sábado, 31 de janeiro de 2009

Interregno

Acordei tarde, hoje. Acordei tarde e pensei, último dia de Janeiro. Outro sonho por água abaixo. Último dia de Janeiro. Podias estar a trabalhar há cinco horas na tua tese. Não estás, nem estarás. Acabou. Esquece, desiste.
Tomei o pequeno-almoço e resolvi ver "As Vinhas da Ira", de John Ford. Não consigo transmitir a profunda impressão que me causou. Tocou-me verdadeiramente fundo. De forma tão verdadeira que me senti esbofeteada por essa verdade, como se a mentira me vestissse desde sempre, como se já nem a soubesse identificar como tal. Não chorei uma lágrima, mas fiquei sem respiração algumas vezes, abri muito os olhos outras, e senti-me swept of my feet, outras tantas. É um filme muito político, acho que se o tivesse visto ainda adolescente teria vivido a minha vida de uma forma totalmente diferente. Não que a tenha vivido mal, vivi-a, apenas, iludida, metida numa redoma de vidro ou numa bola de sabão, nem sei. E não, não é por causa de um filme que vou, agora, viver de outra forma diferente da que conheço. Não o saberia fazer, faltam-me coisas importantes.
Mas, mal abri a net depois disso, depois de ter feito o almoço e almoçado às cinco da tarde, dei com a notícia dos problemas na fábrica Bordalo Pinheiro no Sapo e a primeira coisa que me ocorreu foi... e ainda dizem que não andam a f*der o Zé Povinho!, e surpreendi-me a mim própria, nesta muito estúpida consciência social que nunca tive. Quero dizer, nunca tive nesta dimensão política. Tenho andado metida em politiquices, é verdade. Desde as manifestações contra a PGA, até ao Não Pagamos em que vi, estupefacta, uma colega minha negra das bastonadas que levou mesmo ao meu lado, até todas as greves que já fiz enquanto professora, mas sempre uma outsider dos partidos, e também, principalmente, dos ideais, das campanhas, das lavagens cerebrais panfletárias. Sempre.
Mas chego agora à conclusão que pouco se consegue quando se seguem convicções individuais, mesmo que connosco esteja a razão. Nada se consegue.
E hoje apetece-me um interregno.
Fui confrontada com a minha vida acumulada de desistências. De desistências de coisas importantes e ao meu alcance, que deitei ao lixo por andar preocupada com outras que jamais terei. Fui confrontada com a minha inutilidade, a todos os níveis, como defensora das minhas causas, como empreendedora dos meus objectivos, como filha pródiga, como mãe inviabilizada, como mulher, amante, companheira, de um homem que não me quer, mas sobretudo, com a minha inutilidade comigo mesma.
Depois o meu mundo ruíu o que faltava, pela legenda de uma foto que li noutro sítio qualquer. E estou muito cansada de ser quem sou. Apesar de todas as minhas qualidades, de todas as minhas conquistas, de tudo o que tenho, não tenho tudo, mas ao contrário de muitos, o que me falta é o mais importante. É de facto, o mais importante. E, Pan, a propósito de uma conversa que tivémos aqui há uns tempos, lembras-te da "pergunta para queijo"?, o mais importante, não depende de mim. São as leis da sorte e azar.
Preciso de um interregno. Preciso de renascer, ou apenas de acabar. Há muita gente que mudou de vida depois dos trinta. Serei eu capaz disso quando nunca fui, nunca, mais que uma completa incapaz? É que não se trata de mudar detalhes, ou pormenores, precisaria de acordar outra.
A empregada da minha mãe, que foi sempre muito mais que isso, sempre foi família, tem hoje oitenta e poucos e continua a trabalhar lá em casa. Tiraram-lhe um sinal e veio o resultado: maligno. Recebi essa notícia pelo telefone ao acordar e pensei, uma vida inteira de trabalho duro e pobreza, uma emigração esperançada para África e um retorno na miséria, um filho que está longe, um marido já morto, uma casa fria, e é assim, é assim que vai tudo acabar? Que mundo é este? Que vida é esta?
Depois vi o filme. Agora penso na minha, na minha própria vida. Refém dos meus medos, mas também das minhas realidades, de uma doença semi-incapacitante, dos sonhos perdidos pelo caminho, dos projectos abandonados entretanto, das lutas travadas, das que estão a decorrer neste momento, das oportunidades que nunca cheguei a ter e daquelas que desperdicei.
Não tenho tudo. Mas o que mais me dói é não ter o mais importante.
E hoje só me apetece fugir. Hoje só me apetece desaparecer. Só me apetece um intervalo. Ou um fim. Hoje apetece-me parar.

Imagem


Sentada num braço do sofá, à janela, olha a chuva e é abraçada pela sensualidade da noite escura. Deixa-se estar a fumar, sentindo o letal companheiro entre os dedos, enquanto relembra todas as palavras escritas e lidas nas últimas horas.




Envolve-se mais na manta que lhe aquece o corpo sem lhe resguardar a alma, e sente no tecido toda a proximidade que lhe falta, as suas ausências na pele nua, o tempo que passa grão a grão, na ampulheta.




Olha o pátio vazio, enquanto a música clássica chora baixinho e o aconchego não disfarça tudo em que evita, disciplinadamente, pensar. Surge-lhe uma vaga ideia, uma leve vontade, de pegar no carro e ir madrugada fora, ao sabor de um destino imprevisto. Fazia isso amiúde, há poucos anos atrás, pela serra, em direcção à barragem, ao encontro das piscinas naturais, as estrelas por milagre sempre novo.




A estrada. Afasta a ideia antes que não lhe consiga resistir e fique por aí parada, no meio do nenhures, com todo o tipo de sombras que traz coladas a si a envenenar-lhe os sentidos.




Má ideia, má ideia. Boa ideia é ir deitar-se, abraçada à bonequinha de sempre, de menininha que nunca deixou de ser, com o cheiro da infância e do avô, da mãe e de todos os brinquedos, com o cheiro de casa, o seu cheiro infiel a mil perfumes, o seu cheiro envolvido em sorrisos infantis e sonhos de todas as cores.




Sim, boa ideia, essa do leito frio e gigantesco, onde se pode esticar e ainda assim adormece sempre encolhida, na posição de um feto que goza o supremo privilégio de um lugar seguro e da mais profunda ignorância como verdade absoluta.




Apaga o cigarro e deita um último olhar à noite escura, e ao vidro molhado. Antes de sair da sala, ainda hesita um breve instante, como se uma voz a chamasse. Aguarda. Não há palavras, não há murmúrios, não há sequer um breve sussurrar.




Mas sente-lhe a presença. Sorri. Em voz baixa e meiga, tão baixa e meiga que nem a reconhece, diz, estou bem. Descansa, que estou bem. E, apagando a luz, dirige-se para o quarto, já desacompanhada.
Verdadeira Poesia

(o blogger Kok sugeriu-me que lesse um texto seu que entra em diálogo literário com este meu, o que fiz prontamente. É um texto de Abril, e as semelhanças são poderosas. Esta foi a imagem que ele escolheu para ilustrar o que escreveu então. Além de achar apropriado deixá-la aqui, a assinalar os dois textos gémeos, não pude deixar de sorrir por outra coincidência: esta imagem das gotas de chuva a criar ribeirinhos nos vidros das janelas é-me muito grata, muito querida, muito especial. Thanks, KoK)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Vai haver...

... Missa às Segundas.
Estreia o Dr. House, às Segundas, na TVI. Tenho saudades do Gajo, pá. Gosto dele, da atitude, tal como gosto da Christina e da Nazi às Terças. São quem eu finjo (muito mal) ser.
Gosto, pronto. "Almost dying changes nothing. Dying changes everything".

Auto-Ajuda

Domingo, por motivos que não vêm aqui ao caso, emocionei-me por causa de um blogue. O dito não permite comentários, e como tal escrevi uma carta. Isso acalmou-me, a escrita é uma panaceia, um desabafo. O resultado foi de tal forma satisfatório que pensei, porque não, apostar nisto? Todos nós temos as nossas porras, afirmava H. na sua sabedoria ancestral, vezes sem conta. E a verdade é que me farto de escrever, desde pensamentos e versos soltos na Moleskine, a breves desabafos manuscritos em cadernos sortidos, a histórias de ficção em papéis que tenho à mão, aos posts mais ou menos breves, mais ou menos regulares, aqui no blogue. Os diários, por contraste, aborrecem-me. Quando escrevo, gosto que leiam e os diários íntimos e secretos não me seduzem minimamente.
Então, na Segunda-Feira, comecei a dedicar-me às cartas. A dizer de minha justiça o que me vejo obrigada socialmente a calar, a guardar. E na Terça, achei um piadão à Grey: uma das personagens corria o risco de não voltar a falar e desbobinou às amigas tudo aquilo que nunca lhes tinha dito. Coisas muito cruéis, por sinal.
As minhas cartas estão guardadas numa pasta de seu nome "So, this is Goodbye". E contêm missivas das "palavras que nunca te direi". Passando a pieguice do tema, digo-vos que resulta. Chegar a casa e escrever a alguém aquilo que calaste durante o dia, por motivos puramente sociais e convencionais. Insultares quem te irritou, elogiares quem de direito, desenvolveres outros assuntos que não cabem em locais de trabalho, dirigires-te a alguém que não vês há muito mas cuja imagem te surgiu a despropósito numa qualquer altura do dia, falares do que não podes, ou não deves ou não queres, com quem escolheres. É muito mais giro que um diário, muito mais útil, e ajuda a pôr sentimentos e ideias em perspectiva. Hoje até dei asas à imaginação e escrevi uma resposta a uma das cartas, como se pela voz do destinatário me surgisse... vocês sabem como eu adoro feedback.
É libertador. Sempre fui apologista de que não se deve deixar nada por dizer, e, por enquanto, é engraçado ver que as minhas cartas não são, como no episódio da Grey, escritas fruto da urgência de palavras desagradáveis caladas tempos infinitos. Chego, assim, à conclusão, que calo muito mais a minha doçura que as minhas raivas.

Muito Prazer

A Shadow, a propósito dos posts de ontem, mandou-me para o mail uns excertos escritos por um senhor que eu desconhecia, Afonso de Melo. Shadow, obrigada por nos teres apresentado. Fartei-me de chorar, mas as lágrimas são muitas vezes catárcticas.

Deixem-me apresentar-vos um autor que escreve como as mulheres, com o coração por caneta e a saudade por prontuário.

