Acho imensa piada àquelas pessoas que me criticam porque eu sou independente e porque pedir ajuda é o meu último recurso, para depois NUNCA estarem disponíveis quando se precisa delas. Normalmente, são as mesmas que se disponibilizam logo para ajudar, quando já alguém o fez, ou sabem que não são necessárias. À mera sugestão de que talvez se precise delas, surgem logo os contratempos, as dificuldades, o "deixa ver como está a minha agenda". Acho mesmo imensa piada.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
sábado, 21 de abril de 2012
Rendida
Na última sessão, o meu DOC perguntou-me se eu também "era daquelas" que escreviam listas de qualidades que um homem precisa de ter para estar ao seu lado. Instintivamente respondi que não, e um nanosegundo depois, disse-lhe que sim, que claro que sim. Não me ocorreu, na altura, no entanto, dizer-lhe que a cantiga do bandido que me levaria a tratar um homem como se fosse um Deus já existe. Parece escrita de propósito para mim (não conheço ninguém que queira tanto conhecer a "América" como eu, por exemplo), e seríamos felizes para sempre. (Right, Doc?... até parece que o estou a ver a abanar a cabeça e a rir-se, pensando na trabalheira que ainda tem pela frente antes que me passem todos os resquícios de doideira).
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Dois Dias
E lá se passaram dois dias em Lisboa com trinta e seis alunos, metade dos quais portugueses, e a outra metade espanhóis.
Só posso dizer que, entre um programa que foi cumprido à risca, - e se ele era ambicioso!- muitos quilómetros percorridos de autocarro e a pé, cafés que lhes perdi a conta, poucas horas de sono e muito - céus, tanto! - chinfrim... continuo adepta de visitas de estudo.
Adoro estar em ambiente informal com os alunos, divirto-me sempre que nem uma macaquinha, apesar da estafa, do stress, das correrias e das preocupações. Não me lembro da última vez em que me ri tanto num tão curto espaço de tempo. No meio dos pastéis de Belém, dos muffins de chocolate branco e morango do Starbucks, dos cupcakes da Merry Cupcake e dos bifes da Portugália, da exposição Berardo - não, não é Bernardo, troll! - com peças originais do Dali e do Picasso, dum fabuloso ensaio da orquestra filarmónica no divino S. Carlos, duma visita à RTP com a Ana Galvão a fazer programa na Antena 3, e com direito a ver nas ruas de Lisboa o Chefe de Estado Polaco e a sua comitiva, atores dos Morangos com Açúcar, o Pedro Granger e o Zé Carlos Pereira... há uma cambada de alunos das berças muito mais cosmopolitas, muito mais abertos e tolerantes a raças e credos, e a falar muy bien espanhol.
"Eeeech, ó professora, a sua mãe mora ali? Foi naquele colégio que estudou? Eeeech, ó professora... e agora dá-nos aulas a nós?"
Very impressive, indeed. Embora eles devam achar isso o cúmulo da decadência, e olhem para mim como se eu fosse um bicho raro, por trocar um sítio por outro.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Vinte e Quatro
Se ontem o meu dia tivesse sido uma temporada do vinte e quatro misturada com a Ally McBeal, o vocabulário seria inapropriado para pessoas sensíveis e toda a gente teria pena da triste protagonista. Foi daqueles dias para esquecer, cheio de imprevistos desagradáveis e trabalho inesperado. Daqueles dias de chatices pequeninas a fazer efeito de bola de neve. Daqueles dias em que apetece mesmo deitar tudo para o espaço.
Hoje foi o contrário, tudo fluiu facilmente. É bom ter uma bolha de oxigénio, já que amanhã vai ser uma correria doida, e quinta e sexta vou com os meus meninos da direção de turma, mais outros tantos espanhóis, para Lisboa, no âmbito de um intercâmbio cultural. Haja energia e paciência. E haja, sobretudo, juízo, que é coisa que eu não tenho, para estar metida em tudo o que é treta na escola.
Na minha antiga escola, a Diretora gostava que eu regressasse. Eu acho que só se muda para melhor, e disse-lhe que a única coisa que ela tem para me aliciar é um horário que não meta noite. Ela diz para eu pensar nisso, que há lugar para mim. E eu tenho pensado. Em dias como o de ontem, iria a concurso sem pensar duas vezes: fizeram-me falta amigos, sobretudo gajas para destilar má-língua. Nesta escola, uma das grandes vantagens foi ontem um enorme problema: não há conversa venenosa em que não esteja presente alguém sensato a meter água na fervura. Ontem, eu queria SANGUE. Queria dizer mata e ter mais três ou quatro muchachas a dizer esfola. Senti muita falta do grupinho de Divas: da Pêlo Russo, da T., Da Mzinha, da Li e da Miss Covilhã. Dos bolos de chocolate que me traziam a casa quando eu estava triste e das tostas de frango que comíamos na esplanada ao entardecer, a dizer mal, sem maldade, de tudo o que mexia.
Hoje, já foi diferente. Há dias bons em que sinto que tenho a camisola da minha escola vestida, e que ela me parece feita à minha medida numa lã angorá muito confortável. Nestes dias, sinto que estou no sítio certo, que os meus alunos são impecáveis, que os meus colegas são família e que é sempre melhor um sítio em que conhecemos toda a gente e sabemos o que podemos esperar de cada um, do que outro em que só falamos com meia-dúzia de pessoas e em que as restantes se dão ao luxo de falar de ti e da tua vida privada como se vivessem na tua casa e soubessem tudo a teu respeito.
