Sabem quantas vezes eu subi e desci escadas hoje até ao segundo andar, carregada de caixas e sacos, sabem, sabem, sabem? Então, calem-si!!!
À primeira já eu dizia mal da minha vida.
À segunda, perguntava porque raio não pus os meus pascoalinhos a trabalhar em série, escada acima.
À terceira, lembrei-me de todos os colegas que ofereceram ajuda durante estes dias, e ao meu idiota não, obrigada, a gente trata disso num instantinho...
À quarta... deixei de pensar seja o que for.
A duas ampolas de Geleia Real por dia, diz a Pêlo Russo que estou eléctrica, mas eu estou é com super-poderes!!!
E a considerar, não muito seriamente, como de costume, deixar de fumar... e daí, é melhor não, ou passo a ser a versão da Super-Mulher arraçada de Bruxa-Madrasta. É que o meu bom humor continua em alta, e só pode ser da nicotina, apre!
terça-feira, 29 de abril de 2008
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Noite de Reveillon
Conheço-te há anos e gosto de ti desde sempre. Por isso, acredites ou não, acho imensamente divertido que me tivesses detestado, apelidado de ressabiada, de comunista, de tudo aquilo que a minha máscara, que funciona na perfeição, pretende que quem não me conhece pense de mim. Já tivémos esta conversa, é-me útil e confortável que as primeiras impressões façam de mim uma pessoa temível. E contigo resultou. Imagino-te a pensar, esta gaiata é parva, apre! E rio-me.
Os anos passaram com encontros casuais, conversas de circunstância, a minha simpatia sincera e a tua diplomacia de político experiente. Um charme, sempre. Um sentido de humor subtil numa cara séria emoldurada por um sorriso permanente.
Foi preciso um reveillon em família para que os teus olhos me sorrissem, a par com os teus lábios. Conheci-te há anos, tu só me conheceste naquela noite, no meio de uma casa cheia de gente simpática e bem disposta, feliz por estar junta, entre amigos de sempre.
Pois, houve um abraço, forte, sincero. Um voto genuíno de que o próximo ano fosse, pelo menos, melhor que o que passara. E está a ser, não está? Para mim, está, nem que seja porque tu, agora, fazes parte daquele grupo restrito que mora no meu coração. Duas ou três conversas sérias bastaram.
Já te disse, agora publico: és uma alma rara. Apavoras-me com os teus silêncios, não sei ainda interpretar muito do que os teus olhos bonitos dizem, mas tu calas. Gosto da tua calma, da tua voz baixa, da forma como falas e me dizes coisas em que nunca tinha pensado e fazem todo o sentido. Pertences ao Mundo dos Adultos, e ouço-te, prezo as tuas opiniões, respeito esse espaço que é só teu. Intrigas-me, surpreendes-me, jamais me decepcionas. Acho que é por teres uma sensibilidade muito própria, alma de professor que explica as coisas com uma paciência infinita, num tom de quem fala permanentemente com uma criança de 5 anos, agora, vais ali ao congelador buscar os copos, mas pegas-lhes pelo pé, está bem? E eu, que detesto que me infantilizem, adoro seguir as tuas instruções. E, se naquelas primeiras conversas, te atirava argumentos que te deixavam em fúria, sabes quem é o pai da social-democracia, sabes? MARX!, agora poucos argumentos tenho para te oferecer, porque me parece que estás a anos-luz de lucidez e maturidade, em relação a mim.
Tens uma força interior que eu admiro e invejo. Sabes do que estou a falar, encaras as agruras da vida com a naturalidade de uma rocha batida pelas vagas de Inverno. Mas queria dizer-te, hoje, sobretudo hoje, que me deste de presente a melhor sms de todos os tempos, queria dizer-te que, se quiseres abrir um parêntesis nessa tua solidão intrínseca de quem aguenta "tantos stresses sozinho", eu estou aqui. Não sou grande ajuda, nem grande conselheira. Mas sou uma excelente ouvinte, e tua amiga incondicional. Sabes o que quer dizer incondicional, não sabes? No teu caso, quer dizer que pouco me importam as vezes que não me respondes a sms, que não retribuis fives provocatórios, que finges que emigraste para outra galáxia, no worries: a um simples olá, bom dia, como vai a menina?, o meu sorriso é o mesmo, a minha disponibilidade, igual, a minha presença, constante. Não tens que passar por tudo sozinho. Já não terias, com certeza, antes de 31 de Dezembro. Agora, ainda tens menos.
Olho para ti, e para além de seres da "minha" família, simbolizas tudo de bom que há numa noite de Ano Novo.
Onde estão os meus beijos?
Sempre o mesmo beijo, para ti... só muda o cenário.
A Maya não anda bem...
Sagitários… be aware! A Sôdôna Maya anuncia-nos uma semana terrível! Até Sábado é suposto que tudo nos corra mal. Foi com este espírito que fui hoje para a escola, com um cabelo que espelhava bem a dificuldade que é usar um secador e um pente com apenas um braço operacional. Olhei para o espelho e disse, ai, Jade, de facto, para além de esquelética, não és mesmo nada atraente… NUNCA vais arranjar namorado, NUNCA! Muito menos esta semana... e ri-me.
Mas a Maya deve andar com os copos. O dia correu suave e bem-disposto, os alunos estavam amorosos, os colegas, aqueles que contam, claro está, também. Claro que não teve piada nenhuma o Dr. F. dizer, em frente ao pedo-psiquiatra clínico, que eu já tinha idade para não sofrer de hiperactividade com deficit de atenção, mas a verdade é que todo o Conselho de Turma teve episódios de ausência, não fui só eu, ora essa!!! E também não percebi a cena de todos olharem para mim quando se falou de despedidas de solteiro: primeiro, porque toda a gente, excepto o noivo, sabe que eu só me vou casar no dia 9/9/2009 e é cedo para começar a pensar em festas; depois, porque não sou a solteira mais velha… ainda nem fiz os 25 aninhos!... Os professores são piores que os gaiatos e este Conselho de Turma específico devia ir todo a Conselho Disciplinar… eu cá voto em 10 dias de suspensão para todos, boa? Especialmente para a professora de Filosofia!!!
Adiante. O dia correu ainda melhor porque já temos, na nossa posse, a chave do T3! E já lá fomos deixar coisas! É oficial, vamos voltar ao conforto de uma super-casa com super-electrodomésticos, e o meu quarto tem uma super-cama king-size, e uma super-parede cor-de-laranja a condizer com uma super-colcha da mesma cor! Ouviste, Vzinha? Laranja… lindo!
Por fim, recebi uma sms de um ser especial e único, sensato e bonito, que me fez corar até à raiz dos cabelos de vaidade. Bolas, pá, a Maya deve andar, positivamente, a dormir. Ou seremos nós a fazer o nosso destino? Ou serei também eu, tal como a Li, um Sagitário com ascendente em Hello Kitty, um caso raro de rispidez e doçura, que escapa aos astrólogos por merecer, somente, o melhor? É que neste momento sinto que tenho a melhor mãe do Mundo, os melhores amigos do Mundo, os melhores alunos do Mundo, a melhor casa do Mundo e a melhor companhia do Mundo… o que é um bracito magoado, comparado com isto?
Mas a Maya deve andar com os copos. O dia correu suave e bem-disposto, os alunos estavam amorosos, os colegas, aqueles que contam, claro está, também. Claro que não teve piada nenhuma o Dr. F. dizer, em frente ao pedo-psiquiatra clínico, que eu já tinha idade para não sofrer de hiperactividade com deficit de atenção, mas a verdade é que todo o Conselho de Turma teve episódios de ausência, não fui só eu, ora essa!!! E também não percebi a cena de todos olharem para mim quando se falou de despedidas de solteiro: primeiro, porque toda a gente, excepto o noivo, sabe que eu só me vou casar no dia 9/9/2009 e é cedo para começar a pensar em festas; depois, porque não sou a solteira mais velha… ainda nem fiz os 25 aninhos!... Os professores são piores que os gaiatos e este Conselho de Turma específico devia ir todo a Conselho Disciplinar… eu cá voto em 10 dias de suspensão para todos, boa? Especialmente para a professora de Filosofia!!!
Adiante. O dia correu ainda melhor porque já temos, na nossa posse, a chave do T3! E já lá fomos deixar coisas! É oficial, vamos voltar ao conforto de uma super-casa com super-electrodomésticos, e o meu quarto tem uma super-cama king-size, e uma super-parede cor-de-laranja a condizer com uma super-colcha da mesma cor! Ouviste, Vzinha? Laranja… lindo!
Por fim, recebi uma sms de um ser especial e único, sensato e bonito, que me fez corar até à raiz dos cabelos de vaidade. Bolas, pá, a Maya deve andar, positivamente, a dormir. Ou seremos nós a fazer o nosso destino? Ou serei também eu, tal como a Li, um Sagitário com ascendente em Hello Kitty, um caso raro de rispidez e doçura, que escapa aos astrólogos por merecer, somente, o melhor? É que neste momento sinto que tenho a melhor mãe do Mundo, os melhores amigos do Mundo, os melhores alunos do Mundo, a melhor casa do Mundo e a melhor companhia do Mundo… o que é um bracito magoado, comparado com isto?
domingo, 27 de abril de 2008
De Regresso
Hoje o dia começou tarde, tal como eu gosto. Dormi muito e bem, e o tempo fez o seu papel. Acordei, enfim, quase sem dores, como se o corpo dissesse, vá, hoje precisas de mim, toma lá uma abebiazinha, vais conduzir com os braços perfeitos, ou quase.
Saí com a minha mãe a saltitar ao meu lado, toda contente. Ajudou-me a tomar banho, para não molhar a ligadura, e estava com aquela disposição leve de quem sabe que o pesadelo já faz parte da memória. Fomos tomar café, e eu, olha aquele, que jeitoso, eu sabia que devia ter posto o risco nos olhos, e ela, ai não acho nada, e eu, se calhar devias pôr os óculos, e ela, olha! Eu viro-me para trás e vejo entrar, no café da minha rua… o Sr. Rui Reininho!!! Fiquei embasbacada: elá, afinal o jeitoso faz parte da banda, e a minha mãe, bolas, tens jeito para detectar artistas, tu…
Seguimos para o Pingo Doce, e, quando chegávamos a casa, ouço música. O meu senhorio tem uma banda, e ensaia num mini-estúdio lá no prédio, e eu, olha, hoje temos concerto, e antes que a minha mãe dissesse fosse o que fosse, olá, mas é o Rui Reininho a cantar! Pois é, cena de filme, concerto ao vivo dos GNR no meu prédio, e eu especada do lado de fora, sem pagar bilhete a ouvir… Demais!
Lá subimos as escadas, que o elevador está avariado, e carregámos o carro com os GNR a bombar ali ao lado, e eu a pensar… o David Fonseca, esse é que era, ou os Xutos, ias ver se me ia embora sem dar beijos a todos e fazer uma cena triste de todo o tamanho… nunca ninguém está contente, pois.