E SE TU SOUBESSES...
Se tu soubesses o que me vai na alma... se soubesses as vezes em que em ti penso a saber que nem sequer de mim te lembras. E se soubesses que tantas das pessoas que por mim passam, passam porque procuro esquecer-te enquanto tenho de esperar e ter paciência porque, para já, os nossos tempos são diferentes.Queria saber o que se pensa quando se joga tudo o que se tem.E deixa-me contar-te como descobri que a vida sem ternura não é grande coisa e como se consegue viver sem chorar e com os olhos cheios de água. Deixa-me explicar-te como se destroem ilusões e como é difícil recomeçar todas as coisas quando nelas não se acredita. E deixa-me contar-te como foi aquele dia em que um vento de Inverno soprou fantasmas nos sonhos de menino e se fez triste o meu sorriso e como cresceu este silêncio imenso que em mim se sente do princípio ao fim.
Foi aí também que descobri que não se pode contar a ninguém o segredo da dor.
Afonso de Melo – Tantas vezes tu
Shadow, já agora, manda-me, se quiseres, e por mail, se achares melhor, a morada do teu blogue antigo, que pela amostra junta, promete. Também adorei os outros excertos, mas são demasiado longos para os publicar aqui.
Um grande beijinho e (mais uma vez) muito obrigada. Por tudo. É possível que seja uma cena de Sagitários, mas acertaste, mais uma vez em poucas horas, na mouche.


Depois da tempestade...

... mais chuva. A protecção civil dá alerta laranja para todo o país. Não me incomoda, gosto de laranja e toda a gente já percebeu que também gosto de chuva, sempre é um pretexto para perguntar ao Pan, de manhã, tenho uma franja ou transformei-me num caniche de casa até aqui?, ao que ele, normalmente, responde com um ganido triste.
Hoje dormi muito. Deitei-me ainda não eram onze e acho que isso não acontecia desde os meus dez anos. Não dormi lá muito bem, mas hoje já me senti mais equilibrada, mais de pés na terra, sentindo o peso da gravidade a atar-me ao chão. Os dias entraram, novamente, numa monotonia confortável.
A Cidade-de-Deus também tem as suas coisas boas. Aquelas que me fazem hesitar, ponderar ficar por aqui. Há coisas que Lisboa não permite, como os amigos a bater-nos à porta para um café de surpresa (mesmo que dêem com o apartamento vazio, a cidade é pequena, não se perde muito em tentar) ou a ligarem-nos para saber se queremos ir lá jantar a casa, já com o jantar feito. A proximidade de tudo é um conforto. A minha mãe costuma dizer que se sente segura comigo aqui, porque se me sentir mal ou tiver uma crise, em dois minutos tenho cá alguém para me valer, e tem razão.
Outra coisa boa aqui é o tempo. Passa devagar. Permite coisas como almoços em boa companhia, porque sim, porque calha. Hoje foi um desses dias. Em Lisboa tens que planear tudo com antecedência, fazer marcações, perder tempo a procurar estacionamento, a esperar para te sentares, a irritares-te com pormenores. Aqui as coisas só dão para o torto quando tens presssa.
À saída da escola, a entrar para o carro, um amigo meu pára o seu carro gémeo do Jade Mobile no meio da estrada e faz-me sinalefas. Vais para casa? Encolho-lhe os ombros. Detesto as sextas à tarde, o primeiro impacto de uma casa vazia mexe-me com os nervos. Espera aí, gesticula ele. Um micro-segundo depois lá estava eu no seu banco do pendura, toda contente, a dizer "Xim... vamos almoxar e dijer mal de todágente, vamox", e a bater palminhas. Em menos de nada estávamos na Praça da República com o suplemento cultural do Público à frente, a falar dos filmes e das peças de teatro e das exposições. Olha, a cinemateca vai passar o Ginger e Fred do Fellini. O G. emprestou-me este DVD, tenho-o lá em casa. (O G. é a minha cinemateca privada, para que conste, e hoje isso ficou provado).
Numa lojinha pequena de sandes e saladas, e tostas com muitos oregãos, que eu fiz o favor de espalhar pela mesa toda, quando me ri demasiado próximo da dita de frango, lá se passou uma hora de almoço em que, afinal, a conversa foi bem mais interessante que a simples troca de cantigas de escárnio e maldizer.
Ontem estava com um humor canino. Hoje, relembrava a esse meu amigo que, da última vez que tínhamos almoçado só os dois, o deprimido era ele. Lembrávamos a causa da sua neura e ele disse, acreditas que não pensava nisso há que séculos? e eu, tendo em conta que almoçámos em finais de Dezembro, como vês, o que parecia o fim do Mundo pouca importância acabou por ter.
E acrescentei, em voz alta, mas a falar mais comigo que com ele (é assim, a verdadeira amizade), e eu tenho muito a aprender com isso.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Quando os comentários...

... ultrapassam os posts.
A minha amiga Shadow fez um comentário genial a um dos posts de hoje.
É por isso que eu adoro este blogue. É por isso que escrever-vos vale a pena. É por isso que desejo, antecipo, espero, rezo pelo feedback. É por isso, e por isto:
"Mas ainda assim, qual sagitário optimista e alheada da realidade... deixa.me fazer só mais uma citação de "The mexican":
Samantha: I have to ask you a question. It's a good one so think about it. If two people love each other, but they just can't seem to get it together, when do you get to that point of enough is enough?
Jerry: Never."
Enfâse no: when do you get to that point of enough is enough? Never."
Shadow, nem sei o que dizer. Se a parte do inicial do teu comentário, que não citei, me fez rir (um riso fruto da concordância e do cansaço, um risinho venenoso e viperino), esta parte trouxe-me as lágrimas aos olhos. Sabes, (não, não sabes...) era mesmo isto que eu precisava de ouvir. Precisava destas palavras, hoje. O meu anjinho da Guarda falou por teu intermédio.
Obrigada. Obrigada a ti e a outros, por me responderem. Farta de falar para o espaço sideral ando eu.

Just Another...

... depressing post from a depressed person.
Stop right here, if you are feeling good, if you're having the time of your life. Enjoy it, grab your smile, close this page, go away.

Um amigo meu disse-me a meio da semana que se sentia "Black". Perguntei-lhe ontem, are you feeling whiter?, e ele, blacker, honey, blacker, this mother-fucker weather...
A mãe de uma amiga minha ontem desatinou com ela ao telefone, porque está farta da chuva. E ela, mas estás a falar-me assim porquê? e a mãe, mas queres que te fale como? já nem sei o que é o sol...
Bullshit. Num dos dias mais felizes da minha vida, chovia a potes, e a chuva ajudava a tornar tudo ainda mais perfeito. Já fui muito feliz à chuva.

Ainda esta semana, tenho memória de estar a chover, de estar encharcada até aos ossos, e de pensar "Ché bella cosa, la vita". Os estados de extâse, é o que vale, duram em mim o tempo do micro-segundo em que me fazem parar de pensar. Logo a seguir, vem o tal verso do Álvaro de Campos, "Merda, sou lúcido!"
E volto ao filme do Wenders, "enfim, a loucura". A lucidez é o pior de todos os males, estou farta de raciocínios lógicos, de prós e contras, e análises e projecções, e equílibrios instáveis entre sentir e desejar, e pensar e ponderar. Estou fartíssima de me controlar a bem de treta nenhuma, a bem do tempo perdido e desperdiçado sem sorrisos ou emoções.

Chuva, qual chuva? O que empata o mundo é a estupidez humana. Personificada na capacidade que o homem tem de pensar e presumir que com isso ganha alguma coisa.

Leituras

Li isto, no post de hoje de Miss K., no blogue "Life is a Masterpiece": "As histórias de amor, para existirem, têm que ser impossíveis".
Era só o que me faltava, para acabar o dia em beleza. Um dia que começou mal e continuou pior, só podia ser fechado com golden key.
Vou ali já venho, procurar uma árvore e enforcar-me no cachecol. Sometimes, my friends, life really SUCKS!

I'll be back

... for part II.
Retirei-me amuada, mas os amuos passam-me depressa.
Se não tenho escrito é por, tão somente, me encontrar no meio de uma realidade virtual, à conta da privação de sono. Tenho dormido pouco, e sou bicho-preguiça. Há várias noites que não durmo em condições. Quando tal acontece, entro em modo-alternativo. Tudo parece acontecer num mundo paralelo a mim mesma. Tenho dificuldade em concentrar-me no real, e dispendo todas as minhas energias na tarefa árdua de, apenas, existir, de forma estritamente funcional.
Não sei o que dizer, a não ser "tirem-me deste filme", "levem-me a passear", "tentem-me com propostas indecentes e irrecusáveis", "mostrem-me um lugar em que não tenha que trabalhar", "apoderem-se de mim", "acordem-me", "façam-me renascer".

Até lá, até já, que eu ando algures na via láctea, na cauda duma estrela (de)cadente.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Actualização de Última-Hora

Pressionada horrivelmente pelos lobbies vigentes mas, ainda assim, pessoalmente envolvida desde que nasceu na defesa da verdade (seja lá isso o que for), a Jade vê-se obrigada, por este meio, a actualizar a notícia bombástica saída neste pasquim de trazer por casa, no post imediatamente anterior.
Confirma-se: um dos gabarolas ascendeu à posição mui nobre e invejada de Inteligente-Mor, ao resolver, em frente aos olhos do júri (moi-même) o dito-cujo cubo-mágico-não-viciado. Resolveu, sim senhor. Mais: fê-lo em pouco tempo e sob o olhar raivoso e envergonhado do outro gabarola, que até à data ainda não o fez, sendo despromovido à condição de Grande-Amélia.
Os factos são estes, e têm poder.
(ainda que seja extremamente irritante que o Sr. Inteligente-Mor ande para aí inchado que nem um pavão armado, perante as lágrimas de derrota da dita Amélia em pranto, tadita...)
(...)
e ainda acrescento que acho decadente que o post anterior tenha sido dos mais comentados deste blogue. Parece que os meus leitores gostam é de parvoeira breve e colorida, não? Então eu hoje, que tinha um post longo e muitíssimo profundo, resolvi que vou ali, já venho... curtir o amuo. Querem um post lindo de ir às lágrimas? Escrevam-no vocês!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Sabes que a vida vale a pena...