Prefiro um sítio em que não me inventem namorados a cada quinze dias, e em que os fatores que me fazem não me apetecer levantar de manhã sejam profissionais e não emocionais. Prefiro um sítio em que o stress advenha de listas de a-fazer, e não de conflitos com este ou aquele.
Por outro lado, esta escola, a minha, deixa-me pouco tempo para viver, para ver pessoas, e pouco espaço mental para que isso me apeteça. Resta saber se, quando vierem os concursos, vou preferir ter uma vida ou ter paz de espírito. A opção não é fácil.
domingo, 8 de abril de 2012
Manifestações do Divino
Não sou religiosa, nem sequer dada a grandes espiritualidades: já passei por ambas as fases e ultrapassei-as, em seu tempo. É bastante difícil, mesmo para quem segue o blogue, fazer uma pequena ideia do que é lidar comigo, se não me conhecer pessoalmente: como toda a gente, sou cheia de idiossincrasias, e como muito pouca gente que eu conheça, de contradições. Uma das mais óbvias, é falar como um carroceiro tendo a educação de uma princesa arrogante.
Digo palavrões cabeludos, do piorio. Mas tenho aversão a pessoas que dão calinadas e pontapés na gramática, ou que não têm maneiras à mesa, ou que são indelicadas com velhotes ou não dão o seu lugar a grávidas, mesmo que não estejam sentadas em bancos especiais, ou à espera em filas próprias nos supermercados. Sou assim, muito incoerente, e já estou habituada a que me julguem por isso.
Isto para chegar onde? Hoje fui jantar com um amigo meu, crente e religioso, porque ele fez anos esta semana e queria pagar-lhe um jantar. Acabámos pr ir beber um copo com um casal amigo nosso, e um dos temas de conversa foi o jejum e abstinência quaresmal. Ora eu, que sou completamente contra fantochadas, disse logo que havia de ser bonito um Deus andar preocupado com o que as pessoas comem a determinados dias da semana, mas não quis ser demasiado indelicada, dado que já há muito deixei de tentar entender a cegueira a que levam política, clubes e religião. Não vale a pena discutir certos assuntos, muito menos quando são levados com uma seriedade que nos faz espécie.
Engraçado ter sido logo a mim que as coisas aconteceram, nem uma hora depois. Saímos do bar e pedi ao meu amigo que parasse numa bomba para ir comprar tabaco. A mais próxima estava fechada, e fomos àquela a que, antes de mudar de casa, eu ia muitas vezes, e já conheço o empregado, em senhor de idade que sofre de gota e é simpático até certo ponto, só até certo ponto, com caras conhecidas, como a minha. Ora chegamos à tal bomba e o meu amigo oferece-se para sair ele do carro e ir buscar-me o maço, ao que eu digo que não, que vou eu. Ele insiste, talvez por causa das horas, talvez por eu estar com um vestidinho curto; mas eu tenho os meus brios, e saio do carro. Ao pé do guichet, um senhor dos seus cinquenta anos, com peso a mais, óculos, e bem bebido. Digo um sonoro boa noite com um sorriso (como, aliás, sempre faço nas lojas: lá está, um fenómeno ilustrativo da tal boa educação que me corre no sangue azul), e peço o tabaco. O outro homem começa, de imediato, com um relambório do arco-da-velha: que eu era muito alegre, que "contaminava" toda a gente com a minha simpatia, que era bem "apalavrada", que como as coisas estavam, a pagar "oitocentos paus" por um maço de tabaco, era preciso pessoas como eu para alegrar as outras, enfim, um sem fim de elogios a que eu ia agradecendo como podia. Despedi-me e entrei no carro em que o meu amigo esperava, em pulgas para saber que raio o outro me tinha dito.
Não foi preciso contar-lhe: em menos de um nada, o homem estava da parte de fora da minha janela. Baixei o vidro e, sem mais nem o quê, ele começou com um discurso de que "estava bêbedo" mas não era "nenhum parvo" e que tinha que dizer ao meu amigo "não sei se o senhor é marido ou amante" (eu fiquei logo perdida de riso) "mas esta senhora, o boa noite desta senhora, é muito especial. Eu nasci no dia de Nossa Senhora de Fátima e sou abençoado por ela, que todo o meu corpo tem placas de metal mas ainda não morri." Antes que eu pudesse abrir o bico, o homem não é de modas: faz-me o sinal da cruz na testa enquanto diz umas palavras que metiam a Virgem ao barulho, e diz que, se eu for a Fátima e comprar uma imagem, serei abençoada para o resto da vida. E que se o vir, de hoje em diante, para fingir que não o conheço.
E eu só pensava, pronto, bonito serviço, vou ser agora gozada até ser velhinha, com este emplastro aqui ao lado a gozar o pratinho.
Pior: o meu amigo ficou impressionado com aquilo, diz que eu tive uma "manifestação do divino". Claro que, comigo, a manifestação do divino tinha que vir de um anjo pinguço. E agora tenho um caramelo a chatear-me que tenho que ir a Fátima comprar uma imagem.
Tendo em conta que amanhã vou almoçar a casa de uns amigos, e que toda a minha família na Páscoa está em parte incerta, pouco se lixando se eu estou viva ou morta no Domingo da Ressurreição, era mesmo só o que me faltava agora, baixar em mim o milagre da Virgem. Isto só a mim, na Cidade de Deus.
Subscrever:
Mensagens (Atom)