quinta-feira, 27 de março de 2008

La Perla... a porcos!

Hoje acordei armada em Atlas... com o peso do Mundo às costas. Esta metáfora genial, como não podia deixar de ser, não é minha, mas da igualmente genial V.
Acordei com a teoria de que hoje era dia anti-memória, uma religião que pratico algumas vezes ao ano, quando os pensamentos que carrego são negros e infelizes e apetece-me ser o contrário do eu. Quando é assim, faço tudo diferente do que é rotina, encarno outra pessoa e desvio-me um bocadinho para dentro de um mundo ficcional, reinvento-me, dou-me uma nova oportunidade. Tomei banho com essências que não são minhas, e com as quais não me identifico, ao som de um cd que tenho do Vinicius de Moraes que não me traz recordações porque o ouvi apenas duas ou três vezes. Infelizmente, na faixa sete ou oito, estava o Aguarela, o mais brilhante grito de Carpe Diem feito música que conheço, mas infelizmente a última melodia que precisava de ouvir hoje... lembrou-me, inclusivamente, que tenho que preparar a aula do Dia da Poesia, em que essa música pode ser um bom mote para a escrita adolescente. Irritada, tirei o cd e resolvi sair e ir comprar outro, novo, fresco. O último do Jack Johnson, aquele que quero há tanto do Gil do Carmo, ou uma das colectâneas do DJ Vibe que, no Sábado, de regresso a casa, ouvir a Antena 3 deu-me saudades dos anos loucos da música electrónica.
Saí. A minha mãe mora no centro do mundo alfacinha, no sítio que eu conheço com mais shoppings por metro quadrado e, no entanto, numa rua antiga com algumas lojas que aqui estão desde sempre, onde me chamam pelo diminuitivo, ou pelo diminuitivo do diminuitivo, e me tratam como se eu ainda tivesse 5 anos e lá fosse pela mão do meu avô. Adoro esta rua e estas pessoas, dou conta que sou uma pessoa de sorte e volta-me o grande sorriso que toda a gente por estes lados gaba. Troco meia-dúzia de palavras com uma, a quem compro tabaco, meia dúzia de palavras com outro, que me serve o café, e vou para o meu Átrio.
Tenho um sentimento de posse grande, em relação a este centro comercial; fiquei furiosa quando a lei do tabaco fez com que proibissem o fumo lá dentro, ora essa, quem é esta gente para me dizer que eu não posso fumar na minha sala de estar? Suspirei e, que remédio, cumpri. Há cinco lojas a que vou sempre, uma perfumaria, uma loja de acessórios, outra de lingerie, uma sapataria e uma livraria. Lá fiz a ronda, com o sentimento nostálgico que me assola quando sei que está para breve o regresso à Cidade de Deus, depois de uns dias de civilização. Quando entrei na loja de lingerie, automaticamente lembrei-me do Sábado de Páscoa.
Em certas coisas, a minha mãe é como se fosse minha filha, eu tenho que a controlar sob pena dos danos colaterais serem graves. A minha mãe é a eterna adolescente, e eu já nasci velha. Detesto cenas macacas, detesto ser o centro das atenções, quanto mais despercebida passar, melhor, e aquela mulher é uma força da natureza, de gargalhada estrondosa e comentário em voz alta, do absurdo ao surreal... já passei as maiores vergonhas da face da terra ao seu lado... e sempre, sempre, em centros comerciais ou lojas.
A minha mãe adora comprar coisas, eu sou aquela que faz contas, vê preços, pondera, diz seis vezes "será que eu preciso mesmo disto?", pega nas coisas, experimenta-as, raramente leva seja o que for. O contrário dela, portanto.