Ainda mal tinha saído de Lisboa, telefona-me uma amiga, então que tal, conversa puxa conversa, e fiquei a saber que há gente de todos os tipos a ler o blogue, e a querer saber onde fica exactamente Green Acres, talvez, quiçá, para cá vir matar umas galinhas pretas à porta, em noite de Lua Cheia…
Green Acres fica nos arrabaldes da Cidade de Deus… quando sais, pela saída dos autocarros, segues as placas que dizem “Fim do Mundo”, viras na terceira à esquerda e, quando vires a Travessa da Coscuvilhice Gratuita, paras na porta que diz “Mete-te na tua Vida” e bates. Se disseres a senha, que é um simples “Bom Dia”, que é tão custoso a tanta gente dizer, podes entrar…
Entretanto vim em alegre conversa com essa minha amiga, em profundo desrespeito pelo código da estrada, mas feliz, por estar a conversar sobre assuntos leves, feliz por estar de regresso à vida real, às coscuvilhices hilariantes, aos pormenores sórdidos, aos detalhes absurdos da natureza humana. Já não me ria há algum tempo, e rio-me sempre quando falo com esta rapariga, de ideias fixas, espírito determinado e visão clara do futuro e das pessoas.
Prometi escrever um texto a propósito das coisas que me contou hoje, mas ainda não é desta, vais ter que esperar, minha menina, há-de ser sem aviso, de surpresa, e não restará pedra sobre pedra na Cidade de Deus e arredores… porque não há nada que me puxe mais à veia poética que gente parva… e que manancial existe, Senhor!!!
Saí com a minha mãe a saltitar ao meu lado, toda contente. Ajudou-me a tomar banho, para não molhar a ligadura, e estava com aquela disposição leve de quem sabe que o pesadelo já faz parte da memória. Fomos tomar café, e eu, olha aquele, que jeitoso, eu sabia que devia ter posto o risco nos olhos, e ela, ai não acho nada, e eu, se calhar devias pôr os óculos, e ela, olha! Eu viro-me para trás e vejo entrar, no café da minha rua… o Sr. Rui Reininho!!! Fiquei embasbacada: elá, afinal o jeitoso faz parte da banda, e a minha mãe, bolas, tens jeito para detectar artistas, tu…
Seguimos para o Pingo Doce, e, quando chegávamos a casa, ouço música. O meu senhorio tem uma banda, e ensaia num mini-estúdio lá no prédio, e eu, olha, hoje temos concerto, e antes que a minha mãe dissesse fosse o que fosse, olá, mas é o Rui Reininho a cantar! Pois é, cena de filme, concerto ao vivo dos GNR no meu prédio, e eu especada do lado de fora, sem pagar bilhete a ouvir… Demais!
Lá subimos as escadas, que o elevador está avariado, e carregámos o carro com os GNR a bombar ali ao lado, e eu a pensar… o David Fonseca, esse é que era, ou os Xutos, ias ver se me ia embora sem dar beijos a todos e fazer uma cena triste de todo o tamanho… nunca ninguém está contente, pois.
Ainda mal tinha saído de Lisboa, telefona-me uma amiga, então que tal, conversa puxa conversa, e fiquei a saber que há gente de todos os tipos a ler o blogue, e a querer saber onde fica exactamente Green Acres, talvez, quiçá, para cá vir matar umas galinhas pretas à porta, em noite de Lua Cheia…
Green Acres fica nos arrabaldes da Cidade de Deus… quando sais, pela saída dos autocarros, segues as placas que dizem “Fim do Mundo”, viras na terceira à esquerda e, quando vires a Travessa da Coscuvilhice Gratuita, paras na porta que diz “Mete-te na tua Vida” e bates. Se disseres a senha, que é um simples “Bom Dia”, que é tão custoso a tanta gente dizer, podes entrar…
Entretanto vim em alegre conversa com essa minha amiga, em profundo desrespeito pelo código da estrada, mas feliz, por estar a conversar sobre assuntos leves, feliz por estar de regresso à vida real, às coscuvilhices hilariantes, aos pormenores sórdidos, aos detalhes absurdos da natureza humana. Já não me ria há algum tempo, e rio-me sempre quando falo com esta rapariga, de ideias fixas, espírito determinado e visão clara do futuro e das pessoas.
Prometi escrever um texto a propósito das coisas que me contou hoje, mas ainda não é desta, vais ter que esperar, minha menina, há-de ser sem aviso, de surpresa, e não restará pedra sobre pedra na Cidade de Deus e arredores… porque não há nada que me puxe mais à veia poética que gente parva… e que manancial existe, Senhor!!!
sábado, 26 de abril de 2008
Bloco Operatório
O Bloco Operatório é um Não-Lugar. Para quem não esteja familiarizado com a teoria filosófica de Marc Augé, um Não-Lugar é um sítio sem identidade, um espaço vazio de identificação emocional.
Não há sítio onde me sinta mais sozinha e frágil, não há sítio em que o medo, na sua forma mais escura e abissal, tome mais conta de mim. Para começar, há a questão da nudez. A nudez física, em si mesma, é brutalmente avassaladora, o estar nua, perante gente que não conheço, é mais que embaraçoso, é aterrador, não há hipótese de defesa, quando te encontras nu no meio de gente vestida. E de facas e tesouras na mão. É como vivenciares um dos teus pesadelos recorrentes e saberes que não vais acordar em sobressalto, coberta de suor.
E depois, há a questão da anestesia local. De estares acordada, a sentir que te estão a cortar, a mutilar de alguma forma. A médica que me operou é cirurgiã plástica e já me tinha operado uma vez. Mas eu estava a dormir. Descobri que opera em silêncio, e isso foi muito, muito traumatizante. Fiz-lhe duas ou três perguntas a que me respondeu laconicamente e desisti de fazer mais. Foi um tempo muito opressivo, e parecia não ter fim.
A minha mãe foi comigo. A minha mãe está sempre comigo e não sei que seria de mim sem ela. Mas não pude deixar de pensar, naquele bloco onde o tempo parecia não passar, que gostaria de ter outra pessoa, ao lado da minha mãe, à minha espera. Outras pessoas. Um pai, ou irmãos que lhe estivessem a segurar na mão, enquanto esperava por mim sozinha; um marido ou um namorado que me desse um beijo quando tudo estivesse terminado, mais alguém. Mais presenças, mais família directa, mais alicerces.
E tive muita pena de mim mesma, e muita pena da minha mãe, que é a pessoa mais espectacular do Mundo e não merecia ter uma filha que lhe desse, involuntariamente, mas mesmo assim, tanto sobressalto; uma filha inteligente com uma doença estúpida. Não merecia. E eu também acho que não merecia, passar tanta dor física, quando as emocionais já me enchem as medidas e sobram.
Dizem que a pena é um sentimento depreciativo, que não se deve ter pena de ninguém. Eu não acho. Acho que é um sentimento inútil e passivo, mas solidário, genuíno e positivo, apesar de tudo. Naquele bloco operatório, anestesiaram-me o corpo, mas não me deram analgésicos para a alma, e enquanto cortavam e cosiam, o meu espírito gritava de revolta, e as lágrimas corriam cara abaixo, a saber a sal, a frustração e a injustiça.
Correu tudo bem? Multiplicaram-se as sms dos meus amigos, preocupadíssimos. Sim, felizmente, respondia eu com a voz do costume, do não se passa nada, do estou pronta para outra.
Mas não estou. Estou muito farta disto, para ser sincera. Dói-me muito o corpo, para a semana vou trabalhar e quero ver, quero ver só, onde vou arranjar forças para tudo o que tenho que fazer.
Há muitos leitores deste blogue que me ligaram, e a quem agradeço. Apesar de estar muito em baixo, vocês dão-me forças e é bom ter amigos. Também houve gente que podia e devia ter ligado e não o fez, e a esses, só posso dizer que lamento. Houve ainda gente que me trata abaixo de cão sempre que pode, me faz a vida num inferno com plena consciência disso, e teve o descaramento de ligar. A esses, só posso dizer que lamento ainda mais. Agora, aos que me estimam, e me demonstram isso todos os dias, e me querem bem e estão realmente preocupados, e me acompanham, e estão sempre dentro do meu coração, fazem parte da minha vida e eu faço questão que assim seja, a esses, muito, muito, muito obrigada. Não tarda, estou aí... não tarda, com a vossa ajuda, estarei pronta para outra, prometo. Porque se existe força curativa poderosa, essa força é o Amor, em todas as suas formas.
terça-feira, 22 de abril de 2008
Homens...
Quem disse que os homens são todos iguais, disse-o a quente, porque nos enfurecem, a gozar, porque eles provocam o nosso escárnio, na ignorância, porque permanecerão sempre um mistério para nós, ou a generalizar, porque, de facto, são todos muuuuuito parecidos.
Para mim, há dois grandes grupos: os filhos-da-mãe, ou trastes, e os meninos-da-mamã, ou tristes.
Todos os homens têm obsessões. Geralmente, a maior é o futebol. Os trastes são do Sporting. Os tristes, fazem parte dos outros clubes. Desses, há os insuportáveis, que são do Porto, e os mesmo-tristes, que são de um clube a que chamam Glorioso, por não saberem o que quer dizer “Glória”. Há que dizer que os três homens mais espectaculares que já conheci, de entre os quais o meu avô, pertencem a este clube vermelho (de vergonha) e branco (de… não se passa nada), o que vem provar a teoria feminina de que não há homens perfeitos. Três homens inteligentes, bonitos, cultos, informados… e adeptos de um clube cuja mascote dissemina a gripe das aves… estão apresentados.
Então, temos os filhos-da-mãe. Estes olham sempre para ti com um olhar que diz “eu sou do teu sexo oposto”, com um olhar sorridente que parece estar permanentemente a gozar com a tua cara, tipo Mel Gibson ou Bruce Willis; falam-te sempre baixinho, para teres que te aproximar mais deles; gostam de te tocar subtilmente num braço, numa perna ou tirar cabelos do teu casaco, compor-te uma madeixa rebelde ou, tirar-te uma pestana da bochecha; são uns dissimulados: dão uma no cravo e outra na ferradura; flirtam com todas as mulheres, mas ficam doentes quando um desconhecido te pergunta as horas a sorrir; dizem mal de todos os teus amigos masculinos, mas têm muitas “amiguinhas”; parecem nem ouvir o que dizes e depois atiram-te para cima uma frase que disseste há muitos meses… são irresistíveis.
Os meninos-da-mamã são os homens que deviam ter nascido gajas. Os bonzinhos. Os sensíveis. Os arrumadinhos. Os dependentes. Os melgas. Os inseguros. Os trágicos. Os exagerados. Os egocêntricos. Os carentes. Para isso, antes as mulheres, cacete, não há paciência.
Os meninos-da-mamã exigem a tua atenção constante, os filhos-da-mãe não te ligam nenhuma, por isso andas sempre atrás deles; os meninos-da-mamã dizem-te milhares de vezes que te amam e perguntam-te outras tantas se tu também, os filhos-da-mãe não te dizem nada e riem-se de ti quando és lamechas; os meninos-da-mamã adoram que os engraxes, mesmo que mintas descaradamente, os filhos-da-mãe desancam-te quando és exagerada, ridicularizam-te se te apanham a mentir e não podiam estar menos interessados no que pensas deles, porque eles sabem que são o máximo.
Eu, se fosse gajo, preferiria ser um filho-da-mãe, porque, convenhamos… quem conhece o James Bond acha graça ao Calimero?
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Papel de Jornal
Eu não disse que os contratempos da vida não são senão diamantes embrulhados em papel de jornal?
Numa semana, duas provas. Green Acres, convenhamos, ninguém, merece. Por isso, eu e Mzinha, dia 1 de Maio vamos mudar para um super T3, novo, com tudo aquilo a que temos direito... tudo!!! Estamos histéricas de felicidade, não há palavras que descrevam as nossas caras hoje, a ver tudo, de boca aberta, olhar esbugalhado, gargalhadas de prazer. Lindo. Um diamante em papel de jornal. Tenho a certeza de que vamos ser muito felizes naquela casa.
