domingo, 31 de agosto de 2008

E pronto!

Acabou-se. São seis da tarde e já tanto fazia que fossem oito da manhã de amanhã e tivesse eu que me fazer à estrada, as férias acabaram, não há remédio. Já tudo me sabe mal, os jogos de computador, as séries de televisão, os cafézinhos no bairro, as visitas preguiçosas ao supermercado, já tudo tem um travozinho amargo de despedida.

Estou sentada na mesa da cozinha, e só de olhar para o lado e ver a tralha que tenho que arrumar para levar, dá-me um aperto no coração. A picadora, os chás que trouxe da Croácia, um pacote das minhas batatas fritas favoritas, sim, Li, são dessas, e mais trezentas coisas que a minha mãe decidiu à última hora que não queria ou não precisava de ter cá em casa, que isto a casa da filha é o depósito nacional de guloseimas e objectos que a mãe rejeita ou resolve, em acessos de generosidade pura e desinteressada, oferecer: olha, este amaciador é fa-bu-lo-so, leva-o lá que deve resultar mesmo bem no teu cabelo; e este molho para massas? Comprei-o a pensar em ti...; divide lá os pacotes de Cappucino, e leva uma embalagem de Nestum. Ah, e não te esqueças do secador de cabelo novo, e de deitares o teu para o lixo mal lá chegues, era só o que me faltava, uma filha de permanente por causa de um secador em curto-circuito! Em curto-circuito tenho eu os neurónios, desde que acordei hoje, Domingo, que eu já detesto por si só, último dia de férias, apre, que pesadelo... ainda ontem fui para a Croácia...

Tenho tantas saudades da minha mãe e da minha gata... sempre que se aproxima a altura de me ir embora, elas ainda estão aqui à mão de semear e dá-me umas saudades infinitas.
(...)
Entretanto já são oito da noite. Fui interrompida pelo telefonema -longo- da minha linda Mary, a inteirar-se das últimas, e a dar as suas boas novidades. Como de costume, conversas são como as cerejas e lá lhe fui dando pormenores infindáveis do ano que passou, das pessoas que conhecemos em comum, dos nossos alunos, que sentem tanto a falta dela, das contrariedades, das particularidades da cidade. Ficou super feliz por saber que, se a sorte ajudar, é possível que me mude para o Algarve. Diz que não guarda boas recordações da Cidade de Deus, embora lá tenha feito amigos, e que no Algarve é que está o futuro. Falar com ela relativizou a minha neura. Para já porque nem a pior das neuras lhe resiste e, claro, chorei a rir ao telefone, com as descrições das férias dela em Amesterdão no ano passado. Depois porque, verdade seja dita, entre votos de boa sorte e bom início de ano lectivo, ela disse, passa num instante, chegas lá, fazes o teu trabalho e vens-te embora para casa onde te espera toda a calma do Mundo. E tem razão. Embora não pareça, tudo é relativo. E nos finalmentes, até os maus momentos foram apenas isso, maus, mas momentos. Coisas pequenas e efémeras que acabam por se dissolver na espuma dos dias.

