Para ti, que de longe observas a minha vida tão de perto como eu própria, me acompanhas e sabes tudo sobre mim, que há muito deixei de te esconder seja o que for, que não te escondo sequer o que escondo de mim mesma, para ti, os teus olhos e a tua mente aberta, vai este texto cifrado, para que te entretenhas a desvendar o código e interpretar a metáfora.
O espaço influencia o homem, como diz o douto arquitecto.
A papaia entrou na minha vida com uma força avassaladora, pintou tudo da mesma cor, e não me apetecem já platonismos. Para ser sincera, não me apetecem, sequer, donuts esporádicos e doces que me enchem o estômago vazio na sua efemeridade inconstante. Estarei a crescer, ou a envelhecer, diz tu por mim.
Lembras-te quando vos chamava velhos, quando iam para casa já de madrugada, e eu queria continuar até já ser dia? Lembras-te dos tempos em que estava para casar e tudo em mim gritava por uma convencionalidade que nunca tive nem nunca foi bem com o meu tom de pele? Ainda hoje me divido entre Emily e Slummy Mummy. Qual das duas serei eu? Algum limbo entre ambas?
Em breve terei que te contar, com pormenores, uma história que te foi pincelada numa mensagem de hi5. Foi-te resumida, sintetizada, reduzida ao âmago, mas é no pormenor, no detalhe, que reside a importância. Há, claro, a questão da literariedade, da cultura judaico-cristã misturada com crenças orientais de transmigração de espíritos e almas gémeas. E há aquela história escandinava do Patinho Feio que é sempre, mas sempre, trocado por um cisne. Não era assim que acabava, pois não? Então, reescreva-se a história, em prol da verosimilhança.
Dizem que a papaia traz energia. No meu caso, a energia deu-me para isto, para reagir ao cansaço com a desistência subtil de quem sabe que perdeu, mas que não perdeu grande coisa. Emily pode ter chegado para ficar, durante algum tempo. Mas antes isso que ser a rapariga-fósforo. Ou o rapaz-ostra. Não achas?
Enfim, espero que entendas onde quero chegar, e que tudo o resto sejam delírios causados pela insónia, e pelo facto inédito e singular de ter feito duas mousses de chocolate numa semana, de estar prestes a ter duas ou três borgas quando já nem me lembro da última e de observar o tempo a passar e tudo em mim a mudar sem conseguir atribuir grande sentido à mudança ou grande destino à viagem.
Se estou bem? Não sei. Mas estou. Sinto que não estava, que não estive, que me ausentei, e estou de volta, de regresso. Não a casa, que continuo a não saber bem onde isso é, mas a mim. Andei vagueando num deserto e sinto-me, como direi, a andar em linha recta.
Muitos Beijinhos,
Jade.
2 comentários:
Depois de ler o "rapaz ostra" ( é o máximo que me consigo lembra depois de uns carapaus regados a vinho tinto...), passei numa loja onde me disseram que os móbiles expostos eram criados a aprtir do universo "timburtoniano", "timburtiano"... whatever, eram mesmo muito lindos bamboleantes ali pendurados no tecto. Dangling! Pensei, que aquela mente não tinha só uma loja, claro, tanta sensibilidade... Parvoices e lugares comuns à parte, continuo a achar que somos todos uns arrogantes quando olhamos para a nossa vida. ( estou bem disposta) Então porque é que dizemos que o tal universo é assim tão estranho?! Basta que tomemos um bocadinho de atenção à nossa vida torcida e retorcida. Nada acontece como nos pintaram ( a papaia depois de seca ficou diferente... mas continuo a gostar. ter-me-ei adaptado?!).
Tudo se altera a um ritmo alucinante e nós granitos de areia lá nos vamos adaptando e dizendo, não faz mal, depois logo resolvo.
Claro que me lembro de dizeres aquelas coisas todas e de te querer saltar para a espinha e dar uma valente palmada, por um lado porque não querias ver ninguém com cara de sardinha assada com três dias, mais do que compreensivel da tua parte, aliás, por outro, por achar que a convencionalidade te fica mesmo muito mal. Além disso também me lembro de te dizer na tua sala de estar com vista para a Fontes Pereira de Melo, onde agora já não se fuma, que não perdesses tempo com coisas que não valiam a pena. So what?
Cá estamos, muito próximas, e, acima de tudo muito mais verdadeiras do que antes. Ter trinta e alguns dá-nos isto, vontade de ser verdadeiro, não para magoar e fazer sentir mal mas para ajudar e mostrar que há mais uma via. Verde, ou não!
Espero ter feito algum sentido!
Slummy Mummy ( fat as a pig, or, better yet, a seal) vvv
First of all, honey, you're not fat as a pig, as I'm not a bag of bones. Not even a seal, in spite of seals being very nice animals. It stroke me recently that, in fact, conventions are stupid, ugly, evil things. And it also stroke me that people like you and I are enlighted, and because of that, living in shadows. Never mind. Gotta see you, gotta talk, gotta kidnap other slummy mummy. Gotta live.
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