quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Escrita direita em linhas tortas

No ano letivo transato, gostei muito da minha colega de Matemática de 3º ciclo. Fez-me lembrar e ter muitas saudades da Miss Covilhã, porque são ambas do mesmo género. Ela, a Camponesa, felizmente é daquelas pessoas que mantém os contatos e, volta não volta, lá se mete comigo no bate-papo, manda uma sms ou telefona. Anda possessa com a direção da minha escola, que não lhe manda o dossiê individual, e por causa disso há meses que diz que lá vai buscá-lo. Como a vida não está para graças, não tem tido tempo para o fazer, de modo que temos adiado cafezinhos vezes sem conta. Já me pediu para eu tratar do assunto com o meu subdiretor, mas a verdade é que este tem andado muito parvo, para dizer o mínimo, o que não é de todo surpreendente tendo em conta a confusão que aquela gente faz entre o pessoal e o profissional, que abona muito pouco no que toca à competência de cada um, mas isso é lá com eles.
Há meses a combinar encontrarmo-nos para pôr a conversa em dia e nada, vou dar de caras com a Camponesa à porta do Átrio Saldanha, inesperada e subitamente, como são todas as boas surpresas. E foi uma festa. E, como ela diz, antes assim, num lugar cheio de classe e a cheirar a fashion, que naquela escola que só nos dá é desgostos e motivos de arrelia.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Balanço #5

Ciclos.
Comecei o ano loira, entretanto voltei a ser morena, e hoje estou de novo loira.
Comecei o ano exausta, entretanto recompus-me, e hoje estou novamente estoirada.
Comecei o ano feliz, em grande autoestima, entretanto tive uma depressão, e hoje estou bem-disposta e com uma autoestima menos frágil.
Comecei o ano a ponderar mudar de vida, entretanto acomodei-me, e hoje estou de novo inquieta por um futuro em tudo diferente.
Comecei o ano a amar de novo, entretanto desisti do amor, e hoje parece-me que há que desistir é de forçar que ele exista em sítios que sabemos não serem para nós.
Muda o ano e estou exatamente na mesma, à vista desarmada, e tão diferente, no que à essência diz respeito.

Balanço #4

Depois de ruir no início do ano, agarrei-me ao que podia. Para além de fazer boas opções, como iniciar finalmente a psicoterapia, também fiz disparates dos grandes. Nada que o tempo não viesse remediar. Não sou por natureza desconfiada, de modo que quando as coisas não me cheiram bem, tendo a ficar de pé atrás, a não arriscar tudo, a não saltar no escuro. Sei, desde há muito, que o tempo acaba por me dar razão e calar as vozes críticas e venenosas. Na altura passo sempre por má, doentia, ressabiada... um sem número de injúrias de pessoas tão falsas quanto parolitas. Gosto pouco que me atirem areia para os olhos e que façam de mim burra, que é das poucas coisas más que jamais pensei de mim mesma e, como sou pouco diplomática, saio mal na fotografia. Mas o tempo é dono e senhor de tudo, juiz dos juízes, e é com um sorriso (meio dececionado, meio enojado) que vejo, mais uma vez, uma fraude materializar-se.
Há coisas e pessoas que, por mais que se lhes puxe o lustro, jamais brilharão, por lhes faltar o verniz. A grandeza está na fibra, não nos estudos, nas citações livrescas que fazemos, nas datas que sabemos de cor, na teoria político-económica que papagueamos a quem ainda tem pachorra para nos aturar. A grandeza está na alma, e quem nasce para cêntimo jamais chegará a euro.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Balanço #3