Depois dos 30

Hoje estive à conversa com Vzinha. Soube bem, soube a bons velhos tempos. Não te incomodas que comente aqui o nosso encontro, não, minha amiga? É que não te disse explicitamente que iria falar sobre isso no blogue, não escrevo aqui de forma premeditada, tipo, olha espera lá aí um bocadinho, não fales agora, hold that thought que eu quero anotar tudo para depois espetar tim-tim por tim-tim no blogue logo à noite ou amanhã de manhã. Não é assim que funciona. Há, de facto, ideias de conversas que me ficam a bailar na alma e que, depois de muita valsa, lá fazem uma vénia e olham à volta, a chamar outro par. Por isso, e visto ter mencionado o teu nick, espero que não vejas a tua parvicidade invadida, mas eu também só escrevo sobre o que para mim é importante, vai daí… adiante.
Disseste, a certa altura de uma conversa que apesar de longa me soube a pouco, “aos 30, já não há paciência”, referindo-te a determinadas atitudes. Eu concordei, e até ilustrei com um exemplo da minha vida íntima, tão nosso conhecido. E acrescentei, se tivesse vinte anos, a coisa se calhar tinha passado, mas já tinha 30, pá… não deu.
E pus-me a pensar: o que muda aos 30? O que mudou comigo mudará com toda a gente? Com todas as mulheres, pelo menos? Julgo que não. Uma mulher que é mãe aos vinte anos tem, necessariamente, que pensar de forma diferente da minha, que sou solteira aos trinta. Mas apesar das vivências, terá esta idade alguma coisa em comum, que não olhe a vivências e, quem sabe, a sexos?
Aos 30 aprendi a privilegiar a qualidade em detrimento da quantidade. Apliquei isto a tudo na minha vida, desde os filmes que vejo e os livros que leio, às pessoas com quem me relaciono. Cá está, é a tal perda de paciência para o medíocre. Não se lêem mais de duas páginas, não se vêem mais que quinze vinte minutos, não se aturam atitudes parvas ad aeternum. Se a exigência se apura, o mesmo acontece com a tolerância. Tolerância é antónimo de ignorância, e aos 30 somos mais cultos, palavra manhosa, vá, menos ignorantes. Enquanto os níveis de pachorra diminuem, a compreensão do Mundo aumenta, aumenta a paleta de cinzentos entre o preto e o branco. Não quer dizer que nos tornemos cinzentões, que eu acho que é um adjectivo muito injusto para classificar gente monótona. O que perdemos é o grande radicalismo, os grandes fundamentalismos. Aos 20 era-me fácil rotular pessoas, agora é quase impossível. A não ser quando são mesmo más. Ou mesmo boas. As excepções confirmam a regra e eu conheço umas quantas, é verdade, nos dois clubes.
Aos 20, generaliza-se: “os homens são todos iguais”. Aos 30, relativiza-se: ”São todos iguais, mas há uns mais iguais que outros”. E condescende-se, acrescentando “e a gente precisa deles”. E ganha-se sabedoria, concluindo “E eles, de nós”.
Aos 30, aprendi que um mau corte de cabelo não passa disso. Não me vai fazer perder o homem dos meus sonhos, não me vai fazer ser despedida, não me vai fazer ficar doente nem deixar de me rir até que cresça. Aos 30, aprendi que a vida se vive na mesma sem um companheiro, embora perca alguma graça. Os nossos objectivos e missões têm que ser levados para a frente, as nossas vitórias comemoradas, os nossos amigos acarinhados, as nossas responsabilidades cumpridas e as nossas necessidades primárias satisfeitas. Somos completos sozinhos. Um companheiro é um bónus. E quem está sozinho não está incompleto, quem está acompanhado é que beneficia do tal bónus, que não é para todos. E estou a falar apenas dos que andam bem acompanhados, que aos 30 também aprendi que se assim não for, antes sozinha.
Aos 30, aprendi que é importante gostarmos do que fazemos, para nos apetecer levantar de manhã, que é minha crença absoluta que as manhãs foram feitas para um gajo dormir na cama, só que a cabra da Eva estragou tudo. Deus compensa com a alegria no trabalho os inocentes que até hoje pagam pelo erro da cretina. Megera. Também quem é que se lembra de fazer um ser humano a partir de uma costela? Tivesse arranjado melhor matéria-prima…
Aos 30 aprendi tanta coisa nova que acho que ficaria aqui muitas horas a enumerar pormenores. Só que também aprendi aos 30 que pouca gente está para nos aturar, e que se queremos ser ouvidos, devemos ser sucintos. Por isso, por enquanto, fico por aqui.
Obrigada, Vzinha, pelos dois dedos de conversa, pelo café e pela oportunidade de, como disseste, mais coisa menos coisa, desemperrar a verbalização. Espero não ter feito como a querida tia Ausenda. Beijos da Jade

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Surprise!

Quando hoje de manhã liguei o computador, de cabelo despenteado, pijama e chávena de café em punho, a minha intenção era, meramente, cumprir o ritual do costume, ver mails, ir ao hi5 ver as novidades, vir ao blogue ver se alguém tinha deixado algum comentário, passear pelos meus favoritos, enfim, saborear as férias ainda anestesiada pelas horas de sono.
Quando abri a página do diariodeumagaja, tive que esfregar os olhos. O meu coração deu um salto e fui premiada com um daqueles momentos, raros e irrecuperáveis, preciosos e avassaladores, em que tudo parece fugir-nos da frente, inclusivamente o batimento cardíaco e o simples inspira-expira quotidiano. Abri um grande sorriso. Devo ter dito um palavrão cabeludo. Então não é que no último post, de ontem à noite, hoje de madrugada, a autora tinha em letras garrafais o nome do meu blogue? Num post que se intitula "Gosto deste blogue porque...". Garanto-vos que insuflei e me tingi de escarlate com laivos de rosa-hello-kitty!...
Não há nada mais precioso que o inesperado. Não há nada mais gratificante que o elogio. Vocês sabem o renitente que eu sou na aceitação de elogios, mas caramba, 99% de vocês conhece-me e contamina as vossas opiniões com a vossa amizade, os vossos preconceitos emocionais subjazendo às vossas palavras simpáticas e cordiais. Receber um elogio de alguém que nunca nos viu e está meramente a apreciar um modo de escrita que traduz um modo de vida, é algo totalmente diferente, e novo para mim. Conquistar uma pessoa através de um texto, ainda por cima do texto que eu ontem dizia à Vzinha no hi5 "hoje não escrevi coisas bonitas, só parvoeiras...", é um presente indescritível.
Sem querer ainda entrar numa tão obtusa quanto desnecessária troca de galhardetes, é forçoso dizer que tanto melhor soube o elogio quanto ter sido formulado por alguém a quem eu admiro tanto a escrita como os temas. Ela falou de afinidades, palavra que me passou várias vezes pela cabeça, ao ler os seus posts, descontraídos, entre fúrias e monotonias da morrinha quotidiana, desilusões e private jokes de que só ela e um grupo restrito se riem, blackouts e aquele modo simples e cómico de despedida, "vou ali já venho", que tantas vezes já me apeteceu copiar, de tanto que dele gostei. Leu muitos posts meus. Pergunto-me se terá lido um deste mês, intitulado de "Pois, não sei", em que falo pela primeira vez do blogue dela. Coincidentemente, de uma forma muito semelhante à que hoje ela fala do meu.
Obrigada, Gaja. (Não sei porquê, isto não me sôa lá muito bem, mas nicks, são nicks). Fizeste-me ganhar o dia. Outro beijinho para ti. Vai aparecendo e traz um amigo também.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O sorriso do Eddie Vedder

