mais espampanante por meio de um subterfúgio idiota. Mais feliz porque sei que nenhum, nenhum destes seres que me rodeiam me vai, jamais, deixar passar por situações difíceis sem uma palavra, uma festa, uma piada parva. Que nenhum deles me vai jamais mentir. Sou mais feliz porque tudo o que tenho é autêntico e genuíno, sem jogos ou dissimulações, fingimentos, escondidinhos e cabras-cegas.
Cada vez que olho para a pedra de jade que hoje me ofereceram, comprada na feira de minerais da escola, e dada com um misto de ternura e cumplicidade de quem partilha confidências e está sempre presente, lembro-me que, feitas as contas, e sem saber ainda o que aí vem, já estou a ganhar. Beijos a todas as presenças, as de sempre, e as que chegaram quando alguém partiu e deixou espaço para que o destino fizesse o resto.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Despedida

E assim se chega ao texto número cem.
E assim se chega ao final do ano lectivo. Pelo menos, para mim. Amanhã dou as minhas últimas aulas. Hoje já dei as últimas aulas a algumas turmas.
E assim se perde a sardinhada de comemoração do final do ano lectivo, que é sempre tão animada. E o teatro da Pêlo Russo.
E assim se passam os últimos dias a corrigir testes, a fazer auto-avaliações e a não ter tempo para as costumeiras despedidas.
Hoje foi um dia difícil, parece que caiu uma ficha que tenho vindo a tentar evitar a todo o custo.
Amanhã é um dia repleto de aulas e depois, a viagem para Lisboa, a segunda, a decisiva, ou assim o espero.
O Pan mostrou-me uma tela que anda a pintar inspirada em mim. Genial. Mas acho que foi ao olhar para ela que tudo em mim por fim ruíu. Uma Kitty numa árvore com o destino a rondar. Um destino de cara pouco simpática. O quadro é de uma solidão atroz. Identifica os grandes símbolos da minha existência presente, o medo, a ausência, a vida, o vazio, o azar. Deu-me uma vontade doida de chorar, um nó na garganta que ainda não consegui desatar, a imagem da fragilidade e do desamparo. No final das contas, e na altura de as ajustar, somos apenas nós e o destino. E embora haja muitas presenças fortes a emanar boas energias e a velar-me o sono, não consigo deixar de pensar que o pincel do Pan foi ao cerne de todas as questões que me têm atormentado.
Amanhã planeio uma retirada estratégica e silenciosa. Sem despedidas mas com muita pena de partir. E muita esperança de voltar. Até breve.

domingo, 15 de junho de 2008

Pavões Armados

Prometi aos meus amigos que escreveria hoje, depois da derrota da nossa selecção, um texto com este título. Por inúmeras razões e algumas private jokes. Até já tinha, ao jantar, ensaiado a introdução, da qual já não me lembro... ainda estais cheios que nem bodes, lambões? Também eu... se disserem ao Pan que comeram gomas como condenados em minha casa ponho-vos um processo por difamação...
O destino dos pavões armados é o enxovalho em grande estilo. O destino dos pavões armados é jamais se deixar passar o epíteto de Mourinho do Desporto Escolar, sempre que começam a arrulhar dotes para sintonizar rádios. E quando o pavão diz," E pavonas? ninguém fala das pavonas?", toda a gente se lembra da pavona pela qual todos, sim, todos os pavões armados se vestem de gala. Embora só alguns babem dos bicos, "ai, esta pavona põe-me doido, ou tira-me do sério, ou inspira-me ao desporto", ou something like that. Mas ninguém comenta, só emendam, não é pavona, pá, é pavoa, e ele, foi de propósito, e nós, pois.
Pois é. Depois de um fim-de-semana de esplanada e correcção de testes, a viagem deu uma reviravolta fatal, quando um determinado pavão veterano se resolveu atirar ao chão e lixar um joelho. Lá tiveram duas pavoas que ir ter com outra a Viseu, para voltar para a Cidade de Deus. Juntaram-se então ao pavão-mor para ver o jogo, e ver onze pavões levar uma arrochada tal que até apitaram. Comeram quatro pavões que nem condenados à morte. E riram-se e tiraram fotos. E riram-se mais. E foram controlados pelos progenitores, que isto de nascer de um ovo tem muito que se lhe diga...
Esta pavoa entrou finalmente em Countdown. O segundo, em duas semanas, a ver se é desta que suspira de alívio ou se vai haver moelas de pavoa servidas em prato de tasca, apre...
Mas a verdade é que estou bastante calma, dadas as circunstâncias.
Estas alturas separam o trigo do joio. Dizia à Li, na última quarta-feira, que houve gente que não me desejou "Boa sorte", gente que, mais do que esperar que o fizesse, queria que o tivesse feito. E houve gente que eu sei que não pode comigo que o fez, e a quem eu agradeço a humanidade. Apesar de não gostarmos das pessoas ou aprovarmos as suas atitudes, a humanidade que há dentro de nós solidariza-nos com os dramas alheios, e gostei que alguns colegas se tivessem chegado ao pé de mim com simpatia, mesmo quando nunca o fazem. E fiquei muito sentida com outros, de quem esperava muito, muito mais do que fizeram que foi nada. No entanto, mais uma vez, a Li foi sábia: faz falta como um cão à missa, deixa lá isso.
O trigo e o joio.
Comentei com a minha mãe a decepção que continuo a sentir perante a pequenez da condição humana e ela olhou para mim com aquela cara que faz quando não me quer insultar, mas não lhe surgem palavras elogiosas para me classificar. Abanou a cabeça e disse... ainda vais a tempo de deixar de julgar os outros por ti.
Desde sexta-feira, seis (treze, para mim), muita coisa mudou. Tal como disse, estou a viver o momento, num hiato temporal que não admite presenças ausentes. Neste momento, preciso de todos os que estão. Quem não está agora, não estará mais. Eu conheço-me muito bem. E lembro todos os momentos difíceis que tive na vida, já foram alguns, e sei quem lá esteve. E também sei quem me falhou. E quem me falha em momentos cruciais não repete a graça.
Neste instante, sei com que pavões me coso, sei em quais confio, sei quais habitam a mesma capoeira, os que me envolvem com as suas penas, os que grasnam e arrulham a meu lado. É um grupo restrito, mas especial. Raro. E só faz falta quem cá está, a dar força, ternura, coragem, sorrisos, abraços, beijinhos, tudo com fartura, naturalidade, sinceridade. Os que são verdadeiros e coerentes. Que me mostram, em tempo útil, que me amam. Porque, com a dúvida que paira, este é o momento de dizerem que me amam. Adiar é não levar a sério a situação em que, para o bem ou para o mal, me encontro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro... é a hora! (Pessoa)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Living La Vita Loca

