terça-feira, 3 de novembro de 2015

Solidão

Como diz um amigo meu, a gente "afeiçoa-se" às pessoas. E depois elas partem e deixam um vazio enorme, e perguntamo-nos milhares de vezes como poderíamos ter evitado que nos virassem as costas, em que poderíamos ter sido melhores, onde é que teríamos metido a pata na poça, que diabo teria corrido mal quando tínhamos feito tudo, mas tudo mesmo, para demonstrar o nosso afecto. 
E estas perguntas atormentam-nos dia e noite e fazêmo-las às paredes brancas, às portas fechadas, ao nosso cão estupefacto, às palmas da nossas mãos a segurar o rosto em pranto. E isto acontece sempre que estamos sós, escondidos, recolhidos, sem que ninguém saiba, sem que ninguém veja, sem que ninguém suspeite, semanas a fio. Onde antes era a companhia, agora sobram perguntas e auto-recriminações. Relemos mensagens trocadas, obsessivamente buscamos respostas e explicações, achamos que vamos morrer ou, pior, enlouquecer, consideramos hipóteses realistas e outras completamente desesperadas, como largar tudo e desaparecer. 
E ninguém te pode valer, porque quando sais à rua, estás igual, até tens bom aspecto e ninguém sabe o inferno em que vives todos os dias, a cada momento em que sorris ao pedir um café e só te apetece gritar, morrer, acordar noutro planeta, todas as hipóteses ou nenhuma das anteriores. As pessoas partem e não fazem ideia do que deixam para trás.

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