... quando vês dois colegas teus, rapazinhos responsáveis e respeitados, com aquilo a que se chama "mais que idade para ter juízo", aos risinhos, aos gritinhos, aos palavrões e às chapadinhas, em competição por... um CUBO GICO.
(que eu trouxe cá para casa, ainda por resolver, que, ceguinhos como estão, bem eram capazes de ir para casa deles desfazê-lo com uma chave de fendas para amanhã chegarem todos contentes a dizer que o tinham resolvido... em 38 segundos!)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Reunião de Departamento

Extensão. Monotonia. Vozes plácidas. Trocas de argumentos mornos. Atenção desmesurada a pormenores ridículos. Um frio, um frio...
Calça as luvas. Volta a descalçá-las para assinar actas em catadupa. abraça o estojo da Hello-Kitty. Acaricia-lhe as formas. Sente-se tão só. Solitária na vida bem como nas opiniões. Tem vontade de falar. De repetir argumentos revolucionários. Ou infantis e despropositados. Ou simplesmente idealistas, e como tal, advindos de uma mentalidade bota-de-elástico. Pensa um instante: será demasiado jovem ou terá nascido já demasiado velha, com uma mentalidade que caíu em desuso?
Não sabe. Não sabe nada.
Entrevê sorrisos irónicos por parte de alguns colegas. Seria com eles, com os sorrisos, cúmplice, se lhe apetecesse sorrir. Mas só lhe apetece chorar. Desvia os olhos dos colegas para um papel que tem à frente, pedido a uma amiga para disfarçar que, de facto, não tem quaisquer apontamentos a tirar. Ou vontade disso, para que conste.
E as vozes continuam, imperceptíveis, naquela música de fundo que se põe quando se quer estudar.
E pensa, que frio, que frio que eu tenho. Muda de posição na cadeira desconfortável, engole as lágrimas. Alguém diz uma piada e ela ri-se, mecanicamente. De que é que se fala agora? Ah, sim, plano de actividades. Cumprido, pois. Tudo em contexto de sala de aula. Que fome, o que será o jantar? O que tem ela para fazer ao serão? Alguém terá comentado os seus posts no blogue? A mãe terá ligado para o telefone esquecido em casa?
Olha para o relógio, pensa, ainda faltará muito? recrimina-se, pareço os alunos, ainda hoje escreveu um recado a um gaiato por este perguntar duas ou três vezes as horas num espaço de dez minutos. Tem pena que a sua coordenadora não lhe peça a caderneta para escrever um recado à mãe: " A sua educanda sonha acordada nas reuniões de departamento e não dá uma para a caixa". Tem saudades de ser aluna e de lhe dizerem como se deve comportar. Queria que a mãe a obrigasse a entregar os objectivos individuais. Para não se sentir uma traidora, se e quando o fizer.
Tem frio, tem mesmo frio. Recua ao que leu hoje, tenta lembrar-se se escreveu alguma coisa de jeito e suspira quando chega à conclusão que não. Quando dá por si, apercebe-se que tem a cara entre as mãos enluvadas, e abraça o próprio rosto. Que figura, a sua necessidade de carinho e conforto, de toque, de ternura, de algum afecto, de um par de mãos, começa a tornar-se insustentável. Embaraçosa. Levanta de imediato o rosto. Alguém a olha, alguém repara? Não. Valha-nos isso, a suprema contradição de precisar de consolo e, ao mesmo tempo, se sentir tão aliviada por ser apenas transparente.
Parece que está a terminar. Levanta-se. Dirige-se a um colega, faz-lhe duas ou três perguntas. Está de pé, ele sentado. Alguém saíu. O tempo passa e quando dá conta, a reunião parece que afinal continua, porque alguém diz "Prestem lá atenção". Deixa-se estar de pé, e assiste ao resto assim. Tudo lhe parece um filme de que é apenas espectadora.
Agora sim, parece que acabou.
Já em casa, telefona a uma amiga. A mesma que lhe deu a folha onde só rabiscou uns apontamentos e desenhou umas flores. A mesma que se sentou ao seu lado. Ficam muito tempo a conversar. Falam seriamente de avaliação. Revelam receios comuns. Tentam coordenar estratégias. Discutem soluções.
A minha reunião de departamento foi feita ao telefone, em casa, com uma colega de outro departamento presente a acenar em concordância. A minha reunião de departamento, a que contou, a que foi importante, nem foi reunião, nem foi de departamento.
Assim andam as escolas. Assim me arrasto eu, com elas.

Ámen

Recebi esta sms brilhante, de destinatário não menos brilhante, acto-contínuo ao final do episódio de hoje da Grey: "Ámen"
Assim se vive a cumplicidade.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Cor de Fundo

Em sintonia com a CarolinadoMónaco, e a pedido de várias e ilustres famílias, mudei a minha cor de fundo de um Pink-Hello-Kitty para um Green-Jade. Porque sim. Porque não posso ver nada. Porque é fácil. Porque nenhuma mudança é definitiva e todas são refrescantes. E porque à Jade qualquer trapinho fica... a matar!

Let it Snow

Há coisas que fazemos contra o nosso feitio. Fazemo-las porque nos ensinaram que era assim que se agia correctamente, porque aprendemos quais as regras a cumprir e tentamos cumpri-las, contra tudo e contra todos, agrade a quem agradar. Mesmo que não nos agrade a nós. Hoje, para cumprir uma regra, acabei por me sentir muito má. Muito parva. Muito adulta. Uma perfeita anormal, por isso mesmo.
Nevou na Cidade de Deus. Pela primeira vez, desde que me lembro, em dia de aulas. No meio do primeiro tempo da manhã. E o que fez D. Jade aos alunos, encantados, excitados, no meio de uma alegria e uma magia própria da idade e da inocência? Mandou-os sentar “imediatamente” e fechar os estores. Digam lá que isto não é absurdo… pois. Ficaram tristíssimos, e eu só não me senti pior porque continuou a nevar, intervalo dentro, e eles lá saíram, todos contentes, para o ar gélido da manhã.
E eu penso: que diabo ganhei eu com isto? Nada. Nem mais respeito, nem mais disciplina, nem mais atenção, nem mais concentração. E, cada vez mais me convenço que há regras que não vale a pena cumprir só porque sim, porque somos ovelhas em rebanho ao sabor da vontade de um pastor.
Esta história é paradigmática. Ontem tive uma conversa com um colega meu pela net, que continuei hoje, na sala de professores. Dizia eu que a falta de auto-estima tem a sua causa numa permeabilidade exagerada às opiniões negativas alheias. Que ninguém nasce a sentir-se mal na sua pele. Que é a opinião alheia que nos molda a opinião própria sobre tudo, através do confronto, da comparação, da análise. Quando somos demasiado perfeccionistas, projectamos em nós mesmos o que os outros consideram fracassos. Olhamo-nos ao espelho social e a imagem que temos é uma assimilação dos diversos feedbacks que os outros nos dão. E se somos exigentes, tendemos a achar que as críticas destrutivas são reais e válidas.
As opiniões alheias. As regras estabelecidas por outros, nas quais não fomos perdidos nem achados. A razão. As razões. Perder a razão. Dizia eu a esse meu amigo, a razão, quando se tem, jamais se perde. Não é por gritarmos, por dizermos palavrões, por sermos incorrectos ou perdermos as estribeiras que perdemos a razão que temos, essa agora. Podemos perder a calma, mas por que havemos de perder a razão?
Por isso, de há uns tempos para cá, decidi ser mais crítica em relação às opiniões alheias. Afastar-me daquele tipo de pessoas que eu sei que me deita abaixo. Erguer uma parede entre a minha sensibilidade e quem dela pretende abusar. A quem me manipula os humores. A quem sabe sempre o que dizer para me deixar feliz ou a sentir-me o ser mais miserável do mundo. Fazer orelhas moucas a comentários desagradáveis ou deliberadamente melífluos. Porque não há nada que mais me deprima e arrase a auto-estima do que me sentir usada, do que me sentir um joguete ou uma marionete nas mãos de seres com intenções duvidosas. Não gosto. Não gosto que se aproximem de mim, me rodeiem e acarinhem, para que a estocada doa mais. Não gosto que me usem para chegar a outras pessoas, para obter informações, para beneficiar da minha ajuda, para abusar da tolerância e disponibilidade que ofereço sempre a quem me trata bem.
Tratar bem e gostar são coisas diferentes. Eu tendo a gostar de quem me trata bem, sem me aperceber que nem toda a gente que me trata bem gosta de mim. E isso acabou. Já vi muito, já ouvi muito, já passei por muito, já chorei demais.
Há que distinguir as regras dos outros das nossas próprias regras, há que distinguir o Eu do Outro. Por isso, da próxima vez que nevar, vou sair porta fora com a minha turma, saltar e dançar no frio do pátio e tentar apanhar os leves flocos com a língua, enquanto me deixo fotografar por um qualquer telemóvel de um aluno em extâse.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Guia Prático da Ciência Moderna

(Parte de um mail que me enviaram e aqui publico, que o verdadeiro professor é aquele que não perde uma hipótese de disseminar o conhecimento...)

Lei das Unidades de Medida: Se estiver escrito 'Tamanho Único' é porque não serve a ninguém, muito menos a ti.

Lei da Gravidade: Se conseguires manter a frieza quando todos à tua volta estão a perder a cabeça, provavelmente é porque não estás a perceber a gravidade da situação.

Lei da Queda Livre: 1. Qualquer esforço para se agarrar um objecto em queda provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente; 2. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor da carpete.

Lei da Relatividade Documentada: Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual de instruções.

Lei da Vida: 1. Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada; 2. Tudo o que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda.

Lei da Atracção de Partículas: Toda a partícula que voa encontra sempre um olho aberto


(Todas as leis estão empiricamente comprovadas por mim própria.)