Pois é, isto de se aproveitar o momento tem que se lhe diga. No fim-de-semana passado, foi Comporta. A semana, a abrir, entre Lisboa e a Cidade de Deus. De momento, estou em Aveiro. Depois de ter lanchado na Curia. E ter conhecido a Quinta do José Cid.
Isto de se aproveitar o momento, no meu dicionário, tem duas entradas: 1- passear; viajar. 2- estar com os amigos em patuscadas. Isto é que têm sido dias ricos em Carpe Diem...
Segunda volto ao trabalho e terça volto a Lisboa, a ver se é desta... mas tenho tido momentos fenomenais, lá isso... entre mistérios e segredos mal-guardados, comentários ao blogue de autores desconhecidos, - mas muito, muito, simpáticos, - jantaradas, grelhados ao ar livre, saídas à noite, espectáculos, música, viagens e passeios, praia e montes alentejanos, beijinhos de alunos e abraços de colegas... têm sido dias, repito, fenomenais. Living La Vita Loca...
Até já.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A Loucura da Normalidade

Ontem foi um dia de doidos. Andei a levitar o dia todo, uns metros acima ou abaixo do meu corpo terreno, perdida num subconsciente que nem raciocínios articula. Parece que passei o dia envolvida em sensações, quais pinceladas num quadro impressionista.
O dia de ontem aparece-me em imagens. Nem são bem fotografias-polaroid, são quadros, alguns muito realistas, outros a dar para o surrealista, muito impressionismo e muito cubismo. Detalhes, pormenores, olhares, abraços, toques subtis no braço. A cara da minha chefe que nunca me tinha visto chorar, e provavelmente achava que nunca iria ver. O bilhete que o Pan me escreveu a dar força e a vociferar contra o destino. A Miss Covilhã a chamar-me querida ao telefone, quem diria? O Marquês de Pombal vestido de verde e vermelho. Um táxi que me ia batendo a toda a brida, quase a chegar a casa. O olhar indiferente da minha gata amuada por lhe roubar a cama favorita. O jantar que a minha mãe me pôs à frente, uma delícia.
Enquanto dava aulas aos meus alunos, ocorria-me o pensamento que, se as notícias fossem mesmo péssimas, - e os nossos maiores medos atraem os nossos piores pesadelos -, não os voltaria a ver este ano. Talvez nem no próximo. E isso parecia-me tão absurdo como um sonho que não consegues explicar quando acordas. Inimaginável. Pensava: não é possível, não acredito nisto. Não vai acontecer. E deixava os alunos sair, sem despedidas, só com o aviso de que iria faltar uns dias. "Sem despedidas, para dar sorte", como escrevi em resposta ao Pan.
Hoje foi tudo diferente. Não houve exame. O médico faltou e eu, sem voice-mail, não fui avisada em tempo útil. O meu médico assistente apanhou-me no corredor do hospital e marcou uma consulta para a tarde, não sem antes dizer, mau, estás magríssima, cachopa, não comes? E eu, como, e ele, então não andas a assimilar nada, mau sinal... e a minha mãe a ficar branca como a neve, e eu a chamar-lhe todos os nomes mal ele virou costas.
O regresso à Cidade de Deus, interminável, sob um sol quente, ao sabor de música levezinha, com a imagem da minha mãe a dizer, toda a gente te adora, lembra-te disso, e eu, nem toda, e ela, ainda bem, se não haveria algo de muito errado contigo e eu, nem toda a gente que eu queria que gostasse, e ela, pois, o Clooney também nunca me ligou nenhuma e eu não consigo perceber porquê. Rio-me com vontade e acendo outro cigarro.
Quando cheguei tinha um jantar de arepas à espera, e dois convidados VIP para as partilhar connosco. Depois de se meterem com a forma "desportiva" como vinha vestida, lá se fez a festa e se pôs a conversa em dia. As novidades do dia foram dissecadas, não posso faltar um dia, cacete?, lá contei a minha volta à senhora da asneira, e lá ouvi um amigo meu a imitar o Nuno da Câmara Pereira, melhor que o original. Cruz-Credo!
Não há dúvida que estou grata por estes dias-extra que um médico me deu de presente. Uns dias-extra de normalidade, de trabalho, de alunos e de colegas, mesmo dos que passam por mim como se eu fosse transparente ou, pior, incómoda como a areia nas orelhas quando se vem da praia. Cocem-se, pá. Até lhes consigo achar alguma graça, com aquela expressão permanentemente enjoada de quem engoliu uma mosca juntamente com a sopa. A sério.
O dia de ontem foi uma sucessão de paletas de cor forte. O de hoje, um filme em fast-forward. Onde estou eu no meio de todas estas artes, não sei. Nem quero saber. Estou a viver o momento, a emocionar-me com os vossos comentários ao blogue, a sorrir com os toques e os sms dos meus alunos, a rir-me com os discursos sábios da minha mãe, a vibrar com os pormenores que os meus amigos contam de uma escola sem mim, a saborear arepas de galinha (branca!...) e queijo acompanhadas a Monte-Velho, Coca-Cola e cigarros serão dentro. Sem antecipações e antevisões. Mais importante ainda, sem recordações. Que o passado e o futuro estão bem no seu sítio certo. À frente ou atrás. Até quarta-feira, no bónus que me deram, reine o agora, a Loucura da Normalidade, que sou privilegiada: a minha normalidade nada tem a ver com monotonia.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Ainda Aqui