Também gosto muito de ir ao youtube procurar os vídeos das músicas que me viram crescer. Especialmente daquelas que me fizeram crescer, toda a gente tem uma banda sonora na sua vida, acho eu. Se fosse realizar um filme sobre a minha vida, uma tragicomédia chatíssima, certamente, dou graças a Deus por não ser, pelo menos isso, um filme de terror como há tantos, haveria músicas incontornáveis. Hoje dedicava-me a ouvir Pearl Jam, um dos leitmotivs do meu suposto filme, e dei com uma versão live do inigualável Better Man. É uma versão que começa, pasme-se, com o No Woman, No Cry, do Marley. Foi por isso que me chamou a atenção, mas depois arrepiei-me ao ouvir o público cantar. Arrepiei-me ainda mais ao ver o Eddie Vedder sorrir. Não é propriamente um sorriso de Mona Lisa (ainda bem, nunca percebi porque é que o raio do quadro tem a fama que tem, mas isso sou eu que sou ignorante.), mas gosto do sorriso dele. Gosto de sorrisos em geral, mas quem não gosta? Gosto deste em particular porque o fulaninho sorri pouco. E eu gosto de gente que sorri pouco. Não porque goste de gente antipática, para ser antipática estou cá eu, não. É porque quem sorri muito habitua-nos mal. Quem sorri pouco, recompensa-nos. Arrancar um sorriso a quem raramente sorri é uma surpresa. E as surpresas deixam-nos sem fôlego. E embora a vida só exista enquanto respiramos, só vale a pena nos momentos em que nos tira o fôlego. Adicionei o vídeo à minha página no hi5, ide ver e dizei de vossa justiça...
É que, convenhamos, mesmo com aquele ar grunge de quem não toma banho todos os dias, um sorriso do Eddie Vedder... vinha mesmo a calhar agora!

Outro Vício (?) !...

Sou tão fraca... qualquer coisinha que me inspire um mínimo de interesse, e à qual regresse com curiosidade duas ou três vezes, PAM!, transforma-se num vício. Não sou capaz de evitar. O que vale é que, quando a realidade chama, acabo por perdê-los todos. (À excepção do tabaco, infelizmente).
E perguntam-me vocês: Que raio de conversa é essa, viraste-te finalmente para as drogas? Not yet, não há dinheiro nem saúde para confundir os neurónios já de si um bocado alienados. Virei-me para os blogues. Além do diáriodeumagaja, que já referi aqui e que continuo a visitar assiduamente, há o do tintin, que é meu colega de bancos de escola e fala de coisas de que eu não percebo nada, lembrando-me periodicamente de que sou uma perfeita ignorante, e, agora, o Há Vida em Markl. Adoro o Nuno Markl, mas confesso que quase me rio mais com os comentários que lá deixam que com os posts em si. Há qualquer coisa na mentalidade tuga de radical, que não se nota no quotidiano deste país de brandos costumes. Os comentários são, invariavelmente, radicalmente elogiosos ou completamente destrutivos. E as respostas dele, a estes últimos, piores ainda. Porque será que os nossos conterrâneos são tão mais genuínos escondidos por trás de um nick? Sê-lo-ei eu também?
Acho que não, dado que este blogue é visitado na grande maioria por gente que me conhece. Mas é super engraçado observar blogues alheios e ver que, ao contrário do que parece em época de eleições, este país tem opiniões. Quando se trata então de bater no trabalho alheio, de dizer mal, de soltar veneno... nem vos digo, basta consultar o blogue do Markl, que eu julgava, diga-se de passagem, que era uma figura se não consensual, pelo menos pacífica do ponto de vista de simpatias e antipatias. Enganei-me. Também é giro ver como uma pessoa porreira como ele parece ser, quando acossada, vira bicho.
Vou mudar o nome deste blogue para "O blogue alheio dava um estudo sociológico"...
Uma coisa é certa. Ando viciada na blogosfera. E ao contrário do que parece, tenho aprendido umas coisas.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Man in the Dark

