quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Adorable

Numa turma de gralhas meias-lecas, passo a vida a gritar que se calem. Hoje, já desesperada, rosno-lhes: "Vocês não têm vergonha de que todos os professores venham dar-vos aulas contrariados e não gostem nada da vossa turma?", ao que uma vozinha me responde, muito triste, "Isso não é verdade! A professora de TIC até nos chama periquitos!"
E eu tive vontade de abraçar aquele periquito indignado.

Pérolas da Jade

Não são só os alunos que são parvos. Hoje, um lia o seu parágrafo sobre a amizade e diz "My friends have to like football and be funny". E eu, logo... Futebol está bem, mas para que tem um amigo teu que gostar de bifanas?
Bonito serviço.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da janela da sala de professores, olho a curva onde estacionaste o carro, com fé de que, por tanto olhar, ele lá se consubstancie, contigo parado à porta, a sorrir.
Ficarias admirado se me viesses ver e me perguntasses há quanto tempo não choro a tua ausência. Não a choro há vinte minutos, e já passaram quase dois anos.

domingo, 18 de novembro de 2012

Decorações de Natal

O Chico descobriu as potencialidades dos rolos de papel higiénico e só posso dizer que parece que nevou de repente na minha sala de estar. De repente, porque se me distraí vinte segundos foi muito, mas o suficiente para o raio do cão se deixar contagiar por um espírito natalício da tanga.

No Bairro dos Avós

Moro num enorme bairro antigo cuja média de idades da população residente deve rondar os 65 anos. Os velhotes têm caraterísticas muito especiais, como toda a gente sabe. São seres de grande experiência, pouco filtro, e um enorme orgulho a roçar a arrogância, com o paternalismo de quem acha qualquer pessoa abaixo dos cinquenta anos um pateta que não sabe nada da vida, e continua a ser alguém que precisa de críticas e conselhos gratuitos e não solicitados.
Neste bairro ninguém me trata pelo nome ou pela profissão, como sempre estive habituda a que fizessem, ora era Bom dia, Jade, ora Bom dia, professora. Aqui, ninguém se dá ao trabalho de saber como me chamo ou o que faço, e todos os dias sou cumprimentada como desconfio que são todos entre os três e os cinquenta anos: Bom dia, menina!
Mas, se por vezes me irrita, por outras dá-me imensa vontade de rir porque, se calha estar com o meu cão, a seguir ao "menina", e às vezes mesmo antes, tão fatal como o destino vem um "Olá Chico, estás bom? És muito lindo...."
O meu cão é o rei da cocada preta.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pérolas da Província

Depois de um aluno ter dito uma palermice monumental, saio-me com o seguinte desabafo, numa turma, "Oh, please, shoot me now!"
No meio de um coro abismado de "é o quêiiiii????", uma das boas alunas, diz, como se os outros fossem todos atrasados mentais: "A professora disse para lhe darem chutos."
É assim, a minha vida: tão emocionante que só ao pontapé. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Escreveste algum post novo?

Sim, há dias em que me apetece fugir para longe mas não tenho com quem, e gostava que me agradecessem só para variar, e queria que me reconhecessem as qualidades e o esforço para além de um "como é que tu consegues ter tudo pronto a horas?", e agradava-me não ter responsabilidades reais a juntar àquelas que não são minhas mas assumo. Sim, há dias em que a vida pesa mais um grama que o suportável, a gota de água entorna o copo e o grito fica preso na garganta, apetece chorar, desistir, espernear e o corpo não obedece, imóvel e mudo. Sim, há dias em que as injustiças de que somos alvo superam as de outras vítimas, em que a falta de tempo para parar, espreguiçar e alongar os músculos e a paciência nos tortura, e a esperança se eclipsa totalmente sem que o espetáculo valha a pena. Sim, há dias em que saio à rua tipo serial killer, imaginando maneiras sádicas e atrozes de matar seres cuja existência no meu mundo não faz o menor sentido, ratos de esgoto e baratas ascorosas. Sim, há dias em que as vozes formam um coro indefinido de exigências e cobranças, e o desagradável se avoluma, e me doem mais as mãos do que o costume, levo tempos infinitos em guerras com atacadores e botoões de jeans exatamente quando estou atrasada e os ponteiros do relógio correm em vez de se arrastar. Sim, há dias em que engulo pior, e parece que todo o meu sistema está contra mim, e me olho ao espelho e o cabelo está de meter medo, não tenho roupa que me fique bem, os meus olhos mal se veem de inchados que estão, quando nem me lembro da última vez que chorei alguma coisa que se visse. Sim, há dias em que a ausência dele dói mais, como se tivesse sido ontem que o vi pela última vez sem saber que seria a última vez, e ainda achava que tinha ganho a sorte grande e tudo iria ficar bem. Sim, há dias em que me apetece desancar quem me admira por coisas parvas sem saber que se me conhecesse, então, me punha num pedestal, me lavava os pés com água de rosas e passava o resto da vida a idolatrar-me e a fazer-me feliz. Sim, há dias em que o sol, os cigarros à noite, o café depois de almoço, as palavras de incentivo, as aulas bem dadas, os abraços dos amigos e o meu cão a dormir com uma pata possessiva sobre o meu joelho não chegam para me aquecer o espírito. Sim, há dias em que trato mal toda a gente só para ter desculpa para me sentir ainda pior comigo própria, para sentir o remorso e a culpa de forma acutilante o suficiente para ter a certeza de que estou viva para além das rotinas funcionais em que teimo embrenhar-me para fugir ao descalabro. Sim, há dias em que gostava mesmo muito de ter uma folga desta estupidez toda que me rodeia, que me penetra, que me contagia, que me impede de ir a Nova Iorque e de regressar a Veneza, que me empurra para a frente apesar de adiante a linha ser sempre curva e o meu percurso um círculo permanente. Sim, há dias desses. E são sempre dias com muito mais horas que os restantes, aqueles em que me arrasto sem questionar nada, e tudo é maquinal e automático e muito mais suportável.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Riam-se!

Ando há uns tempos sem escrever porque estou numa fase de destilar veneno e só me ocorre insultar gente. Ou a vida em geral. Por isso, deambulando pelos blogues de que gosto, encontrei isto, e é o que vou publicar. Antes isto, com esta qualidade, e com esta verdade, que as coisas deprimentes que me apetece gritar, revoltada, ao mundo. E seus arredores.

http://theoatmeal.com/comics/dog_paradox