sexta-feira, 18 de abril de 2008

Short Story a Pan, II

Dali's Picture

Num céu verde-esmeralda voam águias cor-de-rosa. Um corpo de mulher jaz nu, deitado na relva, pés na água corrente do rio.Onírico, surreal... diz que a água do rio não passa duas vezes no mesmo sítio; tudo muda, tudo se transforma. O sol laranja aquece-lhe a pele branca, láctea, pele sonhadora, perturbada, envolvida num turbilhão de boroboletas e libelinhas esvoaçantes, wanderers. Sometimes the one who wanders isn't lost, just travelling.Não se pode chamar psicose àquilo. Nem loucura. Nem sequer obsessão. Talvez tortura auto-infligida, aquela forma que ela tem de pensar em whirlpool, abelhinha de flor em flor apanhada numa brisa aos rebolões.E as crianças, senhor, as crianças?Que faz ela àquelas crianças? por enquanto lá estão com a irmã, enquanto ela aquece o corpo ao sol agora azul, mas e depois? Olha para o rio, que passa a vermelho sangue. Retira as pernas rapidamente, o coração a rebentar do galope, a cara em chamas, o corpo húmido do suor, a adrenalina do susto.Os miúdos, que faço eu aos miúdos?O rio continua a correr como hemorragia em hemofílico. Não é bom presságio, não é bom sinal.De barriga para cima, contempla o céu por trás das lentes escuras e pensa na eternidade.Estás lá, amor, estás lá. E o céu de verde passa a negro luto.Como expressar a história de amor vivida com alguém que já morreu? De repente. Há dois anos. Passou a fronteira para o invisível, anda para lá do firmamento. E ela procura-o sem parar, no céu verde-esmeralda, com a certeza que um dia vê passar um cometa e vai atrás dele.No início não fora assim. Corajosa, diziam uns; insensível,outros; adúltera, quase todos. Nenhum percebeu que o seu coração havia congelado para um dia, há pouco mais de um mês, se partir em milhões de pedacinhos que voltaram ao estado líquido, pingaram-lhe corpo abaixo e desapareceram rio afora.Queria o seu coração de volta e enfiava no rio as pernas, esperando que as lágrimas, peças-puzzle do seu coração, lhe subissem corpo acima e voltassem a congelar-lhe no peito. Queria que aquela água do rio voltasse a passar no mesmo sítio. Nada muda, nada se transforma. Repetia a litania vezes sem conta, até as palavras perderem o sentido e serem apenas sons, hipnotizantes, pontes para o subconsciente, o tom e o ritmo a marcar o compasso do submundo mental.Nada muda, nada se transforma e o rio passa mas há-de voltar, correndo da foz para a nascente, transportando as gotas do coração que lhe pertence.Nada muda, nada se transforma, onde está o meu amor, que não o vejo passar entre as estrelas?E as crianças, senhor, as crianças...os relógios derretem ao sol. 12/06/07

1 comentário:

Jade disse...

Comentário de H., quando leu a história, ainda antes de eu a oferecer a Pan: "gaiata, tens que largar as drogas urgentemente" LOL