segunda-feira, 31 de março de 2008

Falsas Questões

A Comunicação Social entra-nos, todos os dias, olhos, ouvidos e coração dentro, muitas vezes sem passar pelos parcos neurónios que nós, atletas das "Olimpíadas do dia-a-dia", da equipa do "Vou chegar tarde, vou chegar tarde", temos, à hora do jantar, funcionais.
Por isso, apesar de ter visto o Jornal da Tarde, só à noite, quando vi a repetição da notícia da "Tolerância Zero aos Telemóveis" na ES Carolina Micaelis, desceu a ficha, e pensei, não seria mais lógico adoptar a "Tolerância Zero à Insolência, ao Desrespeito, ao Abuso e à Má-Educação?"
Mais uma vez somos hipnotizados por falsas questões. Transferem-se dois alunos de escola e declara-se guerra aberta aos telemóveis para solucionar o quê? Só se for a celeuma causada por um episódio que alguém teve a triste ideia de colocar no YouTube...
Os meus alunos. hoje, tinham muito a dizer sobre este assunto, e a questão fundamental era... ó professora, malandros não são as que as fazem, mas os que são apanhados a fazê-las...
Eles sabem que, se há coisa que me tira do sério, é a insolência. Todos eles sabem que me esforço e gosto que todos nos demos bem, mas que não hesito em intervir, nem sempre de forma calma e cordata, já que fervo em pouca água, quando há faltas de respeito, quer comigo, quer entre eles. Saio do sério com respostas tortas, bater de portas e recusas a ordens directas.
E, infelizmente, numa escola que não é, pelo que se ouve, das piores a nível de indisciplina, estas situações são muito, muito frequentes.
Irritam-me os telemóveis, sim, mas irrita-me muito mais que me desobedeçam quando peço para os desligarem ou que se recusem a entregar-mos. Que culpa têm os telemóveis das atitudes dos seus donos? Já me aconteceu o mesmo com revistas de motas, agendas, diários, PSPs, carrinhos da matchbox, peluches, enfim, todo um conjunto de objectos do mais absurdo possível, que cumpram o objectivo proposto de levar as mentes adolescentes para bem longe das regras gramaticais do Inglês. Vamos proibi-los todos?
Falsas questões.
Se se proibirem telemóveis, eles passam papelinhos em vez de sms, como nós fazíamos com a idade deles. A diferença é que no nosso tempo não havia YouTube, nem ninguém que se atrevesse facilmente a saltar em cima de um professor, aos gritos, "DÁ CÁ O PAPELINHO!"
Estratégias de escape à monotonia das aulas, meus amigos, sempre houve e haverá. O que é bom que se reinstale, contudo, é a genuína vergonha por parte do aluno que é apanhado, e o automático pedido de desculpas que eu e os meus colegas, no nosso tempo, corados até à raiz dos cabelos, pedíamos de olhos baixos, ao professor furioso que tínhamos à frente.
Nota: não resisto a uma inconfidência, fora do âmbito deste post. É com muito orgulho que já vi partes deste blogue citados noutros sítios. Ainda que o intuito seja dizer mal, bem ou mal, o importante é que se fale, que se lhe dê importância, e sou pouco sensível a controvérsias. Muito menos a maiorias. Dizia Wilde, e eu subscrevo, "Sometimes a majority means that all the fools are on the same side". Só vos peço, encarecidamente, que me citem sem erros ortográficos, quando não são capazes de escrever textos originais sem os cometer. É que todos nós temos as nossas manias...

domingo, 30 de março de 2008

Fim-de-Semana Alucinante

Lembrei-me agora, por motivos que não vêm ao caso, do último fim-de-semana alucinante que tive. Foi no início do mês, e mete tudo, incluindo a tão famosa lei de Murphy.
Ao longo dessa semana, choveram combinações e chamadas de telemóvel. Vinha um amigo especial de Lisboa, tinha um jantar de mulheres no Sábado, era manifestação de professores na capital, nesse mesmo dia, tinha um livro para devolver na Faculdade, na sexta, e resolvi, decidida como sou, que não ia falhar um único evento, que a minha vida não está para dar negas a convívios.
Saí da cidade de Deus a abrir e cheguei a Lisboa à hora prevista. Meto-me no metro à pressa e fico transtornada com o preço do bilhete: tinha aumentado 50% desde a semana transacta! Começo a resmungar um dos meus discursos insultuosos mudos, mas estamos onde, mas que país é este, vou pagar metade do ordenado para andar duas estações de metro, mas como é que isto é possível, onde é que anda a malta que faz golpes de estado, enfim... não havia tempo para ir a pé, e lá fui à Faculdade em transporte de luxo, à procura de hospedeiras de bordo que servissem cafezinhos e justificassem o preço do bilhete. Depois de sair da biblioteca, resolvi que nem pensar em meter-me no metro de novo, ora essa, uma mulher tem os seus princípios... em vez disso, fui a pé aos Restauradores meter-me na Tezenis... já cá faltava a loja de lingerie, mas foi exactamente nesse dia que comprei os shorts a que, dois dias depois, dei uma enorme tesourada. Mas, nessa altura, já tanta coisa me tinha corrido mal, que nem me dei ao trabalho de me irritar, ficando a olhar para eles com o ar que faz um boi a mirar um palácio, e atirando-os ao lixo com um grande suspiro. Depois regressei ao Saldanha a pé, já a fazer-se noitinha, muito contente com a minha cidade de gente variada, barulhos de metrópole e cores de Frida Khalo. O meu olhar, tipo máquina fotográfica, tirava polaroids de cenas singulares, de gente especial, daquela árvore na Avenida da Liberdade, daquele prédio na Avenida da República, transformando pessoas e lugares em personagens e cenários de uma short-story das minhas, daquelas que nunca passam ao papel.
No dia seguinte, tinha tudo controlado ao pormenor: reunião com amigos para café, manifestação de professores e ala para a Cidade de Deus, para o jantar do Dia da Mulher. Tudo a correr melhor que o previsto. Boa disposição constante, uma manifestação comovente de tão grande, reencontro de velhos colegas de outras escolas, muitas fotos, muitos abraços, muitos gritos de intervenção e quando chega a hora... Saldanha para ir buscar o carro ao parque. Pois...
Carregada de sacos, que a minha mãe inventa sempre "é só mais isto" para trazer de casa, dou de caras com ... o parque de estacionamento fechado. Eu, energúmena, fico a olhar para aquilo sem perceber que raio se estava a passar, e um senhor, está à procura das camionetas dos professores? e eu, estarrecida, ahn? e ele, é que estão todas na 24 de julho, e eu, não, vinha buscar o meu carro ao parque (mas eu tenho professora escrito na testa ou alguém me colou um autocolante de "Ministra para a rua" nas costas?), e ele, ó menina mas este parque só está aberto nos dias úteis... Fez-se luz... claro, eu regresso sempre na segunda de manhã, nem me passou pela cabeça de vento que esta treta fechasse aos fins-de-semana.
Logo por azar, tell me what's new, tinha mesmo que estar a dar aulas às 8.30 da manhã de segunda, porque trocara a aula com um colega... e vi a minha vida a andar para trás. O jantar foi-se. Voltei para casa da mamã e marquei bilhete de expresso para o dia seguinte.
Quatro longas horas depois, estava em casa, na Cidade de Deus. Passei a tarde de volta de trabalho e conversas com a minha amiga, que chegara entretanto, se ria da lei de Murphy e dizia... azar, azar, era só teres dado por isso hoje, isso é que era mau... Nunca conheci ninguém como ela, é mesmo fantástico o seu bom feitio e poder de adaptação às agruras da vida.
Às nove e meia da noite, telefona o tal amigo de Lisboa, então, pá? a minha prima já me contou tudo, grand'a maluca, és mesmo desmiolada, não existes...pensei em ir buscar-te aos expressos, mas preferi esperar que me ligasses, não tivesses tu combinado com ela, e era uma bronca. Ri-me. Eu e as minhas estrangeirinhas em que tudo parece o que não é, temos sina. Lá lhe contei, e ele, então estás cá há horas e não dizias nada, e eu, estás parvo, não tenho carro, querias que fosse ter aí como? eu ia-te buscar, tonta! e eu, pois, e andavas cá e lá, cá e lá, isso tem algum jeito, e ele, ai que idiota, apetece-me estar contigo, vou buscar-te agora. E eu, endoideceste, palerma? são quase dez da noite e amanhã entro às oito e meia! e ele, não me podia estar mais nas tintas para isso, até já.
E eu, encolhi os ombros, resignada e rendida, e perante uma colega de casa meio-estarrecida, meio-divertida, lá fui. Cheguei de madrugada, dormi poucas horas e fui trabalhar. E a primeira aula que dei, no sossego duma turma meio ensonada, soube-me ao fim-de-semana de descanso que não tive.