The Pursuit of Happiness

Num post de ontem, um blogger amigo meu desabafava as culpas de um divórcio.
Como sou solteira, e filha de pais divorciados, este é um assunto de que posso falar apenas de modo indirecto. Do ponto de vista da filha. Ironicamente, do ponto de vista da causa maior da culpa parental.
Não conheço muita gente a sentir-se culpada por um divórcio sem filhos. Quando assim o é, suponho que a separação venha como um alívio ou uma benção, dado que acredito piamente que duas pessoas que um dia se casaram, o fizeram a pensar que seria para toda a vida, jamais adivinhando o inferno que essa decisão poderia trazer, num futuro mais ou menos próximo. E quando o divórcio se dá, enfim, deixa o gostinho amargo de um projecto que foi por água abaixo, deixa a frustração, deixa mágoas, mas não deixa arrependimentos. O arrependimento, aí, vem do momento em que se decidiu casar.
A culpa surge, sempre, quando há filhos. Numa das conversas madrugada dentro que pautaram o fim-de-semana, outro amigo meu dizia que é preciso separar, nas mentalidades, a separação de um casal da separação dos "pais". E que os "pais" jamais se deveriam separar. Isto é, deveriam fazer ver aos filhos que a sua separação enquanto casal não poderia ser encarada como a demissão de um deles enquanto pai. E isto não é fácil, já que as crianças não podem viver em comum com ambos. Terão que habitar apenas com um dos dois. E as pessoas tendem a projectar os problemas que têm com o ex-cônjuge na prole. Entrar em esquemas vingativos, em chantagens baratas, em guerras em que os filhos são usados como soldados por uma das partes contra a outra.
Deveria sentir-se culpado todo o adulto que, num processo de ressabiamento, age como uma criança, prejudicando quem deveria amar e pôr acima de intrigas e questíunculas amorosas, isso sim. Qual é o adulto responsável e íntegro que está livre de se apaixonar por outra pessoa, de amar outra pessoa, de desamar aquela com quem vive? Por que se deve recriminar esse sentimento? O que fazer, quando algo de tão pungente acontece?
Cada um sabe de si, é a minha mais profunda convicção. Na tal dualidade desejo-realidade de que se falava este fim-de-semana à mesa de um bar, eu considero que se deve respeitar com a mesma sensibilidade os que optam por combater o desejo e ficar com o que têm e os que cedem ao desejo de ser mais felizes partindo do ninho. Desde que ambos o façam de forma sólida, estruturada e convicta. Os que ficam ou os que partem, devem fazê-lo de acordo com a sua mais profunda consciência. Não me parece que duas pessoas juntas, apenas porque têm filhos, sejam grande exemplo para essas crianças. Não me parece que estas ganhem grande coisa em viver com duas pessoas que não sabem já o que é o afecto mútuo genuíno. Mas também não me parece bem que duas pessoas que geraram outras se separem à mínima manifestação de conflito, ao menor problema, à mais ínfima contrariedade.
O que eu acho realmente errado, contudo, é viver-se eternamente infeliz, forçando a natureza em espartilhos convencionais. Se eu tivesse filhos queria que eles lutassem pela sua própria felicidade. Esta seria a lição mais importante a transmitir-lhes. Lutar pela sua felicidade de forma digna e honesta. Sem maltratar ninguém, sem atraiçoar ninguém, sem deslealdades ou hipocrisias. Mas tentaria ensiná-los a ser leais, acima de tudo, com eles mesmos. Fazendo questão de dar o exemplo.
A minha mãe sempre o fez comigo. E, se vale de alguma coisa, para os pais divorciados que choram a distância dos filhos neste preciso momento, eu, filha de pais divorciados, digo de minha justiça, por experiência própria: jamais culpei qualquer um dos dois por não viverem juntos. Jamais me senti eu culpada da sua separação. Jamais me senti diminuída. Tenho muito orgulho numa mãe que bateu com a porta a um casamento que não a fazia feliz. Tenho muito orgulho numa mãe que, ainda hoje, procura a felicidade com a mesma força e a mesma garra. Tenho muito orgulho numa mãe que não permitiu que o meu exemplo em casa fosse um casamento para Inglês ver. Que me explicou que duas pessoas só devem ficar juntas quando um sentimento maior o justifica. E que o sentimento de um pai por um filho é intocável, quaisquer que sejam as suas outras opções amorosas.

domingo, 18 de janeiro de 2009

As Asas do Desejo

Quando a loucura chega, enfim, como um bálsamo. Quando, finalmente, perdes a noção da realidade e entras numa bola de sabão, te fechas por fim numa ficção eterna e já nada mais é social, o politicamente correcto morreu como noção e respiras a verdadeira liberdade. Quando a loucura chega, enfim, e os outros escarnecem e comentam, finalmente com razão, olha ao que chegaste, coitadinha, tão funcional que ela era, pobre moça, e tu, que um dia obedeceste a regras e te preocupaste com as mentiras que se diziam a teu respeito e te diminuíam, te angustiaste com as injustiças, choraste com o desamor, agora, que todos comentam a tua triste realidade, não te revoltas mais, não pensas mais nisso, não te incomodas com o que quer que seja, a não ser com a tua mania, o teu sonho, a tua verdade. És Dulcineia, és Cassandra, és Pandora, és simplesmente um moscardo ou uma borboleta, uma árvore ou uma pedra. És uma alternativa à visão comum e ao geralmente aceite como normal.
Quando a loucura chega, enfim, como uma panaceia. Quando não sofres mais, nem te deixas medicar. Quando te entregas a mundos que não existem e não sabes já o que é a solidão. Quando já não sofres, fazes sofrer. Quando tudo na tua vida é a negação absoluta do que deveria ser.
Ontem revi “As Asas do Desejo”, do Wim Wenders, quando cheguei a casa depois de um jantar muito agradável, na companhia de dois amigos. Depois de, com eles, ter escolhido “Notting Hill” para sonhar o mesmo sonho, pela (terá sido quinta, sexta?) vez. Primeiro, a comédia romântica, depois, a filosofia feita imagem. Primeiro, a Julia Roberts “Remember I’m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her”, depois, o anjo. O anjo que ouve o pensamento dos mortais, dos quais um é “enfim, a loucura”.
Abri os meus blogues favoritos e li-os com todo o interesse do Mundo. Alguns trouxeram-me as lágrimas aos olhos, o derradeiro cansaço, as emoções que engulo. I’m coping, remember? E almejei, de forma egoísta, a loucura. Desejei-a no corpo, na alma. A capacidade de me marginalizar do Mundo, de dar o grito do Ipiranga, de deixar de me tocar com as angústias alheias, de as transpor para a minha própria vida. O desejo de deixar de fazer análises e comparações, de olhar a minha vida pelos olhos dos outros. De passar a sentir o que não existe. De deixar de sentir o real, o que existe, a inexistência, o afastamento, a morte. A alegria dos outros. Os amores alheios. Os sucessos que não são meus.
Enfim, a loucura. Foram muitas, as conversas pela noite fora, nestes dois últimos dias. Falou-se de trabalho, falou-se de literatura, falou-se de amor, de casamento, da dualidade desejo-realidade, de filhos, de divórcio, de optimismo e pessimismo, da capacidade de mudar (achas que é possível, a mudança? Achas que é possível, educar o cérebro? – tudo é possível, quando acreditamos ser capazes. Tudo? Isso soa-me a lugar-comum, e eu detesto clichés. Tudo. É uma questão de tempo e de trabalho. Simplesmente ninguém está para isso.)
Contei-lhes o meu encontro com o médico, o meu encontro periódico com a mortalidade. E vieram as propostas, regadas a vodka laranja e tequillas sunrise, e yoga? E psicanálise? E dança? E que tal tudo junto? E chegava, então, o riso. E mudava-se de assunto, que o riso atrai conversas mais solares. E quando me via, enfim, em casa, sempre de madrugada e sem sono, que o sono pertence aos justos, sorria o sorriso de quem não tem nada, mas tem amigos. Ontem, relembrei, por exemplo, a cena do Notting Hill em que se metem todos no carro para ir salvar o amor da vida de Grant. Quem tem amigos tem tudo. A cena é hilariante, sete pessoas metidas num carro minúsculo, sete opiniões diferentes sobre o caminho mais rápido a tomar, e o condutor aos berros “Eu é que estou ao volante, eu é que decido! James Bond never had to put up with this shit!” Lindo. Um deles a sair do carro para mandar parar o trânsito. Outra de cadeira de rodas, a ser transportada ao colo pelo marido, para não perder o melhor da festa. E lembrei-me dos melhores momentos, das maiores loucuras, dos dias em que “a seita” justificava tudo.
E esta noite sonhei com um rapaz que não conheço. Sonhei com o seu olhar. Lembro-me claramente do olhar e daquele sentimento já perdido de tremor nas pernas e sorriso na alma. Lembro-me do seu rosto. E acho que foi o anjo do Wenders que o criou no meu subconsciente, que me enviou aquele rosto para me fazer adiar o desejo de loucura e alienação. Para me provar que, num tempo de desamor morno, sem sobressaltos, e ultimamente já sem decepções ou tristezas, com momentos cada vez mais raros de nostalgia, com uma atitude de profunda aceitação do vazio, para me provar, dizia eu, que o amor está sempre ao virar da esquina.
Surpreendo-me a mim mesma com o estado de apatia a que consegui chegar. Em que nem o contacto ou as notícias de amores antigos me provocam já, sequer, o mais ligeiro pestanejar. Não me lembro de outra altura da vida em que tenha estado tão desapaixonada. Talvez por isso o tal desejo de enlouquecer de vez, para não ser mais confrontada com a minha própria frieza. Mas olhando o copo meio-cheio, educando o cérebro, como dizia o meu douto amigo, talvez seja assim que se parte de forma realmente sã para a novidade. Assim, sem curar a dentada de um cão com o pêlo de outro, como sempre fiz, conscientemente ou por capricho dos acasos.
Talvez seja assim, desprendida de todas as emoções passadas, olhando para ele como um caminho de não-regresso, que possa avançar no tempo sem ter que me entregar à bênção de simplesmente, enlouquecer.
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Drummond de Andrade
)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Hoje (parte 3) O Regresso do Rei

Para concluir, o assunto e a trilogia, que não será transformada em filme mas é, isso sim, causa de milhares de filmes todos os dias, vou então dar a minha opinião sobre o que deveria ser uma avaliação de professores mais justa. Reitero que este texto não é para ser levado muito a sério. Um modelo de avaliação coerente e eficaz é, certamente, dos documentos mais difíceis de construir. Quem o elaborar tem que pesquisar muito, tem que estudar a fundo a realidade do nosso país (isto de se querer espetar um modelo que é eficaz na Finlândia, ou nos EUA, ipsis verbis, no nosso cantinho à beira-mar plantado, é uma cretinice tão evidente que eu pergunto-me que tipo de iluminados pensa que isto é possível), tem que ter acesso à opinião dos soldados rasos sobre o assunto, tem que gerir interesses, tem que respeitar verbas disponíveis, tem que fazer listas de prioridades e objectivos. Este texto não se arroga essa intenção. Mais, lança mesmo essa questão: quem acredita que o modelo de avaliação que nos querem impingir foi fruto de um trabalho sério e demorado, ponha a mão no ar! Não foi. Foi o resultado de uma reunião em que o Sr. Primeiro-Ministro deve ter dito qualquer coisa como: há que apertar o cinto. Arranjem-me um conjunto de medidas em que o país possa poupar muito dinheiro, mas dando a ideia de que somos um governo preocupado com as grandes questões da Educação. Arranjem-me um conjunto de medidas para que a Educação deixe de dar prejuízo económico ao país ao mesmo tempo que se vira toda a opinião pública contra os que fizerem barulho por estar a ser roubados. E façam-me isso para ontem.
E o que digo eu, sem pesquisas, sem estudos, sem inquéritos, sem trabalho científico sério que justifique a minha opinião? Digo o seguinte:

Objectivos Individuais
Há três grandes sectores económicos, o primário (agricultura), o secundário (indústria) e o terciário (serviços). Qualquer coisa anda mal quando se pede a um professor, que ensina pessoas, ou a um médico, que as trata, que defina objectivos individuais, como se produzisse parafusos ou plantasse batatas. Os objectivos requeridos jamais serão individuais. Porque não depende de nós, individualmente, cumpri-los. Todas as profissões têm especificidades. Se se quer avaliar desempenhos, tem que se respeitar as características únicas da classe a avaliar, tem que se identificar os seus traços distintivos. Dizer, “eu vou ter 60% de sucesso em todas as turmas”, não é o mesmo que dizer “eu vou fabricar mais 534 papo-secos”. É que o padeiro não pode fingir que os fez. Nem os papo-secos se recusam a ser fabricados.