Um homem nos seus sessenta e muitos, setentas, combate as insónias inventando histórias. Todavia, dada a corrente de consciência natural a todos os seres humanos, a própria história, detalhes do que o circunda, barulhos exteriores ou necessidades fisiológicas intrínsecas desviam-no do seu relato, da sua composição artística, da sua criação, e puxam-no para pensamentos de outro cariz, pessoal e íntimo, divagações sobre o passado, a família, o amor, a descendência, as relações de causa-efeito, o significado da dor e do sofrimento na jornada pessoal de cada um.
Auster ao mais alto nível. Não é a sua obra-prima, mas é difícil escolher uma, de entre todas, que o seja. Nota-se que o escritor amadureceu. Os seus narradores são homens cada vez mais velhos, desde Nat, em Brooklyn Follies, a Blank em Travels in the Scryptorium, a este August, Auggie, em Man in the Dark. Todavia, os temas continuam os mesmos, apontando para a inesgotabilidade de formas possíveis para a sua abordagem literária. Como de costume, a tessitura narrativa é manufacturada com linhas de várias cores, com fios de várias proveniências, num resultado final que lembra a filigrana, ou, se preferirmos, caixas chinesas ou matrioskas russas. O autor já nos habituou, e aqui não decepciona as expectativas, à história dentro da história, às várias vozes narrativas. Também aqui se contam várias histórias, e se mantêm todas com altos níveis de interesse. Ao contrário do que é costume, têm finais esclarecedores e definidos (definitivos), mas talvez seja precisamente aí que reside o verdadeiro "statement" da obra, se considerarmos que poderá haver, de facto, uma mensagem que o autor pretende transmitir, e não apenas a fruição do objecto artístico livro.
De qualquer forma, Auster aí está, para as curvas, a lembrar-me periodicamente as razões da minha escolha deste autor para objecto de estudo e dissertação. Ninguém escreve assim. É hipnótico, é melódico, é intimista e, no entanto, tão abrangente, tão comprehensive a toda a raça humana...
E sim, li o livro todo. Todas as 180 páginas em Inglês. Numas horas valentes, a lutar contra o sono. Ao contrário de Auggie.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Últimos Cartuchos

Hoje, enquanto remexia no baú dos manuais escolares, e seleccionava os materiais a levar comigo, e congeminava já nas melhores estratégias para iniciar o ano com turmas que já conheço - sim, Mzinha, não te espantes, já comecei a pré-trabalhar... - resolvi que precisava de uma agenda de professor, e saí para a ir comprar. Regressei a casa sem agenda, mas claro, com dois livros novos, um do Auster, para não me sentir tão culpada por ter comprado o outro, do Ondjaki... ou vice-versa, e um par de argolas para ajôrelhas.
E pensei, that's it, estamos a queimar os últimos cartuchos das melhores férias dos últimos anos. Bem merecidas, que os últimos anos foram uma lista sucessiva de chatices, preocupações e desencantos.
Já todos sabem, porque o afirmo recorrentemente, que o ano que vai começar é, certamente, o mais complicado a nível profissional dos últimos tempos. A nível pessoal não será menos. Diz quem sabe, que as expectativas são contraproducentes. Que orientamos as nossas atitudes pelos nossos preconceitos (pré-conceitos, sejam eles positivos ou negativos). Pior ainda, que os meus não são mesmo nada luminosos, but tell me what's new...
Bom, espero, pelo menos, ter tempo, força de vontade e paciência para cumprir dois objectivos fulcrais: escrever a dissertação e ir ao ginásio. Tratar da alma e do corpo, quero eu dizer. Não me esquecer de mim no percurso, no desenrolar dos acontecimentos, no meio do stress e das decepções que vão surgir. Arranjar tempo para tomar café com os meus colegas fora das horas de expediente, para a S. e a Leonoreta, sempre, para fazer jantares lá em casa com a seita do costume, para rir com a Mzinha, a Li e a T., just girls, de vez em quando, que é saudável... e vai ser difícil, com metade da pandilha a dar aulas à noite. Para ir ao cinema e ao Twins, para vir a Lisboa estar com a minha mãe e os meus amigos de sempre, para me orientar no meio da vida atribulada e desorganizada que, por muito que me irrite, acabo sempre por levar.
Em Junho, o meu objectivo é estar a escrever textos ainda com algum cabimento, ainda com alguma lógica, prova de que não dei em doida. E espero, nesses textos, falar ainda de amigos. Daqueles que sobrarem depois do processo de eleições e de avaliação de professores. Deus me ajude. Boa sorte para todos.
E eis que vou tratar de queimar os últimos cartuchos, se possível, em silêncio, com o Auster e o Ondjaki a murmurar-me histórias de encantar ao ouvido.

domingo, 24 de agosto de 2008

Será que é desta?

Bem, posso considerar-me uma pessoa de sorte. Depois de tudo pelo que já passou a minha dissertação, convenci-me, há uns dias na conversa com uma colega de tropa (é o que chamamos ao ano de seminários...) que tinha sido excluída e anulada a minha matrícula, por atraso de pagamento das propinas. Afinal, desde Março que não sabia de nada. Mandei um mail ao meu santo orientador, e resignei-me.
Hoje recebi a resposta. O homem não é um santo, é um deus. Reuniu júri. Espera notícias minhas no início de Setembro. A dissertação ainda é (mais que) possível. E eu estou aliviada. E agradeço muito ao acaso, à coincidência... e ao meu anjinho da guarda, um douto professor da Universidade Aberta!

sábado, 23 de agosto de 2008

Espelho, espelho meu...

