terça-feira, 1 de abril de 2008

April Fool's Day

Sei que sabes que sim, que percorremos o mesmo espaço e tempo em diferentes dimensões. Como se eu fosse corpo e tu éter ou vice-versa, que nunca entendi bem onde tu acabas e eu começo: o mesmo átomo habitando longínquas galáxias.
Osmose. Olho para alguém que já não és tu e identifico aquilo que em ti é meu, contra-vontade nossa: um certo sorriso, um determinado olhar, um disfarçado suspiro de quem usa a máscara veneziana da comédia para esconder um rosto riscado de lágrimas e marcado por um tempo que avança lento em direcção a lugar nenhum.
De soslaio vejo alguém que já foste tu e surge-me a imagem de uma árvore e o cheiro dorido de um perfume que a memória não guarda, tatuado que ficou num âmago mais profundo de alguém que já fui eu.
Em silêncio, o mesmo olá, bons olhos te vejam, o que andas a ler por estes dias? Imóvel, o mesmo toque suave no teu peito triste.
E se não te olho, melhor te vejo, se não estás, melhor te sinto, se não falas, mais nítido te ouço, de voz suave e grave, de melancólico murmúrio de perdão. E continuamos de mãos dadas, caminhando trilhos de direcções opostas, de pés nus na espuma dos dias iguais.

2 comentários:

Anónimo disse...

My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damask'd, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress, when she walks, treads on the ground:
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.

Anónimo disse...

Soneto 130, Shakespeare