Último dia de Férias

Hoje acordei muitíssimo bem disposta, com uma alegria inexplicável, como inexplicáveis são tantos dos meus dias de mau humor. Hoje, todavia, a boa disposição ainda é mais estranha se considerarmos três factos: detesto Domingos, odeio quando a mudança de hora me rouba uma hora de sono, e este Domingo é o último dia de umas férias que forma muito, muito especiais.
E, no entanto, olho ao espelho e lá está o sorriso espontâneo. Duchinho, pequeno-almoço, net a ver se há novidades, e resolvo sair de casa.
A Cidade de Deus aos Domingos é pouco mais que meia-dúzia de gente em estado vegetativo, arrastando-se pelos poucos sítios que estão abertos, e eu gosto de ir à Praça da República sentar-me numa esplanada com um livro e ver as ressacas passar, ou à Fontedeira olhar as montras e ver as tias reformadas tomar café e pôr a escrita viperina em dia, ou à casa da S. chatear os gaiatos e adesivar-me ao almoço.
Peguei no carro, e parei no cafézinho dos Assentos, o único aberto, para um café e um abastecimento de cigarros. Ainda estava a preparar-me para sair do carro e já três antigos alunos meus me acenavam. Os antigos alunos são, normalmente, muito simpáticos comigo, agora que não têm que me aturar. "Então, professora, ainda não foi à cama hoje?" E eu, "Mau, então não vos ensinei, vezes sem conta, que não se diz a uma senhora que ela está com uma cara de meter medo?" Desataram-se a rir "Não, professora, não é isso... vem a ouvir House no carro, pensámos que estava em After Hours" Ri-me. É que cheguei mesmo a comprar o tal Cd do DJ Vibe ( e o do Jack Johnson também: uma desilusão, muito, muito monótono) e se há coisa que eu gosto é de ouvir música no carro... e vinha de janela aberta. Ainda mandaram umas bocas àcerca do perigo da música electrónica e do ecstasy, a brincar com um tema que lhes dei quando fui professora deles no nono ano, há séculos atrás. Voltei a rir-me, tomei café com eles e fui para o centro.
Há sempre gente conhecida aos Domingos nesta cidade. É um facto que às vezes me irrita, outras me conforta; hoje foi muito bom, porque pude dizer dezenas de vezes, então, amanhã lá nos vemos, não? Fez os trabalhos de casa? Vá estudar os verbos que amanhã há teste... e ouvir um coro de protestos bem-dispostos de quem sabe que o meu passatempo preferido é atazanar a paciência a adolescentes ruidosos.
E agora estou no meu sofazinho, à espera que chegue a amiga com quem partilho a casa e com quem vou para Green Acres, para esta me contar as novidades da Polónia e se rir das minhas, em Lisboa.
É o último dia de férias, o sol não brilha por aí além, mas eu trinco um chocolate e estou muito contente. Será isto, a felicidade? Alegria inusitada, contentamento despropositado, boa disposição gratuita? Vai ser uma semana muito complicada, entre relatórios, trabalhos de projecto, adolescentes revoltados com o fim das férias e mudanças de casa. Vai ser bonito, vai... talvez seja por isso que hoje "numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo". É que, muito brevemente, mal ponha os pés na sala de professores em estado de sítio, ele "descolorirá".

sábado, 29 de março de 2008

As Pontes de Maddison County

A minha entrada no hi5 neste momento é a frase de abertura de Out of Africa, "Once I had a farm in Africa"; Pyppas questionou-me se tinha estado a rever o filme, mas a citação está lá porque o meu estado actual acrescenta à citação, "... now I have a monte alentejano"!
Pyppas acrescentou que Out of Africa é um dos filmes da vida dela, e eu retorqui que, Meryl Streep por Meryl Streep, nenhum filme me causou uma sensação tão dilacerante como "As Pontes de Maddison County".
Vi este filme numa idade em que tinha certezas absolutas, convicções inabaláveis, dogmas absolutos. Tudo para mim, nessa altura, era a preto e branco, ou estava certo ou errado, ou era bom ou mau, ou era peixe ou era carne. É a já citada idade da inocência, que é bom que toda a gente tenha, porque nessas idades já bem bastam todas as outras dúvidas existenciais. O supra-sumo do escroque, então, era o ser humano comprometido capaz de uma infidelidade. Era tudo muito simples: as pessoas casavam por amor, e se se apaixonassem por outras ponderavam racionalmente e, ou se separavam, ou se afastavam da tentação; afinal, tratava-se, pensava eu, de seres pensantes, e não de bichinhos irracionais movidos a impulsos.
O filme deixou-me boqueaberta, sobretudo pela simpatia e empatia que a personagem de Streep criou em mim. Uma adúltera, digna do "A" escarlate de Hawthorne... como podia eu entendê-la, como podia eu defendê-la, como podia eu lamentá-la?
Depois cresci para aprender o que disse à Pyppas: este é um filme que nos demonstra que o amor, mesmo que verdadeiro e imortal, nem sempre é o que de mais importante existe, nem um sentimento pelo qual se deve lutar. Principalmente quando se trata de lutar contra tudo e todos. Que, às vezes, a melhor forma de honrar esse amor é não o viver, ou abdicar dele, quando valores mais altos, e sim, há valores mais altos, se levantam. No entanto, também é o filme que dá um murro no estômago à ideia generalizada, neste país à beira mar plantado, que uma mulher pode ser reduzida à sua condição de adúltera. Não pode. Nem um homem, deixem-me acrescentar, antes que pensem que isto tende a qualquer tipo de fundamentalismo feminista que não corroboro.
Aquele filme é um bocado de vida atirado à cara de uma pessoa.
Um dilema profundo e cruel, uma história simples e triste, tão simples e triste que toca todos, independentemente do estado civil... What if... e se fosse comigo?
Quando crescemos, a vida perde o preto e o branco e ganha uma paleta infinita de cinzentos. É politicamente correcto dizer que não julgamos ninguém, quando intimamente consideramos a maior parte dos que nos rodeiam seres estranhos, errantes, de atitudes perversas, de decisões precipitadas, de valores incoerentes. À nossa volta, sucedem-se os boatos de fulano de tal que tem uma amante, de senhora dona tal que transforma regularmente seu marido em veado, de gente que se larga, que se reencontra, que se perde, que se quer e não se quer, se pode e não se pode ter.
Nós somos as nossas decisões, sim, mas somos, sobretudo, a forma como lidamos com as consequências delas. Assumindo ou fingindo, mentindo ou omitindo, enganando ou magoando, lembrando ou esquecendo, eu acho que o mais importante, acima de tudo, é minimizar efeitos colaterais. Porque as pessoas esquecem os nossos nomes, as nossas caras, as nossas histórias, as nossas falhas, até os nossos escândalos... mas jamais esquecem o bem que lhes fizémos.
Streep é fabulosa. Mas a sua personagem, que levanta os óculos quando limpa as lágrimas com que chora a morte do seu grande amor, é sublime. E é sublime porque é demasiado real. Posso ser eu, podes ser tu, existe. Existe em cada um de nós quando a vida, irónica, nos apresenta uma bifurcação e nos diz... agora, escolhe. E nós percorremos um caminho, sem nunca chegar a saber o que teria acontecido se tivéssemos optado pelo outro. E preferencialmente, sem pararmos sequer para pensar nisso.

