Há uns dias Vêzinha terminava um dos mails que me manda habitualmente com um "Beijos e bom recomeço de tudo (aulas, etc.)"
Uma outra colega de escola, no fim do período passsado, tinha comigo uma conversa rara, porque pessoal, no meio de uma sala de professores cada vez mais transformada em guerra fria com direito a trincheiras bem definidas, onde a conversa circunstancial abunda, deprime, oprime, e eu dou comigo a pensar muitas vezes que quase era preferível que se pegasse toda a gente ao estalo e à biqueirada, de uma vez por todas, a ver se se respirava um pouco de ar puro e genuinidade de não-afectos. Quando imagino a cena, vem-me um nervoso miudinho de cão preso à trela, a medir os calcanhares que vai morder primeiro...enfim. Nessa conversa, ela dizia-me que é importante haver em nós um botão de delete, sem direito a recycle bin.
E penso em recomeços. Estou perante um a vários níveis, neste momento. Intelectualmente, ando a recomeçar o mestrado, pela enésima vez; emocionalmente, ando a colar peças de um puzzle que caíu ao chão, e à procura das que resvalaram para baixo dos móveis; profissionalmente, está aí um novo período escolar; e literalmente, estou em mudanças, a reduzir a minha vida a meia-dúzia de caixas de cartão.
Posso dizer que sou como os gatos: mexam-me com tudo, menos com as minhas rotinas e os meus pertences. Há três coisas que me deixam verde: problemas de saúde e avarias no carro, que é ponto assente que médicos e mecânicos NUNCA fazem um trabalho bem feito à primeira; e mudanças de casa. São três chatices que me deixam à deriva, deve haver qualquer tipo de explicação cósmica para a minha aversão a estas três circunstâncias. Obviamente, todas elas me acontecem periodicamente em quantidades industriais. Um dia conto-vos o que já passei com médicos e mecânicos. Hoje, abordarei levemente o assunto "mudanças".
Há cerca de oito anos que ando numa vida de saltimbanco, comum e familiar a milhares de professores deste país; mas eu devo ser uma retardada do pior, porque não há meio de me habituar a isto. Talvez porque não sinta que tenho um ponto de regresso digno da minha idade e da minha mentalidade. Adoro a minha mãe, adoro a sua casa, os cheiros que conheço desde sempre, a minha gata, Margarida, e o meu papagaio de vinte e, serão cinco? anos, o Kicas. Este trio-maravilha é toda a família que tenho no Mundo, não contando com a família de amigos que fui eu a escolher, e bem, não desfazendo. Mas é a casa da minha mãe, é um espaço dela, com regras dela. E só há muito pouco tempo, se considerarmos que tenho 32 anos, a nossa relação se tornou pacífica. Sinto que preciso do meu espaço, e desde que estou na Cidade de Deus com alguma estabilidade profissional, que procuro um espaço, não de professor deslocado, mas de professor residente.
E tenho tido a sorte do costume. Fui tirada a ferros, um parto difícil que metaforiza (será que esta palavra existe, V.?) toda a minha vida. Costumo dizer que sou a personificação da Lei de Murphy, quando há uma ínfima possibilidade da coisa correr mal, essa possibilidade em mim é certeza absoluta. As pessoas normais transportam poucas coisas consigo, para ter um mínimo de conforto e habitabilidade no sítio onde passam cinco dias por semana. Eu carrego comigo tudo o que tenho, à excepção da minha biblioteca, que está em casa da minha mãe. De resto, desde toda a roupa em uso, aos electrodomésticos, passando pela louça e os detergentes, gadgets e artigos de decoração, pequenos móveis, alguns peluches, muitas fotografias e uma panafernália jeitosa de cds e dvds, ando sempre com tudo atrás.
Por isso, sempre que colegas solícitos dizem, "eu ajudo nas mudanças", dá-me um frio na espinha... eles sabem lá o que são as minhas mudanças... com certeza acham que são como as deles... pure misunderstanding. No way!
Desta vez, vou viver temporariamente no campo, tinha que ser uma cena absurda, para não fugir ao filme que é a minha vida. Só vos digo, já vi a casa e... um dia comento. Se se lembrarem de Green Acres e derem o desconto de não se tratar do faroeste americano, mas de um monte perdido nos arredores da Cidade de Deus, com direito ao regresso às bilhas de gás e sem direito a microondas, podem tentar fazer uma leve ideia da cara da Jade-alfacinha a olhar para aquilo e a ver-se no meio de um filme do Fellini...
Mas também vos digo, tenho a melhor vista do Mundo, e se o tempo ajudar, uma área exterior de borga e barbecue muitíssimo razoável. Diria mesmo, perfeita!
Por isso, o melhor mesmo é fazer ALT, CTRL, DEL ao tempo que passei neste apartamento de onde agora vos escrevo e RESTART, em Green Acres. E porque sou uma pessoa muitíssimo optimista... não vou tirar nada dos caixotes. E rezar para, pelo menos, não ver sombra de médicos nem mecânicos nos próximos anos.
6 comentários:
ERRATA: Onde se lê panafernália, deve, obviamente, ler-se parafernália
hi!hi!hi! Então agora temos casa no campo não? Talvez num dia de sol a nevar eu volte a Portalegre City e fique por lá a paasar uns divertidissimos dias. E espero que me sirvam perninhas de frango à la M. e que convides o senhor professor de Ginástica para comer e criticar ;)!
O Sr professor de Ginástica nunca mais veio jantar connosco, tal a falta que lhe faz a sua M de 1.5m!!!
Ah, já agora... podemos acampar no jardim? os três V?
Espero que não V... isso significaria muito mais tempo em Green Acres que aquele que me apetece lá passar...
Be-atch!Eu ofereci-me MESMO para a mudança!Isto há gentiiiinha!...E não, não estou a falar da M.
Também gosto de mudanças, ou melhor, abomino violentamente o procurar casa e a incerteza que isso implica. Tenho tido sortes e...bem, fiquemo-nos pelo "coisas estranhas". Felizmente isso vai-se acabar. Mas a Lei de Murphy...
Enviar um comentário