Avaliação Entre Pares
Quem avalia tem que saber mais que quem é avaliado. Não me perguntem onde é que isto está escrito, parece-me senso comum. Por isso, quem avalia, é quem ENSINA. Avalia se aquilo que ENSINOU foi assimilado ou não, e com que grau de eficácia. Logo aí, a avaliação entre pares é um paradoxo. O que é que o meu avaliador vai testar? Foi ele que me ensinou o que vai agora avaliar? E se eu não desempenhar bem na sua opinião, que garantias tenho eu que ele sabe mais e melhor acerca dos procedimentos, para me julgar? Que garantias tenho eu que não estou a ser influenciada pela sua ignorância, e que vou mudar os meus procedimentos de acordo com o que ele achou mal, incorrendo no risco de mudar para pior?
Teria que haver confiança, crédito, certeza de que aquela pessoa sabe mais do que tu nos parâmetros que avalia. Os seus conhecimentos teriam que ser reconhecidos formalmente de forma clara. E os ditos conhecimentos não vêm com o estatuto da titularidade, isso é mera nomenclatura, pelos motivos já expostos. A titularidade NÃO FAZ um bom avaliador.
Primeiro, os avaliadores deveriam prestar provas. Fazer exames. Demonstrar conhecimentos científicos e pedagógicos. Os que já têm. Depois, deveriam fazer formação. Um ano é o mínimo indispensável para uma pós-graduação. Que todos deveriam ter. Todos. Científica e Pedagogicamente. Depois, deveriam ser uma classe à parte. Assistir a muitas aulas. Toda a gente sabe que as aulas assistidas são teatrinhos montados para parecer bem. E ainda assim, como não produzimos parafusos, às vezes correm mal. Os alunos são, sempre, a derradeira incógnita. As aulas assistidas deveriam ser um conjunto de aulas combinadas e outras de surpresa. Isso é avaliação de desempenho. Averiguar o professor em acção no seu espaço natural, não duas ou três aulas preparadas para impressionar. As aulas que se dão sem se ter tempo para as preparar, não me venham com hipocrisias, elas existem. As aulas que se dão quando se está com uma gripe descomunal, ou não se dormiu bem, ou temos um filho doente, ou nos morreu o animal de estimação.
Os avaliadores não deveriam ser professores da mesma escola. Não devia ser possível observar aulas de amigos e de ódios de estimação. Que credibilidade tem alguém que olha para uma aula que correu mal a uma pessos de quem se tem uma opinião pessoal formada? Nenhuma. Se é um amigo, é desculpabilizado, se é alguém de quem não se gosta, é a justificação ideal para o entalar de vez. Nós, professores, temos incompatibilidades. Não podemos dar aulas a parentes directos, por exemplo. Então, porque podem os nossos avaliadores avaliar gente com quem vão jantar fora e para os copos, ou pessoas com quem mantiveram relações amorosas, ou com quem já foram casados, ou outros que não suportam porque lhes roubaram o yô-yô quando tinham dez anos, há quarenta ou cinquenta anos atrás? Porque vão avaliar eles pessoas com quem já andaram à pancada, a quem deixaram de falar, de quem dizem mal sempre que podem a quem os queira ouvir,ou por quem têm uma grande paixão, ou de quem são amigos de infância? Não. Não me venham atirar com a ética profissional à cara, todos nós somos gente. De pele e carne, sangue e cor. Não.
Os avaliadores deveriam trabalhar em equipas fora da escola. Conhecer os seus avaliados bem, mas a nível estritamente profissional. Observar os seus avaliados em acção, como se eles fossem ratos de laboratório. Eu acusei os titulares da minha escola de levarem a cabo uma avaliação que está, na teoria, suspensa. Vocês acham que eles se vão esquecer disso, do facto de eu o ter feito publicamente, de os ter deixado sem defesa possível, de lhes ter apontado o dedo, acham que isso não vai pesar quando estiverem a avaliar-me? Em que mundo? E isso significa que tenho medo de ser avaliada? Não. Significa que, à partida, a minha avaliação está comprometida por factores que nada têm a haver com a qualidade do meu desempenho quando se trata de ensinar alunos.
Conclusão (Hallehluia!!!)
Para concluir, digo: sou contra este modelo de avaliação de desempenho.
As escolas não são fábricas e a avaliação é um processo sério e difícil, demasiado complexo para ser levado de ânimo leve e legislado em cima do joelho. Requer estudo, trabalho, preparação e motivação. Requer vocação por parte de quem avalia. A vocação necessária para exercer a justiça da forma mais linear possível.
Ainda assim, este jamais será um processo completamente transparente. É impossível. Mas, por isso mesmo, jogando com tanta variável, acho que é fundamental que se definam estratégias, parâmetros e critérios que dispam o processo da maior quantidade de subjectividade possível. A maior possível E isso não está a ser feito. Por ninguém. E o erro vem de cima. Do topo.
Por isso vou fazer greve. Por isso vou lutar, até ao fim. Até poder. Até ser confrontada, de facto, como acho que vou ser, com a chantagem do “se estás mal, muda-te, muda de vida”. E aí vou quebrar, capitular, e obedecer como os outros. Porque não saberia fazer outra coisa com a mesma paixão com que estou na sala de aula com vinte seres pequeninos e barulhentos a infernizar-me o juízo mas a fazer-me sorrir.

Hoje (parte 2) A Saga Continua

Cheguei agora a casa. Belas horas... mas eu avisei, nos meus objectivos pessoais (deverei eu decalcá-los para a lista de objectivos individuais que me vão obrigar a entregar até 6 de Fevereiro?) de Ano Novo, que ia sair à noite com os amigos mais vezes... e estou a cumprir. (3 pontos na Avaliação, mais 2 e faço linha, mais 10 e faço bingo).
Para quem acabou de chegar, avance para a casa seguinte, sem passar pela partida e receber os dez euros. Este post é continuação do anterior, e acho que amanhã escrevo a conclusão, em jeito de trilogia.
Tinha ficado nas ameaças. São descaradas. Um Governo em maioria absoluta nem se dá ao trabalho de disfarçar intenções absolutistas e fala abertamente em sanções. Os executivos ajoelham. Capitulam. Alguns resistem. Mas poucos. As nossas hierarquias superiores, por nós eleitas, acobardam-se e não nos representam nem nos dão voz. Estou careca de dizer isto à minha chefe, à minha vice, ao contrário de alguns titulares que lhes sorriem pela frente, as avisam do perigo de ter amigos como eu (que as criticam em reuniões sindicais) quando depois, pelas costas, são os primeiros a apoiar denúncias anónimas para a inspecção escolar, sonhando com o dia em que vão conseguir o supremo poder de dirigir uma escola. Bem hajam os pobres de espírito, os tais que chegaram a titulares porque existem, tão somente, nas escolas, a mobilar, há anos demais, ou os outros, piores ainda, ressabiados por não serem titulares e frustrados por não terem o (ridículo) poder de mandar seja em quem for. Uns tristes, todos eles. Curtas ambições, quando a ambição máxima é uma cadeira num gabinete que os livre do contacto com os alunos que desprezam.
E, por isso, digo, de minha justiça: Li en passant o comentário de um anónimo (Qualquer-Coisa Catano) ao texto anterior. Percebi a ideia geral. Não concordo com ela. Mas não a vou rebater. Avisei, logo de início que isto é um texto pouco analítico e nada imparcial. O Sr. Catano fala com a sabedoria que lhe confere a profissão docente, que é a mesma que a minha. Não, não disse que era professor. Mas também não escondeu os tiques, ficou apresentado. E logo ali se vê, no seu comentário, em comparação com o meu, a cisão (cisões) dentro do grupo.
Arrogantes os que põem medos em casas alheias. Quem sou eu para dizer que os meus colegas têm medo de ser avaliados? Quem é o Sr Catano para dizer dos outros o que, com certeza, não afirma sobre si próprio?
Esta questão transformou-se numa comédia de costumes, caíu na mais decadente palhaçada. Sei quem sou e o que valho. A DREA, no ano passado, foi mais vezes avaliar um projecto que estou a desenvolver na escola, que as minhas orientadoras de estágio quando o fiz. Avisavam-me, às vezes, de véspera. Quando começaram a aparecer, eu nem sabia o que iam observar, o que queriam ver, quanto tempo ficariam. E foi sempre pacífico. Nunca pus entraves, nunca tremi das pernas, nunca perdi o sono, nunca pestanejei. Sei para o que me pagam, sei o que devo fazer, sei o que estou a dizer e se me perguntam algo que não sei, meus amigos, ninguém é perfeito, queimem-me em praça pública.
Jamais tive medo de ser avaliada. Venham as avaliações. Se forem más, digam-me onde posso melhorar. Não cometo os mesmos erros muitas vezes. Sou boa aluna, aprendo depressa. E sei que sou boa professora. Não sou excelente, nem sei se sou muito boa, conheço bem melhor. Mas também conheço muito pior.
E a questão que ponho, na avaliação de desempenho, é só uma: se os avaliadores não têm os ditos no sítio, para bater com a porta como deviam, por questões económicas ou de jogos de poder (que as questões de valores são claras e nenhum deles as cumpre), terão os ditos no sítio para atribuir "não satisfaz" aos amigos incompetentes? Terão os executivos, que não levantam a grimpa à ministra, os ditos no sítio para "chumbar" titulares e avaliadores? Não têm. Então eu, que sou contra esta fantochada toda, e NÃO TENHO MEDO DE SER AVALIADA, e até acho que o Bom é justo para alguém como eu, se estivermos a avaliar com isenção, digo aqui, publicamente, que se me derem Bom (que eu mereço) a mim e também derem Bom às nódoas do meu Departamento, vai haver recurso. Repito, vai haver recurso. Porque eu sou boa, e há melhores. Só que eu sei quem são. Os melhores. Os piores, não sei eu quem são, sabe toda a gente. E livrem-se de me meter no mesmo saco com eles.
Quem tem medo da avaliação, afinal?
I'll be back for part three, "The Return of the King"