A segunda prova, bom, tem a ver com amor.
As mudanças, por mais que custem, trazem sempre muitas compensações. Muitas surpresas, muitas vitórias, muitas confirmações do que sempre achámos saber, mas nunca tivémos certeza. O tempo é o maior aliado. O tempo, mais cedo ou mais tarde, dá-nos razão, dá-nos sentidos, dá-nos de presente pessoas e circunstâncias: recompensa-nos. Hoje, por várias razões, sinto-me muito recompensada. Sinto que se começa a fazer justiça e que, de facto, cada um começa a ter, finalmente, o que merece.
No meio de tanto papel de jornal amachucado no meio do chão, os diamantes começam a surgir, preciosos, brilhantes, eternos, inigualáveis.
O novo ciclo já começou. Tardou, mas não falhou.
domingo, 20 de abril de 2008
Love Poem
i carry your heart with me
i carry your heart with me
(i carry it in my heart)
i am never without it
(anywhere i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear no fate
(for you are my fate,my sweet)
i want no world
(for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;
which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)
ee cummings
i carry your heart with me
(i carry it in my heart)
i am never without it
(anywhere i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear no fate
(for you are my fate,my sweet)
i want no world
(for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;
which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)
ee cummings
sábado, 19 de abril de 2008
Jade's Trivia
A vida, às vezes, afasta-nos do nosso caminho, obriga-nos a calcorrear estradas que não são as nossas, força-nos a fazer viagens para destinos pouco amigáveis. A vida, frequentemente, não nos dá tempo para apreciar as coisas boas que nos rodeiam, orientando as nossas escolhas para as nossas necessidades, em prejuízo dos nossos desejos e sonhos. A vida, muitas vezes, faz-nos esquecer quem somos, do que realmente queremos, daquilo que gostamos, afogados que estamos no vou chegar tarde, no ainda não mudei o óleo ao carro, no devia estar a trabalhar, no tenho que pagar a renda, no amanhã já é segunda-feira.
Hoje tirei umas férias da vida e concentrei-me nas minhas pequenas trivialidades, nos deveres que tenho comigo própria, naquelas obrigações da alma em que falho constantemente por não querer falhar nas outras, as da vida.
Peguei em mim e saí, desafiando a chuva e o vento com uma simples canadiana de flanela grossa e capuz castanha. Little Chocolate Riding Hood. Apetecia-me imenso viver.
Depois de muitos meses, muitos, de jejum, fui ao cinema. Dan in Real Life. Uma história simples, nada de novo a acrescentar, quando se trata de crítica cinematográfica, mas uma Juliette Binoche que será sempre uma musa nas suas interpretações magistrais. Um fenómeno de ternura, esta mulher. Um filme que dá atenção aos pequenos detalhes do dia-a-dia, um cinto de segurança que bloqueia, um cai-cai a ser puxado para cima pelas mãos da mulher que o veste, diversas cenas embaraçosas, outras tantas hilariantes, e uma história de amor banal de final feliz, que a Binoche merece. Temos, ainda uma citação com o seu quê, "Make plans to be surprised", e a reconciliação da Jade com os seus pequenos prazeres individuais.
Antes, tinha-me permitido a compra do último livro do Murakami, A Rapariga que Inventou um Sonho, sim, Pan, não precisas de o comprar, do qual li umas páginas enquanto tomava café e esperava pelo início da sessão. Depois disso, peguei em dois ou três daqueles postais for free e fui ao minifrutalmeidas comer uma fatia de bolo de morangos e um copo de sumo também de morangos. E que satisfação, um livro novo, um filme no cinema e morangos... perfeito. Num dos postais, uma publicidade ao aniversário de uma revista feminina, que consiste na enumeração de frases iniciadas por Gosto de... e Adoro...
Fiz a minha própria lista mentalmente. Parece não ter fim. E o que é mais estranho é que passo pouco tempo dedicada a fazer, ver e sentir coisas de que realmente gosto. Parece que, algures no caminho, me perdi de mim, preocupada que andei a manter-me ao nível das expectativas dos demais. E o que é triste é que a maioria desses demais nem são, sequer, pessoas de que goste ou que respeite. E o contrário também é verdade. Porque dispendemos tanto tempo a tentar provar que somos bons, competentes e responsáveis a quem se está, positivamente, nas tintas para nós e rejubila, isso sim, com os nossos fracassos?
Jade's trivia: Gosto de... acção: ler, escrever, caminhar, viajar, ensinar, rir, conversar, jogar póker de dados e tetris no telemóvel, fumar, beber café e copos com os amigos, comer coisas que fazem mal, abraçar e beijar, fazer festas a animais de estimação, ir ao cinema e ao teatro, à praia e à piscina; sentimentos: flirtar por sms, que me falem baixo, que me falem tão baixo que tenham que me sussurrar ao ouvido, que me falem ainda mais baixo por um olhar e sem palavras, que me toquem subtilmente, que me ofereçam um único girassol, ou uma única túlipa, ou uma solitária geribera, que me sorriam, que se riam das minhas piadas, que me escutem com atenção, que me olhem nos olhos, que me liguem de surpresa, que me convidem para um fim-de-semana ou para um jantar, que me escrevam cartas e poemas, que me provoquem tremores nas pernas ou cultivem butterflies on my stomach; objectos: livros, CDs, DVDs, perfumes, relógios, malas, écharpes, pulseiras, colares, calças de ganga e mini-saias, cremes hidratantes e bâtons, isqueiros, lápis, post-its coloridos; imagens: mar, campos de flores, arco-íris e estrelas cadentes, neve, palmeiras, Nova Iorque e Londres, o Tibete e o Japão; pessoas: amigos, família e outros. Tu. Um tu que me aquece, protege, e me faz sorrir, que é tão raro. "A "stôra" passa a vida a rir-se", "Tu ris-te muito mas sorris pouco".
O meu mundo de trivialidades é o meu mundo do que é realmente importante. Hoje tirei férias da vida e dei a volta ao Mundo. A esse mundo. E ainda não regressei... porque escrever faz parte dele, bem como o que vou fazer a seguir.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Post Scriptum a Momento...
A Miss Covilhã ligou-me há pouco, a dizer que a irmã da minha colega faleceu. Parece que, se tudo tivesse seguido a ordem natural das coisas, se não tivesse havido a intervenção de um anjo, daqueles de que falava há dias, que lava a louça, cuida dos filhos e paga impostos, parece que se o anjo não tivesse transportado a irmã ao seu destino, não se teriam conseguido despedir.
Mas conseguiram.
E eu estou muito triste, mas muito aliviada, porque a minha colega, cujo desgosto e luto assolam esta noite, teve a sorte suprema de encontrar um anjo no caminho que permitiu um último abraço. E, um dia, isso vai pesar, vai fazer toda a diferença, e há-de fazê-la sorrir.
Momento...
Há momentos surrealistas na vida de uma pessoa, momentos em que nos perguntamos que diabo de força superior mexe os cordelinhos para nos fazer dar de caras com um desconhecido que parece ficção. Nada do meu dia de hoje estava previsto quando acordei.
A ideia era encarar de frente o primeiro fim-de-semana sozinha em Green Acres e fosse o que Deus quisesse, entre mini-testes de Verbos Irregulares e as palavras sussurradas do meu Auster, com um CD em pano de fundo e várias viagens à Cidade de Deus, para compras, cinema combinado com alguns alunos, Sweeney Todd, e uma ida à Disco ouvir House hoje ou amanhã com F.
Cheguei à escola e dei de caras com um drama da vida real, uma colega cuja irmã está a dar o último suspiro, a 5oo e tal Km de distância; o desespero de não conduzir um carro e não ter boleia que lhe garanta a chegada a tempo de uma derradeira despedida, um último beijo, um grande abraço para a viagem, um até breve, lá nos encontraremos. E outra colega, nascida. criada e residente na Cidade de Deus, que, a meio da manhã, diz, que se lixe isto tudo, vou-te lá levar e é já. Estas são coisas que me deixam sem palavras e me fazem vir lágrimas aos olhos. É uma lição de vida, a todos os níveis, é uma quantidade de sentimentos intensos atirados como um estalo à cara de uma pessoa; tremeram-me todos os alicerces, por todos os motivos, pelo desespero dum amor fraternal, pela saudade da partida de um ente querido, pela profunda bondade e generosidade de alguém que sai do seu mundinho para fazer 1000 e tal quilómetros num só dia, porque sim.
Quando me falam de Carpe Diem, já faço um sorriso de troça, como aquele que faço a todas as modas parvas, tipo, já cá faltava o Carpe Diem... carpe noctem, pá, ide-vos lixar. Nunca fui uma obcecada com o aproveitar do momento, isso para mim são chavões e lugares comuns. A vida é difícil, pesa, é cheia de obrigações e deveres, de listas de coisas para fazer, de más notícias, de problemas... qual carpe diem, qual história. Aproveita o momento, pois, aquele momento em que chegas cansado do trabalho e tens pilhas de loiça para lavar, e o teu filho está doente e tens que ir às urgências de um hospital repleto de gente cheia de dramas e dores, sim.
A minha noção de Carpe Diem é uma noção altruísta. Quero lá saber se morro amanhã, e não vi Nova Iorque, não me casei nem tive filhos, perdi o amor da minha vida e nunca o recuperei; quero lá saber se morro amanhã e não acabei o mestrado, nunca tive casa própria, nunca me realizei emocionalmente... morri, morri, acabou, fiz o melhor que pude com o tempo que me deram, conheci gente maravilhosa, fui conquistada por vários olhares, diverti-me, apaixonei-me, amei, sofri, tal como toda a gente. A minha noção de Carpe Diem é aproveita o momento com os que amas. Isso sim. Jamais ficarei obcecada com o que não fiz, mas arrepia-me que os meus me faltem, de repente, como a irmã da minha colega parece estar prestes a fazer.
Por isso, não gosto de me zangar com os que amo. Por isso, gosto de elogiar os que me são queridos, gosto de pedir desculpas, gosto de lhes agradecer, gosto de os mimar e lhes oferecer presentes, gosto de saber como vão, como estão, o que pensam, sentem; gosto de os consolar quando precisam ou celebrar as suas vitórias ao seu lado; gosto de os beijar, de os abraçar, de os lembrar que gosto deles. As pessoas que escolhi para estar perto de mim têm que ser tratadas como se não houvesse amanhã. E o que vale é que são poucas.
Por isso, não me prendo facilmente a alguém novo... é uma grande responsabilidade; por isso, sou parca nas palavras com quem acho que não as merece; por isso, gasto muita energia a manter-me em vidas que não me procuram frequentemente, amigos distantes e preguiçosos, mas que eu amo, mesmo assim. Por isso, hoje peguei nas minhas coisinhas e vim para Lisboa, dar um grande abraço à minha mãe. Porque eu posso morrer amanhã, mas os que eu amo também não duram sempre, e eu já perdi um a quem dei tudo de mim, e mesmo assim ainda hoje o choro.
Fiz a viagem com uma leveza triste, tentando não imaginar o que a minha colega estaria a sentir nesse mesmo instante.
