Nada acontece por acaso é um daqueles clichés que me tira do sério: sou adepta do contrário, tudo acontece por acaso e, tal como há coincidências felizes, há outras que são uma trampa. Acontecem coisas más a pessoas boas, sem razão nenhuma. Nenhuma. Se depois disso, as pessoas têm vida para retirar daí lições, melhor para elas, mas há lições que não há necessidade nenhuma de aprender e as boas pessoas não precisam para nada de saber o que dói uma quimioterapia, a angústia de ficar sem cabelo, viver sem poder comer as coisas de que mais gosta ou não poder acompanhar os amigos no que lhe apetece. Reservavam-se essas lições para os filhos da puta, não era?... e talvez assim eu dissesse que nada acontece por acaso e que sim, afinal sempre existe um deus.
Isto porque estive dez dias internada no hospital e é óbvio que aprendi muito com isso. Aprendi, por exemplo, que, ao contrário da última década, em que entrei e saí de hospitais sempre sozinha, ter companhia é bom. E por companhia incluem-se as visitas, sim, que aprendi a tolerar, mas que detesto, detesto, porque me dão uma sensação horrível de descompostura e vulnerabilidade que eu odeio, numa obsessão felina que me faz engolir tantas vezes a dor e mascará-la de mau feitio, ninguém tem nada que me ver chorar, suar, gemer, gritar, ninguém e muito menos os meus, as visitas, dizia eu, mas sobretudo a presença espiritual e emocional de tanta gente que ligou, mandou mensagens, deixou recados, apareceu, deu presentes, abraçou, beijou, esteve. Aprendi a gostar de surpresas porque de facto, nestes dias, as surpresas foram boas, e foram muitas. Quem não esteve, não surpreendeu, não tive uma única decepção, não. Quem não esteve, não fez falta nenhuma. No início contabilizei as falhas, mas com a catadupa das presenças, algumas tão improváveis, percebi, finalmente, outro adágio que tanto me irritava mas ao qual tive que me render: só faz mesmo falta quem está.
1 comentário:
Friendship multiplies the good of life, and divides its evils - Baltasar Gracian.
É esta a quote - na voz do Derek - no fim de um episódio de Criminal Minds. E eu acredito, pratico, desde sempre, nisto. Outra forma não faz sentido.
Mas sim, bem verdade, só faz falta quem cá está. Mesmo que muitas vezes o coração parvo nos tente convencer do contrário.
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