A minha entrada no hi5 neste momento é a frase de abertura de Out of Africa, "Once I had a farm in Africa"; Pyppas questionou-me se tinha estado a rever o filme, mas a citação está lá porque o meu estado actual acrescenta à citação, "... now I have a monte alentejano"!
Pyppas acrescentou que Out of Africa é um dos filmes da vida dela, e eu retorqui que, Meryl Streep por Meryl Streep, nenhum filme me causou uma sensação tão dilacerante como "As Pontes de Maddison County".
Vi este filme numa idade em que tinha certezas absolutas, convicções inabaláveis, dogmas absolutos. Tudo para mim, nessa altura, era a preto e branco, ou estava certo ou errado, ou era bom ou mau, ou era peixe ou era carne. É a já citada idade da inocência, que é bom que toda a gente tenha, porque nessas idades já bem bastam todas as outras dúvidas existenciais. O supra-sumo do escroque, então, era o ser humano comprometido capaz de uma infidelidade. Era tudo muito simples: as pessoas casavam por amor, e se se apaixonassem por outras ponderavam racionalmente e, ou se separavam, ou se afastavam da tentação; afinal, tratava-se, pensava eu, de seres pensantes, e não de bichinhos irracionais movidos a impulsos.
O filme deixou-me boqueaberta, sobretudo pela simpatia e empatia que a personagem de Streep criou em mim. Uma adúltera, digna do "A" escarlate de Hawthorne... como podia eu entendê-la, como podia eu defendê-la, como podia eu lamentá-la?
Depois cresci para aprender o que disse à Pyppas: este é um filme que nos demonstra que o amor, mesmo que verdadeiro e imortal, nem sempre é o que de mais importante existe, nem um sentimento pelo qual se deve lutar. Principalmente quando se trata de lutar contra tudo e todos. Que, às vezes, a melhor forma de honrar esse amor é não o viver, ou abdicar dele, quando valores mais altos, e sim, há valores mais altos, se levantam. No entanto, também é o filme que dá um murro no estômago à ideia generalizada, neste país à beira mar plantado, que uma mulher pode ser reduzida à sua condição de adúltera. Não pode. Nem um homem, deixem-me acrescentar, antes que pensem que isto tende a qualquer tipo de fundamentalismo feminista que não corroboro.
Aquele filme é um bocado de vida atirado à cara de uma pessoa.
Um dilema profundo e cruel, uma história simples e triste, tão simples e triste que toca todos, independentemente do estado civil... What if... e se fosse comigo?
Quando crescemos, a vida perde o preto e o branco e ganha uma paleta infinita de cinzentos. É politicamente correcto dizer que não julgamos ninguém, quando intimamente consideramos a maior parte dos que nos rodeiam seres estranhos, errantes, de atitudes perversas, de decisões precipitadas, de valores incoerentes. À nossa volta, sucedem-se os boatos de fulano de tal que tem uma amante, de senhora dona tal que transforma regularmente seu marido em veado, de gente que se larga, que se reencontra, que se perde, que se quer e não se quer, se pode e não se pode ter.
Nós somos as nossas decisões, sim, mas somos, sobretudo, a forma como lidamos com as consequências delas. Assumindo ou fingindo, mentindo ou omitindo, enganando ou magoando, lembrando ou esquecendo, eu acho que o mais importante, acima de tudo, é minimizar efeitos colaterais. Porque as pessoas esquecem os nossos nomes, as nossas caras, as nossas histórias, as nossas falhas, até os nossos escândalos... mas jamais esquecem o bem que lhes fizémos.
Streep é fabulosa. Mas a sua personagem, que levanta os óculos quando limpa as lágrimas com que chora a morte do seu grande amor, é sublime. E é sublime porque é demasiado real. Posso ser eu, podes ser tu, existe. Existe em cada um de nós quando a vida, irónica, nos apresenta uma bifurcação e nos diz... agora, escolhe. E nós percorremos um caminho, sem nunca chegar a saber o que teria acontecido se tivéssemos optado pelo outro. E preferencialmente, sem pararmos sequer para pensar nisso.
3 comentários:
Até parece que não oiço mais nada mas este filme, e outros, fazem-me sempre lembrar de uma canção dos Pearl Jam: "Elderly woman behind the counter in a small town". Vale a pena voltar a ouvir... Que pena já não haver, "Quando o telefone toca, boa noite. Qual é a frase?", era tudo tão mais simples...
E a paragem no semáforo, meu Deus, não tem fim e o nó na garganta fica apertado até último limite da dor...
Se não falasses nessa cena, pá, e a mão dela no manípulo da porta, e eu, sai daí, sai daí, não sejas parva, sai dessa m**** desse carro!... e ela lá, colada...
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