Quando vinha do parque de estacionamento, carregadíssima, um rapaz ainda jovem, mas mais velho que eu, interpelou-me, permita-me que a ajude... não perguntou se podia ajudar, tirou-me o saco de viagem dos ombros e seguiu ao meu lado. Em silêncio. E eu, muito obrigada, mas o caminho é curto, e ele, é um prazer. Eu sei que não tenho grande figura, sou escanzelada, e a minha imagem carregada de sacos de viagem não deve estar muito longe da da mula da cooperativa, mas não estava à espera desta. Sorri, e assenti. Quando parámos à porta voltei a agradecer e ele disse, quando a vi, veio-me à cabeça aquela música dos U2 que diz, a certa altura, "A woman needs a man, like a fish needs a bicycle..." Eu sorri e disse, como vê, não é bem assim... e ele, pois não, boa tarde. E foi-se embora.
Há momentos reais que parecem ficção e detenho-me a pensar que tudo acontece por algum motivo.
Poema a M.
E quando tu abriste esses olhos azuis ao Mundo,sabes,
E berraste o primeiro grito a plenos pulmões,
Já eu associava cores a notas musicais
Num pianinho de brincar.
E depois corrias por montes, por matas,
e eu olhava os carros da varanda do quarto dos meus avós,
Sonhando com Barbies e Tuchas, bonecas-princesas,
Dominós de madeira com figuras da Disney,
e livros de aventuras em que a heroína era eu.
E tu, na aldeia, entre penedos e lareiras,
já te darias a vãs filosofias,
ou serias, apenas, feliz, correndo atrás duma bola?
E quando eu chorava os dramas da adolescência,
e estudava para ser diferente do que de mim esperavam,
e fazia tudo sempre certo,
Já também tu querias ser perfeito?
Quando me ria na Faculdade, e fumava, e bebia,e saía à noite,
achando que o Mundo era meu,
Tu que pensarias, jovem caloiro, dum curso recentemente escolhido?
Eu, entre Blake, Byron, Shakespeare,
entre poesia, prosa, linguística,sonhos e imaginação de gente brilhante cuspidos no papel a ser dissecados...
eu,sonharia, eu, nesse tempo?
E quando acabaste o teu curso,
iniciando uma viagem anual pelo país,
sonharias, tu, nesse tempo?
O tempo meu encontrou, então, o teu.
O espaço, o mesmo, o nosso, o de cada um,
foi, num eterno instante, único.
O menino da aldeia, a mocinha da cidade grande.
Em comum, o quê?
Um corpo, uma vontade, um reconhecimento.
O espaço único como metáfora dum tempo ilimitado, infinito,
Eterno na sua efemeridade.
E continuo, por vezes, a olhar os carros da varanda dos meus avós,e a chorar dramas adolescentes,e a ler Byron, e Blake, e Shakespeare
filtrados, agora,pela luz dos teus olhos azuis.
19 de Outubro de 2005
E berraste o primeiro grito a plenos pulmões,
Já eu associava cores a notas musicais
Num pianinho de brincar.
E depois corrias por montes, por matas,
e eu olhava os carros da varanda do quarto dos meus avós,
Sonhando com Barbies e Tuchas, bonecas-princesas,
Dominós de madeira com figuras da Disney,
e livros de aventuras em que a heroína era eu.
E tu, na aldeia, entre penedos e lareiras,
já te darias a vãs filosofias,
ou serias, apenas, feliz, correndo atrás duma bola?
E quando eu chorava os dramas da adolescência,
e estudava para ser diferente do que de mim esperavam,
e fazia tudo sempre certo,
Já também tu querias ser perfeito?
Quando me ria na Faculdade, e fumava, e bebia,e saía à noite,
achando que o Mundo era meu,
Tu que pensarias, jovem caloiro, dum curso recentemente escolhido?
Eu, entre Blake, Byron, Shakespeare,
entre poesia, prosa, linguística,sonhos e imaginação de gente brilhante cuspidos no papel a ser dissecados...
eu,sonharia, eu, nesse tempo?
E quando acabaste o teu curso,
iniciando uma viagem anual pelo país,
sonharias, tu, nesse tempo?
O tempo meu encontrou, então, o teu.
O espaço, o mesmo, o nosso, o de cada um,
foi, num eterno instante, único.
O menino da aldeia, a mocinha da cidade grande.
Em comum, o quê?
Um corpo, uma vontade, um reconhecimento.
O espaço único como metáfora dum tempo ilimitado, infinito,
Eterno na sua efemeridade.
E continuo, por vezes, a olhar os carros da varanda dos meus avós,e a chorar dramas adolescentes,e a ler Byron, e Blake, e Shakespeare
filtrados, agora,pela luz dos teus olhos azuis.
19 de Outubro de 2005
Short Story a Pan, II
Dali's Picture
Num céu verde-esmeralda voam águias cor-de-rosa. Um corpo de mulher jaz nu, deitado na relva, pés na água corrente do rio.Onírico, surreal... diz que a água do rio não passa duas vezes no mesmo sítio; tudo muda, tudo se transforma. O sol laranja aquece-lhe a pele branca, láctea, pele sonhadora, perturbada, envolvida num turbilhão de boroboletas e libelinhas esvoaçantes, wanderers. Sometimes the one who wanders isn't lost, just travelling.Não se pode chamar psicose àquilo. Nem loucura. Nem sequer obsessão. Talvez tortura auto-infligida, aquela forma que ela tem de pensar em whirlpool, abelhinha de flor em flor apanhada numa brisa aos rebolões.E as crianças, senhor, as crianças?Que faz ela àquelas crianças? por enquanto lá estão com a irmã, enquanto ela aquece o corpo ao sol agora azul, mas e depois? Olha para o rio, que passa a vermelho sangue. Retira as pernas rapidamente, o coração a rebentar do galope, a cara em chamas, o corpo húmido do suor, a adrenalina do susto.Os miúdos, que faço eu aos miúdos?O rio continua a correr como hemorragia em hemofílico. Não é bom presságio, não é bom sinal.De barriga para cima, contempla o céu por trás das lentes escuras e pensa na eternidade.Estás lá, amor, estás lá. E o céu de verde passa a negro luto.Como expressar a história de amor vivida com alguém que já morreu? De repente. Há dois anos. Passou a fronteira para o invisível, anda para lá do firmamento. E ela procura-o sem parar, no céu verde-esmeralda, com a certeza que um dia vê passar um cometa e vai atrás dele.No início não fora assim. Corajosa, diziam uns; insensível,outros; adúltera, quase todos. Nenhum percebeu que o seu coração havia congelado para um dia, há pouco mais de um mês, se partir em milhões de pedacinhos que voltaram ao estado líquido, pingaram-lhe corpo abaixo e desapareceram rio afora.Queria o seu coração de volta e enfiava no rio as pernas, esperando que as lágrimas, peças-puzzle do seu coração, lhe subissem corpo acima e voltassem a congelar-lhe no peito. Queria que aquela água do rio voltasse a passar no mesmo sítio. Nada muda, nada se transforma. Repetia a litania vezes sem conta, até as palavras perderem o sentido e serem apenas sons, hipnotizantes, pontes para o subconsciente, o tom e o ritmo a marcar o compasso do submundo mental.Nada muda, nada se transforma e o rio passa mas há-de voltar, correndo da foz para a nascente, transportando as gotas do coração que lhe pertence.Nada muda, nada se transforma, onde está o meu amor, que não o vejo passar entre as estrelas?E as crianças, senhor, as crianças...os relógios derretem ao sol. 12/06/07
Short Story A Pan
Está sentada desconfortavelmente no sofá. Desconfortável na pele que tem, na vida que leva, jogada sobre o sofá do quarto alugado, a olhar para o vazio. Para além da janela de vidros embaciados, vê a neve cair em flocos. Negros como azeviche, preto petróleo, a acumular no beiral. Pegajosa, quente. É incompreensível, mas há estrelas esverdeadas a pespontar o céu chumbo.Ela olha o vazio, de coração acelaerado, um coração que não é seu nem de ninguém. Ao longe, algures, uiva um cão. vagabundo como ela, marginais, os dois. Deita-se de costas para a janela, posição de feto, útero materno. Sente o cheiro do próprio corpo, quente, suado de febre. Sente o sangue pulsar-lhe nas veias da cabeça, cheia, inundada de raciocínios ilógicos, de momentos desconexos, duma quase loucura que dói. Vê tudo violeta, de olhos cerrados com força. Pensa no pai, imagina-o, inventa-lhe os pormenores, faz ficção, cria a personagem, aqui o sorriso igual ao dela, ali o cabelo negro, não, grisalho, os olhos míopes, as mãos frias de pianista. O pai. Biológico, como a agricultura, ela mesmo ali um vegetal. Um pimento. Sim, um pimento, ou se ama, ou se odeia, sempre indigesto. Algum brilho exterior, interior oco. E aí vem o turbilhão, whirlpool de ideias, medos, inseguranças, ansiedades, arrependimentos, vergonha. Treme de frio, cheia de calor. O sofá é pequeno, ela também. Respira demasiado rápido. O cão cala-se. Concentra-se nos pequenos ruídos. Inexistentes. Cai o silêncio absoluto, sufoca. Imagina o pimento a mirrar. Pânico. Não lhe ocorre nada lógico, nada com sentido. Quer mexer-se, quererá? Fica imóve. De novo, a vergonha. As comparações, as desculpas, as perdas. O que é a realidde senão um amontoado de objectos a que atribuimos nomes inventados por pessoas que não conhecemos? Uma amálgama de caras que conhecemos toda a vida sem saber exactamente que tipo de vegetais são? A realidade, a verdade, não será a ficção que cada um de nós faz do tempo a que chama vida? Não sabe. Pensa se tudo seria diferente se a mãe lhe tivesse dado outro nome e se o sofá teria o mesmo aspecto se lhe tivessem chamado porta. Porque será bonito ter olhos verdes e feio ter cicatrizes? Porque será culto ler Proust e possidónio ver novelas? Quem dita as leis e cria as convenções? Olha para si própria como se estivesse deitada no tecto. Corpo demasiado magro, pouco atraente, dizem. Peito pequeno, tímido, quase de rapaz. Olhos grandes, quase pretos, a lutar contra a doçura e a meiguice que lhe valeram os valentes pontapés que já levou das pessoas sem rosto que lhe marcaram a vida. Envergonhada, abraçada a si própria, príncipe encantado de si mesma, repete, de mansinho, num sussurro, ao próprio ouvido, vai ficar tudo bem, minha querida, vai ficar tudo bem.Quando amanhece, a neve negra começa a derreter e ela dorme, desconfortável no sofá, como na sua pele, como na sua vida, com uma única lágrima a riscar-lhe o rosto finalmente em paz. 16/03/07
Tu
És a minha musa, e és o meu poema.
És as palavras que desconheço, as imagens de perfeição que nunca vi.
És os lugares onde não estive, toda a arte de que não fruí.
És cor, matiz e sombreado, traço a direito e curva sensual.
És cheiro, paladar, toque.
És o Mundo, és o espaço, és o tempo perdido parado permanente,
és o futuro, és do passado, és um presente.
És o ponteiro fora do relógio e o relógio sem ponteiros, a derreter ao sol no quadro do Dali.
És estrela ascendente, és sol do meio-dia, és meteorito em viagem.
És caminhante, és diletante, és nómada, és eremita dentro de gruta em perpétua alegoria da caverna.
És selvagem, és livre e és tão meu...
És guerreiro, és forte, és pesado e uma pluma a pairar na brisa ao pôr-do-sol.
És sorriso, lágrima, suspiro, suave tremer de pernas.
