quinta-feira, 26 de junho de 2008

Conversa ao Telefone

Hoje o dia correu sereno, debaixo de um tórrido calor alentejano, alerta amarelo na Cidade de Deus, escola praticamente deserta em rescaldo das reuniões de avaliação. Estes são dias híbridos, que não são carne nem peixe, em que se deixa de ver as mesmas caras, se muda de horários e de equipas de trabalho e, ainda assim, se cai numa monotonia atroz.
Uma escola sem barulho de crianças e adolescentes é um sítio lúgubre. Arrepia, por parecer inverter a ordem natural das coisas. Perde a luz, perde a identidade, torna-se um não-lugar.
Ainda assim, há novidades, há conversas, há colegas a entrar e a sair, a demorar pouco, ou a ficar na morrinha das palavras deitadas ao vento.
E, acreditem, estar em casa doente enquanto os outros estão a trabalhar não é o mesmo que estar de férias. Não considerando já o facto do corpo ter mazelas que, na generalidade dos casos, dão dores ou mal-estar, não tem piada nenhuma saber que a "nossa seita" continua envolvida nas teias do costume, a rir-se de graçolas de circunstância, a tentar adivinhar conspirações, a fazer outras, a resmungar ou a ir à esplanada, sem nós.
Por isso, hoje liguei ao veterano. Eu estive em casa três dias e já estava a desesperar por ter faltado a alguns eventos. O desgraçado do nosso veterano já está em casa há duas semanas, e lá na escola perguntam muito por ele, mas ninguém o quer incomodar, "coitado do rapaz", "deixem-no em paz". Deixem-no em paz o caneco, quem é que quer ser deixado em paz e não saber as novidades, quem disse o quê, onde e porquê, e a quem, e olha lá o que aconteceu, achas que foi porquê? Hoje resolvi que ia ser chata. Ia melgar. Ia meter-me onde não sou chamada e levar ao Mundo do veterano um bocadinho da coscuvilhice da Cidade de Deus. Pô-lo a pensar em coisas mais fúteis que um menisco e uma ruptura de ligamentos. Contar as últimas. Dar um bocadinho de hipótese à má-língua. Não há nada que nos faça rir mais facilmente ou sentir mais leves que desancar em quem a gente não gosta.
Espero ter ajudado. Se estivesse no teu lugar gostaria que houvesse alguém a fazer o mesmo por mim, entendes? E a arrancar-me três ou quatro gargalhadas.
Um beijinho, da (agora e por enquanto) leal conselheira.

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