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quarta-feira, 26 de março de 2008

Noiva em Fuga

Eu e os filmes do par Julia Roberts/Richard Gere... temos história. Sou uma perfeita anormal, só mesmo eu, para no mesmo blog revisitar Calvino e citar Oprah, citar Melville e falar nas comédias românticas de Hollywood, naquelas mais pobrezinhas, ainda por cima. Mas tal como tudo o resto em mim, também aí a contradição existe: a mesma que lê e tenta entender os clássicos, os pós-modernistas, os poetas e os filósofos, os pintores e os escultores, também vê novelas, passa sempre os olhos pelo horóscopo e ri-se e relaxa com revistas cor-de-rosa. Acho que é por isso que nunca chegarei a ser tão culta como algumas pessoas que conheço e me servem de exemplo, porque no fundo, uma parte de mim gosta mesmo de não pensar.
Voltemos ao título, estou a divagar e a violar a regra "Coerência" do meu próprio manual de boa escrita...
Os meus alunos perguntam muitas vezes porque não me casei, porque não me caso, se me quero casar. O casamento é uma das instituições base da nossa sociedade, queiramos ou não. Aos meus amigos e aos meus colegas mais próximos confesso que, se não casei aos 20, quando era inconsciente, duvido que o faça agora. E rio-me da mentira descarada que acabei de proferir, enquanto eles interpretam a gargalhada como sinal de profunda convicção do que acabei de dizer. Os casados olham-me muitas vezes com inveja. Alguns, em segredo, baixinho e a sós, dizem-me "Deixa-te estar sossegadinha, não sejas parva...". Respondo-lhes que as pessoas querem sempre o que não têm, e que se eles acreditassem mesmo que o melhor era estar sozinhos, separavam-se. Sorriem e calam-se. Todas as circunstâncias têm lados positivos e negativos, e não deve haver nada melhor no Mundo que partilhar a casa e a vida com alguém que se ama.
Até hoje, só tive um grande amor. Tive dois, mas o outro não foi, como diz a Bíblia, consumado. Perdeu-se na inocência da adolescência, faz parte de um território puro e intocável, a que não me atrevo, sequer, a voltar. Belo, de uma beleza perpétua e doce. Perfeito. Na minha fase adulta só tive um grande amor. E rezo para que a história das almas gémeas seja grande lenda, se não não terei oportunidade de ter outro. Não me casei com ele porque cheguei atrasada: quando lhe entrei vida adentro já ele era um divorciado traumatizado com o casamento, "nunca mais". Se analisar a coisa racionalmente, talvez tenha sido por aí que acabei por perdê-lo, ou melhor, que acabámos por nos perder um do outro. Chamemos-lhe H.
H. preenche a maioria larga dos requisitos da carta que escrevi ao Pai Natal em "Soulmate". Preenche ainda outros que não escrevi porque isto é um blogue para família e amigos, sim, mas também é público e há coisas que não se publicam. A minha mãe diz que H. foi o único namorado que me conheceu até hoje que fazia vir à superfície o melhor de mim. Fazia milagres com a minha auto-estima, enquanto preparava o café pela manhã (nunca mais me vou esquecer do cheiro que tinha aquele café, e do enorme sorriso que eu fazia quando este cheiro ia ter comigo à cama, e eu me levantava cedo, cedo como eu não gosto nada e tão feliz que eu era, então), enquanto me oferecia chocolates, ou me lia as histórias que escrevia em voz alta, eu deitada ao seu colo de olhos fechados e só a sua voz ocupando o meu mundo inteiro.
Foi H. que me deu tudo para que eu fosse para Mestrado, deu-me o exemplo, os meios, a casa para eu estudar, as ideias mais brilhantes para os meus trabalhos, a revisão dos mesmos; ficávamos muitas vezes até às tantas da manhã a jogar póker de dados, a comer línguas de gato e a conversar sobre história e literatura. Deu-me verdadeiras palestras absolutamente brilhantes, num tom de voz modesto, e rindo-se quando eu dizia, infantilmente, "sabes tanto..." O meu Mestrado sofreu as consequências das nossas rupturas, que a nossa relação, ao contrário do nosso amor, sempre foi intermitente. Um dia disse a alguém, muito magoada com H., depois de nos termos separado em definitivo, "comecei o Mestrado por causa dele, quero acabá-lo por minha causa". E a verdade é que está de chuva, está difícil, muito difícil. Tenho sempre milhares de perguntas a fazer a H., milhares de ideias a partilhar com ele, milhares de desabafos para os seus ouvidos, exclusivamente para os seus. É como se, a meio do trabalho, tivesse mudado de orientador.
H. zangou-se comigo muitas vezes. Muitas vezes com razão, outras sem nenhuma, assim é sempre. Mas nunca, nunca me desrespeitou. Nunca. Mesmo no fim, que não vem aqui ao caso, a maior dor que me inflingiu fê-lo a tentar proteger-me, como sempre. Mesmo no fim, manteve sempre a coerência, a convicção de que eu era tudo aquilo que ele, ao longo de cinco anos, pensara sobre mim. Fecho os olhos e ouço-o elogiar-me, acarinhar-me, incentivar-me, chamar-me à razão, apontar-me as falhas. O que ele mais detestava em mim era a minha insegurança, o meu medo, as minhas desistências e a minha inércia. Nunca se queixou, nunca, da minha brusquidão, da minha frieza ou do meu modo de ser irritante e irritado. Dava a volta aos meus maus humores com uma habilidade que até a mim me surpreendia. Fazia de mim o que queria e por nada lhe estou mais grata. Eu acho que preciso disso, que alguém mande em mim porque me apeteça obedecer, porque ache que o seu caminho está mais certo que o meu.
Foi a única vez que amei alguém. Ou antes, foi a única vez que me teria casado com alguém. Das outras vezes, sempre me comportei como a Noiva em Fuga, sempre sem chegar a pôr os pés no altar, óbvio. Não quero com isto dizer que os "amo-te" que disse ao longo da vida tenham sido mentiras, nada disso. Quando os disse, estava absolutamente convencida que eram verdadeiros; mas a análise que faço deles hoje não se compara ao que vivi com H. Foi o mais perto que estive da ilusão de Milagre e perdê-lo deixou-me tão desorientada que entrei numa espiral de auto-destruição, embarcando em ilusões em mares revoltos e naufragando necessariamente em rochas muito pontiagudas. Um dia, num fim-de-semana em que tinha que entregar uma parte da minha dissertação, vi-me, pela primeira vez, sozinha, sem H. a fazer café e a dar palpites, sem ninguém no seu lugar. Acho que nesse fim-de-semana chorei, enfim, a sua perda e os meus erros, o acreditar que aquele lugar podia ser preenchido por qualquer um que dissesse gostar de mim. Mas H. não o dizia, dizia-o muito raramente. O que H. fazia era demonstrá-lo a cada instante. O que H. fazia era acreditar em mim, como eu própria nunca consegui.
E agora, uns meses passados, entendo finalmente que este lugar não está disponível. O lugar de H., a ser ocupado, tem que ser por alguém igualmente especial, alguém que me aceite tal como eu sou e veja em mim muito mais do que eu vejo. Alguém que me fale em voz baixa, me sorria quando eu entro em modo-stress e me dê um abraço quando eu não quero que ninguém me toque.
Até lá, serei a eterna Noiva em Fuga, e responderei às perguntas dos meus alunos com o "porque não calhou, talvez um dia" do costume.