Recentemente, um amigo meu ficou muito espantado quando afirmei peremptoriamente que, salvo raras e mui nobres excepções, me estava completamente nas tintas para as expectativas das pessoas a meu respeito. Expliquei-lhe, inclusivamente, que isso se devia ao facto das minhas próprias expectativas já serem elevadas e difíceis o suficiente para me estar a chatear com as dos outros. Céus, caíu o Carmo e a Trindade, sejam lá esses gajos quem forem, que andam sempre aos tombos. Que não podia ser, que essa atitude não ia nada bem comigo, que isto, que aquilo. Devo tê-lo chocado, ou decepcionado, não sei. Paternalista, ainda atribuíu as minhas palavras à minha internacionalmente conhecida impulsividade, e lamentou ter-me apanhado num "mau momento". E esta é a altura em que encolho os ombros e suspiro, cá está, a prova de que as expectativas dos outros em relação a mim são, de facto, comprovadamente erróneas.
O facto de ser assumidamente insegura não implica obrigatoriamente que me paute e me organize pelas ideias dos outros e do que estes consideram ser melhor para mim. Pelo contrário. A maioria das vezes considero que aquilo que faz a maioria das pessoas felizes é um conjunto de tradições parvas e objectos inúteis, que se vão coleccionando ou trocando por outros melhores e mais vistosos. Como se a felicidade fosse uma lista de itens que vamos assinalando à medida que vamos obtendo: marido, filhos, casa, carro, carro melhor, casa melhor, casa de férias, carteira Louis Vuitton, operação de aumento dos seios, bottox nas rugas... não. Não quero saber o que mentalidades deste tipo esperam de mim, que olhares decepcionados enviam na minha direcção à medida que o tempo passa e a minha suposta lista igual à de toda a gente permanece com todos os itens por riscar.
Então, e que opiniões contam? Conta a minha, ora essa. Ai, e tal, porque tu te substimas, porque a tua opinião sobre ti mesma é preconceituosa e desfasada da realidade. Seja. Não nego: I've got issues, como dizem os Amaricanos. So what? Apesar de tudo, tenho ouvidos para escutar opiniões alheias, e neurónios para construir a minha, a partir de, mas para além de, palpites forasteiros. Não tenho a pretensão de estar sempre certa, mas faço ponto de honra em ouvir primeiro o que tenho eu a dizer, e só depois os outros. E só os que interessam. Por isso, nunca me fui grandemente abaixo com os piores insultos, tenho tendência a rotulá-los, e às pessoas que os usam, de imbecis, nem nunca insuflei aos maiores elogios, que descarto sempre como ingénuos. Para me insultar e elogiar estou cá eu, que me conheço melhor que ninguém. A opinião que realmente conta, no final, quando me vou deitar com a minha consciência, é a do espelho, espelho meu...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Saudades do Futuro

Estou a desbotar. O que seria cool, se eu fosse um par de calças de ganga. Mas não sou e fico triste por ver o meu parco bronze dar lugar a uma cor de lixívia de pouca qualidade. Passo os dedos nos braços e estes ficam com caspa. Que lindo, que sexy, que sedutor... lá se vão os bons momentos de praia e piscina e esplanada nos resquícios de pele solta...
E ainda diz um amigo meu que está deserto de voltar ao trabalho... ou eu sou muito parva ou só tenho amigos esquisitos. Que eu só penso: nunca mais chega o próximo Verão! Estou fartinha deste ano escolar que ainda nem começou!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Correio electrónico

Tenho andado a pôr em ordem o meu correio electrónico, entre oitocentas e tal mensagens recebidas desde sei lá quando, a maioria forwards que ninguém no seu juízo perfeito abre e lê, quer por falta de tempo, quer por desinteresse total. Tenho andado ainda a passar o meu tempo nessa conta, à espera de um mail de um amigo que promete notícias importantes, que defende precisar muito de falar comigo e, no entanto, se remete ao silêncio, vá-se lá entender a cabeça dos alheios seres. Tropecei em vários mails antigos, numa short-story enviada por H. em 2005, uma história tão presa à realidade que não pode ser mostrada a ninguém, e me picou a agulhas, mostrando que a dor ainda é real, quando se pressiona o que já parece uma cicatriz curada, mas que por baixo ainda esconde células nervosas. Invariavelmente, fecho os ficheiros quando as lágrimas me chegam aos olhos. O importante é que não passem das pestanas, o que não se vê, não se realiza, não é real, vamos lá abrir outro forward para rir, e pôr outra pedra sobre o mesmo assunto.
Tenho alguns mails, o da short-story incluído, que não consigo apagar. Não porque me façam bem, não porque me façam sorrir, mas porque me fazem, de lés-a-lés, lembrar épocas importantes da minha vida, essas sim, felizes, e às quais não gosto, mas preciso, de regressar, para não me convencer hoje que nunca aconteceram, tão longínquas e destituídas de sentido me parecem às vezes.
Guardo tudo. Cheguei a guardar mensagens de telemóvel anos a fio, para as apagar impulsivamente num momento mais doloroso e me arrepender de o ter feito no momento seguinte. Enfim, quis o destino que perdesse um telemóvel há uns dois ou três anos atrás (parece que apareceu, noutras mãos, mas já era, então, demasiado tarde) e com ele muitos contactos para sempre. Ironia das ironias, como sabem, outro dos meus telefones morreu um ou dois dias antes de ser operada ao cotovelo, e lá se foram mais alguns contactos de vez. O de H. não consta agora da lista, o que é perfeitamente escusado, visto ele mo ter obrigado, numa noite específica em que andou desnorteado, convencido que eu tinha sido finalmente vítima da minha má condução a decorar. A memória é uma coisa tramada, quando, como a minha, não é selectiva, e regressa às alturas felizes em alturas sombrias, tornando-as ainda mais nebuladas. Como o dia de hoje, que nem parece Agosto, não fosse este calor sufocante.
Vesti-me de cor-de-laranja. Pesei-me e, com satisfação, vi a balança da farmácia chegar aos 50Kg pela primeira vez em anos. Pelos vistos, até o vazio pesa. Ao menos isso.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Gaffe!

