sexta-feira, 18 de abril de 2008

Poema a M.

E quando tu abriste esses olhos azuis ao Mundo,sabes,
E berraste o primeiro grito a plenos pulmões,
Já eu associava cores a notas musicais
Num pianinho de brincar.
E depois corrias por montes, por matas,
e eu olhava os carros da varanda do quarto dos meus avós,
Sonhando com Barbies e Tuchas, bonecas-princesas,
Dominós de madeira com figuras da Disney,
e livros de aventuras em que a heroína era eu.

E tu, na aldeia, entre penedos e lareiras,
já te darias a vãs filosofias,
ou serias, apenas, feliz, correndo atrás duma bola?
E quando eu chorava os dramas da adolescência,
e estudava para ser diferente do que de mim esperavam,
e fazia tudo sempre certo,
Já também tu querias ser perfeito?
Quando me ria na Faculdade, e fumava, e bebia,e saía à noite,
achando que o Mundo era meu,
Tu que pensarias, jovem caloiro, dum curso recentemente escolhido?
Eu, entre Blake, Byron, Shakespeare,
entre poesia, prosa, linguística,sonhos e imaginação de gente brilhante cuspidos no papel a ser dissecados...
eu,sonharia, eu, nesse tempo?
E quando acabaste o teu curso,
iniciando uma viagem anual pelo país,
sonharias, tu, nesse tempo?

O tempo meu encontrou, então, o teu.
O espaço, o mesmo, o nosso, o de cada um,
foi, num eterno instante, único.
O menino da aldeia, a mocinha da cidade grande.
Em comum, o quê?
Um corpo, uma vontade, um reconhecimento.
O espaço único como metáfora dum tempo ilimitado, infinito,
Eterno na sua efemeridade.
E continuo, por vezes, a olhar os carros da varanda dos meus avós,e a chorar dramas adolescentes,e a ler Byron, e Blake, e Shakespeare
filtrados, agora,pela luz dos teus olhos azuis.

19 de Outubro de 2005

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