ALT, CTRL,DEL... Restart.

Há uns dias Vêzinha terminava um dos mails que me manda habitualmente com um "Beijos e bom recomeço de tudo (aulas, etc.)"
Uma outra colega de escola, no fim do período passsado, tinha comigo uma conversa rara, porque pessoal, no meio de uma sala de professores cada vez mais transformada em guerra fria com direito a trincheiras bem definidas, onde a conversa circunstancial abunda, deprime, oprime, e eu dou comigo a pensar muitas vezes que quase era preferível que se pegasse toda a gente ao estalo e à biqueirada, de uma vez por todas, a ver se se respirava um pouco de ar puro e genuinidade de não-afectos. Quando imagino a cena, vem-me um nervoso miudinho de cão preso à trela, a medir os calcanhares que vai morder primeiro...enfim. Nessa conversa, ela dizia-me que é importante haver em nós um botão de delete, sem direito a recycle bin.
E penso em recomeços. Estou perante um a vários níveis, neste momento. Intelectualmente, ando a recomeçar o mestrado, pela enésima vez; emocionalmente, ando a colar peças de um puzzle que caíu ao chão, e à procura das que resvalaram para baixo dos móveis; profissionalmente, está aí um novo período escolar; e literalmente, estou em mudanças, a reduzir a minha vida a meia-dúzia de caixas de cartão.
Posso dizer que sou como os gatos: mexam-me com tudo, menos com as minhas rotinas e os meus pertences. Há três coisas que me deixam verde: problemas de saúde e avarias no carro, que é ponto assente que médicos e mecânicos NUNCA fazem um trabalho bem feito à primeira; e mudanças de casa. São três chatices que me deixam à deriva, deve haver qualquer tipo de explicação cósmica para a minha aversão a estas três circunstâncias. Obviamente, todas elas me acontecem periodicamente em quantidades industriais. Um dia conto-vos o que já passei com médicos e mecânicos. Hoje, abordarei levemente o assunto "mudanças".
Há cerca de oito anos que ando numa vida de saltimbanco, comum e familiar a milhares de professores deste país; mas eu devo ser uma retardada do pior, porque não há meio de me habituar a isto. Talvez porque não sinta que tenho um ponto de regresso digno da minha idade e da minha mentalidade. Adoro a minha mãe, adoro a sua casa, os cheiros que conheço desde sempre, a minha gata, Margarida, e o meu papagaio de vinte e, serão cinco? anos, o Kicas. Este trio-maravilha é toda a família que tenho no Mundo, não contando com a família de amigos que fui eu a escolher, e bem, não desfazendo. Mas é a casa da minha mãe, é um espaço dela, com regras dela. E só há muito pouco tempo, se considerarmos que tenho 32 anos, a nossa relação se tornou pacífica. Sinto que preciso do meu espaço, e desde que estou na Cidade de Deus com alguma estabilidade profissional, que procuro um espaço, não de professor deslocado, mas de professor residente.
E tenho tido a sorte do costume. Fui tirada a ferros, um parto difícil que metaforiza (será que esta palavra existe, V.?) toda a minha vida. Costumo dizer que sou a personificação da Lei de Murphy, quando há uma ínfima possibilidade da coisa correr mal, essa possibilidade em mim é certeza absoluta. As pessoas normais transportam poucas coisas consigo, para ter um mínimo de conforto e habitabilidade no sítio onde passam cinco dias por semana. Eu carrego comigo tudo o que tenho, à excepção da minha biblioteca, que está em casa da minha mãe. De resto, desde toda a roupa em uso, aos electrodomésticos, passando pela louça e os detergentes, gadgets e artigos de decoração, pequenos móveis, alguns peluches, muitas fotografias e uma panafernália jeitosa de cds e dvds, ando sempre com tudo atrás.
Por isso, sempre que colegas solícitos dizem, "eu ajudo nas mudanças", dá-me um frio na espinha... eles sabem lá o que são as minhas mudanças... com certeza acham que são como as deles... pure misunderstanding. No way!
Desta vez, vou viver temporariamente no campo, tinha que ser uma cena absurda, para não fugir ao filme que é a minha vida. Só vos digo, já vi a casa e... um dia comento. Se se lembrarem de Green Acres e derem o desconto de não se tratar do faroeste americano, mas de um monte perdido nos arredores da Cidade de Deus, com direito ao regresso às bilhas de gás e sem direito a microondas, podem tentar fazer uma leve ideia da cara da Jade-alfacinha a olhar para aquilo e a ver-se no meio de um filme do Fellini...
Mas também vos digo, tenho a melhor vista do Mundo, e se o tempo ajudar, uma área exterior de borga e barbecue muitíssimo razoável. Diria mesmo, perfeita!
Por isso, o melhor mesmo é fazer ALT, CTRL, DEL ao tempo que passei neste apartamento de onde agora vos escrevo e RESTART, em Green Acres. E porque sou uma pessoa muitíssimo optimista... não vou tirar nada dos caixotes. E rezar para, pelo menos, não ver sombra de médicos nem mecânicos nos próximos anos.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Caros Leitores...

É famoso, quase internacional, o meu mau feitio.
É famoso, mesmo internacional, o meu humor oscilante, a tendência que eu tenho para a piadinha fácil e brejeira, a facilidade com que me sai boca fora uma verdade inconveniente enquanto mantenho o sorriso impassível e a rematada cara de parva com que nasci.
São famosos, e internacionalmente temidos, os meus ataques de mau génio.
Até já é famosa, infelizmente, a noção que eu no fundo só tenho "a mania" que sou má.
Por isso, vamos lá ver se a gente se entende, de uma vez por todas:
"Caros leitores,
Tenho recebido, no meu telemóvel, centenas de chamadas e sms (também é internacionalmente conhecida a minha queda pelo exagero) de reacção aos textos deste blogue. Tenho recebido milhares de e-mails, msgs no hi5, bocas em directo e ao vivo. Todo o tipo de opiniões, ai, e tal, porque escreves tão bem, ai, e tal, porque me fartei de rir, ai, e tal, porque me fartei de chorar, ai e tal, porque és tão brusca, tão dura, tão cruel, tão doce, tão meiga, tão brilhante...
Ouçam lá, minha cambada de gente demente que me lê fielmente, minha cambada de voyeurs que, curiosos, acham, têm a pretensão de, estar a ler o meu diário, oh, havia de ser bonito, havia... importam-se de parar de olhar embasbacados para o écran e pôr os dedos a mexer no teclado?
Então, e os comentários, pergunto eu. E vêm as desculpas mais parvas, isso tem que ser muito bem pensado, deixaste-me sem palavras, não sei o que dizer, já disseste tudo... lérias.
Toca a mandar palpite, pessoal, toca a emitir opinião... se não me agradar, já sabem que vos mando pastar, qual é o mal? Só não me insultem, que de insultos ando eu farta, e quero argumentos inteligentes, para variar. Se me insultarem, parto para a ignorância... e se vocês sonhassem a quantidade de palavrões que eu sei... modéstia à parte, domino o léxico português nas suas mais recônditas nuances!
Vamos lá a comentar, a botar discurso... exceptuando duas ou três almas corajosas, das quais Vêzinha se destaca em LARGA ESCALA, até parece que ninguém lê isto... o que até seria reconfortante, tanto é o disparate que para aqui vai, se não fosse, depois, confrontada com "então tu tens um blogue e não dizias nada?" Isto só a mim.
Despeço-me com amizade, como o engº Sousa Veloso do TV Rural,
Vossa,
Jade
Fui clara? Suficientemente clara? Vejam lá se tenho que vos fazer um desenho... para a cosquice estão sempre prontos, não é? Deixa lá ver o que esta atrasada mental escreveu hoje, que é que terá andado a fazer? Terá voltado à loja de lingerie? Isto não é a novela das oito, malucos!
Apre!