És professor e aluno, és operário e artista, és leitor e escritor,
és pseudónimo, heterónimo, sempre ortónimo.
És sonho, és de verdade?, és irreal, és um qualquer ponto intermédio entre ser e sentir.
És nó, és nós, és laço e és lasso.
És enebriante, enebriado, viciante, viciado,
És tudo isto e o seu contrário,
És tu.
És as palavras que desconheço, as imagens de perfeição que nunca vi.
És os lugares onde não estive, toda a arte de que não fruí.
És cor, matiz e sombreado, traço a direito e curva sensual.
És cheiro, paladar, toque.
És o Mundo, és o espaço, és o tempo perdido parado permanente,
és o futuro, és do passado, és um presente.
És o ponteiro fora do relógio e o relógio sem ponteiros, a derreter ao sol no quadro do Dali.
És estrela ascendente, és sol do meio-dia, és meteorito em viagem.
És caminhante, és diletante, és nómada, és eremita dentro de gruta em perpétua alegoria da caverna.
És selvagem, és livre e és tão meu...
És guerreiro, és forte, és pesado e uma pluma a pairar na brisa ao pôr-do-sol.
És sorriso, lágrima, suspiro, suave tremer de pernas.
És professor e aluno, és operário e artista, és leitor e escritor,
és pseudónimo, heterónimo, sempre ortónimo.
És sonho, és de verdade?, és irreal, és um qualquer ponto intermédio entre ser e sentir.
És nó, és nós, és laço e és lasso.
És enebriante, enebriado, viciante, viciado,
És tudo isto e o seu contrário,
És tu.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
City of Angels
Os anjos não são seres etéreos, que não conseguimos ver. Não têm asas nem se empoleiram nos telhados da Cidade de Deus. Alguns vestem preto integral, sim, outros às vezes vêm o nascer do sol na praia, mas a maioria trabalha, tem filhos, lava a louça, tem insónias, vai ao médico e paga impostos.
Os anjos estão no meio de nós. São espíritos diletantes que nos falam pela boca da família, dos amigos, dos alunos, dos colegas e dos desconhecidos. Sempre presentes, sempre na altura certa, sempre quando precisamos deles.
Hoje foi um dia perfeito. Muitos anjos me falaram hoje, ou sempre o mesmo, por inúmeras bocas.
Cá ando eu, a percorrer o meu caminho, muito cool, muito na minha, sem nada que me irrite ou nada que me perturbe, mas com um cansaço muito, muito grande, e desejosa de tempinho para descansar...
Os primeiros anjos sorriram-me. Outros, deram-me os parabéns, ah grande Sporting, dá cá mais cinco!, outros comentaram o meu look, ai stôrinha, está tão bonita hoje; eu quando crescer quero ser como a professora; preciso de falar consigo no fim da aula; almoce aqui ao pé de nós, vá lá!..., outros mandaram sms com saudades, outros comentários ao meu hi5... tudo perfeito, excepto o tempo, claro.
E uma pessoa não tem sequer direito às suas neuras. Há aquele anjo alto de olhos azuis e sorriso reguila, que adora mandar beijos quando não mos pode dar, que me faz sempre ganhar o dia, sempre. Ausente, presente, semi-presente, semi-ausente, é sempre um calor docinho, um sorriso permanente da alma. Há aquele outro, de olhar breve mas que me perscruta o ser num décimo de segundo sem palavras, e me diz, estou aqui, moça. Há aquele outro que me arrasta sempre para um lanche no bar da escola e se ri enquanto eu digo palavrões entredentes. Há ainda outro, muito importante, que me telefona sempre à mesma hora e me dá notícias da minha gente e da minha cidade.
Os anjos estão entre nós. E os meus são os mais competentes do Mundo. Fizeram o sol brilhar hoje, muitas vezes, por entre a chuva torrencial, e nos locais mais recônditos do universo da Cidade de Deus. Bem hajam, meus amores, meus queridos, meus anjos.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Just to say...
... I'm alive.
Ontem escrevi um texto lindo à minha mãe, mas a net foi abaixo, e perdeu-se... fica para uma próxima!
Temos chegado a Green Acres tardíssimo, entre trabalho que nasce das pedras, busca de uma toca melhor e mais perto, lanchinhos no Twins, hoje houve o segundo... no comments we're in blackout, e pouca, muito pouca coragem para mais que não jantar, comentar as últimas da sala de professores e... caminha!
Esta semana está a dar comigo e com os meus em doidos. Viro-me para os meus alunos e digo CHI-CO!, em vez de CHI-U!, pergunto o número da página a um grupo estarrecido, e emendo, a sala, eu quero saber é o número da sala onde vamos temos aula..., digo que chove da tarde de quinta até à madrugada de segunda, e embasbaco com o coro de protestos... pois, eu queria dizer sexta, não segunda... desatino com os comentários dos meus colegas à minha indumentária, desculpem lá, hoje o meu traseiro saiu na primeira página do Público? deslarguem-me pá! No Twins peço cachorros com "tudo a que eu tenho direito, ora essa!" e o dono, salsicha também? e eu, salsicha? não, quero dizer, sim, enquanto ele explode a rir. Enfim, não sou a única... os professores andam a passar-se.
Por isso, entre os almoços com os meus alunos na cantina, e os lanches com os meus colegas no Twins, os jantares com Mzinha em Green Acres e uns pequenos-almoços engolidos no carro onde bomba Mr. DJ Vibe, não consigo engordar os quilos que me faltam, nem alimentar o Tico e o Teco a vitaminas...
Isto está bonito, está. Já disse aos gaiatos que se desaparecer, me procurem no manicómio mais perto. A não ser que falte numa segunda... aí, meus amigos, ganhei o euromilhões e estou num spa na Polinésia Francesa...
Até lá, até já!
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Fim de Tarde ao Sol
Juntam-se quatro professorinhas de província. Em comum, a mesma escola, alguns alunos, o mesmo sentido crítico das situações, o mesmo cansaço resignado, a mesma vontade de quebrar rotinas.
Arranja-se à pressão a desculpa de um lanche tardio, para dois dedos de conversa, uns copos de cerveja, (a Betinha bebeu Ice-Tea mas não se cortou ao licor de maçã verde...) e um pouco de sol vespertino na esplanada do Twins.
É verdade, damos nas vistas: somos bem-parecidas, bem-dispostas, bem-lixadas, bem-jovens, bem-livres! Naquela esplanada fez-se a festa, com o dono do bar a ficar à conversa sempre que trazia novo hot-dog, novas tostas mistas, novas bebidas.
Conjugou-se o verbo gargalhar, irregular de tão raro por estes dias, nesta específica escola. Falou-se de tudo, não se falou de nada, "Vocês não me façam falar!...". Descontraímos a atirar palavras e risos ao vento da tarde, e levantámo-nos quando começou a fazer frio.
À despedida, T. ainda disse, "Sou apologista de fazermos isto mais vezes!" A saúde mental de todas - entre aulas, explicações, acções de formação, planos da matemática e mestrados - agradece.
Thinking Happy Thoughts
Diz Peter Pan a Wendy que este é o segredo para voar, think happy thoughts!, e um pózinho dourado mágico de Twinky, claro. Para vos ajudar a voar, e na esteira de Mary Poppins, "these are a few of my favourite things", aleatoriamente, à medida que vão surgindo. Bons vôos...
Concentro-me. Estou sentada no beiral da janela a olhar a rua, como os gatos, de que herdei a alma. Ficaria assim horas, mas Pan desafia-me ao vôo, por cima dos céus de Londres e em direcção à Terra do Nunca. Pois seja. Arco-íris, bolas de sabão de mil cores, estrelas cadentes, lua cheia, quarto minguante a lembrar o sorriso do gato da Alice, gatos, gatinhos bébés, cachorritos trôpegos, coelhitos, pintainhos, ovos de Páscoa, amêndoas coloridas, chocolate, chuva de chocolate, tempestade de chocolate, milhares de caixas de bombons, bons, bons, bons como um sorriso do tamanho do universo, como o primeiro beijo apaixonado que dás numa boca que desejas há muito, como acordar nos braços do teu grande amor. Acordar, hmmmm... tarde! Acordar tarde e beber um café forte, acordar tarde e transferir o corpo para um sofá onde se fica a ver um filme levezinho, porque chove mansamente lá fora e estás de folga. O momento em que bebes um capuccino doce, o instante em que, desesperado de sono, te deitas numa cama de lençóis lavados, o segundo em que, morto de sede dás o primeiro gole na garrafa de água que finalmente conseguiste comprar. E depois, há as emoções... quando vemos alguém de quem tínhamos saudades monstruosas, ou levamos um abraço duma criança de quatro anos, ou um bébé desconhecido nos abre um grande sorriso, ou somos abençoados com aquelas gargalhadas que só os gaiatos pequenos sabem dar. Até parece que os estou a ouvir...
Morangos, cerejas, chantilly, campos carregados de violetas e papoilas, campos de girassóis e de tulipas a ondular suavemente so sol. O mar à tardinha, dourado. O sol, ao pôr-se, laranja num céu escarlate? não, rosa-choque. Os cheiros, os cheiros... o cheiro da pele da minha mãe, o cheiro do pêlo da minha gata, das penas do meu papagaio, o cheiro a família; cheira a café, a chocolate, a pipocas, a pink lotion, a baunilha, a caramelo, mmmm...
E os vícios? rebentar bolinhas de ar nos plásticos de protecção dos electrodomésticos, comer línguas-de-gato e cerejas, amendoins e pipocas até à náusea, jogar tetris de telemóvel, fumar cigarros uns atrás dos outros porque a conversa está boa, dançar até os pés doerem, rir até doer a barriga e os maxilares, ler um livro de empreitada enquanto te chamam para jantar, é só mais um bocadinho!..., sair duma sessão de cinema para te ires enfiar na próxima, ver os 27 episódios da tua série preferida uns a seguir aos outros quando estás, desde o número 10 a dizer, é só mais um...
E depois, há as imagens: um céu cheio de balões coloridos; outro céu cheio de fogo de artifício, outro céu com um bando de gaivotas; um lago a espelhar outro céu pintado de núvens brancas; um lago aos círculos depois de receber outra pedra; ondas em fúria a bater contra as rochas; castelos altaneiros com princesas presas em torres; vinte mustangs a correr na pradaria em liberdade...
Há muito que vôo alto, querem acompanhar-me? What are your happy thoughts?
domingo, 13 de abril de 2008
21 gramas
Comprei ontem o DVD deste filme espectacular. O realizador surpreende sempre, seja com "Amores Perros", seja com o mais recente "Babel". A fórmula é a mesma, mas não é simples: histórias que, aparentemente, nada têm a ver, acabam por se entrecruzar e formar teias cerradas de sentimentos extremos.
21 gramas, no entanto, mexeu com a minha sensibilidade para além das histórias das três personagens principais. Foi o título, e a sua teoria, que me prenderam a atenção. Sou uma fascinada pela teoria da transmigração das almas. O fascínio não implica a fé; na verdade, não sei bem em que acredito, e a minha parte mais racional e céptica sussurra-me continuamente que, depois da morte, não há nada. Não há prémio nem castigo, não há reencontro com os entes queridos que já partiram, não há novas oportunidades nem recomeços. Isto é o que tenho por mais certo. E, no entanto...
