sábado, 21 de julho de 2012

Back to life, back to reality

Passou.
Foi muito triste, é sempre um pouco mais triste, de cada vez que me vejo reduzida a um corpo frágil transferido de uma maca para uma cama de hospital, onde as enfermeiras desfilam para me tirar a tensão, me picar as veias (a minha mãe horrorizada, prestes a bater na que me enfiou o cateter do soro, "eu vou-lhe ao focinho", rosnou quando a gaja virou costas, "tu és tão forte e estás com cara de quem está cheia de dores, eu juro que a esgano"), me perguntar pela enésima vez se estou bem, se tenho dores, se estou tonta.
Desta vez a minha mãe esteve comigo, e foi reconfortante, por um lado, e muito pior, por outro. Sei bem o que digo, quando teimo com toda a gente que quero passar por tudo sozinha, o inferno é a triplicar quando se vê quem nos ama a sofrer.
No ano passado, a coisa correu melhor, sem assistência. A solidão é avassaladora, mas eu sabia que estavam comigo, pelos telefonemas e as mensagens - houve até quem ligasse para o hospital a saber de mim... pessoa essa que, este ano, já não esteve: a minha vida tem destas ironias trágicas.Mas tem também coisas muito boas. Há amigos que, desde que o são, estão sempre.
Há um ser especial que conheci graças a este blogue, que está sempre.
Está.
Sempre.
E ainda assim, escreve,

"Hoje, como muitas vezes – bem sabes, não me fazes falta para estar. Faz-me sim, falta que esta distância toda não a fosse. Faz-me falta estar por perto. Passar no hospital a dar um abraço e desejar boa sorte antes da operação. E passar de novo mais logo a saber como correu, talvez não por ti, mas pelos teus. E deixar-te um ramo de flores, como fazem os melhores dos amigos.
Não estou. Não sei. Nem sei quem sabe. Mas lembrei-me de ti toda a tarde…. E de te ter dito certo dia que ninguém escolhe ser teu amigo. Se fosse escolha, jamais escolheria toda esta preocupação. Mas é algo tão natural… gostar de ti. Que nem a tua doença evita ou afasta. Por isso, hoje, diz ao médico que tenha cuidado contigo, avisa-o que a sorte te deu um corpo demasiado frágil para todos os amigos que carregas dentro dele. E que somos muitos os que ficam do lado de cá à tua espera. Hoje e sempre.
Quando à tua doença, diz-lhe que tirando estes 3 dias por ano nunca lhe vou dar confiança. This isn't everything you are."

A ti, a única coisa que posso responder, gratíssima pela tua amizade é "quem me dera que todos não estivessem como tu não estás."
Receber um ramo de flores em casa, no dia em que saí do hospital, foi de uma ternura que me custa a engolir, por mais dilatações que faça: não passa no nó na garganta. Beijos

terça-feira, 17 de julho de 2012

Vou ali já venho...

...de fim-de-semana prolongado. Num hotel  de cinco estrelas com tudo pago, incluindo anestesia geral.
(suspiro)
É a vida que temos, e temos pena.

