sexta-feira, 14 de março de 2008

Soulmate

Uma das mensagens mais bonitas que recebi há uns anos via sms no Natal dizia qualquer coisa como "Se um homem alto, gordo e de barbas te bater à porta e te quiser meter dentro de um saco, não tenhas medo... fui eu que te pedi para o Natal." É uma daquelas mensagens típicas e impessoais que os amigos mandam em catadupa, mas eu, com a minha sensibilidade artística e imaginação figurativa, voei nas asas de um sonho bom, na primeira pergunta que todos os autores fazem a si mesmo no início de cada nova história: What if... E se...?
E se pudéssemos encomendar a nossa alma gémea como presente de Natal? Gostaríamos dela a longo prazo, ou descobriríamos que às vezes o que mais desejamos é o nosso pior pesadelo?
A minha carta ao Pai Natal seria qualquer coisa deste género,

"Dear Santa,
Chamo-me Jade e tenho 32 anos. Já passei por muitos infortúnios na vida e só há pouco tempo comecei a aceitá-los e a perceber que há gente em muito piores condições que eu. Só há ainda menos tempo comecei a sentir-me grata pelo que tenho, em vez de constantemente amargurada com o que me falta. Acho que é a isso que se chama crescer. No entanto, sempre fui uma boa menina, boa filha, boa neta, aluna exemplar, amiga verdadeira e sincera, solidária, preocupada e atenta, sensível a problemas sociais, disponível para ajudar e confortar. Com o tempo perdi algumas qualidades, como o sorriso fácil e a doçura de carácter, mas estas nunca me faltaram na essência. Muitas vezes sorri sem sorrir e fui doce sem o ser, porque custa muito dar o melhor de nós e ninguém achar que o nosso melhor é suficiente. Tenho bons amigos, uma boa mãe, um bom emprego, dinheiro para as minhas despesas pessoais, uma saúde farsola mas tolerável. Queria, no Natal, um único presente. Queria uma alma gémea que me fizesse companhia até que a morte nos separe.
O meu gémeo tem que ser paciente e tolerante, mas firme e decidido. Tem que saber mandar em mim sem que eu me aperceba, ou fazê-lo de tal forma que eu não me importe. Tem que ser doce, carinhoso e muito inteligente. Tem que ter valores claros, compatíveis com os meus, e proceder sempre em coerência com eles. Tem que olhar para mim como se me conhecesse desde sempre. Tem que ser cúmplice, entender-me sem palavras e sem explicações, falar-me de amor em silêncio. Tem que gostar de me ter ao colo. Tem que gostar de me ver dormir. Tem que gostar de levar beijinhos, festinhas e abraços apertados e responder a perguntas parvas como "ainda gostas de mim?". Tem que saber conduzir bem e mesmo assim nunca me gozar ou gritar comigo porque conduzo mal. Tem que gostar de se rir. Tem que se zangar comigo sem nunca me ofender. Tem que me chamar à razão sem nunca me agredir ou magoar o mais profundo da minha alma. Tem que me ouvir. Tem que me apaziguar. Tem que me proteger, porque eu vivo sempre em pânico, embora não pareça. Tem que adorar viajar e ir ao cinema. Tem que ter outros gostos diferentes dos meus, ser independente e ter hobbies que partilhe só com os amigos. Tem que ser sempre leal, e compreender que nem sempre se deve ser sincero, que muitas vezes a sinceridade é a máscara mais fácil da crueldade gratuita. Tem que querer uma companheira em vez de uma dona-de-casa exemplar, que eu sei que nunca vou ser. Tem que respeitar os meus limites emocionais, os meus fantasmas, os meus medos. Tem que transformar o bicho selvagem que tenho cá dentro em algo domesticável, porque eu sei que isso é possível. Tem que me mimar e gostar de mimos. Tem que ter tempo para dar tempo ao tempo e esperar porque Roma e Pavia não se fizeram num dia. Tem que fazer de mim uma pessoa melhor, mais alegre e mais feliz. Não pode passar os dias a apontar-me defeitos, porque saberá intuitivamente que ninguém os vê tão claramente como eu própria. Tem que precisar de mim, porque a dependência afectiva exige-se mútua. Se souber cozinhar, melhor. Se gostar de crianças e animais, muito melhor. Pode ser pobre, mas é proibida a pobreza de espírito. Tem que ter classe, charme, sorriso quentinho, olhar ternurento. Convém que perceba de máquinas com botões, incluindo computadores que não ligam, secadores de cabelo que avariam, carros que não querem pegar e quadros da luz que de repente se apagam a meio do banho por causa do termo-ventilador. Tem que me fazer rir. Tem que me surpreender. Tem que me amar de forma a que eu acredite que isso é possível. Tem que me dar a mão quando sei que a próxima operação é para breve e tremo sem que ninguém dê por isso. Temos que estar permanentemente de mãos dadas, mesmo que estejamos a milhares de Kms de distância. Tem que transportar o meu coração no seu bolso do peito e tratá-lo com carinho. E tem que ser forte e confiante, para compensar a minha fragilidade e insegurança. Tem que me achar bonita, mesmo quando o espelho, de manhã, se tivesse voto na matéria, se auto-destruiria em 5 segundos. Tem que ser o meu herói."

Parece digno de missão impossível. BUT
"When you wish upon a star,
It makes no difference who you are,
When you wish upon a star,
Your wish comes true"

"Quando queres realmente uma coisa, todo o universo conspira para que a tenhas". A citação é do Paulo Coelho, muito pouco intelectual, mas é, certamente apaziguadora.

O Pai Natal com certeza responderia "Jade, honey, keep sending postcards. I'm working on it."
I'll be waiting.

3 comentários:

Anónimo disse...

Encomenda dois desses!
Já agora acrescentaria só mais uma coisinha: não podem ser de corda, porque distraída como sou, iria esquecer-me de lhe dar corda com certeza!
Aproveitando a Época em que estamos talvez venha dentro de um OVO de chocolate! Isso é que era! Dois coelhos numa... Se calhar não convém muito matar os coelhos!!!

Melga ;)

Keratina disse...

É oficial: mais uma utópica pró club!

Mas sonhar por enquanto ainda não paga imposto.

Vou ler mais!

bjo

Anónimo disse...

Sonhar não paga imposto, mas quando sonhamos demais, paga-se sempre uma factura: para mim, quanto mais sonhamos com uma coisa, mais nos dói não a ter. Pelo menos, comigo é assim.
E dói muito!