No Sábado de Páscoa, disse-lhe que precisava de ir à Tezenis; tinha feito o favor de, ao tirar uma etiqueta de uns shorts lindos que tinha comprado, lhes fazer um buraco do tamanho do Grand Canyon. Cuecas com três buracos... não me parece, até porque o sítio onde dei a tesourada não era compatível com qualquer ideia perversa que vos passe, de momento, pela cabeça. Quando a minha mãe disse "Boa, que eu quero ir à H&M, e assim vais comigo", eu devia ter previsto o pior. Mas, parva, lá ficou combinado, e lá fomos. A ideia era comprar uns shorts iguais e vir embora. Pois. Foi o fim do Mundo em Cuecas, como eu costumo dizer...mas desta vez em cuecas, soutiens, pijamas, baby-dolls, enfim, o fim do Mundo em Trajes Menores... Como de costume, saí de lá a bufar, com ela a rir-se ao meu lado. Costumo dizer que ela tem um encosto de palhaço, que se revela em alturas impróprias e não percebe nada de etiqueta.
Lá fomos nós, Chiado acima, rumo à H&M. Nessa altura já eu dizia... tanto dinheiro gasto em roupa para ninguém ver, achas normal? e ela, vês tu!, e eu, achas que sim? quando me visto de manhã ainda estou a dormir!, e ela, olha veste por cima das calças e da camisola, não me chateies. depois diz-me se os teus alunos gostaram. E eu tive que me rir, a minha mãe não existe. Parámos na loja do Gato Preto, da qual tive que a arrastar ao pontapé e à bofetada, e entrámos na H&M. A coisa estava a correr bem, até que eu, idiota, olho para o andar de cima e vejo um pijama da Hello Kitty. Disse, que fofo, e a minha mãe, o quê? e eu, estúpida, aquele pijama. Aí, ela bate o record dos 100m barreiras e eu já só me vejo no andar de cima, a experimentar soutiens, tangas, shorts, e olha este, com brilhantes, e olha estas com rendas, e vê estes com fitas de cetim... uma bela fita fazia eu, se pudesse e se me deixassem.
À saída a minha mãe rejubilava, e eu tinha lingerie para o resto da vida. Já nem sabia se havia de me rir ou de chorar, enquanto ela falava sem parar, no monólogo nonsense do costume. No metro, repeti a ladainha... tanta coisa para ninguém ver... e a minha mãe, suspirou, e num tom de voz dramático, diz, de repente "La Perla a porcos..."
Não sei e o palhaço dela se encostou a mim, não sei se os genes de repente falaram mais alto, só sei que tive um ataque de riso de tal alarvidade que vim do Marquês ao Saldanha num berreiro incontrolável, lágrimas a correrem-me cara abaixo e pensamentos mal estruturados de vingança, de estrangular a minha própria mãe, que dessa vez até se ria mais baixo que eu, tal o estado em que me pôs.
Por isso, hoje, quando entrei na "minha" loja de lingerie, senti o friozinho no estômago de quem vai ter um acesso de riso, uma réplica do terramoto, e saí a correr.
Para variar, não comprei nada. O que não é de estranhar, visto que fui sozinha, sem a minha mãe nem o inseparável encosto do Bozo.

5 comentários:

Anónimo disse...

Depois desta cena almodovariana ( inventei agora) deixo-te um endereço do mestre onde podes ler acerca do seu dia a dia na rodagem do novo filme que está aí não tarda, "los abrazos rotos": www.pedroalmodovar.es
Traduções livres à parte... Rir é o melhor remédio!

Jade disse...

Um abrazo roto para ti... traduções livres à parte, pois com certeza!

Anónimo disse...

Tudo sobre a minha mãe.
Também é almodovar, ao que julgo.

Mas não é tudo. Nunca é tudo. sabemos tão pouco dos que estão a nosso lado. Ou quase nada.

Anónimo disse...

Há um roteiro que se vai fazendo, de comentário em comentário. Como o trilho de um rato de laboratório.


Lope

rowdun

Jade disse...

Acho um piadão ao Almodovar. E adorei "Tudo sobre a Minha Mãe". Se fosse fazer um filme sobre a minha, tinha que ter umas cinco sequelas... todas do tamanho do "Era uma Vez na América". Um tratado, a minha mãe!
E sim, de facto o conhecimento é um conceito sempre em construção... e peca sempre por tardio, ou insuficiente...