sábado, 7 de junho de 2008

Sexta-Feira Treze

Parece que é para a semana, a sexta-feira treze. Nesse mesmo dia é Santo António em Lisboa, e uma data importante para mim, por motivos que não vêm ao caso. Dizem que a sexta-feira treze é dia de mau agouro. A minha sexta-feira treze veio a seis, antecipou uma semana certinha. Porque hoje foi um daqueles dias em que teria tudo, mas tudo, sido preferível a levantar-me da cama de manhã.
Às onze horas recebo um telefonema do meu médico assistente com uma notícia que me fez ir em pranto dar a aula do meio-dia. Literalmente em pranto. Salvou-se o facto de ser a minha turma preferida, um grupo de miúdos que roça a perfeição, professora está doente, está triste, podemos ajudar, sente-se bem, precisa de alguma coisa? Ignorem-me, por favor, escrevam o sumário e vamos corrigir o TPC. É para já, sem mais perguntas. No fim, ainda houve um que me ofereceu um balão cor-de-laranja.
Zarpa para Lisboa, em estado de choque, a inventar parvoíces, a sonhar conversas, imersa num pesadelo recorrente. Em Lisboa, mais notícias de fugir. Não está a cicatrizar, que diabo se passa aqui, que maçada, continue o tratamento que isto pior não está, esteja descansada.
Com certeza, descansadíssima. Não podia estar mais relaxada, estou praticamente em estado Zen, qualquer diferença entre mim e um monge tibetano em momento de levitação transcendental é pura (não com "r", mas com "t") coincidência.
Novamente ao volante, depois de fazer a Li apanhar grande maçada comigo a soluçar-lhe disparates ao telefone. Sinceramente, minha querida, já nem eu me consigo aturar.
Tinha que vir para a Cidade de Deus. Andei a chatear meio-mundo para me arranjar um bilhete para a ópera, e não tive coragem de não pôr lá os pés, embora a vontade de ir ao dentista ou ao ginecologista fosse, naquela altura, triplamente maior do que fazer 200 e tal quilómetros, tomar banho e mascarar-me, que isto de ir à ópera não é bem o mesmo que ir ao Modelo fazer compras de jeans e all-stars.
Fui sozinha, "sem pendura, que a vida já me foi dura para insistir na companhia". Fui sozinha e amei o espectáculo. Mas nem aí, nem aí, senhor, nem sozinha, tive sossego. Tudo o que podia correr mal, correu pior. Nem nos meus mais profundos pesadelos o cenário dantesco que se pintou seria tão temível. Salvou-se, de facto, o espectáculo em si, o corpo de baile, a voz da velha cigana, uma prece em Castelhano, o início do segundo acto, Le Grand Final. Devo ao meu avô esta obsessão pela música erudita, e era nele que tentava concentrar os meus pensamentos enquanto as lágrimas me corriam cara abaixo num diálogo amoroso com a soprano a fazer a voz chorar. Chorei que nem uma Madalena as tragédias do meu dia, as coincidências que todos nós temos no nosso destino, as agruras duma vida que todos dizem ser ainda jovem e a mim me pesa como se carregasse aos ombros a idade de Matusalém. Envergonhadíssima, que esta gente desta cidade é toda muito educada, muito comedida e muito estóica, senti as gotas salgadas a bater na mala que tinha ao colo, os arrepios espinha acima ou espinha abaixo de cada vez que um verso ou uma nota me esbofeteava a mais profunda essência, e uma vontade contraditória de fugir e desaparecer dali e de mim própria, juntamente com a oposta, de ficar, de sentir, de estar viva e em pranto numa sala escura cheia de gente conhecida e desconhecida, mas irrelevante, se tivermos em conta que estive a assistir à opera de mãos dadas com o meu avô, na altura em que a ternura dele era o meu mundo inteiro.

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