Ontem foi um dia de doidos. Andei a levitar o dia todo, uns metros acima ou abaixo do meu corpo terreno, perdida num subconsciente que nem raciocínios articula. Parece que passei o dia envolvida em sensações, quais pinceladas num quadro impressionista.
O dia de ontem aparece-me em imagens. Nem são bem fotografias-polaroid, são quadros, alguns muito realistas, outros a dar para o surrealista, muito impressionismo e muito cubismo. Detalhes, pormenores, olhares, abraços, toques subtis no braço. A cara da minha chefe que nunca me tinha visto chorar, e provavelmente achava que nunca iria ver. O bilhete que o Pan me escreveu a dar força e a vociferar contra o destino. A Miss Covilhã a chamar-me querida ao telefone, quem diria? O Marquês de Pombal vestido de verde e vermelho. Um táxi que me ia batendo a toda a brida, quase a chegar a casa. O olhar indiferente da minha gata amuada por lhe roubar a cama favorita. O jantar que a minha mãe me pôs à frente, uma delícia.
Enquanto dava aulas aos meus alunos, ocorria-me o pensamento que, se as notícias fossem mesmo péssimas, - e os nossos maiores medos atraem os nossos piores pesadelos -, não os voltaria a ver este ano. Talvez nem no próximo. E isso parecia-me tão absurdo como um sonho que não consegues explicar quando acordas. Inimaginável. Pensava: não é possível, não acredito nisto. Não vai acontecer. E deixava os alunos sair, sem despedidas, só com o aviso de que iria faltar uns dias. "Sem despedidas, para dar sorte", como escrevi em resposta ao Pan.
Hoje foi tudo diferente. Não houve exame. O médico faltou e eu, sem voice-mail, não fui avisada em tempo útil. O meu médico assistente apanhou-me no corredor do hospital e marcou uma consulta para a tarde, não sem antes dizer, mau, estás magríssima, cachopa, não comes? E eu, como, e ele, então não andas a assimilar nada, mau sinal... e a minha mãe a ficar branca como a neve, e eu a chamar-lhe todos os nomes mal ele virou costas.
O regresso à Cidade de Deus, interminável, sob um sol quente, ao sabor de música levezinha, com a imagem da minha mãe a dizer, toda a gente te adora, lembra-te disso, e eu, nem toda, e ela, ainda bem, se não haveria algo de muito errado contigo e eu, nem toda a gente que eu queria que gostasse, e ela, pois, o Clooney também nunca me ligou nenhuma e eu não consigo perceber porquê. Rio-me com vontade e acendo outro cigarro.
Quando cheguei tinha um jantar de arepas à espera, e dois convidados VIP para as partilhar connosco. Depois de se meterem com a forma "desportiva" como vinha vestida, lá se fez a festa e se pôs a conversa em dia. As novidades do dia foram dissecadas, não posso faltar um dia, cacete?, lá contei a minha volta à senhora da asneira, e lá ouvi um amigo meu a imitar o Nuno da Câmara Pereira, melhor que o original. Cruz-Credo!
Não há dúvida que estou grata por estes dias-extra que um médico me deu de presente. Uns dias-extra de normalidade, de trabalho, de alunos e de colegas, mesmo dos que passam por mim como se eu fosse transparente ou, pior, incómoda como a areia nas orelhas quando se vem da praia. Cocem-se, pá. Até lhes consigo achar alguma graça, com aquela expressão permanentemente enjoada de quem engoliu uma mosca juntamente com a sopa. A sério.
O dia de ontem foi uma sucessão de paletas de cor forte. O de hoje, um filme em fast-forward. Onde estou eu no meio de todas estas artes, não sei. Nem quero saber. Estou a viver o momento, a emocionar-me com os vossos comentários ao blogue, a sorrir com os toques e os sms dos meus alunos, a rir-me com os discursos sábios da minha mãe, a vibrar com os pormenores que os meus amigos contam de uma escola sem mim, a saborear arepas de galinha (branca!...) e queijo acompanhadas a Monte-Velho, Coca-Cola e cigarros serão dentro. Sem antecipações e antevisões. Mais importante ainda, sem recordações. Que o passado e o futuro estão bem no seu sítio certo. À frente ou atrás. Até quarta-feira, no bónus que me deram, reine o agora, a Loucura da Normalidade, que sou privilegiada: a minha normalidade nada tem a ver com monotonia.
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