Já comentei que os GNR estão a gravar um álbum no estúdio aqui do prédio? Pois... já não via nenhum deles há umas boas semanas, e até me tinha esquecido do assunto, quando hoje saio de casa, num bad hair day, convenhamos, e dou novamente de focinhos com o Rui-ai-que-eu-sou-tão-bom-Reininho. E lá segui com a minha vidinha, rumo ao supermercado, à procura da progenitora, que encontro a meio-caminho. E digo, o Reininho está lá na rua ao telefone. Bem me parecia que ontem o tinha ouvido ganir a mesma música vezes sem conta quando tentava dormir a sesta. Ela ri-se e diz, Quem? E eu, o Rui Reininho, pá... ontem só gania e eu a querer dormir. Claro está que não reparei (e se tivesse reparado era igual, que eu para caras...) num tipo morto de riso ao nosso lado. Também não sabia que era outro dos membros da banda. À entrada do prédio lá estavam ambos, e a minha mãe lá me fez o desenho. E eu não saio mais de casa. Alguém disse que a vergonha não advém da nossa consciência, mas do facto das nossas gaffes terem assistência. Esse alguém tem toda a razão.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Quem não tem dinheiro...

... still can have addictions.
Tenho montes de vícios, agora que penso nisso. Só o trabalho não me vicia, por mais que me esforce, e não me esforço lá muito, verdade seja dita.
Tenho o vício dos amigos. Consequentemente, tenho o vício do telemóvel e do mail, e do hi5 e dos cafezinhos.
Tenho o vício dos livros, e dos filmes e das exposições. Consequentemente, tenho o vício de sonhar. Acordada e a dormir, que é outro dos meus vícios.
Tenho o vício dos beijos, beijinhos e beijocas. Mas também tenho o vício da timidez e como tal distribuo-os às vítimas mais fáceis, a minha mãe, a minha Guida, a minha Leonoreta... tadinhas delas.
E tenho o vício de fumar. O único que reconheço ser prejudicial à saúde, e o único que espero, um dia, largar.

domingo, 17 de agosto de 2008

Sinais

Hoje estive com P., uma amiga minha com quem estou de lés-a-lés, porque é professora também, e foi colocada no Algarve, onde acabou por se estabelecer, casar, fazer vida. Foi minha colega de casa na Cidade-de-Deus, há uns bons anos. Desde aí me ouve queixar de que aquela cidade não é para mim, de que não gosto, na essência e na generalidade, daquela gente, disto e daquilo. E, no entanto, tenho permanecido.
Não é que me arrependa. Adoro os meus alunos, todos os anos conheço gente nova e especial, e estar lá há tantos anos dá-me a (falsa?) noção de segurança. E até há bem pouco tempo, havia outra coisa que me prendia lá, a ilusão de uma relação sólida.
Mas hoje, entre um café e uma conversa mais breves do que eu teria gostado, a vida é assim, e os velhos e bons amigos entram na correria que ela é, a P. disse qualquer coisa do género, anda para o Algarve. O clima é o melhor do país para ti, não tens nada que te prenda, estás a um saltinho de Lisboa, conheces outra gente, começas do início, e já em vantagem. Anda.
E eu, que ando já a quebrar a cabeça sobre que opções tomar no próximo concurso, saturadíssima das intrigas e das pessoas que, por muito que o tempo passe, continuam a revelar-se pela negativa, cansada do choque que vem sempre de onde menos se espera, dos amigos que ficam pelo caminho por atitudes que não vão mesmo nada bem com o meu tom de pele, cansada já do futuro que vai ser este maldito próximo ano... se pudesse, saltava-o, passava-o em branco... cansada de tudo o que ainda não vivi, portanto, agarrei esta ideia, tipo tábua de salvação. Lisboa é difícil, não só pelo concurso, mas também pelo estilo de vida, que já deixei para trás. É a minha terra, mas gosto dela para regressar, não para viver. O Algarve, quem sabe? Pode ter sido um sinal, este cafézinho que tão bem soube, combinado à última hora, e cheio de coisas para contar.
Está na hora de avançar, de encerrar um ciclo de... terão sido sete, oito? anos, numa cidade que, no fundo, sempre me foi estranha, e onde sempre me senti orgulhosamente estrangeira, apesar de tudo.
Até logo.

sábado, 16 de agosto de 2008

Silly Season

Anda tudo a banhos. Pelo estado do tempo, a banhos de chuva, mas isso também parece ter pouca importância. Não há comentários aos posts, e também há pouca vontade de os escrever, pouco assunto. Os dias vão passando lentos, entre televisão, net e sestas, tudo alimentado pela gripe croata que não dá tréguas.
De vez em quando, uma mensagem, com notícias off the record, que me deixam furiosa, mas com poucas forças para reagir. No fundo, estou de férias, e quero lá saber. Concentro-me nas gargalhadas poderosas da minha mãe, nas piadas que diz tiradas do seu poço inesgotável de sentido de humor cáustico, regado a expressões como "é tudo uma grande cambada de imbecis"! Ri-se, a maioria das vezes, sozinha, comigo a assistir, estupefacta. Diz-me que eu qualquer dia estou como o Churchill, a escrever deitada, e aconselha-me a ter cuidado, não me engane e leve o computador para a banheira, inventando uma nova forma de permanente... enquanto suspira, ai esta geração!
Sou obrigada a rir-me. Embora de nariz entupido, e muito pouca paciência.
A minha mãe é um tratado.
E eu vou mas é para a caminha.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Pois, não sei