Toda a teoria das almas mexe com os nossos mitos mais enraizados, explica porque temos que sofrer quando achamos não o merecer, facturas vindas de vidas passadas, porque parecemos conhecer pessoas desde sempre quando lhes dirigimos o primeiro olhar, almas gémeas, porque devemos sempre fazer o melhor possível, para a nossa alma deixar de migrar e atingir, finalmente o estado zen, longe do Mundo dos mortais.
21 gramas. Um pacote de açúcar pesa 7, a nossa alma são três pacotes de açúcar.
Eu não acredito muito em almas, mas gosto de imaginar a minha. O meu ser de 21 gramas, com um peso igual ao de todos os outros seres. A minha alma, ao contrário do meu corpo, não é gozada pelas outras almas por ser magrinha, o que é um alívio.
A minha alma é uma alma cor-de-rosa e sorridente, morninha e a cheirar a pink lotion. É uma alma gulosa, que se alimenta das maiores iguarias, e nunca engorda... é uma alma que conhece muitos livros, muitos filmes, muitas pinturas, alguns países, muitas pessoas, muitos bons sentimentos, e está sempre esfomeada por mais. Quando se enfurece, tinge-se de violeta, ou até de vermelho vivo, sangue. Quando se apaixona, vira fluorescente e é vista no escuro, à noite, mesmo que tente passar despercebida. Nas suas 21 gramas cabe um Mundo inteiro de pares com quem troca diálogos intermináveis num simples olhar de reconhecimento.
Não acredito que haja almas. Mas gosto da minha, e imagino-a de formas elásticas e felinas, de gestos seguros e rápidos, de intuição certeira e inteligente. Clever. Smart. Enlightened.
A minha alma felina e cor-de-rosa, paira sobre mim, de perna traçada, sorriso escarninho, um cigarro entre os dedos e um olhar irónico sobre tudo o que a circunda. Bem vindos às minhas 21 gramas. Call them Jade.
Pelos Cabelos
E já que ontem foi dia de pausa e reflexão, hoje é dia de eleições... vamos lá compensar o tempo perdido com uma historieta absurda das minhas.
Como sempre, quando a maré vira, fui visitar o N. É periódico, gosto de celebrar as mudanças, mudando. E ver N. é sempre uma aventura. Isto porque N. é um tipo da minha altura e sensivelmente do meu peso, ou isso aparenta, com ar de puto reguila e auréola de anjo que não parte um prato... e o único homem que eu conheço actualmente que faz de mim o que bem entende. Calado, muito poucas palavras diz, num tom de voz baixo e cara séria, olhos a rir-se de maldade. De cada vez que me vê, atira um "Então, ao que vem?" Agora que penso nisso, acho que se lhe dissesse, olha, venho aqui para ver se me lês uma história de encantar e me fazes um chocolate quente, a reacção seria a mesma. Ele não me ouve, não vale a pena. Desliga quando começo a falar, e faz exactamente o que acha certo, quer eu concorde com ele, quer não... pormenor de somenos importância.
O N. é o meu cabeleireiro, já toda a gente adivinhou, certo?
Hoje cheguei lá e disse, N. é para cortar, e ele, sim, sim... olha-me para o cabelo e diz à Andreia, cor P5, nuances T4, matizados, ampolas Kérastase reinforce, e para mim, estarrecida, passe ali àquele sofá. E eu, cortar, N., eu disse, cortar, e ele, sim, sim, isso também, depois. E eu, não, depois, não, agora. E ele, ouça lá, vamos ter que nos chatear? E eu, não, não, deixe lá isso... e pensei que a última coisa de que precisava hoje era de um fulaninho mal-disposto com uma tesoura na mão. Suspirei, encolhi os ombros e lá fui ter com a Andreia-pincel-em-riste, enquanto N. mostrava o catálogo das cores e das madeixas às outras clientes.
Eu, pintada até aos olhos, folheava todas as revistas cor-de-rosa que lá havia, e ele passava e dizia, parece-me que vai ficar bonito, em tons de laranja e rosa fluorescente, e eu, ai a brincadeira, olhe que eu sou professora, e ele, já cá faltava a ladainha da professora, acha que me mete medo?, e eu, não, espero é que não se esqueça que a sua obra de arte vai andar na cabeça de uma stôrinha de província que não está para ser brindada com um coro de gargalhadas adolescentes a cada noventa minutos, e ele, verde...vou juntar ainda um pouco de verde, e eu, porque é que não me deixou escolher ao menos as cores? porque é que só as outras têm direito ao catálogo? e ele, porque você confia em mim... não lhe expliquei que não queria era ver a versão do Eduardo-Mãos-De-Tesoura em fúria a pegar-me nas melenas...
Chegámos à parte do corte. Então como vai ser? E eu, mentalmente, olhe vai ser como eu quero, para variar, seu grandessíssimo pedante, e pela boca fora, sai-me... é como o N. quiser. É disto que eu preciso, dum gajo que mande em mim, sempre disse. Ele sorriu. Uma resposta à medida dele, pois está claro. Gostava de ter uma franja, arrisco. Nada de muito certinho, nada de menina de coro, uma coisa assim... assimétrica. Excelente ideia, diz ele.
Tenho que reconhecer que saí de lá outra, que era o objectivo. A minha mãe diz que eu estou com um ar "muito sofisticado". Os meus amigos ao jantar disseram que a cor está "muito gira". Não há tons de rosa, laranja ou verde, e achei graça ao resultado final, tenho que dar a mão à palmatória. Estou com um ar de espia internacional, e a ponderar mudar o nome para B(l)ond, Jade B(l)ond. A franja até ajuda ao look... mas garanto-vos que, à primeira lavagem, me vou dar por muito contente se não me transformar em abóbora... ou num simpático ouriço caixeiro.
Aleg(o)rias
Ontem remeti-me ao silêncio, depois de se confirmarem as parcas expectativas que tinha no banco da minha velha amiga Dra F. Tinha que ser, estava à vista, lá se agendou a dita cirurgia e, silêncio, que não se vai cantar o fado, mas se vai voltar ao costume, sempre com os mesmos medos, sempre com as mesmas ansiedades de quem anda nisto há demasiado tempo.
À saída da clínica, eu e a minha mãe falámos de trivialidades. Há muito que deixámos de culpar pessoas e situações, práticas e vícios, desleixos e azares, da situação em que me encontro. Há que aceitar que as minhas feridas, sejam elas físicas ou emocionais, só se curam na base do in extremis. São sempre para marcar, são sempre para deixar cicatriz. Por isso, seja no Bloco Operatório, seja nos meus textos, seja nas minhas aulas, seja na minha cama com a minha almofada, elas cicatrizam; nunca a bem...? que cicatrizem, pois, a mal.
Não vejo nada na minha vida como uma derrota. Nunca me senti uma derrotada. Pelo menos agora que penso nisso a frio, com os meus neurónios, o Tico e o Teco, bem acordados e livres das porcarias emocionais que os sobrecarregam diariamente, das inseguranças de menina que sempre tive, dos medos adultos que surgiram depois, desta obsessão que tenho com a perda de entes queridos; livre de todos esses fantasmas irreais, posso afirmar que derrota por derrota, só o meu Sporting me deixa ficar mal.
O que a vida me demonstra diariamente é que nunca se perde nada que tenha, de facto, algum valor. Só a morte é excepção a esta regra de ouro. As coisas universais estão organizadas em termos de mudança, nada é eterno, tudo se transforma, já dizia o filósofo da Antiguidade. E se esta mudança implica perda, seja de um conforto de um apartamento ao lado da escola, seja de uma pessoa que julgavamos diferente do que se demonstra, esta perda não é uma derrota, é, isso sim, um presente valioso embrulhado em papel de jornal: não tem grande aspecto, mas quando se abre...
As derrotas dependem dos olhos que as vêem. E da inteligência que as avalia. Eu começo sempre por achar que é o fim do Mundo. A minha reacção a quente, quando as coisas dão para o torto, é ficar super infeliz. Dou sempre esse tempo de infelicidade como tempo perdido, uns instantes mais tarde. Não dou por bem empregues nem metade das lágrimas que já chorei até hoje. Não há, contudo, uma única gargalhada de que me arrependa. Por isso, cada vez mais, passo menos tempo preocupada com a mesquinhez e a idiotia dos que falam de fracassos e derrotas.
Não é fácil saber que, anualmente, mais coisa menos coisa, visito um bloco operatório, para a minha dose de anestesia geral. Não é fácil ouvir, de gente leiga que não sabe o que diz, ou de gente preocupada que me ama e se sente impotente para aceitar que não há nada a fazer, frases como"se tivesses feito isto", "se cuidasses mais de ti", "se não te enervasses". Não é fácil explicar que "se" é uma conjunção inútil. Eu vivo o melhor que posso com isto, e faço o melhor que posso, que é viver o mais independente possível dos males físicos. Não meto atestados, não peço transferências, não deixo de fumar, não perco um banho de mar, não como fruta ao desvario (Desculpa V.) . E sei, sei com a minha arrogância que me vale mais que um diploma de medicina, que nada disto me faz realmente um mal maior. Sei exactamente o que me faz mal ao organismo, os venenos que o afectam, e esses, infelizmente, ainda não aprendi a evitar com eficácia, mas estou no bom caminho.
Os venenos desta vida, os verdadeiros, os perigosos, são os que nos consomem a alma e nos impedem de seguir o nosso caminho de acordo com as nossas vontades. E esses são muito difíceis de combater. Têm nomes conhecidos: medo, hipocrisia, politicamente correcto, convencionalmente aceite, mesquinhez, inveja, maldade, irresponsabilidade, inconsciência, ignorância. Uns trazem os outros, e têm efeito bola de neve. Todos eles têm em mim um efeito atroz, porque me afectam profundamente. E recentemente, como defesa, aprendi a rir-me deles e a contra-atacar. A ironia é uma qualidade dos inteligentes, quem não o é, cai no sarcasmo e no ridículo... tem piada na mesma, mas o tiro sai pela culatra.
Combata-se a alegoria de V. numa folha de papel de mesa de restaurante, com a alegria de estar vivo e entre amigos à mesa desse mesmo restaurante. Sempre que sou operada, a minha vida dá um salto qualitativo enorme, exactamente porque o que me leva sempre à decadência física é uma fase longa de desgaste emocional. Tive dois anos, quase três, de atribulações grandes, de enormes mudanças, de picos de felicidade e decepção elevados... a entrada nos trintas foi difícil. Mas também acho que não crescia tanto e não melhorava tanto como pessoa, desde que me morreu o pai. Estou, verdadeiramente, cheia de força e optimismo. Sinto-me de facto, segura, agora que sei, finalmente, o que me espera. Estou confiante no fim do ciclo de coisas más.
O medo cresce exponencialmente ao tempo que demoramos a enfrentá-lo.
Esta Jade tremeu, ontem, dos pés à cabeça, à frente de uma médica que já a conhece de outros carnavais. Esta Jade trémula, ouviu serenamente o que havia a ouvir, com a calma estóica do costume, lágrimas a correr cara abaixo, (Quem disse que os estóicos não choram?), mas sem um queixume, sem uma palavra, o que a esperava e porquê. Esta Jade não escreveu no blogue, ocupada que estava a pôr em perspectiva a sua vida, os seus objectivos, os seus sonhos e os seus desejos.
