sexta-feira, 18 de abril de 2008

Momento...

Há momentos surrealistas na vida de uma pessoa, momentos em que nos perguntamos que diabo de força superior mexe os cordelinhos para nos fazer dar de caras com um desconhecido que parece ficção. Nada do meu dia de hoje estava previsto quando acordei.
A ideia era encarar de frente o primeiro fim-de-semana sozinha em Green Acres e fosse o que Deus quisesse, entre mini-testes de Verbos Irregulares e as palavras sussurradas do meu Auster, com um CD em pano de fundo e várias viagens à Cidade de Deus, para compras, cinema combinado com alguns alunos, Sweeney Todd, e uma ida à Disco ouvir House hoje ou amanhã com F.
Cheguei à escola e dei de caras com um drama da vida real, uma colega cuja irmã está a dar o último suspiro, a 5oo e tal Km de distância; o desespero de não conduzir um carro e não ter boleia que lhe garanta a chegada a tempo de uma derradeira despedida, um último beijo, um grande abraço para a viagem, um até breve, lá nos encontraremos. E outra colega, nascida. criada e residente na Cidade de Deus, que, a meio da manhã, diz, que se lixe isto tudo, vou-te lá levar e é já. Estas são coisas que me deixam sem palavras e me fazem vir lágrimas aos olhos. É uma lição de vida, a todos os níveis, é uma quantidade de sentimentos intensos atirados como um estalo à cara de uma pessoa; tremeram-me todos os alicerces, por todos os motivos, pelo desespero dum amor fraternal, pela saudade da partida de um ente querido, pela profunda bondade e generosidade de alguém que sai do seu mundinho para fazer 1000 e tal quilómetros num só dia, porque sim.
Quando me falam de Carpe Diem, já faço um sorriso de troça, como aquele que faço a todas as modas parvas, tipo, já cá faltava o Carpe Diem... carpe noctem, pá, ide-vos lixar. Nunca fui uma obcecada com o aproveitar do momento, isso para mim são chavões e lugares comuns. A vida é difícil, pesa, é cheia de obrigações e deveres, de listas de coisas para fazer, de más notícias, de problemas... qual carpe diem, qual história. Aproveita o momento, pois, aquele momento em que chegas cansado do trabalho e tens pilhas de loiça para lavar, e o teu filho está doente e tens que ir às urgências de um hospital repleto de gente cheia de dramas e dores, sim.
A minha noção de Carpe Diem é uma noção altruísta. Quero lá saber se morro amanhã, e não vi Nova Iorque, não me casei nem tive filhos, perdi o amor da minha vida e nunca o recuperei; quero lá saber se morro amanhã e não acabei o mestrado, nunca tive casa própria, nunca me realizei emocionalmente... morri, morri, acabou, fiz o melhor que pude com o tempo que me deram, conheci gente maravilhosa, fui conquistada por vários olhares, diverti-me, apaixonei-me, amei, sofri, tal como toda a gente. A minha noção de Carpe Diem é aproveita o momento com os que amas. Isso sim. Jamais ficarei obcecada com o que não fiz, mas arrepia-me que os meus me faltem, de repente, como a irmã da minha colega parece estar prestes a fazer.
Por isso, não gosto de me zangar com os que amo. Por isso, gosto de elogiar os que me são queridos, gosto de pedir desculpas, gosto de lhes agradecer, gosto de os mimar e lhes oferecer presentes, gosto de saber como vão, como estão, o que pensam, sentem; gosto de os consolar quando precisam ou celebrar as suas vitórias ao seu lado; gosto de os beijar, de os abraçar, de os lembrar que gosto deles. As pessoas que escolhi para estar perto de mim têm que ser tratadas como se não houvesse amanhã. E o que vale é que são poucas.
Por isso, não me prendo facilmente a alguém novo... é uma grande responsabilidade; por isso, sou parca nas palavras com quem acho que não as merece; por isso, gasto muita energia a manter-me em vidas que não me procuram frequentemente, amigos distantes e preguiçosos, mas que eu amo, mesmo assim. Por isso, hoje peguei nas minhas coisinhas e vim para Lisboa, dar um grande abraço à minha mãe. Porque eu posso morrer amanhã, mas os que eu amo também não duram sempre, e eu já perdi um a quem dei tudo de mim, e mesmo assim ainda hoje o choro.
Fiz a viagem com uma leveza triste, tentando não imaginar o que a minha colega estaria a sentir nesse mesmo instante.
Quando vinha do parque de estacionamento, carregadíssima, um rapaz ainda jovem, mas mais velho que eu, interpelou-me, permita-me que a ajude... não perguntou se podia ajudar, tirou-me o saco de viagem dos ombros e seguiu ao meu lado. Em silêncio. E eu, muito obrigada, mas o caminho é curto, e ele, é um prazer. Eu sei que não tenho grande figura, sou escanzelada, e a minha imagem carregada de sacos de viagem não deve estar muito longe da da mula da cooperativa, mas não estava à espera desta. Sorri, e assenti. Quando parámos à porta voltei a agradecer e ele disse, quando a vi, veio-me à cabeça aquela música dos U2 que diz, a certa altura, "A woman needs a man, like a fish needs a bicycle..." Eu sorri e disse, como vê, não é bem assim... e ele, pois não, boa tarde. E foi-se embora.
Há momentos reais que parecem ficção e detenho-me a pensar que tudo acontece por algum motivo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Cá para mim o rapaz sabia bem o significado da frase... Afinal, para que precisam os peixes das bicicletas, se nadam? Só que um anjo é um anjo e este apareceu para ajudar. Beijinhos lisboeta leta leta.

Jade disse...

Exactamente... o que os U2 dizem é que as mulheres não precisam dos homens para nada. E, no entanto, não é bem assim...