Vim para Lisboa na companhia do Ronaldo, do Quaresma e do Deco, e aterrei no Marquês de Pombal onde se fazia a festa da vitória e da passagem aos Quartos de Final. Já à chegada, ia levando com um estupor de um taxista, que me fez recordar que a viagem só termina no destino, quando se puxa o travão de mão e se desliga o carro.
Vim para Lisboa a sentir os abraços que, um a um, vocês me deram. Amanhã é à recordação desses abraços especiais que vou voltar, quando o momento for de pânico, e quando adormecer, vou certamente lembrar-me das vossas caras e dos vossos sorrisos.
Vim para Lisboa com a certeza de que vou voltar em breve, uma certeza muito maior do que o medo do contrário.
Ainda aqui, mas por pouco tempo. Não tarda, estou aí.
Beijos, e o meu obrigada de sempre

terça-feira, 10 de junho de 2008

Post-Scryptum a Bob fez anos

Nos próximos dias, a música da Jade vai entrar em PAUSE. Não acredito que me seja possível escrever seja o que for, pelo menos até segunda-feira. Não me será possível, sequer, falar, na quinta-feira, não se assustem os mais atentos. Lá para sexta à tardinha estarei de novo comunicável, e com boas novidades para todos, assim o espero.
Mas agradeço a todos os que, com gestos simples e poucas palavras, me desapertaram o coração durante estes dias. Seja lá o que for, venha o futuro. A coragem, às vezes, não é nossa, é um presente oferecido à martelada. E vocês martelaram-me o juízo qb, com risos e música, praia e patuscadas ao ar livre, correcção de testes em conjunto e doces de ovos moles. Até o Jagunço se juntou à lista de conspiradores.
Hoje o Bob fez anos mas sou eu que ando a receber presentes de coragem e incentivo, amizade e paz de espírito, desde sexta-feira treze, que afinal este ano veio a seis.
Beijos grandes e até já.

O Bob fez anos

Hoje o Bob fez anos e fizeram-lhe um bolo de cimento, para que o pudesse guardar para sempre. Hoje o Bob fez anos e reuniu um grupo de amigos para uma patuscada ao ar livre, com um cão a rondar as chouriças, um vinho de onze anos, muito peixe fresco e boas sobremesas. O Bob fez noventa e quatro anos e está bem conservado, para veterano. Ouve Vaya Con Dios, conduz com o encosto do Nikki Lauda e diz "Hoje estás diferente...", com um ar de sabedoria que o resto da frase desfaz em fumo. Hoje o Bob fez anos e cheirava a férias, mais uma vez, entre um sol radioso e uma sombra que passou, irremediavelmente, ao lado, apesar de vir a passo estugado. Hoje o Bob fez anos e roubou três limões que ficou de devolver à árvore, porque pior que roubar é ser apanhado.
Hoje o Bob fez anos e, ainda assim, foi o primeiro a perguntar, de voz séria e inocente, então, como é que é? E não apanhou a tal lostra. Mas só porque fez anos. E se arrasta, anonimamente, por este blogue, o dissimulado. Bob, o dissimulado, fez anos e a idade, por muito que diga o contrário, não lhe pesa, cheia de histórias para contar e resmunguices contra as gasolineiras que patrocinam a Selecção e os professores que querem ver jogos à hora em que estão marcadas reuniões.
Parabéns, Bob. Não respondas, que és casmurro, e o feitio, com a idade, apura...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Então, como é que é?

É a idade a chegar. Juntam-se seis pessoas, seis. Quem visse, pensaria tratar-se de um regimento de gente demente a sofrer de Alzheimer. Não sei, perdi a conta às vezes em que se repetiram as mesmas coisas, quem levava o quê, a que horas era o encontro e onde, quem ia buscar quem, que compras eram necessárias e o que havia em casa... tudo repetido, pior que nas aulas o número da lição aos gaiatos, ou o número da página em que têm que abrir o livro. Há sempre um, sempre, que depois do costumeiro par de berros, ainda pergunta, com ar inocente, qual é a página, professora? Assim estava a Li, hoje. Apre, rapariga, cruzes-canhoto, por amor da Santa... MENOS! Foi a barrigada de riso da praxe, anda reco!, e outros mimos, que esta mulher é do norte, carago.
Estou para ver amanhã. Estou para ver quando chegarmos com alfaces e pimentos, e sardinhas de escabeche e mousse de chocolate, e vinhos x-p-t-o, que a ocasião merece, estou para ver toda a gente de olhos inchados de sono a comer bolos na dó-ré-mi, em silêncio. Estou para ver quem é o primeiro a dizer, de voz séria e imperturbável, ouçam lá, mas afinal como é que é? E a levar uma lostra que lhe vire a cara para o sítio onde tem o... sim-senhor. Olha, pá, é assim, deste tamanho...visto da lua! Irra!