E digo-vos, aos que me lêem e me conhecem, e conhecendo-me, gostam de mim, e aos outros, que não gostam, digo-vos a todos: esta Jade, meus senhores, sempre foi, é, e continuará a ser sempre, uma vencedora. Para alguns será chato, para outros, inconveniente, para outros ainda, incompreensível, mas é verdade. Aquilo por que luto, alcanço sempre; aquilo de que desisto, jamais me arrependo... e as contrariedades da vida, mais do que lições, têm sido diamantes embrulhados em papel de jornal. Isto é que é a verdadeira aleg(o)ria, V... conseguirá o V2 desenhar isto de forma tão brilhante como a de há bocado, depois do jantar?
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Abrigo
Ora aqui está a razão pela qual quero comprar o CD do Gil do Carmo há tanto tempo. Algo de tão simples pode ser tão imensamente belo.
Esta música é o meu porto de abrigo.
Vejo o teu olhar tranquilo,
E uma serena ausência, amor
Madrugada suave no cais
Olho-te bem nos olhos, sim
Choro reflectido no rio, no rio
Fiz-me ao mar de manhã,
Na maré de ti, ao amanhecer,
Fiz-me ao mar de manhã
Na maré de ti, ao amanhecer
Pelo mar adentro vou entrando
Como o teu semblante na memória, amor,
Pescador de sonhos
Vivo a faina pura, dia-a-dia,
Na incerteza de uma vida
Meu amor, eu volto
Fiz-me ao mar de manhã,
Na maré de ti, ao amanhecer,
Fiz-me ao mar de manhã
Na maré de ti, ao amanhecer!
(Gil do Carmo)
Esta música é o meu porto de abrigo.
Vejo o teu olhar tranquilo,
E uma serena ausência, amor
Madrugada suave no cais
Olho-te bem nos olhos, sim
Choro reflectido no rio, no rio
Fiz-me ao mar de manhã,
Na maré de ti, ao amanhecer,
Fiz-me ao mar de manhã
Na maré de ti, ao amanhecer
Pelo mar adentro vou entrando
Como o teu semblante na memória, amor,
Pescador de sonhos
Vivo a faina pura, dia-a-dia,
Na incerteza de uma vida
Meu amor, eu volto
Fiz-me ao mar de manhã,
Na maré de ti, ao amanhecer,
Fiz-me ao mar de manhã
Na maré de ti, ao amanhecer!
(Gil do Carmo)
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Tapete Voador
Hoje houve um tornado em Santarém. Grau 2 em 6. Ventos que chegaram a 180 Km por hora. O hi5 está cheio de novidades: chovem super fives, drinks, gifts, super comments, emoticons e grafittis. Qual a ligação entre estas duas verdades inquestionáveis? Recebi um gift de V., com um tapete voador: interpretei como transporte de saída de Green Acres, e mandei um igual à Mzinha, que partilha comigo o monte alentejano e, consequentemente, todas as preocupações, desconfortos, estafas e queixas inerentes.
Assim, o presente materializou-se. Eu e Mzinha estamos sentadas na soleira (chuveira) da porta de rua, montadas no tapete da entrada à espera do tornado de Santarém. Como chove, pretendemos abrir um certo chapéu de chuva rosa-choque em forma de gato de olhos azuis e grandes orelhas que alguém comprou no Lidl e me ofereceu há uns anos. É , assim, um tapete voador com pára-quedas, o bólide com que pretendemos zarpar daqui para fora.
Mas faz frio. Daqui a pouco temos que interromper a espera para ir descongelar o esqueleto. O optimismo reina: com este tempo aprazível para vôos, temos a certeza que, com ou sem tapete, voamos nós ou a casa inteira, tipo Dorothy no feiticeiro de Oz. A Dorothy é Mzinha, e eu sou uma mistura de leão, espantalho e homem de lata. Sapatinhos vermelhos de verniz não se arranjam, mas tenho uns lindos, tipo Minnie, pretos. É só obrigar a Dorothy a calçá-los, quando chegar o momento... e fazer pontaria contrária à monstra palmeira que nos impede o caminho.
A única dúvida que permanece é o local de aterragem... há sugestões?
terça-feira, 8 de abril de 2008
Fita Multicor
Talvez tenha descoberto a resposta àquela questão de ontem, aquela sobre esquecimento selectivo, talvez.
Encerra-se a porta do passado, não o procurando, muito simplesmente. Ele está lá, morto e enterrado, porquê ir no seu encalço? não. É mais fácil do que parece, ele há coisas que só por si põem pedras sobre assuntos; domina-se a vontade de chorar com um livro, um exercício que se tem que corrigir; trava-se a obsessão das más memórias aceitando um convite para o quinto café do dia, que se transforma num chazinho à chegada do bar da escola; chora-se, nesse mesmo bar, em frente a uma amiga abismada e aterrada, todos os stresses dos últimos meses.
E depois, fim.
Regressa-se à sala de professores, de olhos inchados e alma limpa, e o sorriso é, finalmente, verdadeiro, e a mente já não é, de repente, bússola de tristezas.
A solução não está em esquecer, está em lembrar, encolher os ombros, tentar entender, desistir de o fazer, aceitar que há pessoas que são mesmo assim, pobres, situações que são mesmo assim, tristes, e fases que são mesmo assim, chatas como a chuva de Abril. E depois de aceitar, largar: atirar à sétima onda como a pulseirinha do Nosso Senhor do Bonfim, e ficar à espera que os três desejos se realizem.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Chuva Ácida
Tinha que ser. Como o que Green Acres tem de bom é o pátio, era certo e sabido que esta semana ia chover. Combate-se o desânimo com crepes de chocolate, leituras de livros leves, melancólicos cigarros e pouco mais.
Este tempo faz-me um mal horrível ao corpo e ao espírito. Ao corpo, porque como toda a gente sabe, tenho um termómetro avariado que dá sinal abaixo dos dez graus; muito especialmente quando é o caso de mudanças bruscas de temperatura: envelheço vinte anos, no meio de ais e uis, olheiras até aos joelhos e cansaço insuportável. A Mzinha atira crepes ao ar com profissionalismo e eu rio-me, a tentar espantar tudo isto.
Hoje, às 8.30 da manhã, eu lutava contra uma ficha de trabalho que estava a fazer, apesar do sono e das dores, e um colega meu, diabético, dizia-me, as nossas desgraças nunca são as piores do Mundo. É verdade. Mas em dias assim, nem as verdades consolam.
Ontem li um livro que contava uma história simples que ensina a lidar com a mudança: apropriado à minha realidade de momento. Fiquei tão animada que julguei que ia ter uma semana fantástica... o que faz uma chuvinha, Meu Deus!...
Hoje é uma Jade triste, aquela que vos fala. Uma Jade assombrada por todos os seus fantasmas, os seus desgostos, as suas inseguranças, os seus disparates, as suas culpas, os seus arrependimentos. As vezes em que podia ter evitado mal maiores. Os momentos em que, apesar da consciência do abismo, se atirou de cabeça. O preço que paga, até hoje, por isso, uma conta que parece não mais se saldar.
Assisto lucidamente à minha vida de camarote... como diz a Mzinha, vale-te de um grosso!... outro amigo meu, recente, dizia-me, porque não evitas tu meter-te em situações que sabes que não são para ti, porque não te respeitas? Tu, antes de toda a gente, não te respeitas, com essa atitude de menina-que-sabe-tudo e que, no entanto, faz sempre, sempre, o que toda a gente quer, o que toda a gente acha melhor para ti, se deixa manipular de forma aberrante, e só diz não quando já é demasiado tarde... porque não dizes não mais cedo? porque só dizes chega, quando em vez de chegar, já houve abusos que ninguém aguenta? É verdade. Passo a vida a fazer e a dizer coisas que não quero, para evitar ser a má da fita, vou enchendo, e quando rebento, sou sempre ainda pior. É como disse outro amigo meu, L., com imensa piada, há coisa de duas semanas, "nem vale a pena dizer que te sirva de lição, que tu não aprendes, rapariga, tão inteligente, tão inteligente e só fazes coisas parvas!" Coitado, é que em Dezembro ele ainda me disse, não fiques assim, é a bater com a cabeça na parede que a gente aprende... para perceber, duas semanas depois, que a aprendizagem não se aplica a pessoas da minha qualidade.
Estou muito cansada. Não e fácil, um dia como o de hoje, em que tudo parece feito de encomenda para me dificultar a vida.
Teve o seu momento mágico, como todos os dias. Talvez tivesse sido o beijo na mão que um amigo me deu, depois de um comentário que lhe fiz, com toda a naturalidade, mas que lhe caiu especialmente bem. Sim, foi o meu momento de carinho e e afeição. Infelizmente, não chega para contrariar a minha tendência de hoje, que é relembrar muitos outros momentos recentes destituídos de sorrisos e beijos, palavras amigas e gestos afáveis.
O livro de ontem dizia que, para encarar a mudança de frente, temos que nos livrar do que é velho. Belo chavão, belo lugar-comum, aponta-se o óbvio e ganham-se rios de dinheiro em direitos de autor... não se explica é como isso se faz. Como nos livramos dos momentos marcantes do passado, sobretudo quando são tão maus que nos trazem as lágrimas aos olhos quando nos afloram a mente? Como se aplica o esquecimento selectivo? E, caramba, como se faz isso num dia de chuva que parece, ele próprio, chorar todos os males da humanidade?
domingo, 6 de abril de 2008
Green Acres
Cá estamos. Escrevo-vos do pátio, com uma vista que seria linda, não fosse uma palmeira, árvore tipicamente alentejana, a tapá-la.
As mudanças, limpezas e arrumações duraram todo o dia, e eu e a minha amiga, tipo almas penadas, fizémos calmamente o que havia a fazer e instalámo-nos no pátio, a comer e a beber sangria em canecas de barro. A diferença entre a nossa realidade e umas férias no campo é pura coincidência... isto se não comentar o facto de que Mzinha, neste preciso momento, prepara aulas de rabo para o ar aqui ao lado sobre um banco, só para não ter que se ir meter dentro de casa, com abelhas a zumbir e passarinhos a cantar, andorinhas em vôos rápidos e o som de carros muito ao longe; e amanhã há aulas às oito e meia da manhã, hey!
Pois é, depois de muito resmungar e queixar-me, este momento, afinal, é quase perfeito. O tempo está óptimo, já liguei ao Pan, por causa da sangria do lidl, parece que mais logo vai haver crepes de chocolate, e a minha máquina fotográfica está a carregar para se encher de instantâneos de Green Acres: o quarto da tralha, a cozinha do campismo, a sala dos beliches, Jade empoleirada numas pedras, Jade de pernas para o ar depois de se desêcalitrar das ditas pedras, Jade no pátio a beber sangria à caneca, Mzinha a preparar aulas no meio de 23654 papéis, Mzinha de portátil no colo, testemunhando um momento tecnológico no fim do Mundo, Mzinha a rir-se enquanto Jade espeta com o carro silvedo adentro... enfim... as fotos vão surgir.
Só vos digo... enquanto a realidade não cair e doer, está um belíssimo fim de tarde alentejana. A sangria está perfeita... são servidos?
sábado, 5 de abril de 2008
O que é que se bebe aqui?
Bem... estou que nem posso, nem sei bem como me chamo. Quais mudanças, quais caminhadas, quais mestrados, quais aulas de Inglês, se querem acabar comigo, ponham-me numa festa duma inocente menina de quatro anos e seus primos, a rondar essas idades!