sábado, 15 de março de 2008

I have a Special Gift for Impossible Relationships

O título faz parte do filme "Pretty Woman" e a deixa é de Richard Gere.
A questão dos dons é sensível. Em míuda, nunca recebi grandes elogios. Era uma aluna exemplar, mas a minha família achava que, dada a minha inteligência, e o facto de nada nunca me ter faltado nada em casa, não fazia mais do que a minha obrigação. Lembro-me de estar histérica de contentamento por ter entrado para a Faculdade e o meu avô me dizer "Que palermice é essa? Bonito seria se não tivesses entrado... começa a pensar é em sair de lá como uma vencedora.". E saí.
Nunca fui especialmente bonita ou atraente, um bocado invisível para o sexo oposto ou, pelo menos, para os exemplares que me interessavam. Também aí, os elogios eram muito raros, e pouco credíveis.
Pensei, muito tempo, que tinha um dom especial para ensinar, para escrever, para aprender coisas novas com facilidade. Mas encontrei na vida professores muito melhores que eu, escritores muito mais eficazes, pessoas muito mais cultas. O Curso de Mestrado ensinou-me que a minha inteligência não sai dos parâmetros -elevados, até pode ser- da normalidade, e a minha cultura está muito abaixo das grandes cabeças da classe intelectual do nosso país.
Sou apartidária, não ligo grande coisa a clubes de futebol, embora sempre tenha sido do Sporting, porque o meu avô controlava tudo em mim, e era do Benfica. Foi um fraco grito de revolta que ninguém, nem mesmo eu, nunca levou muito a sério, mas colou até hoje. No fundo, gosto pouco de discutir seja o que for, política, desporto, religião, todas as grandes convicções me soam sempre a gente fundamentalista. Não me agradam dogmas e parece-me absurdo que todas as decisões de um partido sejam aceites e cumpridas, porque é o nosso partido, todas as restrições religiosas sejam obedecidas, porque é a nossa religião, e todas as decisões do árbitro sejam contestadas, por serem contra o nosso clube. Desagradam-me os rebanhos e não consigo abraçar cegamente uma causa. Também para isso não sou dotada, não tenho um dom especial.
Talvez o meu dom especial seja o da personagem interpretada por Gere. Se há coisa que faço com mestria é escolher sempre a pessoa errada, e os resultados estão à vista. Com o tempo já nem dói, entrei na tal profunda auto-ironia pós-modernista; no outro dia, à conversa com uma pessoa que me tentava abrir os olhos, usei para me definir o adjectivo "desprendida". Se o meu eu de quinze anos estivesse então na mesma sala, ter-me-ia esbofeteado. O meu eu de quinze anos era um poço de amor. Prendia-se às pessoas e amava-as como se não houvesse amanhã. Depois começou a perdê-las, umas atrás dasoutras, e quinze anos depois, mais de quinze, há uns escassos meses atrás, desistiu de vez. E perdeu, talvez, o seu último dom especial.
O único consolo que resta é a resposta de Julia Roberts, já com Gere fora de cena, "I think you have a lot of special gifts".