Adoráveis Criancinhas

"As crianças consolam-nos de tudo, excepto do facto de as termos", a citação provém de Brooklyn Follies, de Auster.
Como já disse há uns textos atrás, a minha vocação para a maternidade é nula. Praticamente nula, tem vindo a aumentar, com o passar dos anos. Mas se me perguntarem, directa e cruamente, "queres ter filhos?" tenho que me dominar para não responder um "não" imediato. As minhas melhores amigas são quase todas mães, e embora as admire, não as invejo: muito trabalho, muita preocupação, muita despesa, muito desgaste. Elas não hesitam ao dizer que compensa, com um grande, grande sorriso. E eu acredito, mas continuo a dispensar...
Anyway, ultimamente tenho pensado muito naquele chavão que tanta gente proclama do "manter viva a criança que há dentro de nós", normalmente para justificar atitudes de gente adulta que gosta de se exibir, dar espectáculo ou mostrar que é original. Olho sempre para esse cliché com desconfiança, desde que tive um namorado, aqui há uns anos largos, que tinha o síndrome do Peter-Pan do qual se servia para ser um perfeito selvagem, inconveniente, muito sincero, dizia ele, quando a verdade é que era muito cruel.
Convenhamos, se ser infantil fosse bom, não andava uma sociedade uma vida inteira a educar gaiatos, a ensinar-lhes regras e boas maneiras, generosidade e partilha, a explicar-lhes que fazer-se o que apetece é um privilégio raro e não um modo de estar na vida. Não ensinávamos os miúdos a estar caladinhos, a respeitar os sentimentos dos outros e a idade de alguns, a distinguir que há sítios para tudo, para falar alto e baixo, para dizer asneiras e ser educadinho, para se dizer o que pensa e não dizer absolutamente nada.
Eu acho triste, constrangedor, ver adultos a comportar-se como crianças como modo de vida. Acho lindo, isso acho, ver adultos a comportar-se como crianças quando estão com as suas próprias crianças a brincar, ou com as crianças em geral; acho lindo que os adultos relembrem o que de bom teve a sua infância e preservem, até certo ponto, a sua genuinidade e a sua esperança. Sobretudo, a sua imaginação, que a meu ver, é a melhor qualidade que têm os miúdos, olhar para um poste da luz e ver um mastro de uma caravela, uma pedra da calçada que é, pois está claro, o maior diamante do Mundo, e o amigo da escola que é o Batman, ou o Power Ranger, ou o cão dos Cinco. Isso sim, é maravilhoso, é mágico, é sedutor.
Agora não me venham dizer que ser infantil é maravilhoso. Porque a inocência, quando se perde, é de vez.
Que o espírito das crianças faça dos adultos seres melhores, não seres patéticos.
Todo o adulto tem uma criança dentro de si. A minha chama-se Hello Kitty. Gosta de pôr o dedo na massa de bolos. Lê livros aos quadradinhos. Dança à chuva. Gosta de colo. Prega partidas aos colegas. Ainda gosta de andar de baloiço. Fica de boca aberta sempre que vê um arco-íris... mas tem noção que é uma adulta, e não faz desses prazeres modo de vida, nem desculpa para poder fazer figuras tristes. Muito menos se orgulha de ser infantil.
O que tem piada, é que esse meu ex-namorado, que dizia preservar em si a criança que tinha dentro dele, e deixá-la falar acima de toda a sua essência de homem adulto, quando se zangava comigo, dizia... estás a ser muito infantil! Afinal, em que é que ficamos?
A minha única convicção é que não há convicções inabaláveis...

quinta-feira, 27 de março de 2008

La Perla... a porcos!

