Quando me lembro de Churchill, do que li nos livros, claro está, vem-me à cabeça a imagem de um estadista gordinho e de charuto, e um conjunto de citações, algumas hilariantes, outras arrepiantes. Adoro citações célebres, adoro a inteligência rara de alguns seres humanos ricos na produção de frases lapidares que ficam para a história, nem que seja para a história da literatura, ou apenas para a minha própria história, ou como diria o outro, para a minha lenda pessoal. Uma aluna minha tem algumas citações de Martin Luther King no hi5. Parti-me a rir quando, ao lê-las, descobri que, a par de Luther King, me citava a mim, nas saídas mais parvas que tenho nas aulas. Grandioso. As minhas citações a par das do autor de Free at Last!
Isto para dizer que, ao fazer a retrospectiva do dia de hoje, me ocorre a expressão sangue, suor e lágrimas. E foi um dia cheio de reuniões, que faria se estivesse no meio de uma Guerra Mundial.
Sangue. Uma colega minha teve um derrame numa perna que rebentou a meio da tarde. Um colega meu anda há que tempos com hemorragias nasais inexplicáveis. Sangue. O meu não me salta pelos póros, felizmente, mas ferve-me nas veias, sobe-me ao rosto com frequência, pulsa-me com força, com uma força tal que muitas vezes - e muitas vezes hoje,- fico sem respiração, com sensação de perda de equilíbrio e controle, sensação de perda de domínio fruto do cansaço e emoções acumuladas em silêncio semanas a fio.
Suor. Está um calor insuportável. A escola parece um forno. O ar começa a ser irrespirável. Suor. Os meus amigos foram fazer uma caminhada lá para as bandas de Marvão ao fim da tarde. Não pude acompanhá-los porque tinha um compromisso. Inadiável. Um compromisso que ganhou hoje nova urgência pelo ponto que se segue. Ouvi dizer que a caminhada foi dura. A minha, embora metafórica, não me tem feito suar menos.
Lágrimas. Logo de manhã, a correr em catadupa. Uma amiga cansada, nervosa, sensível, extenuada por meses de trabalho e alguma preocupação com a própria saúde. Se há alguém que a entende, sou eu. Uma cara estranha, e uma cascata de lágrimas à simples pergunta, estás bem? Exactamente a fotocópia do que aconteceu, ao contrário, há duas semanas atrás. Nesse dia fui eu que chorei sem me conseguir controlar. Hoje foi ela. Lágrimas. As minhas. Mais discretas, menos desesperadas. Fruto do cansaço de ser uma eterna parva, uma constante idiota, que nunca está à altura das situações quando se trata de dar o troco, e continua, sempre e para sempre, a não conseguir virar costas a quem se está completamente nas tintas para ela e ainda assim precisa de ajuda. Lágrimas de frustração, de revolta e auto-admoestação por não honrar os ensinamentos da família que ama e respeita e a educou para ter amor próprio. E falhou. O meu avô hoje está de sobrolho carregado. E eu peço-lhe desculpa em silêncio, sabendo que a minha estupidez não tem perdão.
Sangue, suor e lágrimas.
À tardinha, uma conversa amena, muitos desabafos, muita compreensão, lágrimas nos olhos, sensibilidade à flor da pele, mágoas engolidas vezes demais, partilha de experiências, construção de alguma cumplicidade. Duas pessoas juntas, por acaso, porque sim. Duas pessoas que, de forma surpreendente, têm muitas opiniões em comum e um feitio que, parecendo tão distinto, acaba por se tocar no essencial. Como em Casablanca, This can be the beginning of a beautiful fiendship.
4 comentários:
O mote para uma trilogia Jade. É o que é este teu texto. O mote para três partes de um dia, três partes de um filme, três partes de um livro, três partes de um todo. Está lá tudo. 3x8=24. 8 horas para dormir, 8 horas para trabalhar, 8 horas ( as mais importantes) para o resto. 33333333333333333333333333333333333
E o Auster? Duas partes de três?
Trilogia Jade, hmmmmm. Prefiro Sexo, Drogas e Rock'n'Roll. LOL. Mentirinha, que não concebo sexo sem amor, não uso drogas e cada vez ouço menos rock e mais lounge e chill out. Mas uma trilogia Jade com o título deste post é too creepy. Wish me better, ok?
É verdade, Slummymummy, chegaste a ler o livro? É divertido? Beijos.
Comecei a ler sim, trilogia Jade. Adivinha-se divertido. Mas depois do rapaz ostra voltei ao Eça, que quero acabar. Slummy Mummy põe as lentes de contacto na boca e depois num copo de água. Enfim uma mulher como todas as outras, que faz o seu melhor.
Desejo-te sempre o melhor. Mas achei muito bem escrito e ao ler pareceu-me um ponto de partida para mais qq coisa. E imaginei logo o meu realizador preferido para cenas macacas, o Paul Thomas Anderson, a trabalhar a partir dali, que queres. Wish you much much better! How about the yellowish allert! Nada de banhos na fonte... a não ser que haja alguém que ponha no iutubi.
SlummyMummy
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