segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Inconsciente

Como não podia deixar de ser, depois de vários meses de sentidos adormecidos, seguidos de uns últimos dias de saudosos suspiros inexplicáveis, hoje sonhei outra vez contigo. Já não acontecia há muito, e foi quanto bastou para  serem ainda dez da manhã e já me ter surpreendido meia dúzia de vezes a olhar pela janela da sala de professores, à tua procura, tipo milagre materializado, príncipe cavaleiro salvador de princesas enclausuradas em torres.
Só eu mesmo, triste imbecil, para esperar por milagres em Dia de Bruxas.

domingo, 30 de outubro de 2011

Saudades

Estou há dois dias mesmo em baixo. Cheia de saudades. De um passado que não foi, de um futuro que não chega. Tenho saudades de estar feliz. E ando mesmo, mesmo tristita. O que me vai levando em frente é o trabalho que tenho por fazer. E os mimos da mãe e da mana. Só isso. Mas hoje, a caminho de casa, não chegou. E aqui, sozinha, agora, também não chega. Tenho pena que o que para milhões é tão fácil, para mim pareça cada vez mais inatingível. Boa noite a todos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Exigência

Estou farta do deixar andar. Farta de cobranças de tudo quanto é lado. Farta que me façam exigências. Fartinha. A nível pessoal e profissional. Não me lembro do momento em que o meu saco encheu. Só sei que de há umas semanas para cá (eu disse que a cena da minha mãe me fez mudar um pouco, mas esta sensação já vinha de antes e intensificou-se durante e depois) ando eu numa fase de exigência de que não me lembro haver outra, ao longo da vida.
Deixei de ter paciência para engolir certas coisas, para ouvir certo tipo de discursos, para relevar atitudes que me caem mal. Acabou-se a compreensão e a tolerância. Muitas vezes disfarcei aquilo que julgava ser hipersensibilidade e não me livrei do epíteto de "mau-feitio". So be it, quero lá saber. Para andar amargurada com as pessoas e ter que fingir que está tudo bem, poupa-se o trabalho do fingimento e bola para a frente. Estou muito melhor assim, evito estar com quem não me apetece, faço com o meu tempo aquilo que julgo ser mais útil e produtivo, e chateio-me muito menos. Focus and avoidance. Let's learn a new way of living.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Venenosa

Hoje acordei cedo, preocupada, como agora é novidade, com o sem fim de coisas que tenho por fazer. Lá fui ao supermercado, arrumei compras, tirei da máquina e arrumei loiça, pus dois sacos de cenas na reciclagem, estendi umas quantas peças de roupa, rezando para que não chova e para que o vento que está as seque. Tudo com uma má disposção interior, um veneno poderoso que se escoa em irritação e pensamentos irados, não sei, não estou nada pura.
Dei por mim em pensamentos de revolta.
Sou uma excelente pessoa. Não se riam, que se isto não é a verdade, é a minha verdade. Sou generosa, sou altruísta, sou solidária, sou justa, sou franca, sou leal. Quem conhecem vocês que seja isto tudo nos dias que correm?
Não me meto na vida de ninguém, não comento maliciosamente vidas privadas, não atiro a primeira nem pedra nenhuma, não desfaço no trabalho dos outros, não engraxo chefias, não quero saber de poder, não sou manipuladora, não ligo a aparências, não me impresssionam os grandes luxos, e não sei o que é a inveja podre, só aquela que me permite alegrar-me pelos outros, suspirando inocentemente por não ter o mesmo. E invejo relações e modos de vida, não invejo bens materiais.
Sei, porém, que no meio de tanta qualidade, sou arrogante. Sou arrogante porque a estupidez e a ignorância humana proliferam e me tiram do sério. Sou arrogante porque nasci inteligente e sinto que isso neste país é um pecado capital, e que a mediocridade dominante gosta de pisar, ressabiada, tudo o que seja um bocadinho acima da média. E irrita-me que uma dúzia de gente estúpida consiga levar a sua avante, e fazer de mim idiota, arrastando uma cambada de ovelhas com a velha máxima da "ela tem a mania que é boa mas a gente baixa-lhe a grimpa". Tenho passado a vida a dizer que sim a imbecis para que o resto do mundo deixe de achar que "eu tenho a mania que sou boa", para me camuflar e diluir capacidades e potencialidades em troca de simpatias.
E depois, de vez em quando, acordo assim, envenenada e venenosa, por não me reconhecerem esforços, por não me elogiarem conquistas, por não me verem como eu sou e me aceitarem assim.
Sinto-me completamente sufocada neste momento, nesta sociedade, por tudo aquilo que gosto de fazer, desde ler livros uns atrás dos outros sobre coisas tão diferentes como psicologia, ciência ou história, até ver exposições de arte contemporânea, passando por devorar filmes europeus, até gostar, realmente, de aprender, e dizer bem das ações de formação, ser, dizia eu, mal visto, mal interpretado ou invejado pelos comuns mortais que partilham comigo a nacionalidade. Ser encarado como cagança e elitismo.
Sinto-me completamente sufocada por aquilo que sei fazer bem, como escrever, dar aulas, conquistar simpatias adolescentes, motivá-los, fazê-los gostar de mim, seja motivo de despeito ou escárnio, e criticado à primeira oportunidade.
Hoje estou mesmo, mesmo venenosa. Mais vale acordar tarde, quando posso. Uma sestinha, provavelmente, viria a calhar, para voltar ao meu modo "o mundo é que tem razão, eu não passo de uma idiota, os outros é que são bons."

