domingo, 30 de março de 2008

Último dia de Férias

Hoje acordei muitíssimo bem disposta, com uma alegria inexplicável, como inexplicáveis são tantos dos meus dias de mau humor. Hoje, todavia, a boa disposição ainda é mais estranha se considerarmos três factos: detesto Domingos, odeio quando a mudança de hora me rouba uma hora de sono, e este Domingo é o último dia de umas férias que forma muito, muito especiais.
E, no entanto, olho ao espelho e lá está o sorriso espontâneo. Duchinho, pequeno-almoço, net a ver se há novidades, e resolvo sair de casa.
A Cidade de Deus aos Domingos é pouco mais que meia-dúzia de gente em estado vegetativo, arrastando-se pelos poucos sítios que estão abertos, e eu gosto de ir à Praça da República sentar-me numa esplanada com um livro e ver as ressacas passar, ou à Fontedeira olhar as montras e ver as tias reformadas tomar café e pôr a escrita viperina em dia, ou à casa da S. chatear os gaiatos e adesivar-me ao almoço.
Peguei no carro, e parei no cafézinho dos Assentos, o único aberto, para um café e um abastecimento de cigarros. Ainda estava a preparar-me para sair do carro e já três antigos alunos meus me acenavam. Os antigos alunos são, normalmente, muito simpáticos comigo, agora que não têm que me aturar. "Então, professora, ainda não foi à cama hoje?" E eu, "Mau, então não vos ensinei, vezes sem conta, que não se diz a uma senhora que ela está com uma cara de meter medo?" Desataram-se a rir "Não, professora, não é isso... vem a ouvir House no carro, pensámos que estava em After Hours" Ri-me. É que cheguei mesmo a comprar o tal Cd do DJ Vibe ( e o do Jack Johnson também: uma desilusão, muito, muito monótono) e se há coisa que eu gosto é de ouvir música no carro... e vinha de janela aberta. Ainda mandaram umas bocas àcerca do perigo da música electrónica e do ecstasy, a brincar com um tema que lhes dei quando fui professora deles no nono ano, há séculos atrás. Voltei a rir-me, tomei café com eles e fui para o centro.
Há sempre gente conhecida aos Domingos nesta cidade. É um facto que às vezes me irrita, outras me conforta; hoje foi muito bom, porque pude dizer dezenas de vezes, então, amanhã lá nos vemos, não? Fez os trabalhos de casa? Vá estudar os verbos que amanhã há teste... e ouvir um coro de protestos bem-dispostos de quem sabe que o meu passatempo preferido é atazanar a paciência a adolescentes ruidosos.
E agora estou no meu sofazinho, à espera que chegue a amiga com quem partilho a casa e com quem vou para Green Acres, para esta me contar as novidades da Polónia e se rir das minhas, em Lisboa.
É o último dia de férias, o sol não brilha por aí além, mas eu trinco um chocolate e estou muito contente. Será isto, a felicidade? Alegria inusitada, contentamento despropositado, boa disposição gratuita? Vai ser uma semana muito complicada, entre relatórios, trabalhos de projecto, adolescentes revoltados com o fim das férias e mudanças de casa. Vai ser bonito, vai... talvez seja por isso que hoje "numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo". É que, muito brevemente, mal ponha os pés na sala de professores em estado de sítio, ele "descolorirá".

1 comentário:

Jade disse...

ERRATA: onde se lê "férias que forma", deverá ler-se "férias que foram"... ando completamente dislóxica, quero dizer, disléxica.