Antes que me perguntem a que se deve a cara de parva da recente fotografia do perfil do blogue, a resposta é pois, não sei. Hoje esta cena deu-me as boas-vindas de uma forma completamente nova, os fulanos do google andaram a alterar as definições, e eu, que sou parva todos os dias, andei a fazer experiências e ... pronto, asneira, nem sequer era esta a foto que eu queria, mas depois do tempo que andei de volta disto, nem me apetece mudá-la.
Dei com novos blogues no sapo, e fiquei fã de um, ide ver: diariodeumagaja. Adorei. É inteligente, divertido, terra-a-terra. Para mim, além disso, é terapêutico, visto não me sentir tão sozinha na minha forma peculiar de alienamento, saber que há mais gente a questionar as mesmas coisas, a viver vidas parecidas e a sobreviver ainda assim, com uma réstia de humor e boa-disposição. De facto, verdade seja dita, os meus amigos próximos têm vidas tão diferentes da minha, estão todos em patamares tão díspares de mim, que me sinto muitas vezes completamente anormal. E este blogue mostra-me que não, que há mulheres na minha faixa etária que passam pelas mesmas coisas, ouvem a mesma música, dizem os mesmos palavrões e se vão orientando como podem na loucura do dia-a-dia. Parabéns à Susana, e ainda bem que dei com ela. Já está nos meus favoritos.
Fora isto, pouco há a contar, excepto a profunda preguiça que confere um dia feriado, no meio das férias...
Até já.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Lisboa, Lisboa

Cheguei.
Depois de acordar tarde, pela primeira vez em doze dias, que a hora média da alvorada durante a viagem rondou as sete da manhã, e cara alegre, pois com certeza, depois de dormir várias horas hoje, dizia, percebi que trouxe uma companhia inesperada da Croácia, um emplastro chamado gripe-de-todo-o-tamanho. Bonito! De nariz a pingar e amígdalas inchadas e inflamadas, brônquios lixados e uma voz fininha que não me pertence habitualmente, lá acabei o que havia a arrumar e me pus a caminho de casa, finalmente.
Na estrada quase vazia, agradecia aos céus estar ao volante em Portugal, depois de tudo o que vi nas estradas dessa Europa. Como é possível que sejamos nós, e não os transviados dos Croatas, os nabos dos Franceses ou os idiotas dos Italianos, a ter as taxas de sinistralidade mais altas da Europa? Enfim...
Entre ontem e hoje pus-me a par das novidades. Ontem fui jantar com a S. e hoje fiz os telefonemas da praxe, a averiguar o grau de relax dos meus amigos em férias. As conversas e as preocupações andam todas à volta do mesmo: o ano que vem, a distribuição de serviço, a avaliação. As novidades das férias, as viagens, a falta de dinheiro para viajar. Parece que cá na Pátria anda tudo à volta de assaltos a bancos, baixa no preço dos combustíveis e os jogos olímpicos. Dez dias fora e parece que estive uma eternidade sem os meus. Foi com verdadeira alegria que abracei a minha Leonoreta, que cheirei o pêlo à minha gata, que ouvi a voz de duas ou três colegas. Ainda não vi a minha mãe, mas já estou em casa, na casa que me viu nascer e crescer, e de que cada vez sinto mais falta.
É hora de descanso, agora. É hora de passeios pelo bairro, idas ao cinema e leitura noite fora.
Entretanto, as primeiras fotos da viagem já estão disponíveis no hi5. Só as minhas e aquelas em que eu apareço. Vários outros albuns se seguirão, um com imagens só dos sítios onde estivémos e outros com as fotos dos restantes aventureiros. Há fotografias dignas de constar no ambiente de trabalho dos nossos portáteis no ano que vem... porque no meio das sombras que se avizinham, do ambiente que se aproxima, e do trabalho que promete ser duro, o que nos safa é poder olhar para o computador e ver Plitvice, Liubliana ou la bella Venezia.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Um cheirinho da viagem

