Moby Dick começa, de forma célebre, com a exortação "Call me Ishmael". Alguns dos leitores deste blog terão partilhado comigo os bancos de faculdade, e saberão as páginas que se podem escrever sobre esta singela frase, o que ela propõe de interpretações referentes às questões da identidade, da regeneração, do sonho americano.
Por isso, digo: Call me Jade.
Era para ter sido Joana, mas o meu pai rebelou-se, dizia que Joana era o nome que davam às burras na terra dele. Fosse qual fosse a terra dele, o nome que me escolheram agrada-me, e muito mais o diminuitivo que os meus amigos usam para me tratar. Mesmo assim, todos temos o direito de escolher tudo nas nossas vidas, dado que ninguém pediu para nascer. Escolham-se as políticas, os clubes desportivos, os amigos, a família e, porque não, o nome... a dedo e com exigência.
Adoro Jade. É verde, é exótico, é semi-precioso, é misterioso, preenche parâmetros estéticos e existenciais, gosto. Gosto quando passo e os alunos sussurram "Stôra Jade...", numa espécie de segredo partilhado por um grupo restrito num clube privado. Gosto.
A questão dos nomes é uma questão muito séria e poderosa. Por causa deste nick, há mesmo quem fale comigo e me diga que gosta muito mais da Jade. Mas isso é gente bruta e ignorante, que nunca leu Pessoa, que não percebe nada de literatura e não tem sensibilidade artística para alter e superegos, nem discernimento para ver que não há separação entre o eu autoral e o eu que está sentado na mesa do café a fumar cigarros e a beber cappucinos.
A Jade e eu somos a mesma pessoa, a mesma voz, a mesma sensibilidade, numa esquizofrenia de emoções que não passa da ironia pós-modernista que é, no fundo, profundamente auto-irónica. A Jade sou eu a olhar para mim própria como se me visse de fora. Pelo olhar da Jade, falam os meus alunos, os meus amigos, e também os meus fantasmas. Falo eu, do alto dos meus trinta e dois anos.
Call me Jade.
Deixem-me acrescentar, à laia de homenagem, que o homem da minha vida, o único digno desse nome até hoje, nunca me chamou outra coisa a não ser Nini. Inexplicavelmente, como inexplicável é todo o fruto do verdadeiro amor.
Chamava-se Fernando. Eu chamava-lhe, simplesmente, avô.
8 comentários:
Simplesmente LINDO.
Não sei bem porque mas apetece-me dizer isto: "Call me IRRESPONSIBLE"!
Ah já sei porque, é a banda sonora perfeita pra este Blog.
(Michael... não, não é o Carreira é o Bublé)
bjs******
Thanks Michael... não faço ideia nenhuma quem és, mas concordo que este blog é um bocado irresponsável...
Se fores mesmo o Bublé, tenho a dizer-te que sou grande fã...
bjs da Jade
aparece mais vezes
Até tenho pena de te dizer que não sou Michael muito menos o Bublé, mas é a verdade! Na verdade era só pra te dizer na dúvida se conhecesses ou não de quem era o "call me irresponsible"...
Lamento mesmo...
Por acaso estava ouvir o Cd enquanto li o k escreveste!
Enquanto escreveres assim virei certamente!
Obrigada, volte sempre, não vou teimar na questão do anonimato
Words para quê... é ela em corpo e alma... Faz bem ler-te e eu sempre disse que a tua escrita é fenomenal e tão fluida que se não fosse o trabalho que estou agora a fazer lia tudo de fio a pavio but...sorry I can't baby...
I'm happy for you. Your writing is your inner mirror my dear friend.
Cara companheira, camarada com quem fui à tropa... os seminários do mestrado são, sem dúvida, a sua melhor parte. Que saudades das aulas, da apresentação dos trabalhos, da forma como eu vos fazia rir a dizer ao querido Avelar quando ele me perguntava como ia o meu trabalho "Professor, está a ver um boi a olhar para um palácio? Assim estou eu..." LOL
E o Pedro e os seus "isso é mi-mito urbano!!!" Beijos.
Alpha, presumo. Call me Alpha. Ad usum Delphini.
Lope
Este enigma não foi fácil. Só lá cheguei agora. Mas cheguei. Usus delphini, por enquanto "silentiatus est" (LOL). "Isto não é um comentário". Ceci n'est pas une pipe. Demasiado óbvio. Desnecessário, achei. Mas isso, para mim, se calhar não para o interlocutor. Mais ceci n'est pas un(e?) commentaire. Magritte, toujours. Primus inter pares. Dali já era...
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