Lembrei-me agora, por motivos que não vêm ao caso, do último fim-de-semana alucinante que tive. Foi no início do mês, e mete tudo, incluindo a tão famosa lei de Murphy.
Ao longo dessa semana, choveram combinações e chamadas de telemóvel. Vinha um amigo especial de Lisboa, tinha um jantar de mulheres no Sábado, era manifestação de professores na capital, nesse mesmo dia, tinha um livro para devolver na Faculdade, na sexta, e resolvi, decidida como sou, que não ia falhar um único evento, que a minha vida não está para dar negas a convívios.
Saí da cidade de Deus a abrir e cheguei a Lisboa à hora prevista. Meto-me no metro à pressa e fico transtornada com o preço do bilhete: tinha aumentado 50% desde a semana transacta! Começo a resmungar um dos meus discursos insultuosos mudos, mas estamos onde, mas que país é este, vou pagar metade do ordenado para andar duas estações de metro, mas como é que isto é possível, onde é que anda a malta que faz golpes de estado, enfim... não havia tempo para ir a pé, e lá fui à Faculdade em transporte de luxo, à procura de hospedeiras de bordo que servissem cafezinhos e justificassem o preço do bilhete. Depois de sair da biblioteca, resolvi que nem pensar em meter-me no metro de novo, ora essa, uma mulher tem os seus princípios... em vez disso, fui a pé aos Restauradores meter-me na Tezenis... já cá faltava a loja de lingerie, mas foi exactamente nesse dia que comprei os shorts a que, dois dias depois, dei uma enorme tesourada. Mas, nessa altura, já tanta coisa me tinha corrido mal, que nem me dei ao trabalho de me irritar, ficando a olhar para eles com o ar que faz um boi a mirar um palácio, e atirando-os ao lixo com um grande suspiro. Depois regressei ao Saldanha a pé, já a fazer-se noitinha, muito contente com a minha cidade de gente variada, barulhos de metrópole e cores de Frida Khalo. O meu olhar, tipo máquina fotográfica, tirava polaroids de cenas singulares, de gente especial, daquela árvore na Avenida da Liberdade, daquele prédio na Avenida da República, transformando pessoas e lugares em personagens e cenários de uma short-story das minhas, daquelas que nunca passam ao papel.
No dia seguinte, tinha tudo controlado ao pormenor: reunião com amigos para café, manifestação de professores e ala para a Cidade de Deus, para o jantar do Dia da Mulher. Tudo a correr melhor que o previsto. Boa disposição constante, uma manifestação comovente de tão grande, reencontro de velhos colegas de outras escolas, muitas fotos, muitos abraços, muitos gritos de intervenção e quando chega a hora... Saldanha para ir buscar o carro ao parque. Pois...
Carregada de sacos, que a minha mãe inventa sempre "é só mais isto" para trazer de casa, dou de caras com ... o parque de estacionamento fechado. Eu, energúmena, fico a olhar para aquilo sem perceber que raio se estava a passar, e um senhor, está à procura das camionetas dos professores? e eu, estarrecida, ahn? e ele, é que estão todas na 24 de julho, e eu, não, vinha buscar o meu carro ao parque (mas eu tenho professora escrito na testa ou alguém me colou um autocolante de "Ministra para a rua" nas costas?), e ele, ó menina mas este parque só está aberto nos dias úteis... Fez-se luz... claro, eu regresso sempre na segunda de manhã, nem me passou pela cabeça de vento que esta treta fechasse aos fins-de-semana.
Logo por azar, tell me what's new, tinha mesmo que estar a dar aulas às 8.30 da manhã de segunda, porque trocara a aula com um colega... e vi a minha vida a andar para trás. O jantar foi-se. Voltei para casa da mamã e marquei bilhete de expresso para o dia seguinte.
Quatro longas horas depois, estava em casa, na Cidade de Deus. Passei a tarde de volta de trabalho e conversas com a minha amiga, que chegara entretanto, se ria da lei de Murphy e dizia... azar, azar, era só teres dado por isso hoje, isso é que era mau... Nunca conheci ninguém como ela, é mesmo fantástico o seu bom feitio e poder de adaptação às agruras da vida.
Às nove e meia da noite, telefona o tal amigo de Lisboa, então, pá? a minha prima já me contou tudo, grand'a maluca, és mesmo desmiolada, não existes...pensei em ir buscar-te aos expressos, mas preferi esperar que me ligasses, não tivesses tu combinado com ela, e era uma bronca. Ri-me. Eu e as minhas estrangeirinhas em que tudo parece o que não é, temos sina. Lá lhe contei, e ele, então estás cá há horas e não dizias nada, e eu, estás parvo, não tenho carro, querias que fosse ter aí como? eu ia-te buscar, tonta! e eu, pois, e andavas cá e lá, cá e lá, isso tem algum jeito, e ele, ai que idiota, apetece-me estar contigo, vou buscar-te agora. E eu, endoideceste, palerma? são quase dez da noite e amanhã entro às oito e meia! e ele, não me podia estar mais nas tintas para isso, até já.
E eu, encolhi os ombros, resignada e rendida, e perante uma colega de casa meio-estarrecida, meio-divertida, lá fui. Cheguei de madrugada, dormi poucas horas e fui trabalhar. E a primeira aula que dei, no sossego duma turma meio ensonada, soube-me ao fim-de-semana de descanso que não tive.
3 comentários:
Que bom ter amigos assim! Quem não tem irmãos ( my case) tem amigos. Amigos intimos, não tão intimos, de interesses em comum, só de interesse, interessados, amigos amigos, amigos que ajudam nas mudanças, amigos que desligam o telefone, amigos que querem saber tudo e tÊm a mania que querem saber sempre onde estamos.... tudo uma questão de contexto.
foi-te dado um presente aí na cidade de deus( uma cidade que o meu V mais pekeno diz puntalegr') ir de veraneio em Abril para os arredores. Como quando lisboa era tão grande, que se passavam férias no campo pequeno. LOL
eheheheh! Vivam amigos, viva os amigos!
Quando forem de férias podem sempre ir para os arrabaldes de Lisboa, em tempos iniciava nas portas de Santo Antão e nos dias de hoje em Santarém...
Como Lisboa se tornou pekena para os pekenos...
mirovitch
Tenho amigos-sal, amigos-mel, amigos-limão, amigos-picante, amigos-chá, amigos-valeriana, amigos-arco-íris e alguns, raros, que misturam tudo isto numa receita alucinante e explosiva. Adoro-os. É a família que me dou ao luxo de escolher e aumentar, todos os dias.
Enviar um comentário