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Hoje


… apetece-me falar de escola. Já sei que vai ser uma desilusão para a maior parte dos assíduos deste blogue. Para mim, é sempre, quando abro os meus blogues favoritos à procura de novidades, da publicação de uma foto, um poema, um desabafo, uma piada e trás, um texto sério sobre um assunto gasto.
Mas hoje, apetece-me falar sobre escola. Pior, apetece-me falar sobre o modelo de avaliação do desempenho docente. Não lhe vou fazer uma análise. Há textos publicados por gente séria que o faz bem melhor que eu, quer porque conhece a fundo a legislação e suas consequências, quer porque percebe de sociologia e direitos laborais, quer, muito simplesmente, por estar fora do sistema, não ser político ou professor, e ter, por isso, uma isenção que eu nunca terei.
Vou escrever um texto parcial. Preconceituoso. Rotulado. Intolerante. Politicamente incorrecto. Manipulador. Interesseiro. Incómodo. Criticável. E, por isso, absolutamente genuíno. A minha opinião sincera sobre este assunto.
Quando ouvi falar, há muitos anos atrás, em avaliação do desempenho, fiquei literalmente feliz. Por um milésimo de segundo. No milésimo seguinte, pensei… isto vai dar uma bronca de todo o tamanho.
Num Mundo perfeito, ou numa sociedade aceitável, não haveria nada mais justo que premiar a competência através da progressão da carreira. Acontece que nós não estamos em nenhum desses casos.
Quando ouvi falar em avaliação, pensei que seria muito interessante que os colegas que eu admiro fossem premiados. Gente que dá o litro. Gente que pensa muito na melhor forma de ensinar os miúdos. Gente que tenta ser original quase todos os dias. Gente que sabe a sério do que fala. Gente que os alunos temem mas adoram. Gente que dá más notas, se for preciso. Gente que faz participações disciplinares ao mínimo desrespeito. E há muita gente assim. Tanta que não cabe em cotas. Por isso sou contra elas. Pelo menos, na teoria.
Quando ouvi falar em avaliação, pensei que seria muito interessante que os colegas que eu desprezo fossem postos no seu devido lugar. Gente que não faz nenhum. Gente que devia estar em casa, com um atestado por doença mental e é obrigada por um estado hipócrita, a ir para as aulas dizer baboseiras. Pôr alunos a jogar cartas. Fazê-los passar noventa minutos a copiar textos e listas de vocabulário para os manter caladinhos. Falar da sua vida pessoal. Dizer mal dos colegas e dos antecessores que não ensinaram nada. Gente que não tem vocação nem vontade. Gente que nem sequer gosta ou compreende crianças e adolescentes. Gente autoritária que descarrega as suas frustrações na parte mais fraca. E também há dessa gente aos magotes. Para esses, não há cotas. Logo, sou contra as cotas. Pelo menos, na teoria.
Havendo cotas, não deveriam abranger todas as excepções à regra? Porque a senhora ministra defende que as cotas não são uma medida economicista. Nesse caso, são o quê? Dizer que numa escola em que há cinco pessoas excelentes, só duas podem ser assim avaliadas é o quê? A avaliação não se quer um processo justo e isento? Que justiça têm as outras três?
Adiante. A reforma na avaliação foi legislada, e os docentes sublevaram-se. Tardiamente, no meu ponto de vista. Porque antes de se legislar a avaliação, dividiu-se a classe em duas partes. Os titulares e os outros. E, pasme-se. Quem vai avaliar a maioria dos colegas são professores que nunca deram provas da sua própria competência. Chegaram a Titulares por Passagem Administrativa, aquele 10 que depois do 25 de Abril tanta gente obteve. Uns que mereciam 18. Outros que não passsariam nunca do 5. Estão a ver onde quero chegar?
E se há titulares irrepreensíveis, também os há deploráveis. Todos rotulados pela mesma bitola. A maior parte deles, se não todos, avaliadores de pares. Como já disse, no meio da minha atitude desbocada e irresponsável, ouço e vejo muita coisa. E não só na minha escola. Vejo titulares arrependidos de terem concorrido ao lugar porque “agora têm muito trabalho”. Vejo titulares que parecem pavões armados porque, com certeza, nem eles próprios nunca pensaram que com o pouco que sabem e o menos que fizeram toda a vida, algum dia chegariam a ser importantes. Essa importância que agora, que continuam a não saber nadinha, mas a trabalhar um pouquinho mais, toda a gente lhes dá. E vejo titulares profundamente desagradados com o novo estatuto, e muito desconfortáveis por ter que avaliar colegas. Muitos deles com mais habilitações. Outros com maior vocação. Outros, uma completa nódoa. E esses titulares, os humildes, são, sempre, os que mais sabem, os que mais trabalham, os que mais deram e dão à nossa classe.
Os professores manifestaram-se em massa. Fizeram greve em massa. Assinaram moções em massa. O Governo está autista. A avaliação, ao que parece, continua. Sucedem-se ultimatos, chantagens e ameaças. Não me parece bem. Não me parece mesmo nada bem.
(agora vou sair, mas este post chatíssimo ainda não acabou.Cá voltarei)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Grey's Anatomy, III

RTP 2, 4ª temporada. A missa das terças à noite. Imperdível. Ou vês, ou não comungas.
Hoje o verbo inglês que me ocorre, perante o episódio que se me depara é "cope". Significa "lidar com um assunto". Encaixar. Arranjar uma alternativa positiva. Desenrascar. Resolver o assunto e andar para a frente. Cope. É o verbo dos sobreviventes, dos corajosos, dos intervenientes. Burke deixou Christina no altar e pediu a demissão, desapareceu. Perguntam-lhe como está. "Fine". She's coping. Meredith foi acusada de ser responsável pela morte da madrasta, descobriu que a irmã é uma das novas internas. Uma irmã que ela não conhecia. Terminou tudo com Derrick. E como é que ela está? "Fine". She's coping. E a Izzie... perdeu o Denny, apaixonou-se pelo melhor amigo, que entretanto está casado, e não lhe fala, por culpa, por estupidez masculina, por... quê? E como está ela? "Fine", She's coping.
E, não me lixem, eu sei. Eu sei que é uma série, eu sei que não é real, mas caramba, até assusta.
Acaba sempre tudo como não acaba na vida real, eu sei: Afinal o George não fala à Izzie porque a ama a ela, e não à mulher com quem casou. Até aí, pacífico. Mas aparece em casa dela para lho dizer, olhos nos olhos. Pois, é uma série. Afinal o Derrick e a Meredith transformam uma separação numa despedida sem fim. Pacífico, é apenas uma série. Afinal a Christina... a Christina é um caso à parte. É a personificação do suspension of disbelief.
Mas esta gente ensina-me, pelo exemplo ficcional.
Queria ser livre ancorada em ti. Jamais o serei. I'm coping. Gostaria que me mostrasses o mundo real depois de me teres apresentado todo o Universo num breve sonho teu. Mas vives agora em permanente vigília, não sonhas mais. And I'm coping. Queria que me dissesses as deixas que invento para a nossa peça de teatro em milhares de actos, que escrevo de olhos fechados, no escuro, à noite. E não me ofereces mais que o silêncio. And I'm still coping. Queria poder virar a mesa numa reunião sindical, e ter ao lado alguém que partisse os pratos que restassem inteiros, e o que encontrei foi quem levantasse a mesa e arrumasse a sala. And I go on coping. Ambicionaria um mundo em que as minhas verdadeiras amigas, aquelas a que posso dizer tudo, incluindo que estão erradas, sem que daí advenham constrangimentos de parte a parte, morassem no meu prédio. E elas moram longe. And I insist on coping. Queria o cheiro da minha mãe aqui em casa, e o meu médico na mesma cidade, para não apanhar sustos que demoram o tempo de uma viagem infernal a passar. And, even though, I'm coping.
E se me perguntarem, I'm fine.
Simplesmente sei que ninguém aqui me conhece suficientemente bem para responder "You always are. And that's precisely your problem." Como o Derrick sobre a Meredith, personagens fictícias de uma vida tão real.

Correntes da Amizade

Quem se familiariza com a blogosfera, cedo começa a receber aquilo a que, no domínio dos mails, se chama "correntes da amizade", e entre bloggers se dá o nome eufemístico de "desafios". O princípio é o mesmo, excluindo o facto (decadente) das cadeias da amizade mexerem com as superstições das pessoas e mandarem verdadeiras maldições, do género, se não reenviares esta mensagem em três segundos a três mil amigos, tudo na vida te vai correr mal a partir de ontem. E digo que o princípio é o mesmo porque uma pessoa que recebe um desafio se sente, eticamente, obrigada a cumpri-lo, porque esse convite demonstra interesse por parte do blogger amigo na tua resposta, e um escritor que se preze gosta de não decepcionar, de estar à altura.
Tenho visto, no entanto, coisas muito giras propostas. A nova moda são as listas. As listas, por exemplo, de "Eu já..." e de "Eu nunca...". É sempre uma boa desculpa, pelo menos, para um dia de falta de inspiração. Contudo, depois de ler algumas destas listas, suspiro, reduzo-me à minha insignificância, e não me atrevo a publicar a minha. Porque há gente da minha idade, com listas de "Eu já..." completamente imbatíveis, tipo, "Eu já entrevistei as Spice Girls" ou "Eu já virei as costas ao Herman José" ou "Eu já publiquei um livro que vai na oitava edição". E eu sinto-me muito invejosa e pequenina.
A Carolina lembrou-se, no entanto, de uma lista deliciosa. E essa foge ao espírito competitivo existente em cada um de nós. Chama-se, "eu pensava...", e é uma enumeração de ideias que o tempo, a idade, as decepções e as surpresas foram esbatendo. Aqui vai a minha.
Eu pensava que o verdadeiro amor seria sempre correspondido.
Eu pensava que o amor justificava tudo.
Eu pensava que toda a gente queria ser feliz.
Eu pensava que os fins não justificavam os meios.
Eu pensava que os valores e os ideais se sobrepunham a todos os outros interesses do Mundo.
Eu pensava que os professores serviam para ensinar os alunos.
Eu pensava que com 33 anos seria casada e mãe de filhos.
Eu pensava que as mulheres da minha geração não seriam mais machistas que os homens.
Eu pensava que os homens da minha geração se bateriam pela igualdade de oportunidades com as mulheres.
Eu pensava que tinham acabado os casamentos por conveniência no Mundo Ocidental.
Eu pensava que os amigos podiam dizer tudo o que pensam uns aos outros.
Eu pensava que tinha nascido num país democrático.
Eu pensava que o 25 de Abril queria dizer que o nosso povo não aceitava despotismos.
Eu pensava que os políticos representavam os eleitores.
Eu pensava que quem manda sabia mais que quem tem que obedecer.
Eu pensava que a justiça se sobrepunha às embirrâncias e questíunculas pessoais.
Eu pensava que a solidariedade era uma questão de princípio e não de quintais.
Eu pensava que a avaliação de professores estava suspensa na nossa escola.
Eu pensava que quem tem razão vencia discussões.
Eu pensava que bastava ser competente para se subir na carreira.
Eu pensava que não nevava no litoral.
Eu pensava que todos os adolescentes iam sempre gostar de Inglês.
Eu pensava que as boas pessoas eram sempre recompensadas.
Eu pensava que jamais iria fumar.
Eu pensava que iria viver para sempre em Lisboa.
Eu pensava que toda a gente pensava como eu.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Direito ao Contraditório