Unforgetable

Há duas pessoas a quem tenho a agradecer um fim-de-semana inesquecível. Este fim-de-semana que agora termina.
Foi com um medo irracional de morrer que começou. Um medo de morte picado pela sensação de estar há demasiado tempo sem viver, sem curtir os bons momentos, sem apreciar de facto seja o que for, presa que tenho andado a velhos fantasmas, numa luta perdida à partida, como sempre que se rema contra a maré. Ao longo de todos estes meses de sofrimento físico e emocional, um sofrimento muitas vezes plácido e indolor, mas constante na sua presença, fui várias vezes avisada por diversas pessoas de que estaria a dar murros em pontas de faca. De que as pessoas são o que são, e são piores do que aquilo que eu faço delas. Que não há desculpas quando nos magoam a sério, nem tentativas de justificação para outros que não sejamos nós mesmos.
Sexta-feira, ao telefone com Li, cheguei a soluçar. A soluçar a possibilidade de poder não voltar depois de quinta-feira, de poder não voltar para o ano, de poder estar condenada a um suplício maior do que me atrevi, algum dia, a considerar para mim. Chorava e dizia-lhe, o que mais me dói é este ano perdido, cano abaixo, meses a fio perdidos. E ela não foi capaz de me atirar um "eu bem te avisei, tantas vezes te avisei que as coisas não eram como tu as vias, que não havia inocência nem arrependimento, apenas pessoas que seguem em frente e te deixam para trás sem sequer voltar a pensar nisso".
E imaginei o meu fim-de-semana, que podia ser um último fim-de-semana digno disso nos próximos tempos, comecei a imaginá-lo um pequeno pesadelo de solidão, maus pensamentos e arrependimentos recorrentes até à loucura.
Depois de vir da ópera, estive muito tempo acordada, a escrever, a pensar, a chorar. Quebrei de exaustão já quase manhã, e acordei já o sol ia muito longe no firmamento. Com os olhos inchados e um rosto que espelhava todas as guerras travadas nos meus pesadelos reais.
E foi aí que entraram em acção duas pessoas. Duas pessoas com quem apenas não dormi de Sábado para Domingo, mas que não me deixaram, fora isso, sozinha comigo mesma, a minha pior inimiga, um segundo que fosse. Dois seres que me arrancaram de casa para ver um jogo de futebol, com quem partilhei muitas confidências sobre a minha vida noite dentro e estrada fora. Dois entes divertidos, bem-dispostos e conversadores, que me levaram à praia que é dos sítios em que me sinto mais feliz no Mundo. Que me viram de bikini, branca como a neve, e não me chamaram magra, esquelética, ou outro dos simpáticos piropos que estou tão acostumada a ouvir. Duas pessoas que me levaram a passear na praia, a apanhar conchinhas, a comer gelados. Que me deram a oportunidade fundamental de relembrar as ondas do mar frio a bater-me nas pernas e os raios de sol a entrar-me nos póros, até a pele escurecer. Duas pessoas que me levaram finalmente a comer os tais chocos fritos com que eu não me calava desde manhã, acompanhados a traçados e sem direito a mousse de chocolate. Que pararam no caminho de regresso para eu fumar um cigarro, maldito vício, pareces uma drogadita, e se despediram de mim oferecendo-me a banda sonora do Verão passado, que me faz sempre chorar, e que aqui vos deixo,
Eu sei!
Tudo pode acontecer
Eu sei!
Nosso amor não vai morrer
Vou pedir aos céus
Você aqui comigo
Vou jogar no mar
Flores prá te encontrar...
... ... ...
Não sei...
Por que você disse adeus
Guardei!
O beijo que você me deu
Vou pedir aos céus
Você aqui comigo
Vou jogar no mar
Flores para te encontrar...
Hey, Yei...
You say good-bye
And I say hello
You say good-bye
And I say hello
... ... ...
Esta música, ouvida no Verão passado, foi por mim repetida vezes sem conta, como um cântico, um lamento, um amuleto, uma prece, uma oração. Parecia, enfim, adivinhar tudo de mau que me estava guardado nos meses subsequentes, em que eu esperava, ingénua e infantilmente, que tudo acabasse em bem, sabendo o quão difícil isso seria. Aguardava, ansiosa, o milagre que não veio, deixando passar a oportunidade dos milhares de milagres que entretanto me foram passando ao lado da alma triste que persistiu em ignorá-los.
Foram tempos perdidos, vejo isso agora.
Foram tempos em que poderia ter andado para a frente, se não tivesse querido recusar o óbvio, o demasiado óbvio, por ser o óbvio tão enormemente doloroso, tão tragicamente real na sua decepção.
Continuo a chorar sempre que ouço os primeiros acordes. Coincidentemente, passou na discoteca a que levámos os nossos alunos uma manhã destas, e eu dancei-a, com as lágrimas a correrem-me cara abaixo, sem ninguém dar por nada. No meio de centenas de alunos e dezenas de colegas, dancei-a sozinha na pista, abraçada ao meu amor perdido, em pranto pelo que em mim ficou quando ele partiu sem nunca, nunca, se ter dignado a olhar, uma derradeira vez, para trás.
E eu, fiquei imóvel e impotente, com os olhos cravados nas suas costas, a vê-lo afastar-se.
Desapareceu do meu olhar este fim-de-semana.
Agora, só agora, meu deus!, está na altura de começar eu a andar para a frente.
Tenho muito, muito medo do que me aguarda, mas quero agradecer a dois amigos que sabem quem são, o presente inesquecível de um fim-de-semana perfeito em circunstâncias muito agrestes.
As pessoas jamais esquecem o bem que lhes fazem, dizia o meu avô muitas vezes. E eu não sou excepção. Obrigada.

