Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
(A. O'Neill)
Embora viva a vida com este poema a ecoar nos ouvidos, há alturas que, americanista como me considero, as palavras de Thoreau me falam mais alto:
“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I have not lived.”
A vida sem viver pode ser mais segura, mas no momento do último suspiro, não quero, não quero, não, perceber que nunca vivi. Viva-se. Vivam-se amores impossíveis, não se calem palavras importantes, não se faça dos dias grãos de areia a escorrer entre os dedos do tempo. Agarrem-se oportunidades, não se escondam sorrisos, não se evitem abraços, não se contornem alegrias. Viva-se enquanto é tempo e o tempo existe em nós e dispomos dele com os que amamos. "I want to suck the mearrow of life", já há tanto dos nossos dias que nos é imposto, porque fugimos da pouca liberdade que temos de viver, por estarmos "perfilados de medo"? Se toda a gente sabe que a vida são dois dias, porque passamos um imersos em obrigações e o outro com medo de viver?
2 comentários:
Quero apenas dizer que subscrevo as tuas palavras!Temos de aprender a viver sem medo de errar`.É essa a nossa verdadeira responsabilidade.
Sem medo de errar, acredita, que muitos dos meus maiores erros suscitaram muitos dos prazeres mais verdadeiros. Por isso, há poucos erros, embora assumidos como erros, que degenerem em arrependimentos. Arrependo-me, isso sim, de muitos outros que não cometi.
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