Regressámos hoje. Para ser mais precisa, o regresso iniciou-se no Sábado, porque o destino era Dubrovnik e foi no Sábado que saímos de lá. O regresso incluiu, ainda, como bónus, Florença e Monpellier. A Li afirma, peremptoriamente, que depois de dez ou onze dias de viagem, confunde tudo e quer ajuda para legendar as fotos. o MMS diz que quer tirar férias das férias. A Mzinha já pensa em Saragoça, parar é morrer. Eu... eu nem sei.
Afirmei, várias vezes durante a viagem, muitas em tom de brincadeira (Desculpa lá, mas tu também estiveste em sítio tal comigo?) que estávamos todos a fazer viagens diferentes, tão díspares eram as sensações, as memórias, as impressões e opiniões. No fundo, ao mesmo tempo que se viaja fisicamente, fazem-se inúmeras viagens interiores. Eu especialmente, que tive a sorte de ser grande maçarica ao volante, e ser por isso poupada da grande responsabilidade (e consequente cansaço) de conduzir. A viagem física dispara uma corrente de pensamentos que nenhum outro contexto consegue produzir. Fazem-se comparações entre povos, analisam-se reacções estranhas e estrangeiras, passa-se o tempo a conversar, não se vê televisão, não se vai à net, usa-se pouco o telefone, luta-se para nos fazermos entender por entre multidões de gente a falar línguas diversas, olha-se trezentas vezes para mapas, amaldiçoa-se mais quinhentas a menina do GPS. Viajar é crescer e aprender. É diversão e surpresa, cansaço e saudade.
Ficam aqui as primeiras impressões, as minhas, as da Jade, que o MMS prometeu escrever as dele, neste blogue, em data a combinar.
Hoje, vou pincelar apenas uma tela impressionista. Os detalhes, anotados no bloquinho das contas e gastos, ficam para mais tarde.
Houve uma noite em branco, a primeira, a excitação era grande, a pressa de chegar, a curiosidade, a alegria de estar de férias, as novidades dos últimos dias, o acertar de ponteiros, caminhos e rotas. Objectivo: Dubrovnik. Os agouros de muitos: Vocês não vão conseguir chegar à Croácia, estão malucos? Pois. Estamos. Somos.
De Bilbao guardo a luz ao chegar. Um dia cinzento. O Guggenheim. A exposição do Surrealismo com as obras de Jean Arp e o meu quadro favorito de Magritte. A exposição temporária de Muñoz. Os tropeções de MMS que, por pouco, não foi ver o chão do museu de perto umas três ou quatro vezes. Magotes de gente a ouvir uns aparelhómetros parecidos com telemóveis com um ar alienado. Muitas crianças. Uma casa-de-banho que apareceu tarde demais. Um ramo de túlipas coloridas.
De San Sebastian, a paisagem, as alturas, a primeira água verde, o calor.
De Biarritz (toda a zona de Anglet e Bayonne, também) a festa, o fogo de artifício, as pessoas vestidas de branco e vermelho, um grupo celta a tocar ao vivo, uma gauffre maravilhosa, uma marginal animadíssima, risos.
Depois Mónaco, Marseille, Nice. Gente rica, grandes carros, grandes barcos. O desencontro com o George Clooney em St. Troppez. Ganchos para o cabelo feitos de massa, pintarolas e cápsulas de comprimidos. Uma cascata nascida num castelo. Bonecos gigantes de luz colorida empoleirados em colunas.
Itália, Veneza. A maior das surpresas. Lindo, lindo, lindo. As viagens de barco, a praça de S. Marcos, a rua das lojas de alta costura, as barraquinhas das máscaras venezianas, os gondoleiros, a vontade de ficar.
Depois, Croácia. Sim, chegámos lá. Aquela cidadezinha de que nunca me lembro do nome, onde não entrei nma catedral (Basílica, mais propriamente) porque ia de minissaia. As diversas ilhas para onde fomos de ferry. Tantas, tantas... Águas verdes, azuis turquesa, quentes, transparentes. Muitas pedras, muitas rochas, sem areia. Mar a confundir-se com um lago infinito. Linha do horizonte sempre escondida por ilhas multiplicadas ao expoente da loucura. Um calor abrasador. Cidades e Vilas a dar ideia de ser construídas com legos. Tudo muito arranjadinho, tudo muito homogéneo. Condutores do pior que eu já vi no Mundo inteiro. Plitvice. Lagos com cores indescritíveis. Um lago com a temperatura do corpo, como nunca tinha sonhado ser possível na Europa. Um pouco das Caraíbas bem mais perto. Muita música popular croata, entre o festivaleiro o ultra-romântico. Dubrovnik by night. Uma passagem de modelos de mulheres altas, bonitas e hiper produzidas. Tequillas sunrise e Blue curaçaos gigantescos. Gatos que pareciam drogados de tão mansos. Dubrovnik by day. Um calor abrasador. Muralhas. O mesmo mar. O rapaz dos chinelos cambados.
Eslovénia, Liubliana. Indescritível, só visto, lindo, saudades, tantas saudades.
Bósnia. Um dos melhores pôr-do-sol de todos os tempos. Encostas escarpadas, o mesmo mar...
E Florença. Magotes de gente num calor que não se aguenta. E, ainda assim, o respeito de estar numa cidade onde por trás das paredes há frescos de Miguel Ângelo e o inigualável homem de vitrúvio do Da Vinci. A T-shirt que não comprei mas posso apreciar noutra cor, vestida pelo MMS.
Por enquanto, as impressões da viagem são estas. Dez dias inesquecíveis, pintados numa paleta de predominância verde-água, cheiro a Lavanda (em Split, lembram-se?) e a fruta, uvas, pêssegos e figos roubados... medo do trânsito e do mar ondulando por baixo do ferry, trovoadas e chuva quente, pôres-do-sol e céus estrelados, a lua como companhia constante... vimo-la crescer.
E chegámos, bem, embora exaustos, com muitas imagens na bagagem, 7488 Km feitos (sem contar com os ferries), e muitas, muitas, inúmeras diria mesmo, outras viagens que nem todo o tempo do Mundo daria para contar.