sexta-feira, 6 de junho de 2008

Madrugada

Reuniu-se, em parte incerta, e data pouco clara, em hora indefinida e sem direito a senha, que a reunião era extraordinária, a Ordem da Galinha Preta, com ordem de trabalhos sigilosa e irrelevante. A verdade é que não foi cumprida, ficou por esclarecer se o secretário era o docente titular ou aquele com menos tempo de serviço e, mais ou menos a meio, lá se iniciaram os trabalhos com toda a gente presente à excepção de dois membros a faltar por motivos devidamente justificados.
É de madrugada e a reunião correu bem, como sempre, quando as pessoas envolvidas se respeitam e ouvem as opiniões alheias. As cantigas de escárnio e maldizer ocuparam pouco espaço, dado que o clima era de bonomia e alguma preocupação com o politicamente correcto, seja lá isso o que for. Até de literatura se falou, entre risos e recordações, pronúncia do norte e sotaque alentejano, conversas sérias e outras pouco aconselháveis a menores de dezoito. Andou a minha mãe a criar-me a pão-de-ló... para isto.
É madrugada e Mzinha dorme a sono solto enquanto eu fumo um cigarro, releio textos antigos, e respectivos comentários, e penso que a minha amiga insónia é persistente e não verga, nem parte, nem às custas de espumante tinto e vinho da mesma cor.
Hoje disse à Li que me sentia vazia. O vazio é um sentimento recorrente, não necessariamente triste, quando significa ausência do que anteriormente nos fazia sofrer. Mas a verdade é que, quando me sinto assim, o futuro é a derradeira incógnita e não sei o que fazer à ansiedade que continuamente me desassossega o espírito.
There's no remedy for love but to love more. (Thoreau). O que saberia ele sobre o verdadeiro amor? O que saberei eu? Pouco. Infelizmente para mim, ainda espero o dia em que possa vivê-lo sem limites, sem amarras, sem medos, em pleno. Brinco com uma situação que, no fundo, pouca vontade me dá de rir. Mas, confesso, já me apoquentou mais. Se tivesse cedido à ordem natural das coisas, estava casada e bem de vida, se calhar teria filhos que amaria incondicionalmente e sentir-me-ia muito mais infeliz do que me sinto agora, com toda a certeza.
Por isso, há que ter muito cuidado com o que se pede às entidades superiores, não vão elas estar bem-dispostas e resolver fazer-nos a vontade. Recordo, com ironia, a casa que podia ser minha, o homem que podia ser meu, e penso, ai, Jade, do que tu te livraste, o que já viveste desde aí, a longa viagem que já fizeste, a pessoa que és, hoje, vazia, sim, mas digna e de bem com a tua consciência, com o teu coração, com os teus desejos, e, porque não, com a pele que te cobre os ossos e com o corpo que toda a gente critica mas que é o teu.
Dei comigo, ultimamente, a olhar-me ao espelho com ternura. Cada lugar meu, cada cicatriz, cada sítio de mim que, a ser perfeito, teria mais carne e mais curvas. E a pensar, é isto que vêem em ti? É isto que comentam com preocupação, com pena, estás tão magra, estás esquelética, estás assim, estás assado... dei comigo a pensar, e sentir-te-ias melhor se fosses diferente? Se calhar. Se calhar metade dos meus problemas existenciais se evaporariam se fosse uma brasa. Mas, no fundo, sei que não. E, no fundo, olho ao espelho com respeito pelo que existe e orgulho no reflexo. É o melhor que se pode arranjar. É o meu cartão de visita. Não me oferece elogios, não me dá grandes alegrias, mas, feitas as contas, mais depressa sorrio com vontade quando estou a oferecer um jantar em minha casa, do que quando me elogiam o aspecto físico.
É de madrugada e fumo um cigarro. O fumo preenche o vazio. Penso na minha vida e olho com respeito o futuro que me aguarda. Que aguarda um corpo demasiado magro numa alma orgulhosa do corpo que escolheu. Levanto a cabeça e ponho um decote. Dou um sorriso a quem me sorri. E sinto-me em comunhão com a madrugada, sabendo que a manhã me vai ser adversa.
Continuo a caminhar em linha recta.

4 comentários:

Anónimo disse...

Quem é o Grão-Mestre ou a Grã-Mestra? Acho que por estas bandas as galinhas pretas deverão, a partir de agora, ter muito cuidado, porque se a Ordem se reunir muitas vezes, coitadinhas! Para os teus amigos verdadeiros interessa aquilo que tu és e não o que possas parecer. Conta a amizade, o carinho e amor que tens para dar. Sei que isto é um lugar-comum, mas não faz mal repetir! Assume o teu verdadeiro Eu, sem teres receio de pareceres piegas ou frágil.

Jade disse...

Ai, Pyppas, sei lá... acho que não escolhemos Grão-Mestre, quando se trata de fugir do dia-a-dia...
Quanto ao resto, estás enganada, sabes? As minhas fragilidades têm qua ser partilhadas com o mínimo de gente possível. Porque, acredites ou não no Príncipe Encantado, se há coisa de que ninguém duvida é da existência de muita bruxa má!!!

Anónimo disse...

Cada lugar teu merece o teu respeito e orgulho. Teres outro corpo,menos cicatrizes, more flesh to the bones poderia fazer alguma diferença.ou como dizes talvez não. acredito mesmo que somos aquilo que vamos construindo e vamos dando aos outros em cada momento das nossas vidas. e é sofrimento avaliarmos aquilo que poderíamos ser ou fazer. em cada minuto que passa temos sempre oportunidade de fazer ou ser diferente.independentemente daquilo que, fisicamente, somos ou seremos.é como se tivessemos uma lanterna que ilumina aquilo que escolhemos ser iluminado. redirecciona a tua "lanterna" (dsc a imagem!!!) para aquilo que verdadeiramente deixas nas pessoas e no tempo. estes textos sao um exemplo daquilo que tu és. e batem aos pontos qualquer cicatriz.

Jade disse...

Não desculpo nada a imagem da lanterna, que é linda, e me fez rir... quanto ao meu parco aspecto, é sem dúvida um ponto fraco, mas acredito que a minha auto-estima se há-de reconstruir assente noutras bases. Terá, obrigatoriamente, que ser assim. Conseguiste comover-me. E não é fácil. Obrigada