quarta-feira, 25 de junho de 2008

Jade's Anatomy

Uma das minhas séries de eleição é Grey's Anatomy. Tenho em DVD algumas temporadas e já vi os episódios tantas vezes que quase sei alguns diálogos de cor. Para dizer a verdade, mais do que os diálogos, acho violentamente dilacerantes os monólogos de Grey, que iniciam e terminam cada episódio, como se de um ciclo se tratasse. Estão cheios de frases lapidares, daquelas que puxam ao sentimento primário, sem cair na lamechice ou no lugar-comum. Estão cheios de metáforas simples, muitas vezes de cariz médico, as feridas, o sarar, o tempo, a doença, a cura, o crónico, a dor, a panaceia.
Está a passar na RTP2 a terceira temporada, às terças à noite. Já vi a maior parte desta temporada na FOX, mas hoje apanhei um episódio que ainda não tinha visto. Depois de um dia difícil, de muito stress, muitas reuniões, pouco tempo para comer e relaxar, e trabalho de responsabilidade trazido para casa, este episódio caiu como uma pérola num dia reduzido à parte mais burocrática da profissão docente.
Disse à Mzinha que não havia outra série em que fosse tão (quase) garantido rir e chorar em tão curto espaço de tempo. Rir às gargalhadas e chorar baba e ranho, depreenda-se.
O que é estranho é que me revejo em todas, todas, as personagens femininas. Sou a confusa Grey, a ácida e independente Christine, a dilacerada Izzie (sendo que me identifico com a Izzie apenas desde que Denny morreu, antes disso era-me uma personagem muitíssimo simpática mas pouco empática). Sou a insegura Torres, a solitária Addison, e, claro, a Nazi nos seus dias em que trata toda a gente abaixo de cão. A Nazi sou, sobretudo, com os meus alunos, a desancá-los como se fossem my suck-ups, mas sempre a controlar os seus problemas e metida ao barulho nos seus dramas pessoais.
É a minha hora de ilusão. Quando comprei os DVDs fiquei muitas horas seguidas a vê-los. A rir e a chorar. A suspirar e a sorrir. É tudo muito violento, quando se trata de emoções e afectos, nesta série. Tal como na vida real. Há perdas e danos, separações e reencontros, gritos e abraços, tudo à semelhança, quase um decalque, da minha vida pessoal. Frases que, retiradas do contexto, poderiam sair da minha boca, se não tivesse este horrível problema de expressão que é não articular nada de jeito, quando se trata de falar, para depois chegar a casa e me sair tudo tão coerentemente quando pego numa caneta ou olho para o teclado de um computador.
Acreditem que é uma cruz. Acho que a vida me correria muito melhor se toda a gente comunicasse por bilhetinhos. Ainda hoje, e assim, de repente, me surgem duas situações distintas em que não estive à altura das palavras certas, mas certa de que teria estado, se as pudesse ter escrito. É sobretudo quando se trata de ser realmente desagradável e incisiva, quando se trata de impor a minha razão ou a minha vontade, quando se trata de responder à altura ou de dizer umas belas verdades a quem merece, que se me vai o pio. Isto porque, se abrir a bocarra, em vez de sair a ganhar, como a Nazi, perco a razão, como acontece sempre à Christine.
Neste momento, a minha personagem favorita é a Izzie. A Izzie de cara alegre e coração partido, que diz que a dor da perda não é a "porra de uma maré, em que há uma onda mais forte, e uma acalmia, mas uma constante, um sempre, uma inerência de que não quer falar porque se tem um medo enorme de traduzir em palavras o intraduzível e com isso acabar-se tudo, acabar ela, dissolver-se ela mesma na constância da ausência" Mais coisa menos coisa.
Life's no Grey's Anatomy. Mas as semelhanças são tão pungentes, tantas vezes, que hoje o que me ocorre para definir a minha, em duas palavras, é Jade’s Anatomy

2 comentários:

Anónimo disse...

Está na altura de orientares um estagiozinho e mostrar que nem tudo são cabras...Nazi... Eheheh
Beijos frescos da nogueira vila.

Jade disse...

Está na altura de muita coisa na minha vida. Deixa-me recuperar forças e respirar fundo, que vais ver... Beijos enormes