sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Monstro Verde do Ciúme

Esteve uma noite fenomenal na Cidade de Deus. Digna de um país tropical, e não houve cão nem gato a ficar em casa. Até parecia uma cidade normal, não fosse a grande quantidade de caras conhecidas a passar em frente aos nossos olhos.
Abancados na esplanada do costume, a ver passar as famílias e os grupinhos de alunos em férias, a rir e a falar alto, como sempre quando se reúnem professores, a discutir o sexo dos anjos e a dizer todo o tipo de baboseiras, a conversa virou de repente para as relações pessoais e esse monstro verde que é o ciúme. Uns diziam que não são ciumentos, e que o ciúme tem fronteiras muito ténues com a desconfiança, que é ofensiva, ou com o sentimento de posse, que é inaceitável. Anuí. Outros diziam serem ciumentos sem serem desconfiados ou possessivos, ciumentos fruto do medo e do amor. Voltei a concordar. Por fim, parecia-me que a pausa na conversa introduzia uma espécie de encorajamento à minha própria opinião. E contei a minha experiência pessoal ao longo da vida, o tipo de convivência que tenho com esse monstro verde.
Comecei por dizer que era ciumenta sem ser doentia. Uma ciumenta envergonhada de um sentimento que achava ser baixo e obsessivo, um sentimento que cresce exponencialmente desde o instante em que surge uma picadinha inocente no nosso íntimo, e nos pomos a conjecturar, e se?... não. Não? Não. Mas... se calhar, talvez... e por aí em diante. Confessei ser a pior das ciumentas. Sou ciumenta porque sou insegura, mas sou também muito racional e se há coisa que não considero justa é atirar para cima dos outros problemas que, no âmago, são nossos. Por isso sou uma ciumenta silenciosa. Calada. Entupida. Sofredora. E o monstro apodera-se de mim com uma força sufocante sem que eu seja capaz de o cuspir. Aguento com ele até poder. E tenho grande capacidade de aguentar a dor, a todos os níveis, sem que este seja uma excepção.
Ai, que horror, eu não, eu parto logo a loiça toda, eu isto, eu aquilo, eu o outro. Pois, acho bem, acho muito melhor do que fazer como eu faço, mas não me consigo controlar, por um lado, nem desabafar, por outro. Sou, de facto, a pior das ciumentas.
Mas a verdade é que as últimas relações que tenho tido devem muito à convencionalidade e há que séculos que não tenho estatuto para ter ciúmes. Ou seja, não tenho alguém com quem me sinta de tal forma una que possa, de facto, abrir o lado lunar de forma irreversível, expor os meus fantasmas e medos sem o receio, esse sim, muito maior, de ouvir, desculpa lá, mas quem é que pensas que és para me estares a cobrar seja o que for? É triste, mas é verdade. Pior que ter ciúmes, é não ter, sequer, direito a tê-los.
Por isso, hoje acabei por, numa noite fantástica, reunida com a seita na esplanada do costume, dizer em alta voz que sou a pior das ciumentas. A que não tem direito de expressão. E que, se o tivesse, provavelmente não o exerceria.

1 comentário:

Anónimo disse...

Só tenho ciumes de uma coisa. Do tempo. Queria ter mais tempo. De resto... people come and go! SlummyMummy