sábado, 14 de julho de 2012

Sem Título

Hoje foi um dia mau.
Um dia mau com um bom momento, aquele em que soube que uma amiga minha me mandou os Magic Beans do Harry Potter, trazidos diretamente de Orlando e partilhados desinteressada e generosamente comigo. Sem ainda os ter provado, psicologicamente comi dois ou três de vómito e de cera das orelhas.
Vim de Lisboa muito cedo, para uma reunião de Departamento. Não vinha muito sossegada nem muito feliz, que as novidades do médico não foram animadoras, embora, diga-se a bem da verdade que, a partir do momento em que ponho um ponto final no meu mal-estar e resolvo agir e passar pelo pesadelo todo de novo, a indiferença abate-se sobre mim como uma couraça, e nenhuma novidade é levada com a marretada emocional que se esperaria.
Ontem chorei no médico, mais por cansaço que por desespero, e ele aconselhou-me a procurar um psiquiatra: o DOC vai rir-se com esta. Mas quando soube que eu ando em terapia há ano e meio, o meu médico de sempre não se riu. Fez um ar muito preocupado, e quase blasfemou contra a direção da minha escola e a minha falta de assertividade. "Mas porque te metes tu em tantos cargos?" Todos os médicos que me acompanham me tratam por tu, este, porque me conhece doente há mais anos dos que os que tinha quando o procurei pela primeira vez.
É difícil alguém que está fora do ensino, como ele está agora, entender. Lá lhe expliquei que não só não me metia como não os podia recusar. Disse-me que não sou deficiente mas também não sou normal, e que a minha doença exige tempo para descanso. Só me deu vontade de rir, entre lágrimas e no meio do pânico que é o atual sistema não deixar ninguém descansar, quanto mais eu, numa escola pequena, com uma direção que não me grama mesmo nada.
Ainda assim, lá vim eu, picar o ponto, passar a manhã na reunião de departamento e a tarde a organizar o que falta para a reunião de EFAs.
Na reunião de departamento, assisti a mais uma cena triste daquelas em que quando a bronca estoira, a culpa é deitada para cima do mexilhão. Fiquei pôdre. Mas será que é assim tão dificil assumir culpas, erros, dizer "epá, bolas, não sou perfeita e meti o pé na poça, sei que agora não há remédio, mas desculpem lá, sou humana". Perco o respeito todo pelos meus congéneres humanos, os cobardes, que atiram para cima dos do lado responsabilidades que lhe cabem, só porque sim, porque podem e porque o dizem com convicção suficiente para não serem contestados.
E depois veio a auto-avaliação do departamento e a coordenadora não quis que ninguém se pronunciasse sobre o que está mal, "não acredito em exorcismos", disse, numa ironia clara à diretora que pediu noutra reunião que exorcisássemos tudo o que correu mal num dado projeto de escola.
E eu, que raramente estou de acordo com a direção, desta vez tive pena. Porque para evitar discussões e palavras mais agrestes, recorreu à hipocrisisa de quem acha que, se os alunos avaliaram os professores do departamento com notas altas, é porque somos perfeitos. Não somos, não sou, e há tanto para dizer sobre o que poderíamos fazer melhor se não fôssemos uma cambada de hipócritas que só estão bem a roer os tornozelos uns dos outros, quando os apanham de costas...
E depois fui falar com a minha diretora, por causa do que o médico disse, e ela foi impecável. Disse-me taxativamente o que me esperava para o ano, e acrescentou que me gostava de ter na escola mas que se quisesse concorrer, a saúde vinha primeiro. Decidi quase imediatamente ficar.
Para acabar o dia em grande, um dos meus melhores amigos foi mandado a mobilidade por valores mais altos se levantarem. Não tenho muitos amigos e homens ainda menos. Depois de falar com ele ao telefone, fiquei a saber mais, e menos irritada mas, ainda assim, vai fazer-me uma falta imensa. Pelo menos sei que, a mudar, será sempre para melhor.
Fui à minha escola antiga procurar consolo e não o encontrei. Tudo tinha planos para hoje à noite e, aqui sozinha com o Chico, resolvi que, não duvidando da amizade de ninguém, o meu lugar é, sem dúvida, onde estou.
Feitas as contas, no dia de hoje, vi bem quem se preocupa, quem está, quem quer saber, quem tem tempo para uma palavra, um carinho e um conforto: venha ele de um telefonema de Aveiro, de uns doces que ainda não chegaram de Vila Real ou de uma mensagem privada no facebook à qual não respondi por nem saber o que dizer.
Ah, e hoje (ou terá sido ontem? já nem sei), escreveram-me uma frase que ficou tatuada no meu ventrículo esquerdo "tem cuidado contigo que a sorte deu-te um corpo demasiado frágil para todos os amigos que carregas dentro dele". Não são muitos, mas são irrepreensíveis. E, à medida que o ciclo se repete, poucos são os que se mantêm, uns deixam de estar e outros passam a estar, sendo o saldo sempre, mas sempre, positivo, porque só faz falta quem... isso.

sábado, 7 de julho de 2012

Therapy and Love

Numa troca de mensagens privadas no facebook, às tantas uma amiga pergunta-me como estou em relação a determinada pessoa do meu passado, visto andar em terapia há um tempo já razoável. Respondi: "continuo a gostar dele e a achar que era the one. sinto-lhe a falta todos os dias. a terapia só ajuda a cabeça, não faz muito pelo coração. aprendi a viver com isso. e a achar que a minha vida sentimental encerrou (...) e ainda assim achar que mesmo assim, a vida continua, com o resto das coisas boas que pode ter. anyway, ainda há muito mundo para ver, muitos amigos para beber café, muitas séries de culto para nos apaixonar, muitos livros por ler".
Há dias em que acredito mesmo nisto, há outros em que nem tanto. Mas o equilíbrio é saudável, e embora o DOC ache que este ceticismo só faz sentido numa suicidária, eu acho que, se a vida se resumisse a um grande amor, o problema da sobrepopulação mundial estaria resolvido e não haveria já muitas árvores sem pessoas penduradas pelo pescoço.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Para o Doc

Informação inter-sessões: já falei com o médico. Já fumei o meu último cigarro. Tenho um futuro próximo de exames muito desagradáveis para fazer. Vale a pena cuidar de mim? Ou seria melhor ficar passivamente à espera que alguém cuidasse e definhar assim? Fique sabendo que preferia esperar a estar na angústia que estou agora. E que detesto tomar sempre as decisões acertadas, ainda que tarde e a más horas. Detesto.

Por causa do comentário da Shadow

Acrescento que, à medida que no Facebook os meus amigos vão colocando fotos novas, me apercebo que ninguém me fotografa, nem eu me deixo fotografar, há muitos meses. Porque não tenho vida social ou momentos inesquecíveis. (os que tive também não foram fotografados, e lamento isso todos os dias). E porque, como dizia alguém que ficou enterrado num passado bem distante, não há fotografias que nos favoreçam mais que aquelas que são tiradas por quem nos ama.

Sejamos explícitos

Não ando desesperada atrás de um homem, nem nada que se pareça.
É só que, se alguém se interessar por mim agora, fisicamente o mais débil que acho que já alguma vez estive, sem curvas, sem forças e sem sorriso, sem sentido de humor e sem paciência, sem brilho nos olhos e cor na alma, convenhamos... é porque é um amor verdadeiro.