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Workaholism

Durante o meu percurso escolar, incutiram-me em casa que aquele era o meu trabalho e se devia dar o máximo de nós para o cumprir como deve ser. Foi o que fiz. Na Faculdade, a coisa patinou um bocado, houve cadeiras que fiz sem pôr os pés nas aulas mas, ainda assim, em momentos de avaliação a coisa sempre foi levada muito a sério, e se fosse preciso fazer diretas ou começar a estudar com um mês de antecedência para uma prova de um cadeirão, lá estava eu, de nariz metido em livros, fotocópias e fichas de trabalho. No estágio, não me lembro de ter tempo para me coçar, quanto mais de procrastinar fosse o que fosse, e levei tudo certinho e organizado até ao fim. O mestrado foi o descambar total dos níveis de empenho e força de vontade, isto na fase da dissertação, que não falhei um seminário nem um trabalho curricular, e em nenhum tive menos que a nota máxima da turma.
No que diz respeito ao ganha-pão, contudo, e à exceção do ano de estágio, sinto que sempre dei de mim o máximo em contexto de sala de aula com os garotos e os mínimos em tudo o resto. Fiquei completamente traumatizada com papéis, computadores e pesquisas, com a criatividade à força e aulas preparadas com imagens de obras de arte de portugueses contemporâneos.
Chego a uma aula e puxo pelos miúdos, faço-os escrever, falar e ler Inglês até o vomitarem por todos os poros, mas há muito que me deixei de mais fichas de trabalho ou ceninhas para corrigir em casa.
Até agora, em que o trabalho se me deparou como um instrumento muito útil de escape, e meio de exaustão física e mental que não me desagrada de todo. Este ano não sei para onde me virar com a treta dos cargos e, talvez por isso, porque não gosto de coordenar, chego a casa e só me apetece trabalhar para os alunos, inventar atividades giras, fazer mais aquela ficha de gramática ou ler a quantidade de alarvidades que escrevem nas composições, para lhes poder chamar todos os nomes de que me lembro, enquanto o faço.
Tem sido terapêutico e tem melhorado bastante a minha autoestima, já que, na maioria das vezes, a trabalhar para os órgão pedagógicos, me sinto tão inútil como imbecil. Para além dos lugares de coordenação, naquela escola, serem sinónimo de muitas chatices e poucos amigos.
Há uns dias, dizia ao terapêuta que jamais serei uma workaholic porque não tenho pelo trabalho uma compulsão, apenas adquiri um novo hábito de alienação. Ou isso, ou entrei definitivamente no mundo dos adultos, e ao contrário do que dizem os idealistas "mantém a criança que há em ti", estou muito melhor assim, thank you very much.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

No news...