sábado, 7 de junho de 2008

Sexta-Feira Treze

Parece que é para a semana, a sexta-feira treze. Nesse mesmo dia é Santo António em Lisboa, e uma data importante para mim, por motivos que não vêm ao caso. Dizem que a sexta-feira treze é dia de mau agouro. A minha sexta-feira treze veio a seis, antecipou uma semana certinha. Porque hoje foi um daqueles dias em que teria tudo, mas tudo, sido preferível a levantar-me da cama de manhã.
Às onze horas recebo um telefonema do meu médico assistente com uma notícia que me fez ir em pranto dar a aula do meio-dia. Literalmente em pranto. Salvou-se o facto de ser a minha turma preferida, um grupo de miúdos que roça a perfeição, professora está doente, está triste, podemos ajudar, sente-se bem, precisa de alguma coisa? Ignorem-me, por favor, escrevam o sumário e vamos corrigir o TPC. É para já, sem mais perguntas. No fim, ainda houve um que me ofereceu um balão cor-de-laranja.
Zarpa para Lisboa, em estado de choque, a inventar parvoíces, a sonhar conversas, imersa num pesadelo recorrente. Em Lisboa, mais notícias de fugir. Não está a cicatrizar, que diabo se passa aqui, que maçada, continue o tratamento que isto pior não está, esteja descansada.
Com certeza, descansadíssima. Não podia estar mais relaxada, estou praticamente em estado Zen, qualquer diferença entre mim e um monge tibetano em momento de levitação transcendental é pura (não com "r", mas com "t") coincidência.
Novamente ao volante, depois de fazer a Li apanhar grande maçada comigo a soluçar-lhe disparates ao telefone. Sinceramente, minha querida, já nem eu me consigo aturar.
Tinha que vir para a Cidade de Deus. Andei a chatear meio-mundo para me arranjar um bilhete para a ópera, e não tive coragem de não pôr lá os pés, embora a vontade de ir ao dentista ou ao ginecologista fosse, naquela altura, triplamente maior do que fazer 200 e tal quilómetros, tomar banho e mascarar-me, que isto de ir à ópera não é bem o mesmo que ir ao Modelo fazer compras de jeans e all-stars.
Fui sozinha, "sem pendura, que a vida já me foi dura para insistir na companhia". Fui sozinha e amei o espectáculo. Mas nem aí, nem aí, senhor, nem sozinha, tive sossego. Tudo o que podia correr mal, correu pior. Nem nos meus mais profundos pesadelos o cenário dantesco que se pintou seria tão temível. Salvou-se, de facto, o espectáculo em si, o corpo de baile, a voz da velha cigana, uma prece em Castelhano, o início do segundo acto, Le Grand Final. Devo ao meu avô esta obsessão pela música erudita, e era nele que tentava concentrar os meus pensamentos enquanto as lágrimas me corriam cara abaixo num diálogo amoroso com a soprano a fazer a voz chorar. Chorei que nem uma Madalena as tragédias do meu dia, as coincidências que todos nós temos no nosso destino, as agruras duma vida que todos dizem ser ainda jovem e a mim me pesa como se carregasse aos ombros a idade de Matusalém. Envergonhadíssima, que esta gente desta cidade é toda muito educada, muito comedida e muito estóica, senti as gotas salgadas a bater na mala que tinha ao colo, os arrepios espinha acima ou espinha abaixo de cada vez que um verso ou uma nota me esbofeteava a mais profunda essência, e uma vontade contraditória de fugir e desaparecer dali e de mim própria, juntamente com a oposta, de ficar, de sentir, de estar viva e em pranto numa sala escura cheia de gente conhecida e desconhecida, mas irrelevante, se tivermos em conta que estive a assistir à opera de mãos dadas com o meu avô, na altura em que a ternura dele era o meu mundo inteiro.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Madrugada

Reuniu-se, em parte incerta, e data pouco clara, em hora indefinida e sem direito a senha, que a reunião era extraordinária, a Ordem da Galinha Preta, com ordem de trabalhos sigilosa e irrelevante. A verdade é que não foi cumprida, ficou por esclarecer se o secretário era o docente titular ou aquele com menos tempo de serviço e, mais ou menos a meio, lá se iniciaram os trabalhos com toda a gente presente à excepção de dois membros a faltar por motivos devidamente justificados.
É de madrugada e a reunião correu bem, como sempre, quando as pessoas envolvidas se respeitam e ouvem as opiniões alheias. As cantigas de escárnio e maldizer ocuparam pouco espaço, dado que o clima era de bonomia e alguma preocupação com o politicamente correcto, seja lá isso o que for. Até de literatura se falou, entre risos e recordações, pronúncia do norte e sotaque alentejano, conversas sérias e outras pouco aconselháveis a menores de dezoito. Andou a minha mãe a criar-me a pão-de-ló... para isto.
É madrugada e Mzinha dorme a sono solto enquanto eu fumo um cigarro, releio textos antigos, e respectivos comentários, e penso que a minha amiga insónia é persistente e não verga, nem parte, nem às custas de espumante tinto e vinho da mesma cor.
Hoje disse à Li que me sentia vazia. O vazio é um sentimento recorrente, não necessariamente triste, quando significa ausência do que anteriormente nos fazia sofrer. Mas a verdade é que, quando me sinto assim, o futuro é a derradeira incógnita e não sei o que fazer à ansiedade que continuamente me desassossega o espírito.
There's no remedy for love but to love more. (Thoreau). O que saberia ele sobre o verdadeiro amor? O que saberei eu? Pouco. Infelizmente para mim, ainda espero o dia em que possa vivê-lo sem limites, sem amarras, sem medos, em pleno. Brinco com uma situação que, no fundo, pouca vontade me dá de rir. Mas, confesso, já me apoquentou mais. Se tivesse cedido à ordem natural das coisas, estava casada e bem de vida, se calhar teria filhos que amaria incondicionalmente e sentir-me-ia muito mais infeliz do que me sinto agora, com toda a certeza.
Por isso, há que ter muito cuidado com o que se pede às entidades superiores, não vão elas estar bem-dispostas e resolver fazer-nos a vontade. Recordo, com ironia, a casa que podia ser minha, o homem que podia ser meu, e penso, ai, Jade, do que tu te livraste, o que já viveste desde aí, a longa viagem que já fizeste, a pessoa que és, hoje, vazia, sim, mas digna e de bem com a tua consciência, com o teu coração, com os teus desejos, e, porque não, com a pele que te cobre os ossos e com o corpo que toda a gente critica mas que é o teu.
Dei comigo, ultimamente, a olhar-me ao espelho com ternura. Cada lugar meu, cada cicatriz, cada sítio de mim que, a ser perfeito, teria mais carne e mais curvas. E a pensar, é isto que vêem em ti? É isto que comentam com preocupação, com pena, estás tão magra, estás esquelética, estás assim, estás assado... dei comigo a pensar, e sentir-te-ias melhor se fosses diferente? Se calhar. Se calhar metade dos meus problemas existenciais se evaporariam se fosse uma brasa. Mas, no fundo, sei que não. E, no fundo, olho ao espelho com respeito pelo que existe e orgulho no reflexo. É o melhor que se pode arranjar. É o meu cartão de visita. Não me oferece elogios, não me dá grandes alegrias, mas, feitas as contas, mais depressa sorrio com vontade quando estou a oferecer um jantar em minha casa, do que quando me elogiam o aspecto físico.
É de madrugada e fumo um cigarro. O fumo preenche o vazio. Penso na minha vida e olho com respeito o futuro que me aguarda. Que aguarda um corpo demasiado magro numa alma orgulhosa do corpo que escolheu. Levanto a cabeça e ponho um decote. Dou um sorriso a quem me sorri. E sinto-me em comunhão com a madrugada, sabendo que a manhã me vai ser adversa.
Continuo a caminhar em linha recta.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Vzinha...