Este ano comecei a ter sessões de psicoterapia. Foi o ano de viragem, do "vamos fazer alguma coisa para mudar o rumo da minha vida e parar de ir ao fundo ciclicamente". Foi uma decisão acertada. Tive sorte. Numa cidade em que não há nada de jeito e as pessoas são, no seu geral, como direi... muito diferentes de mim, sobretudo na forma de estar, nos valores e no modo de viver a vida, quando me meti nesta aventura, o meu maior medo foi não me entender com o meu terapêuta, achá-lo fraudulento, achar o processo um fiasco, não confiar num estranho, espetar-lhe com o rótulo que a própria cidade tem para mim: provinciana, hipócrita, intolerante, gabarolas, vazia.
Tive sorte. Gosto das nossas sessões e estou muito mais confiante e desperta para mim própria desde que lá vou. No outro dia o Doc dizia-me que não queria que os seus pacientes se transformasssem naqueles casos de "estou na terapia há vinte anos, e ninguém me conhece melhor que eu próprio." e depois, no fundo, continuam com os seus medos e tragédias, simplesmente sabem tudo sobre as suas sombras, de onde elas vêm e para onde vão. Mas continuam passivamente a observar-se de fora.
Não me parece que corra esse risco. Graças à terapia, consigo lidar muito melhor comigo mesma e com os outros, distanciar-me das pessoas que, contra todas as expetativas, não me fazem nada bem e apostar naquelas que realmente fazem.
Percebi que faço parte de uma minoria social que prefere a verdade à mentira piedosa, embora também a use, e prefere ser magoada a ser enganada, porque jamais engana. Assim sendo, embora numa minoria, resolvi respeitar-me em vez de me autoflagelar, e afastei da minha vida privada quem quer que fosse que me demonstrasse o que mais abomino, a deslealdade. Confio naturalmente nas pessoas porque sei que podem confiar naturalmente em mim. Quando descubro que, seja de que modo for, fui enganada, não há regresso. Há uns tempos atrás, havia regresso para tudo, por mais que me custasse. Deixou de haver. Tenho trust issues. E não pretendo resolvê-los, pretendo aceitá-los. Porque também há pessoas ao meu  lado há muitos anos que nunca traíram essa confiança. Elas existem, meia dúzia delas são minhas amigas e as outras, que andam por aí, se me cruzarem o caminho, também hão-de ser.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Balanço #2

Aos 35 anos ainda tenho a capacidade de fazer bons amigos. Mesmo deprimida. Mesmo irascível. Mesmo obsessiva. Mesmo doentia. Este ano de 2011 fiz dois. Uma mulher e um homem. São cultos, boa onda, giros, da minha geração e... pasme-se!, saem do seu caminho para me ajudar, agradecem a minha ajuda e abrem a boca para me defender! Dizem que sou boa gente, boa rapariga e... competente! Minha santa mãe, num mundo em que toda a gente se põe em bicos de pés para aparecer, é tão bom ver o meu trabalho reconhecido sem invejas e facadinhas nas costas! Conquistaram-me aos poucos, mas rendi-me. Contam comigo para o que der e vier.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Balanço #1

Boas ações de 2011, a nível sentimental:
1. Servi para apimentar uma relação quase extinta, I'm really hot. É claro que, para isso, deixei de ser o amor da vida de alguém para passar a ser uma grande vaca. E o moço em questão, um cão, ou um boi. Mas não faz mal, já que o seu par é especialista em animais. (a ironia não é minha, é dele, vi com os meus próprios olhos numa ligação desse mundo que é o facebook)
2. Juntei novamente duas pessoas que são amigas do peito, e que eu tinha separado. Uma delas passou dois anos a agradecer-me o facto de ter deixado essa relação "doentia". Agora, afinal, a doente sou eu, e a amizade é digna de uma reconciliação comovida, de quem nunca deixou de se preocupar, de querer estar, de querer procurar. (a reconciliação também não é invenção minha... e devo mais uma ao facebook).
Sou ou não sou uma linda menina?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Consequências

