domingo, 1 de junho de 2008

Dias Felizes

Hoje é Dia da Criança.
Quando eu era pequena, este era o dia mais aguardado, juntamente com o Natal e o Aniversário. Eram, sempre, dias felizes, com presentes, sorrisos, beijinhos e abraços, festas, doces, amigos. Dias Felizes.
Da infância guardo alguns momentos de alegria absoluta, as férias em Sesimbra, as idas à Bertrand, à feira do livro, a Belém e à Boca do Inferno com o meu avô, o circo Chen e o cinema na companhia da minha mãe, as máscaras de Carnaval na escola, o início das aulas com cadernos, livros e toda uma parafernália de objectos de papelaria a estrear, os chocolates que a minha tia me trazia sempre, regina com sabor a morango, as visitas de estudo ao Museu dos Coches e ao Parque do Alvito, as horas a fio passadas a encenar festivais da canção, com as minhas primas, que depois apresentávamos à família, e se reduziam ao repertório completo das Doce, que ainda hoje sei de cor, as tardes passadas a ver a Inha fazer milhares de rissóis e a encher a barriga da massa por tender, os dias a fio em casa da minha porteira a fazer festas a pintainhos e coelhinhos, e a roubar nêsperas directamente da árvore, os fins-de-semana de volta da Barbie e dos milhares de acessórios que me ofereciam, ou deitada de barriga para baixo em cima da cama a ler Patrícias, Susis e Danielas. Lembro-me do dia em que o meu avô me deu uma máquina de escrever. Lembro-me muito bem do seu cheiro, do radex para apagar, das vezes em que vociferava de dor quando enfiava um dedo entre as teclas, das histórias sem fim que escrevia a imitar a Enyd Blyton e a Condessa de Ségur. Lembro-me da minha casa cheia de música clássica e Bossa-Nova, Caetano e a irmã, Cohen e Carlos do Carmo.
Dias felizes.
Hoje passei o Dia da Criança a fazer máquinas de roupa, a passar a ferro e a arrumar o quarto; ouvi música e vi um bom filme, com Javier Barden, que me arrepia sempre, me delicia e me preenche, com aquela vaga sensação de que o conheci noutra vida, talvez por achá-lo tão parecido com H., na expressão facial e na intensidade do olhar. Mas comi M&Ms, e olhei para as nuvens, a inventar-lhes formas... uma homenagem à criança que fui um dia, e fazia o mesmo, mas com smarties, sentada imóvel na varanda do quarto dos avós, ainda muito pequena mas já com saudades do futuro.

4 comentários:

Anónimo disse...

Tenho andado muito longe de ti, de todos e de tudo. Não sei porquê mas sempre que te leio encontro-me comigo e revisito-me... Já passei por todos estes lugares, dos quais me lembro com muita saudade! Peço desculpa pelo meu mau-humor, porque não mereces! Estou perdoada?!

Jade disse...

Claro que estás perdoada. O mau-humor é um gajo chato e persistente, mas acaba por se ir embora quando a gente menos espera. Eu que o diga. Beijos

Anónimo disse...

agora por nuvens em forma de coisas e bichos... há uma personagem num filme de animação sobre um pinguim surfista, que durante um concurso de surf fica deitado na prancha a olhar para as nuvens e a adivinhar formas, quando de repente vem uma onda ele levanta-se e faz o melhor set. Termina em primeiro lugar. As vezes é bom ficarmos a ver a vida a passar antes de entrar na roda.
Mais beijocas jade cor de rosa.

Jade disse...

Nunca tinha pensado que um hábito que tenho desde tão pequena poderia ter uma interpretação tão simples quanto filosófica. Sou uma apaixonada pelas nuvens em céu azul. E tenho que ver o filme do Pinguim. Pode ser inspirador, e a criança sem crianças que eu sou, ama desenhos-animados.