Cheguei atrasada, claro, a tentar aparecer a uma hora em que os gaiatos já estivessem todos drogados de sono e de doces, cada um a cair para seu lado. Como se diz aqui na Cidade de Deus, "Ora, Adeus", devo ter chegado no pico do Inferno, uma gritaria, uma confusão de balões, papéis de embrulho, adultos com chapelinhos de cartão do Noddy, e eu cheia de embrulhos do meu tamanho, aterro no meio de uma sala apinhada, a tentar não pisar ninguém, a balbuciar um "Boa Noite" de voz bem colocada de stôra, que eram muitos para dar beijinhos, e a ser arrastada por um bando de arruaceiros dos quatro aos catorze anos, olha o que me deram, deixa ver o que trouxeste, Xana dá cá um beijinho, dá cá colo, quero um abraço, tenho sede, posso comer mais um rissol?
Eu vi logo que eles iam acabar comigo. Tive foi a ideia brilhante de oferecer, entre outras coisas, uma corda de saltar e um elástico que parece o sonho de alguém com uma trip de LSD. Um sucesso: foi logo tudo a galopar porta fora jogar ao elástico e saltar à corda! Lá me sentei, lá cumprimentei a família, tão próxima que é como se fosse minha, lá contei as minhas últimas aventuras em Green Acres e lá vieram as costumeiras piadinhas de gente que me conhece há quinze anos, me quer muito bem e acompanha as desventuras e aventuras que periodicamente me entram vida dentro.
Lá me consolaram com uma garrafa de Licor Beirão, que sabem que eu adoro, e me põe bem disposta, depois de fazerem questão de controlar se eu comia em condições e se havia vinho tinto para mim. Vim para casa muito contente, depois de ter cantado e dançado num karaoke infantil, com música selecta que inclui Toranja, Xutos, e também, claro Floribella! Porque eu cá só canto karaoke e dou tristes espectáculos assim, em família!
Valeu-me o meu querido Mestre, o pai da S. que me disse, à entrada, ai, rapariga, estás cada vez mais nova... e à saída, bons olhos te voltem a ver em breve.
Por isso, parece que fui atropelada por um camião tir de matrícula de 2004, mas vim-me embora feliz... de gatas, mas feliz!
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Nothingman
once divided...nothing left to subtract.
some words when spoken...can't be taken back.
walks on his own...with thoughts he can't help thinking.
future's above...but in the past he's slow and sinking.
caught a bolt 'a lightnin'...cursed the day he let it go...
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman.
she once believed...in every story he had to tell.
one day she stiffened...took the other side...
empty stares...from each corner of a shared prison cell...
one just escapes...one's left inside the well...
and he who forgets...will be destined to remember.
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman.
oh, she don't want him...
oh, she won't feed him...
after he's flown away...
oh, into the sun...ah, into the sun...burn...burn...
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman...nothingman.
coulda' been something...nothingman.
some words when spoken...can't be taken back.
walks on his own...with thoughts he can't help thinking.
future's above...but in the past he's slow and sinking.
caught a bolt 'a lightnin'...cursed the day he let it go...
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman.
she once believed...in every story he had to tell.
one day she stiffened...took the other side...
empty stares...from each corner of a shared prison cell...
one just escapes...one's left inside the well...
and he who forgets...will be destined to remember.
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman.
oh, she don't want him...
oh, she won't feed him...
after he's flown away...
oh, into the sun...ah, into the sun...burn...burn...
nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman...nothingman.
coulda' been something...nothingman.
Amo esta música. Traz-me o cheiro de maresia e a paisagem da Nazaré. Um par de olhos azuis, frios como o mar. Uma máquina fotográfica, um cinzeiro, gatos, muitos gatos. Música electrónica. Uma garrafa de vinho com um rótulo a dizer "Amo-te", outra com outro a dizer "Auster". Uma casa pequenina em Sines. Uma noite louca em que éramos dois e um abat-jour, onde quer que fôssemos; dois finais de ano em que a esperança era mesmo real; um grupo de gente divertida, descontraída, unida; as vezes em que me senti a Branca de Neve entre sete anões mais altos do que eu; cartas e bilhetes escritos à mão e escondidos entre os meus pertences, para eu os encontrar quando calhasse; muitas lágrimas, muita tristeza, muita mágoa, mas nunca um grito, nunca uma ofensa atroz, nunca um desrespeito descarado.
Ontem, numa reunião de conselho disciplinar, o representante dos E.E. afirmava que uma avaliação de um desrespeito a uma regra tem que ser feita sem base em termos de comparação com outros casos. E eu ri-me, de mim para mim. A avaliação deve ser isenta, mas também deve ser justa, e a justiça é observável, na prática, através de comparações.
Quando ouvi sem parar Nothingman, achava que a pessoa que me tinha dito um adeus definitivo nessa altura pouco mais era que a pior pessoa do mundo. Nunca lhe vou conseguir perdoar, é certo, mas pode agradecer às lições que aprendi desde aí, uma subida no meu ranking de decência. É que a mudança de New York para Green Acres é uma metáfora da minha vida, e desde aí já vi e já conheci situações bem piores.
E assim, hoje, dou comigo, aliviada, a lembrar pela primeira vez com algum carinho um par de olhos azuis, frios como o mar, e a acreditar que o ódio, tal como o amor, pode não ser eterno.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Teoria da Relatividade
O tempo é relativo. Os relógios páram quando queremos que avancem e correm quando queremos um momento de eternidade; passamos os dias a trabalhar e chegamos ao final da semana sem saber bem como, parece que ainda foi ontem o primeiro dia de aulas, e já suspiro por férias outra vez. Am I normal or am I hopeless?
A minha Leonoreta faz quatro anos hoje e parece que foi ontem que a vi pela primeira vez, linda, que parecia desenhada à mão. Já estamos em Abril: parece que ainda ontem foi Dezembro... e, ainda assim, estas duas últimas semanas pareceram meses repletos de acontecimentos, de novidades, de zangas e gargalhadas, de aulas e reuniões, de férias e televisão, e noites de sono ao desvario e insónias bem aproveitadas, e pensamentos profundos, compras fúteis, conversas sérias, comentários surpreendentes, convites inesperados, sorrisos espontâneos, palavras duras, palavras cúmplices, desespero, paz, dúvidas, certezas.
Como diz Pedro Paixão, viver todos os dias custa.
Pela janela da sala, é tarde e ainda há luz. Se tudo na vida fosse assim, seria uma réstia de esperança, um toque de milagre no profano que é a agenda cheia de deveres e obrigações, tarefas e listas de assuntos a resolver.
A minha teoria, no carro com a minha amiga cá de casa, há uns dias, era a seguinte: todos os seres humanos, quando chegasse a hora de morrer, deveriam ter um bónus pelo tempo perdido. Quanto mais tempo tivessem perdido sem culpa, mais bónus teriam. Eu seria imortal. Tenho um problema sério com isqueiros, chaves, chapéus de chuva e o cartão da escola. Materializam-se e desmaterializam-se com o único intento de me fazer perder tempo precioso, e gozar com a minha cara, aparecendo sempre em sítios para os quais já tinha olhado milhares de vezes. Quando tenho alguma chatice com o carro, é certo e sabido que o meu telefone está sem saldo ou sem bateria. Quando estou atrasada, é óbvio que parto um salto da bota, entorno qualquer coisa sobre a camisa branca ou tenho que voltar atrás porque algo se evaporou instantaneamente da minha mala. Quando estou a entrar na biblioteca, o livro ficou na sala de professores; quando chego à sala de professores, trago comigo o dicionário que devia ter deixado na biblioteca. Estou quase em casa e o livro de ponto aparece misteriosamente no meio do monte de coisas que carrego ao colo, acabo de fechar a porta da sala, quero começar a aula e puf! o mesmo livro de ponto ganha perninhas e raspa-se para o armário da sala de professores...
Viver todos os dias custa. Não tenho tempo para perder tanto tempo. Pareço o coelhinho da Alice, permanentemente atrasado, permanentemente a correr.
Quando for a minha hora, quero um bónus grande como a vida que ficou para trás.
E quero que esse bónus seja livre de chaves, isqueiros, chapéus de chuva, cartões da escola, e, já agora, livros de ponto.
Feliz Aniversário
Ainda não tinhas nascido, já eu te chamava Leonoreta, sem que os teus pais percebessem porquê. Talvez porque te estava destinado o distinto nome de rainha, talvez porque adoro este poema do Gedeão, talvez porque soubesse que ias conquistar-me para sempre, com esse teu feitio difícil, esse olhar perscrutador e curioso, esse sorriso alegre, essa vontade de abraçar o mundo, percebê-lo, absorvê-lo, na tua inata tendência para a asneira. És tão mimada, Leonoreta, e a primeira criança no Mundo que acompanho desde sempre, e que gosto de estragar às escondidas dos teus educadores. Digam o que disserem, venha quem vier, és a minha sobrinha, a minha afilhada, a minha menina.
Feliz Aniversário, minha querida. Hoje é o teu dia... come doces com fartura.
POEMA DA AUTO-ESTRADA
Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.
Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.
Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.
Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.
Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.
Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
António Gedeão (Rómulo de Carvalho, 1906-1997)
in Máquina de Fogo (1961)
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Inveja...
A Inveja é uma sentimento muito feio, como canta o rapper.
Estava eu, muito sossegadinha, a dormitar no sofá, a pensar, enquanto dormia, é hoje que me vou deitar cedo, telenovela em pano de fundo, e tu mandas-me uma sms, queres vir ter comigo ao Algarve? o tempo está óptimo...
E eu, que estou a trabalhar, e no meio de uma semana para esquecer, a preparar-me para um fim-de-semana de mudanças para Green Acres, puf,puf, mais um caixote, truz, bate a porta do carro, toc, toc, toc, sobe escadas, desce escadas... vrummm, carro em primeira, olha a gravilha, eu... fiquei para morrer...
Acordaste-me, desassossegaste-me, tentaste-me, e isso não se faz.
Não se faz, jovem.
A vingança é um prato que se serve frio, e a minha vai ser terrível... a próxima vez que me vieres com o discurso ai, e tal, que os professores têm grandes vidas, vais ver com quantos paus se faz uma canoa. (Tricky question, descobri, há pouco tempo, que é só com um...)
Foi-se o sono e a única coisa que me ocorre, obsessivamente, agora, é, que bem que se estava agora aí, na praia, na esplanada, no Algarve, contigo. Obrigada pela lembrança, que não te perdôo.
terça-feira, 1 de abril de 2008
April Fool's Day
Sei que sabes que sim, que percorremos o mesmo espaço e tempo em diferentes dimensões. Como se eu fosse corpo e tu éter ou vice-versa, que nunca entendi bem onde tu acabas e eu começo: o mesmo átomo habitando longínquas galáxias.
Osmose. Olho para alguém que já não és tu e identifico aquilo que em ti é meu, contra-vontade nossa: um certo sorriso, um determinado olhar, um disfarçado suspiro de quem usa a máscara veneziana da comédia para esconder um rosto riscado de lágrimas e marcado por um tempo que avança lento em direcção a lugar nenhum.
De soslaio vejo alguém que já foste tu e surge-me a imagem de uma árvore e o cheiro dorido de um perfume que a memória não guarda, tatuado que ficou num âmago mais profundo de alguém que já fui eu.
Em silêncio, o mesmo olá, bons olhos te vejam, o que andas a ler por estes dias? Imóvel, o mesmo toque suave no teu peito triste.
E se não te olho, melhor te vejo, se não estás, melhor te sinto, se não falas, mais nítido te ouço, de voz suave e grave, de melancólico murmúrio de perdão. E continuamos de mãos dadas, caminhando trilhos de direcções opostas, de pés nus na espuma dos dias iguais.
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