Em maré de KNUT também a nível da auto-estima, hoje respondo assim a atitudes que não me agradam, a palavras que não mereço, a pessoas que se regojizam em me ver assim-assim e se irritam solenemente quando me sinto bem. É daqui que vêm comentários mesquinhos, águas na fervura da alegria, vozes do anti-climax:





E cada estrunfe que enfie o respectivo barretinho branco.

Secrets

Todos nós temos segredos. Melhor, todos nós somos segredos. Ainda melhor, todos nós não sei, mas falo muito confortavelmente por mim. Há quem diga que sou um poço sem fundo que faz muito eco. Adoro esta frase, o pormenor do eco, que me transforma abruptamente duma pessoa de confiança numa nulidade em questões de subtileza. Não vos digo se corresponde à verdade, será (mais um) segredo.
Mas a verdade é que, acusada de me expor em demasia neste blogue, sorrio abertamente. Acusada de ser uma língua de trapos, quase solto uma gargalhada. Isto porque, no matter what, continuam a escolher-me como confidente privilegiada. Os meus colegas pasmam: “já sabias?”, “como é que sabes isso?”, “mas tu sabes tudo?”. Não. Ouço muito. Vejo muito. Somo dois e dois e não sou das que se surpreendem quando o total é cinco. E tenho telhados de vidro. Há coisas muito minhas que nem às paredes confesso. E, daí, talvez não, talvez, afinal, confesse tudo.
Porque não é que me envergonhe. Não é que tenha esqueletos a apodrecer no armário. É que eu acho que a maior beleza de um ser humano é a capacidade de surpreender. Pela positiva, claro está. Por isso guardo segredos tempos infinitos para os desvendar depois a alguns (que considero) privilegiados. Acho, agora que penso nisso, que não há um segredo meu que ninguém saiba. Todos eles estão partilhados, simplesmente estão partilhados com pessoas diferentes. A um confessei isto, com outra partilhei aquilo, com aquele vi isto, com aqueloutro vivi clandestinamente aquilo, àquela mostrei um outro pormenor guardado, à outra contei uma história já quase esquecida. Ninguém sabe tudo sobre mim, nem eu. Mas reservo-me o direito de ninguém saber mais de mim que eu mesma. E assim, a par dos segredos revelados, vou lançando boatos duvidosos a meu próprio respeito.
É nos segredos partilhados que multiplicamos cumplicidades. Às vezes, esses segredos residem em desabafos que esperamos que as pessoas não repitam em público. Mais uma vez, lá está, não porque sejam mentiras, nem porque sejam humilhantes. Simplesmente, porque não há nada mais belo que a cumplicidade. E matá-la numa mesa de café, à frente de tanta gente, é um pecado maior que simular verdades que não existem. Tenho muitos segredos. Tantos quantos os confidentes cúmplices que vou escolhendo a dedo, e encontrando nos sítios mais inusitados.

Warning

Avisam-se os leitores mais distraídos, avisam-se os leitores mais preguiçosos, avisam-se os leitores mais apressados, e também os mais desligados, avisam-se os mais cépticos, os mais perdidos, os mais ingénuos e inocentes, os mais descrentes das minhas capacidades geniais, que há fotografias e poemas em rodapé neste blogue, depois dos posts. Apre!
(anda um guru das novas tecnologias a oferecer diamantes aos leitores para eles dizerem, ah, não vi...havia mais? Pérolas a porcos, jovens, pérolas a porcos é o que eu vos digo, sem insulto à classe suína...nem aos doutos e distraídos visitantes!)

domingo, 11 de janeiro de 2009

Não Sei

Não sei se foi por ter passado tanto tempo a seleccionar fotografias e a atribuir-lhes títulos mais ou menos criptados para vos oferecer. Não sei se foi por ter vestido a pele do eremita e me ter recolhido à gruta um fim-de-semana inteiro. Não sei se foi por ter mergulhado nas palavras de Auster durante mais tempo do que aquele que dispendi nessa actividade nos últimos meses largos. Não sei se foi por ter feito greve ao trabalho escolar que me estupidifica e me diminui nove em cada dez vezes. Não sei se foi por me ter perdido nas palavras dos meus poetas favoritos, tão sensíveis como sábios. Não sei se foi pelo resultado final, em que olho, com prazer e ternura, para este blogue, que cada vez mais tem a "minha cara" e é a "minha casa". Não sei se foi por este fim-de-semana, no meio de tanta imagem tão cara e significante, e tanta palavra, tão sentida e significativa, me ter lembrado com tanta força do que é ser verdadeiramente feliz. Não sei se é por ter sentido determinada companhia como um espectro amigo aqui ao lado, a olhar por cima do meu ombro e a sorrir com as minhas escolhas. Não sei.
Só sei que estou muito satisfeita comigo própria. E esse é um estado raro. Mas delicioso.

A partir de agora...


...ninguém me pára.

Domino.
Já domino os segredos da importação de imagens. Já sei fazer alguma coisa mais com as novas tecnologias no âmbito do meu cantinho. É, definitivamente, época de KNUT. O livrinho amarelo de reclamações deste serviço público estava cheio de resmunguices de leitores preguiçosos: ai, e tal, os teus textos são muito grandes e não têm bonecos. Pronto, calem-se. Agora já têm ilustrações. Mas explicaram-me, no estágio, que as imagens têm sempre que ser ilustrativas do tema tratado. Por isso, escolhi esta. Porque, como disse ontem, e hoje continua a ser verdade, gosto de raios ténues de luz e esperança por trás das nuvens. Gosto, pronto. E hoje fico por aqui, para o post ser curtinho.
Qualquer dia, quem sabe?, até vos pasmo com a publicação de um... vídeo! Mas hoje já estou demasiado convencida e presunçosa com as minhas novas skills...

sábado, 10 de janeiro de 2009

Gosto

Gosto de dias como o de hoje.
Gosto de amanheceres solarengos depois de semanas a fio chuvosas. Gostos de dias que iniciam novos ciclos, de dias em que, por trás das nuvens, despontam raios ténues, mas multicolores, de esperança e optimismo.
Gosto do sorriso esboçado num rosto ainda húmido de lágrimas. Gosto de dias em que tenho o privilégio de, com um frio polar lá fora, poder ficar em casa sozinha. Sozinha como eu detesto, mas a única condição dos homens verdadeiramente livres.
Gosto de me poder dedicar às minhas grandes paixões. De estar com a televisão a trabalhar baixinho, um murmúrio em pano de fundo, a enganar a falta de companhia, enquanto leio palavras hipnóticas de Auster, enquanto pesquiso novos poetas na Net, enquanto me mimo com um Cappucino quentinho, enquanto descubro novas palavras para vos oferecer aqui, noutra das minhas muitas moradas.
Gosto de dias em que, perdida nos meus pensamentos, descubro com surpresa que nem todos são sombrios. Que há recordações que me fazem sorrir, sonhos que me fazem lutar, desejos que ainda me fazem tremer.
Gosto de estar assim, como tenho estado hoje, completamente perdida sem bússola no seio de mim própria, habitando o canto invisível do quarto fechado, olhando para mim como se estivesse de fora, ao longe, quando de facto estou a observar-me de dentro, e a distância não existe.
E consola-me ver que, olhada de dentro, não estou afinal só. O meu quarto fechado e isolado é, também, um quarto apinhado, e os rostos dos que lá descansam e tomam um chá quente comigo, nesta vaga de frio que nos assola, esses rostos são belos. Tão belos que cada um deles enche o quarto inteiro. E esse consolo, o verdadeiro consolo, é tudo o que é preciso para pôr um pé à frente do outro com firmeza, ao longo da caminhada.
Gosto das dualidades. Gosto do hoje, em que as palavras se sucederam aos silêncios, a companhia à solidão, a leitura à inércia, a música ao dissonante e o sentido ao caos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A Escola perdeu Glamour

