Eu e os filmes do par Julia Roberts/Richard Gere... temos história. Sou uma perfeita anormal, só mesmo eu, para no mesmo blog revisitar Calvino e citar Oprah, citar Melville e falar nas comédias românticas de Hollywood, naquelas mais pobrezinhas, ainda por cima. Mas tal como tudo o resto em mim, também aí a contradição existe: a mesma que lê e tenta entender os clássicos, os pós-modernistas, os poetas e os filósofos, os pintores e os escultores, também vê novelas, passa sempre os olhos pelo horóscopo e ri-se e relaxa com revistas cor-de-rosa. Acho que é por isso que nunca chegarei a ser tão culta como algumas pessoas que conheço e me servem de exemplo, porque no fundo, uma parte de mim gosta mesmo de não pensar.
Voltemos ao título, estou a divagar e a violar a regra "Coerência" do meu próprio manual de boa escrita...
Os meus alunos perguntam muitas vezes porque não me casei, porque não me caso, se me quero casar. O casamento é uma das instituições base da nossa sociedade, queiramos ou não. Aos meus amigos e aos meus colegas mais próximos confesso que, se não casei aos 20, quando era inconsciente, duvido que o faça agora. E rio-me da mentira descarada que acabei de proferir, enquanto eles interpretam a gargalhada como sinal de profunda convicção do que acabei de dizer. Os casados olham-me muitas vezes com inveja. Alguns, em segredo, baixinho e a sós, dizem-me "Deixa-te estar sossegadinha, não sejas parva...". Respondo-lhes que as pessoas querem sempre o que não têm, e que se eles acreditassem mesmo que o melhor era estar sozinhos, separavam-se. Sorriem e calam-se. Todas as circunstâncias têm lados positivos e negativos, e não deve haver nada melhor no Mundo que partilhar a casa e a vida com alguém que se ama.
Até hoje, só tive um grande amor. Tive dois, mas o outro não foi, como diz a Bíblia, consumado. Perdeu-se na inocência da adolescência, faz parte de um território puro e intocável, a que não me atrevo, sequer, a voltar. Belo, de uma beleza perpétua e doce. Perfeito. Na minha fase adulta só tive um grande amor. E rezo para que a história das almas gémeas seja grande lenda, se não não terei oportunidade de ter outro. Não me casei com ele porque cheguei atrasada: quando lhe entrei vida adentro já ele era um divorciado traumatizado com o casamento, "nunca mais". Se analisar a coisa racionalmente, talvez tenha sido por aí que acabei por perdê-lo, ou melhor, que acabámos por nos perder um do outro. Chamemos-lhe H.
H. preenche a maioria larga dos requisitos da carta que escrevi ao Pai Natal em "Soulmate". Preenche ainda outros que não escrevi porque isto é um blogue para família e amigos, sim, mas também é público e há coisas que não se publicam. A minha mãe diz que H. foi o único namorado que me conheceu até hoje que fazia vir à superfície o melhor de mim. Fazia milagres com a minha auto-estima, enquanto preparava o café pela manhã (nunca mais me vou esquecer do cheiro que tinha aquele café, e do enorme sorriso que eu fazia quando este cheiro ia ter comigo à cama, e eu me levantava cedo, cedo como eu não gosto nada e tão feliz que eu era, então), enquanto me oferecia chocolates, ou me lia as histórias que escrevia em voz alta, eu deitada ao seu colo de olhos fechados e só a sua voz ocupando o meu mundo inteiro.
Foi H. que me deu tudo para que eu fosse para Mestrado, deu-me o exemplo, os meios, a casa para eu estudar, as ideias mais brilhantes para os meus trabalhos, a revisão dos mesmos; ficávamos muitas vezes até às tantas da manhã a jogar póker de dados, a comer línguas de gato e a conversar sobre história e literatura. Deu-me verdadeiras palestras absolutamente brilhantes, num tom de voz modesto, e rindo-se quando eu dizia, infantilmente, "sabes tanto..." O meu Mestrado sofreu as consequências das nossas rupturas, que a nossa relação, ao contrário do nosso amor, sempre foi intermitente. Um dia disse a alguém, muito magoada com H., depois de nos termos separado em definitivo, "comecei o Mestrado por causa dele, quero acabá-lo por minha causa". E a verdade é que está de chuva, está difícil, muito difícil. Tenho sempre milhares de perguntas a fazer a H., milhares de ideias a partilhar com ele, milhares de desabafos para os seus ouvidos, exclusivamente para os seus. É como se, a meio do trabalho, tivesse mudado de orientador.
H. zangou-se comigo muitas vezes. Muitas vezes com razão, outras sem nenhuma, assim é sempre. Mas nunca, nunca me desrespeitou. Nunca. Mesmo no fim, que não vem aqui ao caso, a maior dor que me inflingiu fê-lo a tentar proteger-me, como sempre. Mesmo no fim, manteve sempre a coerência, a convicção de que eu era tudo aquilo que ele, ao longo de cinco anos, pensara sobre mim. Fecho os olhos e ouço-o elogiar-me, acarinhar-me, incentivar-me, chamar-me à razão, apontar-me as falhas. O que ele mais detestava em mim era a minha insegurança, o meu medo, as minhas desistências e a minha inércia. Nunca se queixou, nunca, da minha brusquidão, da minha frieza ou do meu modo de ser irritante e irritado. Dava a volta aos meus maus humores com uma habilidade que até a mim me surpreendia. Fazia de mim o que queria e por nada lhe estou mais grata. Eu acho que preciso disso, que alguém mande em mim porque me apeteça obedecer, porque ache que o seu caminho está mais certo que o meu.
Foi a única vez que amei alguém. Ou antes, foi a única vez que me teria casado com alguém. Das outras vezes, sempre me comportei como a Noiva em Fuga, sempre sem chegar a pôr os pés no altar, óbvio. Não quero com isto dizer que os "amo-te" que disse ao longo da vida tenham sido mentiras, nada disso. Quando os disse, estava absolutamente convencida que eram verdadeiros; mas a análise que faço deles hoje não se compara ao que vivi com H. Foi o mais perto que estive da ilusão de Milagre e perdê-lo deixou-me tão desorientada que entrei numa espiral de auto-destruição, embarcando em ilusões em mares revoltos e naufragando necessariamente em rochas muito pontiagudas. Um dia, num fim-de-semana em que tinha que entregar uma parte da minha dissertação, vi-me, pela primeira vez, sozinha, sem H. a fazer café e a dar palpites, sem ninguém no seu lugar. Acho que nesse fim-de-semana chorei, enfim, a sua perda e os meus erros, o acreditar que aquele lugar podia ser preenchido por qualquer um que dissesse gostar de mim. Mas H. não o dizia, dizia-o muito raramente. O que H. fazia era demonstrá-lo a cada instante. O que H. fazia era acreditar em mim, como eu própria nunca consegui.
E agora, uns meses passados, entendo finalmente que este lugar não está disponível. O lugar de H., a ser ocupado, tem que ser por alguém igualmente especial, alguém que me aceite tal como eu sou e veja em mim muito mais do que eu vejo. Alguém que me fale em voz baixa, me sorria quando eu entro em modo-stress e me dê um abraço quando eu não quero que ninguém me toque.
Até lá, serei a eterna Noiva em Fuga, e responderei às perguntas dos meus alunos com o "porque não calhou, talvez um dia" do costume.