Hoje acordei armada em Atlas... com o peso do Mundo às costas. Esta metáfora genial, como não podia deixar de ser, não é minha, mas da igualmente genial V.
Acordei com a teoria de que hoje era dia anti-memória, uma religião que pratico algumas vezes ao ano, quando os pensamentos que carrego são negros e infelizes e apetece-me ser o contrário do eu. Quando é assim, faço tudo diferente do que é rotina, encarno outra pessoa e desvio-me um bocadinho para dentro de um mundo ficcional, reinvento-me, dou-me uma nova oportunidade. Tomei banho com essências que não são minhas, e com as quais não me identifico, ao som de um cd que tenho do Vinicius de Moraes que não me traz recordações porque o ouvi apenas duas ou três vezes. Infelizmente, na faixa sete ou oito, estava o Aguarela, o mais brilhante grito de Carpe Diem feito música que conheço, mas infelizmente a última melodia que precisava de ouvir hoje... lembrou-me, inclusivamente, que tenho que preparar a aula do Dia da Poesia, em que essa música pode ser um bom mote para a escrita adolescente. Irritada, tirei o cd e resolvi sair e ir comprar outro, novo, fresco. O último do Jack Johnson, aquele que quero há tanto do Gil do Carmo, ou uma das colectâneas do DJ Vibe que, no Sábado, de regresso a casa, ouvir a Antena 3 deu-me saudades dos anos loucos da música electrónica.
Saí. A minha mãe mora no centro do mundo alfacinha, no sítio que eu conheço com mais shoppings por metro quadrado e, no entanto, numa rua antiga com algumas lojas que aqui estão desde sempre, onde me chamam pelo diminuitivo, ou pelo diminuitivo do diminuitivo, e me tratam como se eu ainda tivesse 5 anos e lá fosse pela mão do meu avô. Adoro esta rua e estas pessoas, dou conta que sou uma pessoa de sorte e volta-me o grande sorriso que toda a gente por estes lados gaba. Troco meia-dúzia de palavras com uma, a quem compro tabaco, meia dúzia de palavras com outro, que me serve o café, e vou para o meu Átrio.
Tenho um sentimento de posse grande, em relação a este centro comercial; fiquei furiosa quando a lei do tabaco fez com que proibissem o fumo lá dentro, ora essa, quem é esta gente para me dizer que eu não posso fumar na minha sala de estar? Suspirei e, que remédio, cumpri. Há cinco lojas a que vou sempre, uma perfumaria, uma loja de acessórios, outra de lingerie, uma sapataria e uma livraria. Lá fiz a ronda, com o sentimento nostálgico que me assola quando sei que está para breve o regresso à Cidade de Deus, depois de uns dias de civilização. Quando entrei na loja de lingerie, automaticamente lembrei-me do Sábado de Páscoa.
Em certas coisas, a minha mãe é como se fosse minha filha, eu tenho que a controlar sob pena dos danos colaterais serem graves. A minha mãe é a eterna adolescente, e eu já nasci velha. Detesto cenas macacas, detesto ser o centro das atenções, quanto mais despercebida passar, melhor, e aquela mulher é uma força da natureza, de gargalhada estrondosa e comentário em voz alta, do absurdo ao surreal... já passei as maiores vergonhas da face da terra ao seu lado... e sempre, sempre, em centros comerciais ou lojas.
A minha mãe adora comprar coisas, eu sou aquela que faz contas, vê preços, pondera, diz seis vezes "será que eu preciso mesmo disto?", pega nas coisas, experimenta-as, raramente leva seja o que for. O contrário dela, portanto.
No Sábado de Páscoa, disse-lhe que precisava de ir à Tezenis; tinha feito o favor de, ao tirar uma etiqueta de uns shorts lindos que tinha comprado, lhes fazer um buraco do tamanho do Grand Canyon. Cuecas com três buracos... não me parece, até porque o sítio onde dei a tesourada não era compatível com qualquer ideia perversa que vos passe, de momento, pela cabeça. Quando a minha mãe disse "Boa, que eu quero ir à H&M, e assim vais comigo", eu devia ter previsto o pior. Mas, parva, lá ficou combinado, e lá fomos. A ideia era comprar uns shorts iguais e vir embora. Pois. Foi o fim do Mundo em Cuecas, como eu costumo dizer...mas desta vez em cuecas, soutiens, pijamas, baby-dolls, enfim, o fim do Mundo em Trajes Menores... Como de costume, saí de lá a bufar, com ela a rir-se ao meu lado. Costumo dizer que ela tem um encosto de palhaço, que se revela em alturas impróprias e não percebe nada de etiqueta.
Lá fomos nós, Chiado acima, rumo à H&M. Nessa altura já eu dizia... tanto dinheiro gasto em roupa para ninguém ver, achas normal? e ela, vês tu!, e eu, achas que sim? quando me visto de manhã ainda estou a dormir!, e ela, olha veste por cima das calças e da camisola, não me chateies. depois diz-me se os teus alunos gostaram. E eu tive que me rir, a minha mãe não existe. Parámos na loja do Gato Preto, da qual tive que a arrastar ao pontapé e à bofetada, e entrámos na H&M. A coisa estava a correr bem, até que eu, idiota, olho para o andar de cima e vejo um pijama da Hello Kitty. Disse, que fofo, e a minha mãe, o quê? e eu, estúpida, aquele pijama. Aí, ela bate o record dos 100m barreiras e eu já só me vejo no andar de cima, a experimentar soutiens, tangas, shorts, e olha este, com brilhantes, e olha estas com rendas, e vê estes com fitas de cetim... uma bela fita fazia eu, se pudesse e se me deixassem.
À saída a minha mãe rejubilava, e eu tinha lingerie para o resto da vida. Já nem sabia se havia de me rir ou de chorar, enquanto ela falava sem parar, no monólogo nonsense do costume. No metro, repeti a ladainha... tanta coisa para ninguém ver... e a minha mãe, suspirou, e num tom de voz dramático, diz, de repente "La Perla a porcos..."
Não sei e o palhaço dela se encostou a mim, não sei se os genes de repente falaram mais alto, só sei que tive um ataque de riso de tal alarvidade que vim do Marquês ao Saldanha num berreiro incontrolável, lágrimas a correrem-me cara abaixo e pensamentos mal estruturados de vingança, de estrangular a minha própria mãe, que dessa vez até se ria mais baixo que eu, tal o estado em que me pôs.
Por isso, hoje, quando entrei na "minha" loja de lingerie, senti o friozinho no estômago de quem vai ter um acesso de riso, uma réplica do terramoto, e saí a correr.
Para variar, não comprei nada. O que não é de estranhar, visto que fui sozinha, sem a minha mãe nem o inseparável encosto do Bozo.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Noiva em Fuga