Para ti, que de longe observas a minha vida tão de perto como eu própria, me acompanhas e sabes tudo sobre mim, que há muito deixei de te esconder seja o que for, que não te escondo sequer o que escondo de mim mesma, para ti, os teus olhos e a tua mente aberta, vai este texto cifrado, para que te entretenhas a desvendar o código e interpretar a metáfora.
O espaço influencia o homem, como diz o douto arquitecto.
A papaia entrou na minha vida com uma força avassaladora, pintou tudo da mesma cor, e não me apetecem já platonismos. Para ser sincera, não me apetecem, sequer, donuts esporádicos e doces que me enchem o estômago vazio na sua efemeridade inconstante. Estarei a crescer, ou a envelhecer, diz tu por mim.
Lembras-te quando vos chamava velhos, quando iam para casa já de madrugada, e eu queria continuar até já ser dia? Lembras-te dos tempos em que estava para casar e tudo em mim gritava por uma convencionalidade que nunca tive nem nunca foi bem com o meu tom de pele? Ainda hoje me divido entre Emily e Slummy Mummy. Qual das duas serei eu? Algum limbo entre ambas?
Em breve terei que te contar, com pormenores, uma história que te foi pincelada numa mensagem de hi5. Foi-te resumida, sintetizada, reduzida ao âmago, mas é no pormenor, no detalhe, que reside a importância. Há, claro, a questão da literariedade, da cultura judaico-cristã misturada com crenças orientais de transmigração de espíritos e almas gémeas. E há aquela história escandinava do Patinho Feio que é sempre, mas sempre, trocado por um cisne. Não era assim que acabava, pois não? Então, reescreva-se a história, em prol da verosimilhança.
Dizem que a papaia traz energia. No meu caso, a energia deu-me para isto, para reagir ao cansaço com a desistência subtil de quem sabe que perdeu, mas que não perdeu grande coisa. Emily pode ter chegado para ficar, durante algum tempo. Mas antes isso que ser a rapariga-fósforo. Ou o rapaz-ostra. Não achas?
Enfim, espero que entendas onde quero chegar, e que tudo o resto sejam delírios causados pela insónia, e pelo facto inédito e singular de ter feito duas mousses de chocolate numa semana, de estar prestes a ter duas ou três borgas quando já nem me lembro da última e de observar o tempo a passar e tudo em mim a mudar sem conseguir atribuir grande sentido à mudança ou grande destino à viagem.
Se estou bem? Não sei. Mas estou. Sinto que não estava, que não estive, que me ausentei, e estou de volta, de regresso. Não a casa, que continuo a não saber bem onde isso é, mas a mim. Andei vagueando num deserto e sinto-me, como direi, a andar em linha recta.
Muitos Beijinhos,
Jade.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Basta

Às vezes, por piores que possamos parecer, no fundo temos muito bom feitio. Somos demasiado tolerantes, demasiado compreensivos e, consequentemente, demasiado infelizes. Passamos o tempo a justificar atitudes alheias, a dar segundas e terceiras, milhares de novas oportunidades, convencidos que a primeira impressão é a verdadeira, que as pessoas merecem a nossa preocupação, o nosso carinho, a nossa boa-vontade. Tornamo-nos escravos dos humores alheios, mendigamos sorrisos e palavras simpáticas, colamos demasiadas vezes o coração partido quando o dia é de ignorância, indiferença, apatia. Revemos as nossas atitudes em busca de uma culpa inexistente para o mau-humor de outrém, mas o que foi que eu fiz desta vez, que terei dito?
E depois há um dia, sem motivo aparente, em que dizemos basta, chega, já é suficiente, enchi, bola para a frente, não aturo mais esquizofrenias, estava enganada, não vale a pena, vira a página. Tudo em nós encolhe, enfim, os ombros, dá um grande suspiro e vira as costas. Tudo em nós, finalmente, deixa de querer saber se é dia sim ou dia não, se é dia de festa ou de velório, se somos importantes ou irrelevantes, convencendo-nos que somos, fomos, somente, irremediavelmente estúpidos. Mas que não ficaremos permanentemente assim.
E nesse momento de cansaço e alívio, voltamo-nos para o que é constante e coerente na nossa vida. Para os detalhes bonitos de nós mesmos que estavam há muito esquecidos na gaveta, para que não ofendessem ninguém. Deixamos a nossa essência fluir, goste quem gostar e doa a quem doer, pois então.
Leves, sem o peso das avaliações, dos julgamentos e dos comentários dos outros, para quem passamos de bestiais a bestas quando o sol se põe, e vice-versa no dia seguinte, bebemos um copo entre amigos ao pôr-do-sol, sem medos do que pensam de nós, e damo-nos ao luxo de rir, sorrir, conversar, dizer parvoíces, ser concupiscentes, mandar o mundo dar uma grande volta, entre um caracol comido sem palitos, e um golo de uma imperial estragada.
"Dez meses de aulas e agora é que há borgas todos os dias!". Pois é, jovem. É que faltava a Jade e a Mzinha a trocar as voltas ao sistema, a desafiar o pessoal para a vida, a fazer de demónios quando a noite cai. A Mzinha precisava, apenas, de um pretexto. A Jade precisava, urgentemente, de acordar. E para acordar, caro veterano, mais vale tarde que nunca.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Healing the Soul

