quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Saudades?

Não sei se tenho bem saudades, mas aqui, do fundo do poço, lembro-me da época em que em setembro alguém perguntava, então, como é que vai ser a passagem de ano, olhem que já não temos muito tempo para organizar as cenas... toda a gente se ria e barafustava e gozava com a vítima, e começava a pensar na festarola que durava quatro ou cinco dias num destino longe de Lisboa. Foi assim uns seis anos, e eu não sei se tenho saudades. Acho que gostava de ser parte de um grupo que sem mim não era a mesma coisa. A minha identidade, na altura, passava por ali, e existia, não era um punhado de estilhaços, como agora. Tive um convite para a festa de passagem de ano. Um convite generoso e simpático de uma pessoa vinte estrelas. Veio de um sítio inesperado e comovente e eu, precisamente este ano por todas as razões do mundo, estou-lhe imensamente grata. A Mzinha convidou-me também, ou melhor, eu adesivei-me à passagem de ano dela em maio ou por aí, para desistir em agosto, internada no hospital a ver a vida a andar para trás e a não arriscar cá planos com antecedências superiores a 24h. E posto isto, nada. É um bom barómetro do ano, esta noite sozinha em casa, porque não deixaria a minha mãe, claro, mas por falta de alternativa confortável. Não deixa de ser triste mas ao mesmo tempo muito didáctico. Na verdade, sempre me disseram que eu não me dava o valor necessário e suficiente e que a minha autoestima deixava muito a desejar, mas acho que as pessoas falam demais de cor de coisas que não percebem nada. Sempre achei que era justa comigo mesma. Não gostar de mim é completamente diferente. Isso é o que sinto de há umas semanas para cá e posso garantir que não é bonito, mas é totalmente diferente do que sempre fui eu.

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