... is good news.
Às vezes precisamos de um tremor de terra que nos abale as estruturas para dar valor ao que temos e de que tantas vezes nos queixamos. Foi o que me aconteceu no final de setembro. A possibilidade concreta de a minha mãe poder estar gravemente doente, o pesadelo dos exames, das intervenções cirúrgicas, a espera, as biópsias, os resultados, tudo isso me fez entrar num whirlpool de medo denso e escuro.
Passou tudo para segundo plano. A minha vida foi trabalhar como uma louca, de semana, e ir para Lisboa ajudar a minha mãe, acompanhá-la e dar-lhe mimos, ao fim de semana. E quando vieram os resultados, "tudo em ordem, tudo bem", senti os ombros, o pescoço e as costas literalmente relaxar, quando já nem os sentia tensos, do hábito de andar em compressão muscular. E dormi pela primeira vez como deve ser, de segunda para terça, depois de vinte e seis dias de insónias intercaladas de pesadelos.
Foi um mês que, de certa forma, mudou um pouco a minha vida, o meu modo de pensar, de agir e de estar. Dediquei-me de alma e coração ao trabalho e aos alunos... porque precisava muito de ter no que me concentrar e ao que me agarrar, precisava muito de afastar a cabeça do pânico e de encontrar para onde escoar carências, carinho, revolta e agressividade. Os alunos permitem-nos todos estes estados, num único bloco de noventa minutos. E, por outro lado, retribuem, interessam-se e não nos deixam parar, puxam por nós. Para além disto, este ano tenho cargos de que depende o bom funcionamento de parte dos órgãos pedagógicos: coordeno diretores de turma e professores de inglês de terceiro ciclo, por exemplo.
Também tenho muito que ler em casa, e muitos episódios das minhas séries favoritas, novinhos em folha, para ver.
No meio do pesadelo, fui ver o espetáculo da Rita Redshoes com alguns colegas de escola e jantar fora duas ou três vezes com eles porque quem sai da escola depois das oito da noite dias e dias seguidos, às tantas só quer mesmo comer e beber uns valentes copos de sangria de frutos vermelhos. E ainda tive tempo para arranjar o JadeMobile, que está trnsformado numa máquina infernal que facilmente dá os 160 não se atrevendo a dar mais porque a dona não deixa.
Depois do alívio, olho para trás e vejo que o susto me deu responsabilidade acrescida, sensibilidade triplicada, força de vontade para trabalhar e cumprir tarefas em dobro e... uma indiferença total aos assuntos do coração. Parece, finalmente, que estou bem sozinha, me basto a mim própria e consigo cuidar de mim e dos que amo sem precisar de namorado, marido, amigo colorido ou qualquer outra nuance relacional.
Basto-me a mim mesma: tenho trabalho que me chegue e sobre, tenho com quem sair, se me apetecer, e com que me entreter, se quiser estar em casa; já não tenho cabeça, nem paciência, nem vontade, nem disposição, para aturar outro ego que me contradiga, me coloque em segundo plano, me troque por um modelo mais giro, me pretira, ou me partilhe com outra tipa qualquer.
Não. Há coisas bem mais importantes para fazer na vida que dar com a cabeça nas paredes por pessoas que nunca viram em nós uma prioridade, mas um acessório que se usa quando tudo o resto nos falha. Está bem que é mais fácil ficarmo-nos a lamentar, eternamente presos aos Fantasmas dos Natais Passados, de Dickens, do que reagir à perda sem dramas e seguir em frente com a nossa vida, menos uma... preocupação, ou chatice, ou amargura.
Dizem que, com o tempo, a deceção acaba por passar e dar lugar à indiferença ou, no máximo, a um sentimento ácido e arrogante de "your lost". Mas eu lido muito mal com o tempo, e esse momento para mim sempre tardou muito em chegar. Foi preciso materializar-se à minha frente a possibilidade de uma perda real, para que as perdas ficcionais de que me lamentava ocupassem o seu verdadeiro lugar, que é nenhum, no meu espírito.