Ainda há pouco, enquanto, de forma já ritual, desinfectava e ligava o meu cotovelo magoado, pensava noutras mãos, que tantas vezes me punham água oxigenada nas feridas, pomadas nas irritações, me distribuíam dolvirans, kompensans e vitaminas. Mãos suaves e seguras de homem, que me mediam a tensão arterial em silêncio e olhavam de forma grave um termómetro que gritava febre. Lembrava com ternura e saudade o meu avô, grata por ele nunca ter sabido que a neta, tão bonita, tão perfeita, tão rara, tinha uma doença parva e pouco conhecida, que lhe consumiria os orgãos e a paciência, e que não se podia prevenir, apenas remediar.
Ao lembrar o olhar do meu avô, ocorreu-me o teu. Ocorreu-me um instante breve na nossa história, em que me disseste "não me olhes assim, que não te posso valer". Outro momento em que disseste que era o teu forno íntimo, e como essas palavras me marcaram para a vida, esse calor de forno a aquecer-te a alma fria.
Tu não lês estas palavras, não lês quaisquer palavras das cartas que te escrevo tantas vezes, ainda, sempre. Das palavras que te escrevo a fingir que não são para ti, que não são para ninguém. Não lês nem eu me atrevo a que o faças, com esses olhos gelados que já nenhum forno aquece, ou pelo menos, não o meu.
Também eu deixei de ler, não os teus escritos, e esses retorno, de quando em vez, para que a minha loucura não me convença que apenas te sonhei em tempos. Já não te leio os olhos, a pele, as mãos. De repente, o que era a minha casa passou a ser um país estrangeiro de linguagem indecifrável. Se calhar, procuro sem encontrar aquele olhar terno e gesto suave próprio do meu avô que vi em ti um dia. Se calhar, a minha necessidade de protecção suplanta a minha condição independente e auto-suficiente. Se calhar, as minhas próprias mãos, também seguras, já experientes, e também meigas, ligam um cotovelo ferido sem conseguir chegar à alma para lhe fazer o mesmo.
Ontem, num filme violentíssimo, a que um colega meu se referiu como "uma grande cóbóiada", expressão essa que ainda agora me arranca uma valente gargalhada, nesse filme, dizia, houve uma frase que me marcou e me acompanhou o dia, leitmotif de alguns momentos singulares de hoje: "O tempo que passas a recuperar o que perdeste é, apenas, mais tempo perdido". Como perdida ando eu nesse tempo perdido, à procura, ou antes, à espera, de umas mãos ternas e firmes que me desinfectem e ponham um penso rápido na alma.

Perfilados de Medo

PERFILADOS DE MEDO

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
(A. O'Neill)


Embora viva a vida com este poema a ecoar nos ouvidos, há alturas que, americanista como me considero, as palavras de Thoreau me falam mais alto:
“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I have not lived.”
A vida sem viver pode ser mais segura, mas no momento do último suspiro, não quero, não quero, não, perceber que nunca vivi. Viva-se. Vivam-se amores impossíveis, não se calem palavras importantes, não se faça dos dias grãos de areia a escorrer entre os dedos do tempo. Agarrem-se oportunidades, não se escondam sorrisos, não se evitem abraços, não se contornem alegrias. Viva-se enquanto é tempo e o tempo existe em nós e dispomos dele com os que amamos. "I want to suck the mearrow of life", já há tanto dos nossos dias que nos é imposto, porque fugimos da pouca liberdade que temos de viver, por estarmos "perfilados de medo"? Se toda a gente sabe que a vida são dois dias, porque passamos um imersos em obrigações e o outro com medo de viver?

domingo, 1 de junho de 2008

Simplicidade

Hoje estive a ouvir Organic, de Joe Cocker, um disco velhinho que me apaixona. Apaixonam-me as coisas mais simples do mundo, talvez por ser uma pessoa tão complicada.
Senão, vejamos:
...
You are so beautiful to me
You are so beautiful to me
Can't you see
You're everything I hoped for
You're everything I need
You are so beautiful to me
...
Such joy and happiness you bring
Such joy and happiness you bring
Like a dream
A guiding light that shines in the night
Heavens gift to me
You are so beautiful to me
...
É certo que tenho o dom de chorar facilmente, de me comover facilmente. Mas apenas com filmes, livros, poemas, melodias. E sempre com coisas simples e inesperadas. A perfeição reside nos pequenos detalhes.
Já me escreveram coisas lindíssimas, sou uma privilegiada a esse nível. Já recebi belas sms, poemas geniais, cartas inacreditáveis, mails espectaculares. Mas continuo à espera do dia em que, assim, em meia dúzia de versos, alguns repetidos, alguém me consiga fazer sentir verdadeiramente amada, única, necessária, um presente, uma luz; alguém me faça sentir bela, por olhar para mim e me ver realmente bela, em vez de magra demais, de nariz grande demais, de formas lisas demais, de tudo aquilo que, de facto sou, mas os olhos do verdadeiro amor não vêem.
O meu reino por um poema de amor de poucos versos que diga tudo. O meu reino por um momento perfeito, que faça esquecer toda uma vida, cale todas as vozes e se transforme no meu mundo inteiro.

Dias Felizes

Hoje é Dia da Criança.
Quando eu era pequena, este era o dia mais aguardado, juntamente com o Natal e o Aniversário. Eram, sempre, dias felizes, com presentes, sorrisos, beijinhos e abraços, festas, doces, amigos. Dias Felizes.
Da infância guardo alguns momentos de alegria absoluta, as férias em Sesimbra, as idas à Bertrand, à feira do livro, a Belém e à Boca do Inferno com o meu avô, o circo Chen e o cinema na companhia da minha mãe, as máscaras de Carnaval na escola, o início das aulas com cadernos, livros e toda uma parafernália de objectos de papelaria a estrear, os chocolates que a minha tia me trazia sempre, regina com sabor a morango, as visitas de estudo ao Museu dos Coches e ao Parque do Alvito, as horas a fio passadas a encenar festivais da canção, com as minhas primas, que depois apresentávamos à família, e se reduziam ao repertório completo das Doce, que ainda hoje sei de cor, as tardes passadas a ver a Inha fazer milhares de rissóis e a encher a barriga da massa por tender, os dias a fio em casa da minha porteira a fazer festas a pintainhos e coelhinhos, e a roubar nêsperas directamente da árvore, os fins-de-semana de volta da Barbie e dos milhares de acessórios que me ofereciam, ou deitada de barriga para baixo em cima da cama a ler Patrícias, Susis e Danielas. Lembro-me do dia em que o meu avô me deu uma máquina de escrever. Lembro-me muito bem do seu cheiro, do radex para apagar, das vezes em que vociferava de dor quando enfiava um dedo entre as teclas, das histórias sem fim que escrevia a imitar a Enyd Blyton e a Condessa de Ségur. Lembro-me da minha casa cheia de música clássica e Bossa-Nova, Caetano e a irmã, Cohen e Carlos do Carmo.
Dias felizes.
Hoje passei o Dia da Criança a fazer máquinas de roupa, a passar a ferro e a arrumar o quarto; ouvi música e vi um bom filme, com Javier Barden, que me arrepia sempre, me delicia e me preenche, com aquela vaga sensação de que o conheci noutra vida, talvez por achá-lo tão parecido com H., na expressão facial e na intensidade do olhar. Mas comi M&Ms, e olhei para as nuvens, a inventar-lhes formas... uma homenagem à criança que fui um dia, e fazia o mesmo, mas com smarties, sentada imóvel na varanda do quarto dos avós, ainda muito pequena mas já com saudades do futuro.