Eu e os filmes do par Julia Roberts/Richard Gere... temos história. Sou uma perfeita anormal, só mesmo eu, para no mesmo blog revisitar Calvino e citar Oprah, citar Melville e falar nas comédias românticas de Hollywood, naquelas mais pobrezinhas, ainda por cima. Mas tal como tudo o resto em mim, também aí a contradição existe: a mesma que lê e tenta entender os clássicos, os pós-modernistas, os poetas e os filósofos, os pintores e os escultores, também vê novelas, passa sempre os olhos pelo horóscopo e ri-se e relaxa com revistas cor-de-rosa. Acho que é por isso que nunca chegarei a ser tão culta como algumas pessoas que conheço e me servem de exemplo, porque no fundo, uma parte de mim gosta mesmo de não pensar.
Voltemos ao título, estou a divagar e a violar a regra "Coerência" do meu próprio manual de boa escrita...
Os meus alunos perguntam muitas vezes porque não me casei, porque não me caso, se me quero casar. O casamento é uma das instituições base da nossa sociedade, queiramos ou não. Aos meus amigos e aos meus colegas mais próximos confesso que, se não casei aos 20, quando era inconsciente, duvido que o faça agora. E rio-me da mentira descarada que acabei de proferir, enquanto eles interpretam a gargalhada como sinal de profunda convicção do que acabei de dizer. Os casados olham-me muitas vezes com inveja. Alguns, em segredo, baixinho e a sós, dizem-me "Deixa-te estar sossegadinha, não sejas parva...". Respondo-lhes que as pessoas querem sempre o que não têm, e que se eles acreditassem mesmo que o melhor era estar sozinhos, separavam-se. Sorriem e calam-se. Todas as circunstâncias têm lados positivos e negativos, e não deve haver nada melhor no Mundo que partilhar a casa e a vida com alguém que se ama.
Até hoje, só tive um grande amor. Tive dois, mas o outro não foi, como diz a Bíblia, consumado. Perdeu-se na inocência da adolescência, faz parte de um território puro e intocável, a que não me atrevo, sequer, a voltar. Belo, de uma beleza perpétua e doce. Perfeito. Na minha fase adulta só tive um grande amor. E rezo para que a história das almas gémeas seja grande lenda, se não não terei oportunidade de ter outro. Não me casei com ele porque cheguei atrasada: quando lhe entrei vida adentro já ele era um divorciado traumatizado com o casamento, "nunca mais". Se analisar a coisa racionalmente, talvez tenha sido por aí que acabei por perdê-lo, ou melhor, que acabámos por nos perder um do outro. Chamemos-lhe H.
H. preenche a maioria larga dos requisitos da carta que escrevi ao Pai Natal em "Soulmate". Preenche ainda outros que não escrevi porque isto é um blogue para família e amigos, sim, mas também é público e há coisas que não se publicam. A minha mãe diz que H. foi o único namorado que me conheceu até hoje que fazia vir à superfície o melhor de mim. Fazia milagres com a minha auto-estima, enquanto preparava o café pela manhã (nunca mais me vou esquecer do cheiro que tinha aquele café, e do enorme sorriso que eu fazia quando este cheiro ia ter comigo à cama, e eu me levantava cedo, cedo como eu não gosto nada e tão feliz que eu era, então), enquanto me oferecia chocolates, ou me lia as histórias que escrevia em voz alta, eu deitada ao seu colo de olhos fechados e só a sua voz ocupando o meu mundo inteiro.
Foi H. que me deu tudo para que eu fosse para Mestrado, deu-me o exemplo, os meios, a casa para eu estudar, as ideias mais brilhantes para os meus trabalhos, a revisão dos mesmos; ficávamos muitas vezes até às tantas da manhã a jogar póker de dados, a comer línguas de gato e a conversar sobre história e literatura. Deu-me verdadeiras palestras absolutamente brilhantes, num tom de voz modesto, e rindo-se quando eu dizia, infantilmente, "sabes tanto..." O meu Mestrado sofreu as consequências das nossas rupturas, que a nossa relação, ao contrário do nosso amor, sempre foi intermitente. Um dia disse a alguém, muito magoada com H., depois de nos termos separado em definitivo, "comecei o Mestrado por causa dele, quero acabá-lo por minha causa". E a verdade é que está de chuva, está difícil, muito difícil. Tenho sempre milhares de perguntas a fazer a H., milhares de ideias a partilhar com ele, milhares de desabafos para os seus ouvidos, exclusivamente para os seus. É como se, a meio do trabalho, tivesse mudado de orientador.
H. zangou-se comigo muitas vezes. Muitas vezes com razão, outras sem nenhuma, assim é sempre. Mas nunca, nunca me desrespeitou. Nunca. Mesmo no fim, que não vem aqui ao caso, a maior dor que me inflingiu fê-lo a tentar proteger-me, como sempre. Mesmo no fim, manteve sempre a coerência, a convicção de que eu era tudo aquilo que ele, ao longo de cinco anos, pensara sobre mim. Fecho os olhos e ouço-o elogiar-me, acarinhar-me, incentivar-me, chamar-me à razão, apontar-me as falhas. O que ele mais detestava em mim era a minha insegurança, o meu medo, as minhas desistências e a minha inércia. Nunca se queixou, nunca, da minha brusquidão, da minha frieza ou do meu modo de ser irritante e irritado. Dava a volta aos meus maus humores com uma habilidade que até a mim me surpreendia. Fazia de mim o que queria e por nada lhe estou mais grata. Eu acho que preciso disso, que alguém mande em mim porque me apeteça obedecer, porque ache que o seu caminho está mais certo que o meu.
Foi a única vez que amei alguém. Ou antes, foi a única vez que me teria casado com alguém. Das outras vezes, sempre me comportei como a Noiva em Fuga, sempre sem chegar a pôr os pés no altar, óbvio. Não quero com isto dizer que os "amo-te" que disse ao longo da vida tenham sido mentiras, nada disso. Quando os disse, estava absolutamente convencida que eram verdadeiros; mas a análise que faço deles hoje não se compara ao que vivi com H. Foi o mais perto que estive da ilusão de Milagre e perdê-lo deixou-me tão desorientada que entrei numa espiral de auto-destruição, embarcando em ilusões em mares revoltos e naufragando necessariamente em rochas muito pontiagudas. Um dia, num fim-de-semana em que tinha que entregar uma parte da minha dissertação, vi-me, pela primeira vez, sozinha, sem H. a fazer café e a dar palpites, sem ninguém no seu lugar. Acho que nesse fim-de-semana chorei, enfim, a sua perda e os meus erros, o acreditar que aquele lugar podia ser preenchido por qualquer um que dissesse gostar de mim. Mas H. não o dizia, dizia-o muito raramente. O que H. fazia era demonstrá-lo a cada instante. O que H. fazia era acreditar em mim, como eu própria nunca consegui.
E agora, uns meses passados, entendo finalmente que este lugar não está disponível. O lugar de H., a ser ocupado, tem que ser por alguém igualmente especial, alguém que me aceite tal como eu sou e veja em mim muito mais do que eu vejo. Alguém que me fale em voz baixa, me sorria quando eu entro em modo-stress e me dê um abraço quando eu não quero que ninguém me toque.
Até lá, serei a eterna Noiva em Fuga, e responderei às perguntas dos meus alunos com o "porque não calhou, talvez um dia" do costume.

terça-feira, 25 de março de 2008

Acaso

Nada acontece por Acaso ou, pelo contrário, será o Acaso aquilo a que chamamos Destino?
Entraste na minha vida de mansinho, quase em segredo, quase a pedir licença. Nessa altura, o Mundo tinha-me caído em cima, uma queda - tão metafórica quanto literal, escadas abaixo, que arrastou muito da minha vida com ela. Lembro-me que usava um perfume que te fazia alergia, e um blusão de cow-girl com franjas de que te rias. Chamavas-me rebelde; seria?
Eras uma outsider, vivias em constante estado nómada de uns grupos para outros... já saberias, tão jovem?, que os grupos são agregados perigosos fomentadores de fundamentalismos e opressores do livre-arbítrio? Manadas, rebanhos, nunca foste disso, mesmo quando eu encontrava neles alguma segurança para a minha identidade, e me regia pelas suas leis absurdas.
Sempre estiveste lá, muitas vezes tipo espectro, silencioso e vigilante, consubstancializado em sms quando parti da nossa terra, para outra mais agreste. Outras, verdadeira presença, a acalmar a minha tristeza pelo fim da bela história que vivi num lugar distante, foste panaceia de culpas ditadas por convenções que enfim... onde estão elas agora?
Depois, houve a decepção, o semi-afastamento que causei, quando achei que tudo estava perdido, e mais valia "asno que me carregue que cavalo que me derrube"... os teus olhos demonstraram aí o que sempre foste sensível o suficiente para não dizer. Vinda a epifania, deste das ideias mais fantásticas que ainda hoje recordo às gargalhadas, "e que tal partir uns copinhos de cristal na banheira, tens a chave, não tens?"
Depois, fomos crescendo. Tu com as tuas responsabilidades do Mundo Adulto, eu, a fazer asneira sobre asneira até à actualidade. O acaso, a existir, terá gizado o ponto de viragem que se deu sob a forma de três "virar de costas amigas". Os mesmos valores que sempre te pautaram, obrigaram-te a procurar na distância as explicações que não obtinhas perto. E acho que foi aí, que a palavra que aprendi a usar muito de vez em quando, e muito à cautela, ganhou substância, solidificou.
Neste momento acompanhas-me, qual anjo protector, mas sem as parolices que algumas imagens de anjos apregoam, descansa.
Contigo, sinto que posso dizer tudo, posso abrir a alma, mesmo na sua parte mais sórdida e lunar. Pareces-me uma daquelas pessoas raras a quem nunca falta uma opinião, sem que essa se transforme num julgamento. Não fazes juízos de valor, não condenas, não queimas livros, não caças bruxas, por isso, vejo agora, tens essa placidez de quem não se culpa, por nunca culpar os outros. És incrivelmente inteligente, olhas o Mundo através duma sensibilidade inata e de uma cultura adquirida, sempre em work-in-progress. Pasmo com o que já leste, com o que reténs do que leste, com a forma como transformas a literatura em conselhos práticos, numa forma de vida.
És um ser singular. Consegues ter um humor hilariante de tão mordaz e acutilante, sem que possa nunca defini-lo de maldoso. A melhor lição que me ensinaste, até hoje, foi a não me envergonhar de quem sou, embora eu saiba que vão vir outras, igualmente preciosas. Retribuo-te com a minha presença firme, ao teu lado. Sei que durante muito tempo te magoou seres sempre tu a procurar os outros, nunca a ser procurada; isso terminou. A tua tristeza, leve, como tu, surgida da sensação de ninguém precisar da tua presença, ninguém se lembrar de ti, pode, enfim, passar. Porque eu lembro, eu preciso, e a inércia que há em mim pode fazer-me falhar, vai, certamente, fazer-me falhar, mas não a minha presença constante, essa veio para ficar, enquanto a quiseres, e se o rumo que levamos não mudar, sei lá, desaponto tanta gente...
Esta é uma fase algo sombria na minha vida. Mas não finjo mais ser solar, não preciso de fingir que estou muito divertida ou muito feliz por me envergonhar de não o estar, isso ensinaste-me tu.
Ensinaste-me que há razões, nesta vida, para escondermos o que sentimos e o que passamos de gente que nos quer mal; mas também que há momentos em que essa gente que nos quer mal deixa de nos incomodar. Aí somos genuínos, admitimos que sofremos, que nos tocamos, que nos sentimos, que nos magoamos, irritamos, enlutamos e vivemos as nossas decepções e as nossas mágoas, para um dia, sem pressas, sem ser já num próximo fim-de-semana numa qualquer farra arranjada à pressão, um dia, finalmente, vermos a verdadeira luz ao fundo do túnel.
Enquanto ela não aparece, é em ti que eu penso, com uma vela na mão, a alumiar-me o caminho.
Jamais estarei só. Jamais te sentirás inútil e abandonada por mim outra vez. Faço questão de cuidar bem do carinho que ofereces a tanta gente e tanta gente ignora. A minha quota parte está bem guardada no meu bolso do peito.
Sempre aqui, e sempre grata,
Xana. (Gosto muito, muito da Jade, mas quem te fala sou eu)