É a segunda vez que isto acontece este ano. Mais uma do núcleo duro é destacada. O motivo é bom e feliz, as consequências, nem tanto. Claro que estamos todos a torcer por ela. Claro que estamos todos contentes por saber que vai finalmente para uma escola perto de casa, que vai para junto dos seus, que vai poder normalizar a sua vidinha, que vai deixar de ser nómada, sempre cá e lá, sempre de trouxa às costas.
Mas a escola perde, pela segunda vez este ano, glamour. Desta vez, ainda mais, já que perde a sua professora mais bonita, um incontestável número um no ranking de beleza das mulheres lá do sítio. Por causa dela, a nossa escola sempre foi conhecida por ter "professoras muito giras". Mesmo nas outras escolas, invejosas.
Os nossos alunos estão inconsoláveis. Primeiro a PêloRusso, agora a nossa Miss. Proponho, já que os nossos meninos (os nossos meninos são os professores do sexo masculino), estão a pensar passar ao papel o ranking feminino de mulheres lá do sítio, proponho que o número um fique em branco. Ou continue lá o nome dela. É verdade, eu não me importo de não subir um lugar. (No meu caso, mais lugar menos lugar é indiferente). Só para perpetuar a presença e consolidar ad aeternum o mito. Porque ela merece.
A MissCovilhã fazia parte de um núcleo duro de Gajas com G maiúsculo, de Gloriosas, do qual eu me orgulho de fazer parte, e que está cada vez mais reduzido. Entrámos cinco, ficaram quatro, depois entraram mais duas, e perdemos outras duas. As três ausências notam-se. São recordadas diariamente. Há poucos dias que passem em que não falemos na meia-leca que me ia matando quando atirou com o carro contra um muro à entrada do Algarve, ou na outra cara linda com um olho de cada cor, muito dada ao país irmão e que corava até à raiz dos cabelos. Poucos dias nos restam naquela escola, mas estou certa que não deve haver um que passe sem se falar na MissCovilhã, com as suas peculiaridades, os seus sapatinhos bicudos, o seu sentido de humor escarninho e relativa boa disposição permanente. Mais uma que nos deixa a todos um bocadinho mais vazios.
Vai-se embora com uma pochette nova e um postal cheio de palavras carinhosas. Vai-se embora e deixa os nossos meninos a suspirar de saudades. Vai-se embora e deixa muitos alunos em pranto, e uma turma sem Directora. Vai-se embora e deixa um grupo de cinco mocinhas que gostam de comer crepes e tostas mistas ao fim da tarde em esplanadas, reduzido a quatro. Vai-se embora e, pela terceira vez em três anos, e a segunda este ano, para um grupo restrito que fica, nunca nada vai voltar a ser igual. O riso, agora, já vai acontecer fruto de memórias cristalizadas. Parece que a estou a ouvir, de olhos muito abertos, a dizer de um colega, de forma muito espontânea e um tom de voz que nós as (outras) quatro já imitamos na perfeição "Ai, que ordinarão!!!"
A MissCovilhã vai-se embora ter uma filha. Mas deixa deste lado muita gente orfã da sua presença.
Repito uma parte do que lhe escrevi no postal: Muitas felicidades, e muito saldo no telemóvel.
E um permanente Até já.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Princesas da Disney

Ele há dias... como o de hoje. Correm mal com os alunos. A malta chateia-se a sério com eles e ainda sai da sala a sentir-se culpada. A culpa é um sentimento venenoso. Especialmente quando, no fundo, sabemos que não há motivo para tal. Ou se há, é perfeitamente compreensível. Mas eu sou uma pessoa que tem tendência para se sentir culpada do facto de ter nascido. Sinto-me culpada apenas por dois motivos: 1- Por tudo; 2- Por nada.
E irrita-me esta culpa, porque estou sempre a desculpabilizar os outros. Pelo menos aqueles de quem gosto. Isto só pode significar que gosto mais dos outros que de mim, certo? Enfim, adiante.
Saí de duas aulas chateadíssima com os gaiatos. Depois pensei, será que eles têm razão, que não foram piores que o costume, que estou apenas mal-disposta e com falta de pachorra e descarreguei neles? Depois atrofiei, perdi o sorriso, senti-me falhar.
E apeteceu-me vir para casa, e não falar com ninguém. Vir para casa chatear-me ainda mais, basicamente, com umas leituras que queria fazer e sabia que me iam aborrecer sobremaneira. Acontece que ontem tinha desmarcado um jantar em casa da S., por estar exausta à hora que tinha que lá ir ter, e não tive coragem de voltar a desmarcar o dito compromisso. E lá me arrastei. E foi o melhor que fiz. Claro que a minha sobrinha estava imparável, como de costume. Como lhe ofereci de presente um perfume das Princesas Disney (e, pormenor importante, não dei nada ao irmão mais novo), ganhei a honra de jantar com a coroa que lhe fizeram na creche pelo dia de reis, uma cartolina cheia de lantejolas coladas (o que eu gosto de lantejolas não vem nos livros), enfiada na tola. E depois do jantar ainda permiti que ela me pintasse as unhas de uma mão com um verniz de criança cheio de purpurina, me pintasse os lábios com um gloss que sabia a fairy (já provaste fairy, foi? grasnava a S. a gozar o pratinho, sabendo que com crianças presentes não digo palavrões) e sei lá mais o quê que a pirralha inventou para me transformar em Barbie, ao som do CD das Just Girls. Ah, pois, já sei, encheu-me de perfume das Princesas Disney (não experimentaste na loja, pois não?) e da Pucca (experimenta lá este, dá cá o teu pescoço...)
E enquanto o surreal acontecia, eu pensava, se os meus colegas de escola me vissem agora, não iam acreditar. Nem eu sei bem se acredito no que me está a acontecer...
Cheguei a casa feita num espantalho, mas livre de culpas. Não, não sou má pessoa. Até sou super querida. Um doce, mesmo. Mas só na presença da minha princesinha de quatro anos. A culpa é uma coisa estúpida, quando não tem razão de ser. Foi uma menina pequenina que me ensinou isto hoje.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ano Novo,... Mudanças, népias.

A Gaja, a dada altura de um comentário que escreveu a um post meu aqui do blogue, dizia, “Se estou a ler um livro, quero ver televisão, se estou a ver um filme já não é bem o filme e eu ia mas era dormir, se estou a comer já me aborrece e eu ia mas era beber café, se estou a beber café, já não é bem o café e eu ia mas era fumar, se estou a fumar, ai que eu vou deixar de fumar de uma vez por todas....e por aí fora...”. Gosto muito da maneira como esta moça trata os assuntos. Para já, tem uma qualidade que me deixa completamente desarmada, que é o sentido de humor. Pessoa que me arranque um sorriso é-me simpática; pessoa que me faça rir é-me completamente empática. O riso é o pai das afinidades supremas. Qual primeira comunhão, qual segunda, comunhão a sério, divinamente humana, é um par de loucos a rir-se da mesma coisa. E se mais ninguém se rir, então, é meio caminho andado para uma cumplicidade sem limites. E a Gaja faz-me rir. Faz-me rir até quando está piursa, temos isso em comum porque, dizem os meus amigos, não há nada mais hilariante que eu furiosa.
Concordo, Gaja, somos as eternas insatisfeitas. Adoro ler, ver televisão, vegetar em frente a um filme, comer, tomar café e fumar, parece é que adoro mais cada uma dessas coisas quando penso, olha agora apetecia-me… do que quando estou, de facto, a fazê-las.
Hoje foi mais um dia a cem à hora. OK, esta imagem está desactualizada, isso era quando eu era miúda, agora é a duzentos à hora. Dormi três horas, o que antecipava um primeiro dia de aulas, no mínimo, aterrador. Mas não. Apesar disso, andei todo o santo dia ligada à ficha, insuportável, com uma energia irritante, sempre a falar pelos cotovelos e em voz alta, a dizer parvoíces e a correr de um lado para o outro, a conversar e a rir-me com os alunos e com os colegas, enfim, chata que só visto. A meio da tarde dizia a uns amigos, vocês mandem-me calar, cacete, que já nem eu me suporto… se isto hoje está assim, amanhã promete… vou estar com uma cachola que é melhor nem me darem os bons-dias.
Claro. A minha preocupação HOJE, no auge da boa-disposição, era a tola com que vou estar AMANHÃ. Há coisas que nunca mudam…

sábado, 3 de janeiro de 2009

E querer muito é poder

Hoje o dia passou devagar, comigo sempre um passo à frente, como de costume. Arrastou-se atrás de mim. Deitada, pensava que tinha que me levantar. Em Lisboa, pensava que tinha que me fazer à estrada. Na estrada, só me queria ver em casa. Agora, que aqui estou, só penso que não tarda tenho que me ir vestir para ir ao espectáculo de Gospel que quero, há tanto tempo, ver, e já dava por perdido.
A maioria dos meus dias é assim. Mentalmente, vivo num tempo paralelo ao que passa. Um pouco mais à frente ou muito, muito atrás, perdida noutras dimensões. E sei que isso não é bom ou saudável, mas não consigo evitar.
Por isso, hoje, para me sentir normal e fazer o que as pessoas normais fazem, deixo aqui algumas resoluções de Ano Novo. Seja lá isso o que for, o Ano Novo. Aliás não são resoluções, são objectivos.
Quero fumar menos;
Quero sair mais de casa com os meus amigos (e vou começar já hoje);
Quero ler mais livros;
Quero trabalhar menos para a escola e mais para os alunos;
Quero escrever a minha dissertação de mestrado, mesmo que vá fora de prazo e já não a defenda em tempo útil;
Quero entrar para o ginásio;
Quero ir mais vezes a Lisboa;
Quero apaixonar-me, embora já não me lembre como é que isso se faz;
Quero ir à discoteca dançar, nem que sejam só duas ou três vezes o ano inteiro;
Quero voltar a ter noites de copos;
Quero voltar a ter noites de Póker de Dados;
Quero ir jantar fora mais vezes por motivo nenhum;
Quero ir mais vezes ao cinema (esta é fácil…);
Quero viver mais tempo no presente;
Quero continuar a escrever muito;
Quero ser muito mais positiva, mas acho que tudo o resto que quero vai ajudar a isso.
Quero acabar o ano a sentir-me viva. E já agora útil. E também bonita. E, se não for pedir muito, semi-realizada. Pronto.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Assim, em números...

... quanto tempo é muito tempo? Quanto tempo é tempo demais? Quão cedo é precipitar-se? Quão tarde é perder a oportunidade de ouro? Quanto tempo é o tempo certo?
O primeiro dia do ano chegou e foi-se, sem milagres ou epifanias. Sem novidades no Mundo interior. Sem escapadelas psicológicas para ilhas paradisíacas ou picos nevados. O primeiro dia do ano chegou e foi-se, como um qualquer dia vulgar de Março ou Abril. E deixou um travozito amargo, porque parece que, aos trinta e três anos, já nem sequer decepcionante é, a falta de luz e cor, a aceitação do assim-assim.
Ouvi vagamente que o euro já cá anda há nove anos. Sei exactamente onde estava, aquando da mudança, e fiquei assombrada: céus, passaram-se nove... não é possível, nove anos? E, à parte a surpresa de identificar um período de tempo tão vasto que parece ter passado tão rapidamente, nada. Mais emoção nenhuma. Nem sequer saudade dos anos felizes que se foram misturados nestes nove. Nada.
Este último ano que passou, então, ficará dissolvido na maré do tempo. Não serviu de muito, não teve grande utilidade. Nem serviu, sequer, para esquecer, o que já teria sido, por si só, uma benção. E, se não serviu para esquecer, ultrapassar, andar em frente, fazer por mim... um ano inteiro... quanto tempo é, então, preciso, para dizer adeus? Quanto tempo é suficiente para fazer o luto como deve ser? Quanto tempo é demasiado, transformando numa obsessão o que deveria ser um processo natural?
Quanto tempo é muito tempo? Quanto tempo é, enfim, preciso, para eu poder dizer com vontade "Ano Novo"? Assim, em números, digam lá... sabem responder-me?