O Génio da Lâmpada

Ultimamente, e quando digo ultimamente refiro-me às últimas semanas, só me passam pela cabeça pensamentos confusos, descoordenados e contraditórios. Não sei se estou em fase de mudança, em fase de pré ou pós-depressão, mas estou, decididamente, numa fase muito parva da minha vida.
Ando numa época de total esquizofrenia sentimental. Parece que cada dia acordo com novas resoluções de ano novo, e já não me posso aturar. É verdade, também, que perdi o rumo à vida, ando de coração vagabundo, e isso não é nada bom. Tenho feito muitas viagens de carro, e esses momentos são ricos em introspecção. A estrada é um símbolo literário poderoso, e não será preciso pensar muito para perceber porquê. A estrada é muito como a vida, um caminho, um objectivo, um percurso. Algo que pode ser levado em velocidade de cruzeiro, a fruir o passeio, ou em plena transgressão dos limites impostos, a pensar no destino. Algo que disfarça o perigo e o imprevisível com uma máscara de monotonia pintada num alcatrão sempre igual. Lisa, negra, ou pedregosa, curvilínea. A ilusão da progressão, a adrenalina da velocidade, a presunção de que controlamos tudo com um volante nas mãos e um depósito cheio. Não controlamos ponta de chavelho, a realidade é essa.
Detesto conduzir. Tenho um medo horrível de andar de carro. Quando digo isto, a maior parte das pessoas olha para mim como se eu tivesse afirmado que não gosto de sexo, ou que não sei quem é o Cristiano Ronaldo. Nunca percebi a vara tuga com os automóveis, as comparações, as competições, sou muit'a bom, faço Lisboa-Portalegre em quase hora e meia, o meu carro vai dos zero aos cem num micro-segundo, tenho muito orgulho nas minhas 4563 multas por excesso de velocidade, sei de cor as matrículas dos carros da brigada, cheiro o sítio dos radares, não sou o supra-sumo da inteligência? Transcende-me, esta cena.
Embora deteste conduzir, e entre em grande ansiedade quando vou ao lado, quando me sento ao volante para fazer as minhas viagens solitárias, sinto que entro, de facto, numa dimensão diferente. Tal não acontece quando dou boleias. Mas quando vou só, invade-me uma sensação semi-hipnótica, não sei, parece que o subconsciente acorda. Lembro-me de coisas perdidas numa memória distante, revejo caras e pessoas que deambulam num passado longínquo, passo a semana a pente-fino, junto peças de puzzles que não conseguiria encaixar de outra forma, faz-se luz muitas vezes, porque será? Tive um professor de mestrado que levava sempre um bloco de notas e um lápis no banco do passageiro, jurando a pés juntos que as ideias mais geniais do seu doutoramento lhe surgiram ao volante. Iria a conduzir a 180? Não me parece.
Esta semana, por motivos que não vêm à história, por uma série de coincidências do reino do absurdo, a short-story que me acompanhou no caminho para Lisboa foi "What if...", "E se..." me fossem concedidos três desejos? Tenho a dizer-vos que nunca consegui, sequer, escolhê-los, o que espelha a triste realidade que é não ter planos de vida definidos, nem sequer sonhos muito importantes a realizar. Senti-me uma nódoa. Que raio de ser humano sou eu, que não saberia definir as três grandes prioridades da sua vida ao génio da lâmpada? O meu cotovelo lateja, qual cicatriz de Harry Potter a pressentir Voldemort.
Não poderia pedir um companheiro. Aquele que eu quero nem o génio da lâmpada me pode dar sem desastrosos efeitos colaterais que transformariam o sonho em pesadelo. Não poderia pedir muito dinheiro, não saberia o que lhe fazer, porque descobri há pouco tempo que se ganhasse o euromilhões e quisesse fazer a minha viagem de sonho, com início em Nova Iorque e direito à Road 66, ao Grand Canyon e New Orleans, teria que a fazer sozinha. Não poderia pedir poder, detestaria ter que tomar decisões, dar o exemplo, liderar pessoas, ora se eu nem em mim mando... não pediria a paz no Mundo, que infelizmente não tenho veia de Miss. Adoraria ser linda, escultural, uma estampa daquelas de fazer virar cabeças, mas que graça tinha olhar-me ao espelho e não me reconhecer? Se fosse linda deixaria, certamente, de ser eu. E se não pudesse ser amada, rica, bonita e poderosa, para que pediria eu saúde? Para viver até aos cem anos sozinha, feiosa e pobre?
Pois é, temos dilema.
A vida é complicada para alguém que a passa acompanhada de todo o tipo de ideias peregrinas, como eu. Mais complicada seria para o desgraçado do Génio que me encontrasse pela frente. Decidi, contudo, evitar lâmpadas mágicas nos próximos tempos. E com isto defini, pelo menos, um objectivo para a minha vida.