quarta-feira, 4 de junho de 2008

Basta

Às vezes, por piores que possamos parecer, no fundo temos muito bom feitio. Somos demasiado tolerantes, demasiado compreensivos e, consequentemente, demasiado infelizes. Passamos o tempo a justificar atitudes alheias, a dar segundas e terceiras, milhares de novas oportunidades, convencidos que a primeira impressão é a verdadeira, que as pessoas merecem a nossa preocupação, o nosso carinho, a nossa boa-vontade. Tornamo-nos escravos dos humores alheios, mendigamos sorrisos e palavras simpáticas, colamos demasiadas vezes o coração partido quando o dia é de ignorância, indiferença, apatia. Revemos as nossas atitudes em busca de uma culpa inexistente para o mau-humor de outrém, mas o que foi que eu fiz desta vez, que terei dito?
E depois há um dia, sem motivo aparente, em que dizemos basta, chega, já é suficiente, enchi, bola para a frente, não aturo mais esquizofrenias, estava enganada, não vale a pena, vira a página. Tudo em nós encolhe, enfim, os ombros, dá um grande suspiro e vira as costas. Tudo em nós, finalmente, deixa de querer saber se é dia sim ou dia não, se é dia de festa ou de velório, se somos importantes ou irrelevantes, convencendo-nos que somos, fomos, somente, irremediavelmente estúpidos. Mas que não ficaremos permanentemente assim.
E nesse momento de cansaço e alívio, voltamo-nos para o que é constante e coerente na nossa vida. Para os detalhes bonitos de nós mesmos que estavam há muito esquecidos na gaveta, para que não ofendessem ninguém. Deixamos a nossa essência fluir, goste quem gostar e doa a quem doer, pois então.
Leves, sem o peso das avaliações, dos julgamentos e dos comentários dos outros, para quem passamos de bestiais a bestas quando o sol se põe, e vice-versa no dia seguinte, bebemos um copo entre amigos ao pôr-do-sol, sem medos do que pensam de nós, e damo-nos ao luxo de rir, sorrir, conversar, dizer parvoíces, ser concupiscentes, mandar o mundo dar uma grande volta, entre um caracol comido sem palitos, e um golo de uma imperial estragada.
"Dez meses de aulas e agora é que há borgas todos os dias!". Pois é, jovem. É que faltava a Jade e a Mzinha a trocar as voltas ao sistema, a desafiar o pessoal para a vida, a fazer de demónios quando a noite cai. A Mzinha precisava, apenas, de um pretexto. A Jade precisava, urgentemente, de acordar. E para acordar, caro veterano, mais vale tarde que nunca.

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