Um homem nos seus sessenta e muitos, setentas, combate as insónias inventando histórias. Todavia, dada a corrente de consciência natural a todos os seres humanos, a própria história, detalhes do que o circunda, barulhos exteriores ou necessidades fisiológicas intrínsecas desviam-no do seu relato, da sua composição artística, da sua criação, e puxam-no para pensamentos de outro cariz, pessoal e íntimo, divagações sobre o passado, a família, o amor, a descendência, as relações de causa-efeito, o significado da dor e do sofrimento na jornada pessoal de cada um.
Auster ao mais alto nível. Não é a sua obra-prima, mas é difícil escolher uma, de entre todas, que o seja. Nota-se que o escritor amadureceu. Os seus narradores são homens cada vez mais velhos, desde Nat, em Brooklyn Follies, a Blank em Travels in the Scryptorium, a este August, Auggie, em Man in the Dark. Todavia, os temas continuam os mesmos, apontando para a inesgotabilidade de formas possíveis para a sua abordagem literária. Como de costume, a tessitura narrativa é manufacturada com linhas de várias cores, com fios de várias proveniências, num resultado final que lembra a filigrana, ou, se preferirmos, caixas chinesas ou matrioskas russas. O autor já nos habituou, e aqui não decepciona as expectativas, à história dentro da história, às várias vozes narrativas. Também aqui se contam várias histórias, e se mantêm todas com altos níveis de interesse. Ao contrário do que é costume, têm finais esclarecedores e definidos (definitivos), mas talvez seja precisamente aí que reside o verdadeiro "statement" da obra, se considerarmos que poderá haver, de facto, uma mensagem que o autor pretende transmitir, e não apenas a fruição do objecto artístico livro.
De qualquer forma, Auster aí está, para as curvas, a lembrar-me periodicamente as razões da minha escolha deste autor para objecto de estudo e dissertação. Ninguém escreve assim. É hipnótico, é melódico, é intimista e, no entanto, tão abrangente, tão comprehensive a toda a raça humana...
E sim, li o livro todo. Todas as 180 páginas em Inglês. Numas horas valentes, a lutar contra o sono. Ao contrário de Auggie.