Passo mais tempo na escola do que em casa. Passo muito mais tempo na escola que com a minha mãe. Por um lado, é horrível, por outro sinto que os meus colegas são tipo família: não os escolhi, não gosto deles todos, mas tenho que os gramar, e vice-versa, e começam a conhecer-me bem. Ando com uma telha descomunal: ando com o telhado inteiro. Das hormonas, da depressão, ou porque ultimamente só penso em coisas tristes, a verdade é que vou para a escola e faço um esforço bem grande para estar apresentável e de humor equilibrado: sem explosões, é o objetivo, que a resmungar não é novidade.
Por isso, afaga-me a alma que os meus colegas já saibam lidar comigo quando estou virada do avesso.
Hoje, ninguém me chateou, ninguém me mandou bocas foleiras, e ainda ouvi, de mansinho, sussurrar "chateada já ela anda... deixa-a". Sinto-me respeitada no meu ser mais íntimo: ninguém me faz perguntas, e todos fazem os possíveis por ficar e me tornar a mim, transparente.
Hoje tive reuniões de EFAs. O meu mediador, o rapaz mais bonito da escola, lá conduziu a reunião, e me estendeu a folha da ata, para eu a escrever. Como era para ele, de quem gosto muito, e para aquela equipa, de quem também gosto muito, lá fui secretária sem resmungar. No fim da reunião, entrou um colega que se pôs a resmungar comigo, como é costume, na brincadeira. E encheu-me a alma de ternura, ouvir o giro dizer "não a maces, que ela costuma ser muito meiguinha mas hoje não está bem disposta". Eu? Muito meiguinha? Só se for dos seus belos olhos verdes. Mas gostei de ser defendida. E hoje reconheço que fui muito bem tratada, por todos. E senti-me em família. E muito grata.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um Daqueles Dias

Hoje é um daqueles dias em que só me apetece fugir de mim própria. Não que as coisas me tenham corrido mal, nada disso. Eu é que me corri mal. Estou cheia de não-presta, de azedumes, de pensamentos negros. Só consigo pensar em todas as deceções do último ano, em todas as dores, em todos os cansaços, em todas as injustiças, em todo o trabalho, em todo o tempo perdido, no resto que sobrou. Hoje estou demasiado cansada para lutar contra mim e esta nuvem negra. Estou irritada, ansiosa, dececionada, triste. Hoje é um daqueles dias em que me apetecia ter dormido o tempo todo, vegetar e não fazer nenhum. Infelizmente não foi possível. E os deveres pesam-me toneladas, e estou muito farta do meu mundo, hoje.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

E, como sempre,

Aqui fica o beijo de saudades ao meu avô, no aniversário da sua partida. Os que amamos continuam sempre vivos e, como diz Saint Exupéry, não passam em vão: deixam um pouco deles, e levam um pouco de nós.
Fazes-me falta, avô. Para onde estiveres vai um grande, grande, abraço, apertado com toda a força que tenho.

Vantagens

Comparando com a escola em que estive anteriormente, considero haver várias vantagens em estar colocada, agora, na minha. A maioria delas prende-se com o facto de ter turmas muito mais pequenas. Os alunos não são mais fáceis: o que têm de bom a nível disciplinar, têm de mau a nível de aproveitamento. São mais desmotivados, muito mais baldas e pouco trabalhadores. Não têm expetativas e estão cheios de vícios. Mas gosto de os conhecer com uma profundidade que seria impossível no contexto anterior. Gosto de conhecer os que não são meus alunos pelo nome. Gosto que esses venham ter comigo, me abordem, me deem os bons dias, sempre, e me sorriam.
Outra coisa a que não estava mesmo nada habituada é ao tipo de relação que tenho com os meus colegas: somos poucos, trabalhamos em equipa e somos solidários. Por uma questão temperamental, sempre fui assim. Mas não estava habituada a que me agradecessem a ajuda que dou, pelo contrário, estava habituada a que essa ajuda fosse dada como adquirida, que ma cobrassem quando não a podia dar, e que ainda me dessem facadas nas costas em retribuição. Por isso, hoje, quando passei os apontamentos de uma reunião a um colega que era o secretário para o ajudar com a ata e por auto-recriação, e ele me agradeceu, olhos nos olhos, a ajuda, estranhei. E essa estranheza por uma atitude tão natural quanto expectável no domínio simples da boa educação e da cortesia, fez-me questionar o quanto, anteriormente , e como diz uma amiga minha, preferia o muito pouco ao nada. Sem dúvida que, pelo menos agora, a minha generosidade é reconhecida em tempo, em vez de ser lamentada postumamente. E isso, para mim, é uma daquelas vantagens que justifica muito de tudo o resto.