segunda-feira, 24 de março de 2008

E Ainda a Literatura Japonesa

"Por isso preocupo-me tanto com a igualdade e a justiça como qualquer outra pessoa. Mas aquilo que mais me desgosta são as pessoas que não têm ponta de imaginação. Aqueles a quem T.S.Elliot chama The Hollow Men. As almas que preenchem sem piedade a falta de imaginação com pedaços de palha seca, sem terem sequer a consciência do que estão a fazer. Pessoas insensíveis que te lançam à cara palavras vazias de sentido, tentando obrigar-te a fazer o que não queres (...)
Mas tens que te lembrar de uma coisa, Kafka. Foram precisamente essas pessoas que causaram a morte ao namorado da juventude da senhora Saeki. Mentes limitadas, desprovidas de imaginação. Intolerância, teorias desfasadas da realidade, terminologia dogmática, sistemas rígidos, essas é que são as coisas que realmente me assustam. É isso que eu mais temo e mais detesto nesta vida. Claro que a questão de saber o que está certo e está errado é muito importante. Todos nós cometemos erros de julgamento que podem eventualmente ser corrigidos. Desde que tenhamos coragem para reconhecer que errámos, as coisas podem compor-se. Agora, espíritos tacanhos e intolerantes, sem imaginação, são como parasitas que transformam o hospedeiro, mudam de forma, sobrevivem e vingam. São uma causa perdida, e eu não quero vê-los aqui por perto"
Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, pp232-3

Seis Propostas para o Próximo Milénio Revisited

Italo Calvino, na sua obra Seis Propostas para o Próximo Milénio apresenta os grandes vectores pelos quais se deve orientar um escritor que se queira interventivo e eficaz. O livro é muito bom, como excelente é o exemplo que Calvino dá, finda a teoria, na sua própria ficção. As suas propostas devem ser lidas atentamente por todos os que queiram sobre elas reflectir um pouco, antes de se auto-definirem como escritores... regressem ao texto Jade, Sweet Jade depois de ler a obra de Calvino e talvez entendam porque é que sempre tive tantas reservas aos elogios à minha escrita: não é falsa modéstia, é muita leitura de escritores dignos desse nome...
Tenho, no entanto, lido tanto disparate, tanta parvoíce, que me proponho aqui a revisitar as seis propostas de Calvino. Chamemos-lhe Seis Propostas para Principiantes. O título, desde logo, está mal escolhido, entra em aliteração e não se querem recursos de estilo em texto científico, mas vá... é para principiantes...
Um - Coerência. Um texto deve ter um objectivo preciso, ser coerente e cumprir esse objectivo. Se se pretende um texto laudatório, quero dizer, um elogio, por exemplo a um grande amigo ou a alguém que já morreu, esse texto perde completamente a força quando intercalado com fel, pus, vómito e matéria verde, os quatro pilares do ciúme gratuito e do consequente ódio patético .Ver neste blogue "Literatura Japonesa" e "Conversas de Sofá".
Dois - Humildade. Qualquer texto passa a ser anedótico quando se usam expressões como "tenho uma vasta cultura..." É que até pode ser verdade, mas cabe sempre aos outros avaliar. E há sempre leitores com culturas e saberes mais vastos que os nossos, que vão rebolar a rir. É imediatamente a desacreditação do autor.
Três - Correcção Linguística. A gralha admite-se, o erro ortográfico e a óbvia falha de concordância, o pronome reflexo repetidamente mal usado, proibitivos. Quem escreve com a convicção de que está a contribuir com algo para quem lê, tem que ter conhecimentos linguísticos que sustentem tal presunção. Se não, o melhor e "acanhar-se", "ter vergonha", ou como diz o meu orientador, "ir estudar".
Quatro - Selecção de Imagem. Qualquer imagem ilustrativa deve ser isso mesmo, ilustrativa. E, de preferência de bom gosto. Este "bom gosto" é discutível, obviamente: porque se gostos não se discutem, discute-se o quê? Se gostos não se discutem, pelo menos, lamentam-se.
Cinco - Estilo. Um texto deve ter classe, acrescentar algo, ser original. Meia-dúzia de chavões e lugares-comuns não distingue um texto de uma lista de compras.
Seis - Tal como na obra de Calvino, este fica em branco. Que o douto leitor pense nisso, e elabore por si a sexta regra, fruto da sua própria originalidade e excelência, para que cada escritor tenha em si mesmo algo de único.
O Governo adverte que o uso de expressões como "Gosto de ti como Quem Gosta de Sábados" e "Engraçadinho", podem ter consequências nefastas na saúde mental de cidadãos mais frágeis, desencadeando reacções alérgicas despropositadas e perigosas, plenas de efeitos secundários auto-destrutivos. Se possível, usá-las com moderação.

domingo, 23 de março de 2008

OK, Do You Want Something Simple?

A verdadeira felicidade: querermos, ao morrer, reencarnar como nós próprios. Foi Oprah quem o disse. Podems olhar os americanos com suspeita, mas parece-me que esta frase, vinda de um ícone do sonho americano, vale por um tratado formulado pelo top-ten dos mais brilhantes filósofos hoje vivos.

Páscoa 2008

Depois do jantar de ontem e da conversa no café Marroquino, vim para casa já tarde e estive até desoras a recordar os ambientes que partilhámos, os cigarros...horrorosos, já sei, grande ingrata, e o quase cachimbo (caximbo, pois) de água, tentador, tentador... as velas, os candeeiros bola, os bules a entornar chávenas, as conversas sobre os cães, quadrúpedes e bípedes, os conselhos masculinos, os femininos, os assexuados, as verdades inquestionáveis, as hipóteses, todas tenebrosas, como tenebroso tudo o resto, as gargalhadas, os suspiros e os meios sorrisos.
A vida é rica, faz-me bem; gosto de a partilhar contigo, convosco, de vos confessar os meus erros e as minhas dores, o meu medo, a forma que tenho de não me calar a tempo e continuar à espera que o que digo não seja usado contra mim... para sempre o ser, mas também, que importa, porque a derradeira ironia das amizades de 20 anos foi a que vos expliquei ontem, à luz das velas, com a voz da Sherazade a falar ao Sultão, e o vosso olhar atento com a expressão serena de concordância, de claro, claro, é exactamente isso.
Contudo... a maior ironia está ainda por vir, a possibilidade real da fama se transformar, enfim, no proveito, e algures um par de braços me apaziguar em breve corpo e alma, um certo olhar me dizer "És tu e já o sabes desde que nasceste. Porque demoraste tanto?", "Andei perdida, ao tropeção e ao pontapé, mas aqui estou", um determinado sorriso me acolher num beijo há muito esperado e que já tarda. E poder dizer-lhe tudo aquilo que já outros ouviram e só um soube respeitar, até hoje. Contar-lhe tudo, de fio a pavio, e ter como resposta um abraço, aquele que eu mereço, um "já passou, princesinha" e uma promessa de poço sem fundo, no caso de algo correr mal.
A última ironia, ter o proveito da fama criada, e ser a melhor coisa do Mundo. Porque acreditem, sinto que está para muito, muito breve. Aliás não sinto, sei. Os sinais estão aí, há contactos e agitações, todo o universo está a conspirar por mim.
É a hora!

sexta-feira, 21 de março de 2008

Mais Literatura Japonesa

A propósito de Harukami, estou a ler Kafka à Beira-Mar... o segundo, depois do inigualável amigo Pássaro de Corda (A Crónica do Pássaro de Corda, que aconselho vivamente e que já usei neste blogue para escrever um texto ao P.).
Adoro Auster, toda a gente que me conhece sabe. Também adoro Woolf, Cunningham, Joyce, tenho esta preferência profissionalmente induzida pelos autores anglo-americanos. Mas este japonês, minha nossa senhora, enche-me as medidas. É uma mistura de Kafka, Woody Allen e Gatos Fedorentos. Cenas hilariantes, e outras nos limites do absurdo, à mistura com um realismo gritante, cinematográfico, onde vemos as caixas torácicas das personagens subir e descer, ao ritmos das respectivas respirações.
Uma das frases do livro -comecei hoje e li umas 90 de um total de aproximadamente quinhentas- diz algo parecido com "são os encontros casuais que nos fazem andar para a frente"; outra, um lema samurai, diz "vive como se já estivesses morto; assim, já não há nada a temer". Falando em casualidade, foi o acaso austeriano que me fez pegar neste livro. Estou em mudanças, o Pan anda preocupado comigo, e falar com ele mais do que é habitual fez-me ir desencantar o presente que a minha mãe me ofereceu na Páscoa do ano transacto. Precisava de mergulhar num Mundo Paralelo, num Mundo Ficcional novo, que o real estava, sobremaneira, a nausear-me. Congratulations, Mr. Auster, you won again: o acaso fez com que pegasse num livro cheio de humor e tiradas brilhantes, que me tocaram intensamente, como se o autor começasse o texto por "Querida Jade". É um livro sobre força interior; um rapaz de quinze anos quer ver-se livre, liberto, só. Quer assumir o seu eu, emancipar-se duma sociedade que só lhe apresenta juízos de valor tradicionais e convencionais, que o critica, o oprime, o questiona continuamente.
Céus, Jade, que bem te fez pegares no japonesinho Harukami. E resistires à imensa parvoíce que é responderes a perguntas que exigem da tua parte explicações que não tens que dar, quando na ponta dos dedos tens as respostas às grandes questões maldosas que te põem, respostas simples, óbvias, directas e genuínas, brutais e cruéis como tu sabes ser. E no entanto, "vive como se já estivesses morto". Todas as discussões são inúteis, quando se ultrapassam os limites dos pontos de vista. E embora um leve nervoso miudinho em mim me tente solenemente, uma irritação endógena de quem se sente agredido no seu carácter, de quem quer saltar em defesa dos amigos que tem, apelidados de atrasados mentais, da cidade onde vive e ficou por motivos bem mais profundos que um concurso de professores, embora tudo isso grite, e a menina de sua mãe queira sair em defesa própria e de dezenas de outréns (esta palavra não existe), Harukami sussurra-lhe: "Não há nada a temer"; prossigam os insultos, Jade faz silêncio. "Vive como se já estivesse morta", confiando que quem de direito continuará sempre, venha quem vier, a confiar no seu bom carácter, ainda que este venha vestido com o seu mau feitio.

Primavera!

Chegou a Primavera, nem de propósito, com um glorioso dia de sol.
Hoje, sorrio, alegre, com aquela alegria infantil que nos invade quando cheira a calor, a flores, a promessa de dias grandes, coloridos, agradáveis, de esplanadas, de caminhadas, de jantaradas.
Hoje é Primavera, e a natureza renova-se, eterna fénix saída das cinzas.
Hoje chegou a Primavera, é dia da Poesia e faz anos a Miss Covilhã, Parabéns, menina-mulher, rapariga da meteorologia e da geografia, confidente embirrante e responsável, ser que gosta de ter sempre tudo sob controle, e tem. A Pêlo Russo também está por aí a nascer, não tarda. Quiri, Quiri, Quiri, Qui...
Hoje é Primavera. E eu acredito em milagres.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Literatura Japonesa

Senhor Pássaro de Corda, quem te abandonou no fundo do poço? De que me falas, May, sabes bem que foste tu. Mas eu não queria, era outra a minha intenção, não abandonar-te, mas dar-te espaço para que te encontrasses, que vês? Escuridão. A mesma que eu vejo, quando olho as perucas, a mesma que eu sinto, quando olho ao espelho e já não sou May, mas Creta depois da violação; que sentes? Um braço partido e toda a dor do Mundo. Também eu era assim, antes. Será preferível a não sentir absolutamente nada? Sou May, novamente, e de bikini castanho abro uma cerveja e bebo à tua. Que a escuridão se transforme numa paleta de vermelhos e negros, para que pintes um capuchinho escarlate escondido de um enorme lobo que ronda. Onde estás, May? Estou fraco e tenho sede. Bebe Manga, vê quadrados, ganha forças na Cidade de Vidro, procura-me no espaço que fica no segundo exacto em que adormeces, no hiato entre o sonho e a realidade. Só tu para me fazeres sorrir, May. A mim, esse papel está entregue à família-pato, horas a olhá-los e a descobrir novas nuances nas suas penas, nas minhas penas, sorri, Senhor Pássaro de Corda, sorri enquanto a vida passa e não fazes nada dela, obcecado como estás em fazer tudo ao mesmo tempo. Sorri enquanto pedes para voltar a nascer e desta vez de geração espontânea, sem amarras, sem laços, sem pais nem filhos, nem resposabilidades, nem compromissos, sem sítios de onde vir, nem lugares para onde ir. Sozinho em lugar confinado, o homem descobre o mais profundo do seu ser. E as paredes do poço são agora o corpo do qual a alma és tu. Uma alma de artista, pincel em punho, caneta em riste, chuva de estrelas de caricaturas e ilustrações. Queres um chocolate? Talvez um batido de atum? E volta o turbilhão de culpas, em que o riso escarninho apaga a dor que é não se sentir nada. A neve negra bate na janela e ela está em posição de feto, com uma única lágrima a riscar-lhe o rosto, finalmente em paz. A banda sonora é escandinava. E nas paredes do poço, pulsa uma alma, demasiado cansada para emitir um som. E May confia no cansaço e na escuridão. Da crisálida se fez borboleta. Num filme qualquer, três histórias se entrelaçam. Fora da tela uma amizade nasce, surreal, em espaço incerto, em lugar intemporal. Como um cacto, regado muito de vez em quando, subsiste. Obrigada, Senhor Pássaro de Corda, por seres poço, tela, chocolate, história, música, filme.